Gabriel
Abrantes. (1) Lembrou-me o quadro de Mark Tansey, em especial The
Innocent Eye Test, 1981, no MET. Sem desprimor. Com Gabriel Abrantes
trata-se de pintura, sem dúvida, e de uma ideia de ficção, de cinema de
ficção (de animação), que se desdobra em cenas pintadas, muito bem
pintadas a óleo sobre tela de linho, por vezes de grande formato e com
uma "presença" forte.
Pintura
sobre a pintura. Trata-se de questionar a pintura: de pensar a criação
de objectos pintados ditos quadros, de interrogar a produção de imagens e
de não-imagens também, de "reflectir" sobre a pintura na sua
configuração tradicional de cobertura de uma tela rectangular e nas suas
possíveis renovações por via de novos meios tecnológicos. O quadro está
presente, representado, na maioria das pinturas - em execução,
transportado pelos fantasmas que se beijam, exposto no Museu, e há
também meios técnicos que se associam à pintura (e ao cinema, a outra
prática do artista): o projector , o portátil, a mesa de som, também o
telemóvel. A pintura e a imagem, nas suas diversas modalidades, animada e
sonora.
Entretanto,
o pintor é um fantasma que se representa a si mesmo (e numa visita ao
Museu), sentado numa cadeira de rodas (de deficiente mas que se usa
também para filmar), uma vez de muletas, às vezes pairando no ar. Duas
ideias circulam: a pintura representa-se sempre a si mesma (o pintor
igualmente) e é uma sobrevivência fantasmática, irreal, uma aparência
ilusória e imaginária, vinda de algum passado já ficcional. A pintura
está morta e reaparece como fantasma. Mas, de facto, a essa ideia de uma
prática extinta (guardada no Museu, ainda...) contrapõe-se a forte
eficácia visual destas excelentes pinturas a óleo. E também se sugere a
continuação possível da pintura graças à utilização de novos meios
técnicos - para além destas imagens pintadas terem sido criadas por
meios informáticos.
Esse
mundo habitado por fantasmas é invadido por águas, revoltas ou calmas,
que ameaçam a sobrevivência mesma das criaturas fantasmáticas.
"Nobody Nowhere", na Gal. Francisco Fino, Marvila, só até 21, sábado.
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