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sábado, 21 de junho de 2003

2003, Bienal de Veneza, os Giardini, Pedro cabrita Reis

"Bazar veneziano"

EXPRESSO/Actual de  21-Junho-2003 (pág. 36-37)

Bienal gigantesca expõe débil panorama internacional <onde Bruno Gironcoli era a única surpresa relevante>

Veneza-pcr

Foto PCR Studio / Tânia Simões. <A obra veio de Veneza para se arruinar ao longo de anos no Pátio da Inquisição em Coimbra, à porta do chamado CAV - ainda haverá restos? nunca + lá fui...>

A República Popular da China, que devia comparecer oficialmente em Veneza pela primeira vez, cancelou a viagem por causa da pneumonia atípica, mas muitos jovens chineses participam, com uma energia transbordante, numa das exposições sectoriais de uma bienal apostada em comprovar a globalização do universo artístico. Questões da actualidade também atingiram o pavilhão da Venezuela, que não chegou a abrir devido a declarações anti-Chavez. No entanto, foi muito mais notado o encerramento do pavilhão da Espanha por um muro de blocos de cimento erguido 65 centímetros a seguir à entrada (Parede Fechando um Espaço, é
o título da "obra"), enquanto o nome do país foi embrulhado em plástico negro - «Palavra Tapada é uma simples escultura realizada com materiais pobres», assegura a comissária.
Dois seguranças armados exigem o passaporte espanhol para se aceder pelas traseiras ao interior vazio e devastado. O sempre demagógico Santiago Sierra diz tratar-se de uma
«performance» sobre a fronteira e as políticas de imigração, acrescentando que «o orgulho nacional é um conceito do século passado». A direita civilizada <no caso, o governo de Aznar> já aprendeu a administrar a irrelevância do espectáculo cultural e as respectivas clientelas / ou camarilhas.

As bandeiras do arco-iris pacifista que pendem de muitas janelas de uma cidade assaltada pelas exposições da Bienal, como metásteses que invadem igrejas e palácios ao longo dos canais, são o testemunho mais directo da conjuntura internacional (e também da contestação a Berlusconi); o efeito é bonito mesmo se o argumento é atacável. Entretanto, o título escolhido para a 50ª edição da Exposição Internacional de Arte, «Sonhos e Conflitos» - seguido por um complemento mais obscuro, «A Ditadura do Espectador» -, aponta para uma polarização da criação contemporânea nas direcções alternativas do «sonho estético», mais ou menos separado do mundo, e o «documento do conflito», segundo a lógica rudemente esquemática de Francesco Bonami, um italiano sediado na América nomeado comissário-director.

A alternativa mais evidente, no entanto, é a que resulta do modelo organizativo da Mostra: por um lado, os representantes dos países (63, número record) que expõem em pavilhões próprios (ou por vezes em conjunto, mas há também mostras /nacionais ou regionais?/ autónomas da Escócia e do País de Gales, por exemplo), uns construídos há muitos anos nos Giardini di Castello e outros alugados em lugares mais ou menos periféricos, como se fossem embaixadas oficiais; em simultâneo, o comissário encarrega-se duma exposição colectiva onde propõe um tema ou uma perspectiva genérica sobre o estado das artes.
Este ano, porém, Bonami decidiu partilhar responsabilidades e dividiu os 12 mil metros quadrados dos antigos Arsenais com mais 11 comissários, que apresentam oito exposições temáticas sucessivas, conseguindo assim fazer das divergências estéticas assumidas uma demonstração equívoca da unicidade do mundo da arte. Se no subtítulo se pretendeu sublinhar a liberdade de apreciação do espectador face à singularidade das obras, o resultado acaba por ser uma esmagadora demonstração da ditadura dos comissários, cuja visibilidade autoral suplanta em muito a dos artistas. Como estes são perto de 400, o espectáculo é o de um gigantesco bazar, e o calor sufocante dos dias da pré-inauguração ainda tornou um pesadelo maior a romagem dos seis mil jornalistas e críticos acreditados. Até 2 de Novembro esperam-se mais de 350 mil visitantes, em geral turistas estrangeiros, o que resultaria em receitas globais de cinquenta milhões de euros para um investimento de cerca de oito milhões, segundo números do «Corriere dela Sera».

