2002. 19 fev : OS TRÊS EFES - fábulas, farsas e fintas
obras de 1996 a 2002, com um desdobrável e a edição do livro "Apontar com o dedo o centro da terra " com texto de António Lobo Antunes, ed. D. Quixote / Galeria 111 (lançamento a 21 fev.).

2002. 19 fev : OS TRÊS EFES - fábulas, farsas e fintas
obras de 1996 a 2002, com um desdobrável e a edição do livro "Apontar com o dedo o centro da terra " com texto de António Lobo Antunes, ed. D. Quixote / Galeria 111 (lançamento a 21 fev.).

13/11/2012
OBJECTOS ENCONTRADOS a partir das reservas do Museu Leonel Trindade
"É uma pequena parte desta colecção[ das reservas do Museu Leonel Trindade, Torres Vedras ] que aqui revelo na forma de composições vagamente narrativas e de confrontos que procuram a criação de novos sentidos: a evocação de algo para além dos objectos neles representados. Questões presentes na minha investigação como a possibilidade de uma natureza-morta ser simultaneamente um retrato ou uma paisagem, ou como diferenças de escala entre objectos podem criar uma enorme sensação de estranheza, tiveram com este projecto uma continuidade."
JOÃO FRANCISCO, no catálogo
O João Francisco a par de nos mostrar as obras aponta-nos as pistas para seguirmos com elas.
Além dos desenhos e pinturas motivados pela colecção do Museu de Torres Vedras, e que mais obviamente se lhe referem, a exp. inclui
a instalação "Sem título - trazido pelo mar para Joseph Cornell, 2005 - ... / brinquedos recolhidos na praia (dim. variáveis)" (Gal. 1),
as séries de pequenas pinturas "Sem título - retratos de família, 2005-2012, 50 pinturas a óleo sobre cartão ou madeira, molduras encontradas (dimensões variáveis)" (Gal. 2)
e "Sem título - 14 retratos, 2012, pinturas a óleo sobre madeira, molduras encontradas, dimensões variáveis"; (Gal. 1)
a obra conjunta "Sem título - o naturalista, 2009-2012, 16 pinturas a guache sobre papel, 70x50 cm cada", já antes exposta em progresso na 111 em 2010 e na Sala do Veado ( o Naturalista ) em 2009;
e por fim "Sem título - o catálogo dos pássaros, 2009, 31 pinturas a acrílico sobre papel, 60x60 cm cada" (2009 - então com 4 pianos verticais com partituras de o melro preto, o tordo, o pisco de peito ruivo e a cotovia extraídos de Pequenos estudos de pássaros de Olivier Messiaen, 1985). (Gal. 2)
Considerando a referência que o autor faz aos "três projectos anteriores", depreende-se que estes três são os que mostram na galeria 2 e que quer a série dos 14 retratos (com data de 2012) quer a instalação dos objectos recolhidos (embora com data que vem de 2005 e continua, ou, melhor, continuará) fazem parte igualmente dos trabalhos desencadeados pelo ou no Museu. A diversidade das práticas associadas ao trabalho sobre as reservas, para lá do desenho e da pintura que mais obviamente as representam, mostra que o trabalho do J.F não se encerra num caminho apertado (a exp. actual da 111 também o mostra)...
Este é um dos mais surpreendentes trabalhos de artista pintor que se vão fazendo no presente, e é um muito jovem artista que expõe. E esta, não sendo uma exp. "antológica", é uma mostra muito importante no seu itinerário. Apresentada em Torres Vedras, a sua terra de origem, não é uma exposição "local".
