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domingo, 1 de setembro de 1996

1996, Os retratos de Picasso, MOMA NY

Os retratos de Picasso 

MOMA, NY

01 - 09 - 96


Depois desta exposição, é ainda mais difícil do que antes definir o que Picasso entendia por retrato. Quem o diz, com visível satisfação, aliás, é o próprio comissário, William Rubin, adivinhando o riso trocista do fantasma do pintor, que sempre gostou de pôr em causa as definições estabelecidas. A certeza das conclusões nem sempre é o mais importante num trabalho de investigação, por mais rigoroso e aprofundado que ele tenha sido, em especial quando está em causa o entendimento e a fruição das obras de arte. Ao contrário do que se poderia julgar, Picasso é ainda um pintor em grande parte desconhecido e pouco investigado.

«Picasso e o retrato», apresentada no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque até 17 de Setembro — com passagem para o Grand Palais de Paris, entre Outubro e Janeiro, mas em versão reduzida — constitui a primeira tentativa para identificar, isolar e estudar os retratos pintados e desenhados ao longo da sua longa carreira (a consideração das esculturas não foi ainda possível, devido a limites de espaço e orçamento). Preparado durante cinco anos pelo ex-director do departamento de pintura e escultura do MoMA, desde 1988 seu director emérito, com a colaboração do Museu Picasso de Paris, este é um projecto muito mais complexo do que parece à primeira vista, porque os títulos das obras raramente distinguem a representação de uma pessoa realmente existente de uma figura imaginada ou genérica e, mais ainda, porque, perante a obra de Picasso, o critério tradicional da semelhança entre o modelo e a sua imagem nem sempre pode, ou deve, ser seguido. 

Os 130 quadros e 100 trabalhos sobre papel agora reunidos, alguns deles expostos pela primeira vez, e os muitos outros reproduzidos num catálogo com 757 ilustrações, não pretendem ser um inventário dos retratos que Picasso realizou ou sequer dos modelos que retratou. Pelo contrário, a exposição concentra-se apenas sobre as pessoas mais próximas ou mais decisivas na vida do pintor, todas elas sempre identificadas através de fotografias e curtas informações biográficas. A ordenação é globalmente cronológica, mas, como se de uma sucessão de mostras temáticas se tratasse, os retratos de cada modelo são exibidos em conjuntos separados, dando a ver como o mesmo rosto ou corpo foi sendo diversamente tratado ao longo do tempo, em consequência do aprofundar de um questionamento formal ou, noutros casos, em função da adopção sucessiva de diferentes estilos e por efeito provável da alteração da relação sentimental entre o artista e o seu modelo.   

O resultado é, em primeiro lugar, uma extraordinária exposição autobiográfica, em que figuram, como capítulos de uma espécie de imenso diário íntimo, os pais, os amigos da juventude em Barcelona, as mulheres e as amantes — as quais fornecem, naturalmente, desde Fernande Olivier até Jacqueline Roque, os conjuntos mais numerosos —, os companheiros de Paris, alguns coleccionadores e «marchands», os poetas preferidos  e os filhos do pintor, numa sequência de oito décadas de criação que termina com uma antologia de auto-retratos, incluindo as terríveis imagens do confronto com a morte, aos 92 anos. 

Através dessa galeria de retratos, que em grande parte se poderá ver como um impressionante testemunho confessional sobre a turbulenta vida afectiva de Picasso, é toda  a evolução da sua pintura que a exposição percorre, num exaustivo documentário sobre a inextricável ligação entre a vida e a obra do pintor, que é igualmente uma incessante interrogação da natureza e dos limites da representação pictural. 


sábado, 13 de março de 1993

Beaumont Newhall (1908-1993)

«Beaumont Newhall (1908-1993)» 


 EXPRESSO/Cartaz de 13 Março 1993, Actual, p. 2


Beaumont Newhall, o pioneiro da divulgação moderna da fotografia, morreu no dia 28 de Fevereiro, na sua casa de Santa Fé. Nascera a 22 de Junho de 1908 em Lynn, Massachusetts, e foi o fundador, a convite de Alfred H. Barr, em 1940, do departamento de fotografia do MoMA, que dirigiu até 1947. 

Diplomado em História da Arte em Harvard e em arte e arqueologia em Paris, em 1933, entrara para o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque em 1935, como bibliotecário, e dois anos depois foi o responsável pela exposição "Photography 1939-1937", cujo catálogo se iria tornar no clássico da história de fotografia (The History of Photography, cinco vezes revista até à última edição de 1982). Tal exposição integrara-se na série das quatro grandes mostras — com "Cubism and Abstract Art", "Fantastic Art, Dada and Surrealism", e "Bauhaus: 1919-1928" — que entre 36 e 38 estabeleceram o paradigma da entrada da modernidade no museu (e a da fotografia como um dos seus ramos). 

Abordada à margem da velha questão do seu estatuto entre as Belas-Artes, bem como da oposição entre os seus usos e as artes plásticas (mas com um olhar de historiador de arte), a fotografia é então considerada tanto como um meio de expressão como de comunicação, catalogada com base na evolução dos seus processos técnicos e avaliada pelas qualidades consideradas intrínsecas ao seu "medium" próprio, fundando-se assim a possibilidade da sua história e crítica. 

Em 1947, B.N. é substituido no MoMA por Edward Steichen, no termo de um diferendo subterrâneo em que o seu culto da "arte da fotografia" se contrapunha aos interesses imediatos da indústria fotográfica e da grande massa de amadores (a Steichen sucederia John Szarkowski em 1962, reaproximando o departamento da orientação de Newhall, e depois Peter Galassi em 1992). 

Mas logo no ano seguinte B. Newhall podia continuar o seu trabalho como comissário do George Eastman House, de  Rochester, de que foi, também, o primeiro director  entre 1958 e 1971, ocupando mais tarde um lugar de professor na Universidade do Novo México. Foi entretanto autor de uma extensa bibliografia (mais de 600 artigos, ensaios e textos de catálogos), e nomeadamente de Photography: Essays and Images, Latent Image. The Discovery of Photography, Masters of Photography (com Nancy Newhall), etc.

Defendendo sempre o uso directo da câmara para "a revelação, interpretação e descoberta do mundo do homem e da natureza", Newhall mostrar-se-ía pouco interessado em algumas orientações das últimas décadas, por se afastarem do que entendia ser a especificidade do "medium" e surgirem como formas de narração e ilustração ou mais próximas das arte dramáticas. Temas que as suas memórias, a publicar no próximo Verão (Belfish Press), darão certamente novos contributos.