A fórmula dos pavilhões dos países é uma herança oitocentista das exposições universais e das escolas nacionais (a Bienal festejou o centenário em 1995, mas os anos de guerra atrasaram a chegada à edição nº 50). Criticada por alguns, porque as nacionalidades artísticas são uma questão controversa face à dominação dos grandes centros e à circulação dos artistas, ou porque muitas presenças periféricas nunca acertam com o padrão dominante, não deixa de ser uma oportunidade de competição internacional arduamente disputada, e cada país dedica sempre o maior espaço informativo a defender os seus representantes.

Não é possível fugir à regra e não há que temer dúvidas de chauvinismo quanto à participação de Pedro Cabrita Reis como representante português, reforçada por um convite de Bonami para expor uma segunda obra nos Giardini. A apresentação dos projectos em Lisboa (ver «Actual» de 24 de Maio) assegurava que um forte impacto visual os distinguiria da cacofonia ambiente, mas essa é apenas uma questão de eficácia elementar. No terreno, a presença espectacular das duas obras, diversas entre si mas identificando nas suas estruturas formais uma mesma autoria, é também a afirmação da densidade poética de um artista que se serve da escala arquitectónica para equacionar simbolicamente questões vitais e que se arrisca a utilizar de novo a condenada palavra beleza.

A dupla presença de Pedro Cabrita Reis é uma das mais destacadas da 50ª Bienal

Nomes Ausentes, uma casa fechada instalada nos Giardini, pintada no interior com um uniforme cor-de-laranja incendiado sobre o qual se desenham, por vezes em desordem, centenas de lâmpadas brancas de néon (em que cada um poderá ler os nomes das suas próprias memórias), habita-se como um lugar de recolhimento e celebração, um espaço monumental e de dimensão humana, ao mesmo tempo dramaticamente íntimo e solar. Viagens Cada Vez Mais Longas é uma longa estrutura de vigas de alumínio, de dois pisos, como uma casa inacabada, cortada por portas móveis pintadas de um branco irregular e néons também brancos. Fotografada antes ao ar livre, percorre-se (na Giudecca) no espaço imenso de um antigo depósito de cereais, de paredes de pedra, numa disposição ligeiramente oblíqua, com um perfeito sentido de escala e, como dissera Cabrita Reis, «com a leveza e o rigor de um traço de desenho no papel». Ideia de casa e arquitectura ambiguamente precária, confronta-nos com a estranheza absoluta do próprio acto de construir.
Um livro monográfico onde se ilustra e comenta toda a obra de Cabrita Reis acompanha a presença em Veneza, cujos ecos na imprensa internacional já tinham principiado antes da inauguração, apontando-a como uma das mais destacadas da Bienal. A concorrência, acrescente-se, não é grande, nomeadamente quanto aos países que justificariam maiores expectativas.

Gironcolli 

Bruno Gironcoli, um veterano escultor austríaco (n. 1933)

É o caso da França com Jean-Marc Bustamante (n. 1952), que juntou a fotografias «sem qualidade nem actualidade» (será um elogio do «Le Monde»?), ampliadas como grandes quadros, mais algumas pinturas banais transformadas em fotografias sobre plexiglas. E também o da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, ambos com representações decerto muito correctamente políticas, confiadas a artistas identificados como negros que «reflectem» sobre questões de identidade rácica. 

Chris Ofili (1968, Manchester, com raízes na Nigéria), Prémio Turner  98 e vedeta da exposição «Sensation» graças a uma Virgem com bosta de elefante, pintou agora «amantes afro-lunares» com a grosseira debilidade «kitsch» de decorações de bar em versão popular africana, inevitavelmente apoiados em volumosos dejectos, forrando as salas com o mesmo verde ou vermelho berrante dos quadros (cores do nacionalismo pan-africano). As autoridades britânicas queixaram-se de a oposição à guerra do Iraque lhes ter tirado o prémio
Fred Wilson (1954, Bronx, NY) reuniu referências aos negros na arte veneziana e também em bugigangas decorativas, colocando à entrada do pavilhão um dos muitos irmãos de cor, mas não de classe, que pela cidade vendem malas de senhora aos turistas – tudo mais do domínio da sociologia da arte do que da criação artística.