Sem título - objectos mágicos, 2012 - grafite sobre papel, 120x150 cm
Sem título - trazido pelo mar para Joseph Cornell, 2005 - ... / brinquedos recolhidos na praia (dim. variáveis)
2ª
galeria - vistas parciais de 1 - Sem título - retratos de família,
2005-2012, 50 pinturas a óleo sobre cartão ou madeira, molduras
encontradas (dimensões variáveis)
2 - Sem título - o naturalista, 2009-2012, 16 pinturas a guache sobre papel, 70x50 cm cada
3 - Sem título - o catálogo dos pássaros, 2009, 31 pinturas a acrílico sobre papel, 60x60 cm cada (EM BAIXO)
"Juntamente com o trabalho criado especificamente para esta exposição mostram-se outros três projectos anteriores onde está presente esta mesma pesquisa em torno da representação, bem como da investigação acerca do que é uma colecção, o que pretende, e o que nos diz sobre ela e sobre nós." (idem)
11/03/2012
Outra vez João Francisco na Galeria 111, com "Uma montanha de coisas" (hoje em último dia e depois com passagem para o Porto).
"Sem título (O Connoisseur - Bouvard e Pécuchet)", 2012, o/t 120x160 cm. (1)
Não parece, mas trata-se de pintura literária (referência aos personagens de Flaubert). Pintura satírica, portanto; enciclopédica e auto-crítica. Diálogo entre o pintor copista e coleccionador, e o seu público, sobre artes maiores (a grande tradição da natureza-morta, com atenção a Cézanne) e menores.
"Sem Título (Pequeno cemitério)" (?). (2)
Os mesmos cogumelos que se encontram acima mudam de cenário e de parede, frente a frente (alguma vida que irrompe?). A literatura também lá está, mas irreconhecível, não referenciada (os cadernos ou livros). São agora os quadros que se mostram como personagens principais, não as louças ditas decorativas de um qualquer coleccionador, ou vendedor de "antiguidades". Mas, virados de costas e colocados entre pedaços gastos de madeiras assim são também restos, mesmo se ainda não destroços, vestígios de outras práticas representativas ou decorativas - aliás, antes de serem restos abandonados, são ainda imagens escondidas, recusadas - obras talvez do próprio J.F. É a pintura reduzida ao pequeno formato mais decorativo, o quadro-objecto, e será a possibilidade prática da pintura que aqui se põe em causa, será a sua continuidade negada por muitos que se questiona - frente à proliferação dos objectos decorativos, do kitsch. (Os quadros 1 e 2 mostram-se um em frente do outro, ligados pelos cogumelos)
"Sem título (imagem dupla - um espelho)".
Pintor de naturezas-mortas, J.F. "copia" as suas encenações (colecções e acumulações ou disposições de objectos), que escapam às limitações convencionais do género. Em vez da mesa, o chão, o que confere às naturezas-mortas a dimensão da paisagem, e lhes concede muitas vezes a aparência de um cenário onde uma qualquer narrativa decorre e se dá a ler. No caso acima, a cópia que a natureza-morta tem de ser é posta à prova pela referência ao espelho, no título, e pela simetria da composição que se desdobra em sucessivas diferenças comparativas. O cenário é um jogo, um puzzle a percorrer devagar, numa tela sem centro (all-over). A caveira própria do género (vanitas), colocada ao meio à direita, aparece à esquerda como máscara de abóbora, e toda a gravidade ainda possível cede à presença dos bonecos em primeiro plano - trata-de de brincar à pintura, ou de enfrentar o seu passado e o seu futuro (ou possível não-futuro) tratando-os com a ligeireza gráfica da banda-desenhada. Se o género se identifica com o virtuosismo, aqui a presença do divertimento (não a paródia, nem a irrisão) é a afirmação mais forte. Um divertimento pictural intensamente reflexivo (mas nada ensimesmado como é grande parte da actual arte sobre arte).
Todos os quadros (pintados ou desenhados) são súmulas mais ou menos complexas das questões que J.F. convoca nas suas pinturas. Aqui, na parte superior e em ambos os lados, aparecem dois objectos que têm presença insistente nesta exposição: duas peças de patchwork com que expressamente se refere a tradição modernista que se entendeu como caminho para a abstracção.