Candida Höfer comprovou os limites inultrapassáveis de um género alemão de grandes fotografias neutras de interiores arquitectónicos; Jana Sterbak, canadiana nascida em Praga, apresentou ao som de Glenn Gould uma instalação-vídeo em grandes ecrãs articulados, usando o ponto de vista irrequieto do seu cão, que transportava a câmara numa viagem até Veneza; Thierry de Duve comissariou uma representação belga confiada a discretos discursos confessionais femininos.
A um nível mais afirmativo deve citar-se a presença do Brasil, com Beatriz Milhazes e Rosângela Rennó, que já expuseram em Portugal, pintora a primeira de abstractos motivos florais e geométricos, vibrantes de cor, e a segunda fotógrafa pictural que tinge de vermelho sangue quase invisíveis retratos antigos. Olafur Eliasson, pela Dinamarca, é um construtor de experiências perceptivas, que, num espaço labiríntico, oferece ao visitante visões caleidoscópicas ou o coloca no interior de espelhos multifacetados.

Presença insólita num contexto filtrado pelo grande mercado institucional globalizado é a de Bruno Gironcoli, veterano escultor austríaco (n. 1933) pouco conhecido no exterior, de quem se apresentou uma antologia de obras singulares. Algo de Giacometti e Moore (nomes finais da tradição da escultura?) comparece nas suas obras monumentais, onde elementos biomórficos ou a figura humana se fundem em estruturas maquínicas de ficção científica ou em composições teatrais de formas simbólicas proliferantes, com elementos ornamentais de aparência oriental, sempre integrando a «assemblage» sob a cor uniforme (prateada, amarela, etc) do metal. <Foi apresentado por outro veterano: (Commissioner: Kasper König)>

Museu Gironcoli, Viena

O júri preferiu a surpresa de premiar a representação do Luxemburgo confiada a uma jovem sino-britânica estudante em Paris, Su-Mei Tse (n. 1973), muito pouco visitada por se situar fora dos Giardini. Trata-se de uma instalação-vídeo em dois ecrãs, um ocupado por varredores parisienses (imigrantes, claro) a vassourarem um deserto africano e o outro pela própria artista tocando violoncelo diante de uma «paisagem das montanhas suiças, idílica ou mesmo kitsch-sublime», em estilo «Heidi», segundo o catálogo. Air Conditioned (jogando com o sentido de era, ária e área) era o título mais promissor sob o sol abrasador de Veneza.


sábado, 16 de junho de 2001

Veneza 2001: João Penalva, "R."

 "Um palácio em Veneza"

Expresso (Cartaz Actual de 16/6/2001, pp. 4 e 5, e antes/abaixo  19-08-2000)

Portugal em competição em Veneza com uma cenográfica instalação de João Penalva

Coexistem duas bienais em Veneza. Uma é a das representações nacionais, apresentadas quer em pavilhões próprios nos Jardins do Castelo, construídos desde 1907 numa bem curiosa sucessão de estilos arquitectónicos (a bienal seguiu o modelo das exposições universais), quer dispersas pela cidade em espaços variados, no caso dos países sem pavilhão. Outra bienal, a grande exposição do director de cada edição, que visa ser uma proposta cosmopolita sobre o estado da arte e o seu futuro. Esse diálogo, em grande medida um diálogo de surdos, entre valores nacionais e um ponto de vista internacional, no qual intervêm tanto os países do centro como as periferias mais distantes (excepto a África), é bem elucidativa das resistências à globalização da arte do mundo, que não é o mesmo que «o mundo da arte».

Candidato à construção de casa própria desde 1995, para o que foi convidado Álvaro Siza (mas nesse ano suspenderam-se todas as solicitações nacionais), Portugal é um dos exilados dos «Giardini», compensando a localização periférica com a dignidade de um palácio alugado e vontade de identificar-se com os valores dominantes do «art world». Depois de Julião Sarmento e Jorge Molder, em 97 e 99, é João Penalva quem ocupa o Palazzo Vendramin dei Carmini, por escolha do comissário nacional designado para este ano, Pedro Lapa, director do Museu do Chiado.


Veneza 2001: Harald Szeemann

 "Volta ao mundo"

EXPRESSO/Cartaz, Actual de 16/6/2001, pp. 6 e 7 (e  9/6/2001)

O «Palco da Humanidade» Plateau of Humankind, segundo Harald Szeemann

Vinte e oito pavilhões nacionais nos Jardins, 21 pela cidade, incluindo os do colectivo latino-americano, de Singapura, Taipé e repúblicas ex-soviéticas. Mais as duplas representações que se multiplicam, da Espanha, Holanda, Suiça, etc., e várias mostras «a latere». Ao gigantesco programa, cada vez mais um mercado mundial de exposições, soma-se o projecto do comissário-geral, a ocupar o vasto Pavilhão da Itália (que fica sem presença própria) e um quilómetro de edifícios fabris, o Arsenal, herança da antiga potência marítima.


sábado, 5 de junho de 1999

Veneza 1999: Expresso: Molder/Delfim Sardo. Harald Szeemann

O ritual de Veneza

Expresso Cartaz de 05-06-99

Foto: Jorge Molder, fotografia da série exibida em «Alfândega Nova»

A 48ª EDIÇÃO da Bienal de Veneza é oficialmente inaugurada no próximo sábado, prevendo-se a passagem por Serralves de muitos dos visitantes vindos das Américas. O evento tem este ano (e também em 2001) a direcção de Harald Szeemanm, o histórico comissário de «Quando as Atitudes se Tornam Forma», de 1967, e da Documenta de 72, que em 1990 instituíra um sector da bienal para jovens artistas intitulado «Aperto». Szeemann, no entanto, em vez de restabelecer a mesma fórmula, promoveu uma vasta exposição em que juntou jovens e veteranos, distribuída por vários espaços de Veneza sob o título «dAPERTutto, APERTO over ALL, APERTO par TOUT, APERTO uberrall».

Portugal é um dos 59 países oficialmente presentes, embora ainda não disponha de um pavilhão próprio nos «Giardini» – Álvaro Siza já foi convidado para o projectar, mas a reforma da Bienal, transferindo-a para a tutela da cidade, tem demorado a atribuição de lugares aos países candidatos a uma presença fixa. Jorge Molder, designado como representante nacional, sendo Delfim Sardo o comissário, ocupará o Palácio Vendramin ai Carminini (em Dorsoduro), alugado para a ocasião, como sucedeu em 97 com Julião Sarmento. Apresentará uma série de auto-retratos fotográficos, a preto e branco e grande formato, intitulada «Nox» (noite), na sequência do trabalho que vem desenvolvendo desde 1990.


domingo, 2 de fevereiro de 1997

Veneza 1997: Expresso: Sarmento / Alexandre Melo e Cabrita Reis

Acompanhamento da Bienal à distância

Teria curiosidade em conhecer melhor o norte-americano negro Robert Colescott, de 71 anos, perdido em terra inóspita...

I - Veneza marca Bienal

Expresso/Cartaz/Actual de  2-2-97 

 Sarmento no Pavilhão oficial da 46ª edição, comis. A. Melo

e Cabrita Reis na colectiva de Germano Celant, «Futuro, Presente, Passado»

Germano Celant é o director da próxima Bienal de Veneza, cuja 47ª edição terá lugar em Junho, apesar de se ter admitido o seu adiamento para não coincidir com a realização da Documenta de Cassel e para dar tempo à anunciada privatização e reoganização da estrutura responsável pela «Mostra». O crítico italiano, que foi o divulgador da «Arte Povera» nos anos 60-70 e é actualmente conservador de arte contemporânea no Museu Guggenheim de Nova Iorque, foi eleito em 29 de Novembro, no quinto escrutínio realizado e com o mínimo de votos necessários (9—5), contra Achille Bonito Oliva, comissário da «Bienale» de 1993 e, nos anos 80, paladino da chamada «transvanguarda».

Com seis meses para preparar a Bienal e um orçamento reduzido de pouco mais de 600 mil contos, Celant conta com um prazo muito curto para promover as habituais exposições paralelas às representações nacionais e terá de enfrentar as dificuldades que certamente também serão levantadas pelos países que dispõem de pavilhões próprios nos «Giardini» de Veneza.

Entretanto, Portugal, através do Ministério da Cultura, tinha já designado no início do ano anterior Alexandre Melo como responsável pela representação portuguesa, anunciando-se simultaneamente a escolha do pintor Julião Sarmento.
Uma vez que o país não tem pavilhão permanente, terá de ser alugado um espaço fora do recinto dos «Giardini», tal como sucedeu em 1995, quando José Monterroso Teixeira foi designado comissário nacional e apresentou os escultores José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes.
Recorde-se, a propósito, que Portugal encetara nesse mesmo ano diligências para vir a construir um pavilhão próprio em Veneza e Álvaro Siza Vieira fora escolhido para o projectar. No entanto, ainda não foi decidida a respectiva localização pelas autoridades italianas, mesmo depois do actual Ministério da Cultura ter reiterado as anteriores propostas.
A França, por outro lado,  já tornou pública a designação do artista Fabrice Hybert, de 36 anos, como seu representante.

A edição anterior da Bienal de Veneza foi a única que teve um director não italiano, o crítico francês Jean Clair, que é também o director do Museu Picasso, de Paris. Comemorando-se então o centenário da «Bienale», Jean Clair contou com meios financeiros avultados e apresentou uma grande exposição paralela intitulada «Identidade e Alteridade — Figuras do Corpo, 1895-1995», que constituiu uma reconsideração de toda a evolução das artes plásticas ao longo do século sob o ponto de vista da permanência dos temas do corpo e do retrato, parcialmente ocultados pelas análises que previligiaram a emergência da abstracção e a dinâmica vanguardista do modernismo. Intensamente polémica, mas também inesquecível pela pela excelência do discurso expositivo apresentado no Palazzo Grassi e no Museu Correr e igualmente pela coerência das teses defendidas, a exposição concitou a hostilidade de muitos sectores da crítica e igualmente permitiu recuperar um número total de visitantes que a Bienal perdera nas edições anteriores.
Germano Celant, sendo um crítico de grande notoriedade internacional, detém um perfil totalmente oposto ao de Jean Clair. 
A Bienal de Veneza decorrerá entre 15 de Junho e 4 de Novembro, enquanto a Documenta de Cassel, considerada a mais importante das exposições periódicas mundiais, este ano dirigida pela francesa Catherine David, se inaugura a 19 de Junho e encerra a 28 de Setembro. À concentração das datas somam-se as da Feira de Basileia, de 10 a 16 de Junho.

sábado, 17 de junho de 1995

1995 Bienal de Veneza, Jean Clair, Exposição do Centenário

Veneza 1995, a bienal de Jean Clair e do Centenário

No ano do centenário da Bienal, o ano de Jean Clair, Portugal esteve representado por José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes, sendo comissário José Monterroso Teixeira, então director de Exposições do CCB.

Publicaram-se à data duas noticias sobre a representação portuguesa (chegara a convidar-se Paula Rego e Álvaro Siza para projectar o Pavilhão de Portugal) e dois textos extensos sobre a bienal, em semanas consecutivas.

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1"Veneza, Cem anos de guerrilha"

EXPRESSO/Revista de 17-06-95´ábaixo

«Veneza e a Bienal: Itinerários do Gosto» 
 Ronald B. Kitaj e a Gary Hill
César, Kossof
Mark Di Suvero
Peter Fischli e David Weiss
John Olsen
Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes e José Pedro Croft
Arthur Bispo do Rosário 




mais abaixo: Veneza 1995 - 2: foi o 2ºartigo sobre a 46ª Bienal de Veneza de 1995, sobre a exposição central, IDENTITY AND ALTERIY - FIGURES OF THE BODY 1895/1995, comissariada por Jean Clair. "Corpo a corpo" EXPRESSO/Revista 24 -06 - 95

A Bienal de Veneza faz cem anos, mas, mais do que a celebração do centenário, esta é a bienal de Jean Clair, o primeiro estrangeiro a ser nomeado director do sector das artes visuais da Mostra e, certamente, o mais polémico personagem de todo o actual universo artístico. Polémico, note-se, já não significa o mesmo que vanguardista, numa situação geral em que «a tradição do novo» é promovida directamente pelos museus e outras instituições oficiais: quando a inovação ou «arte jovem» são o centro e não as margens do sistema, o que é controverso, hoje, é afirmar uma relação de distanciamento crítico perante as regras de funcionamento do mundo da arte.

Director do Museu Picasso de Paris e especialista de Marcel Duchamp, ex-crítico de vanguarda — hoje tratado como reaccionário e «arrependido», ou «conhecido pelas suas reservas perante as novas gerações e sobre a própria definição da modernidade», segundo uma informação oficial francesa —, ensaista de formação psicanalítica, Gérard Regnier/Jean Clair foi o organizador das grandes exposições do Centro Pompidou sobre Duchamp, Magritte, Balthus, Bonnard e também das mostras retrospectivas «Les Réalismes, 1919-1939» e «Vienne, L' Apocalypse Joyeuse».

A sua ruptura com o «mainstream» fez escândalo em 1983, graças à publicação de Considerations sur l'État des Beaux-Arts — Critique de la Modernité, um panfleto por vezes excessivo e obviamente nostálgico onde fazia um terrível balanço do «progresso» das artes, da «tradição da ruptura» instituída pela modernidade e também da própria modernidade, enquanto estética da «innovatio», como um dos dois grandes flagelos do primeiro meio século (o outro foi o nazismo). À «institucionalização acelelerada de novas categorias estéticas como o não-importa-o-quê e o quase-nada», que dominariam o curso da arte desde os anos 60, contrapunha Jean Clair o «regresso ao 'métier' e à figura», defendendo a ideia de renovação, que não rejeita a tradição, como base de um possível «renascimento», contrário à fatalidade hegeliana da morte da arte.
Colocar Jean Clair à frente da Bienal «é como entregar um jardim de infância à guarda de Herodes» — assim resumiu um crítico italiano toda a expectativa que antecedeu a inauguração. O balanço crítico dos estragos e a previsão dos seus efeitos a longo prazo serão agora terreno aberto para a contraposição de diferentes pontos de vista, se não vingar a táctica do silêncio que tem respondido a muitas outras vozes incómodas, como as de Octavio Paz, Robert Hughes, Thierry de Duve, Rainer Rochlitz, etc.
De qualquer modo, parece inquestionável que o papel central de Jean Clair nesta Bienal resulta tanto da importância excepcional da mega-exposição histórica que directamente organizou para Veneza, como da notória fragilidade da grande maioria obras apresentadas nos pavilhões nacionais e nas muitas exposições paralelas que compensaram a suspensão do «Aperto», o sector oficial dedicado desde 1980 aos jovens artistas.

sábado, 14 de julho de 1990

1990, Política Cultural, SEC, "Os anos de ouro?" (17-03; 05-05; 14-07; 28-12)

POLITICA CULTURAL 



SEC: OS ANOS DE OURO?


Após os primeiros 6 meses de Santana Lopes. Da Europália a Lisboa’94 e o resto


EXPRESSO, Cartaz, 14 Julho 1990, pp- 34-35


É PROVAVEL que a modéstia nas intervenções oficiais sobre a cultura, nos últimos anos, tenha correspondido à exiguidade dos orçamentos disponíveis. Mas também é admissível que a grandiloquência demonstrada há poucos dias por Santana Lopes, ao anunciar o período de 90-94 como «os anos de ouro para a cultura portuguesa», vise, antes do mais, tomar posições para enfrentar com mais energia as próximas negociações sobre orçamentos no interior do próprio Governo. 

O certo é que esses anos serão essencialmente preenchidos pelo cumprimento de obrigações exteriores a que o Estado português não poderia fugir por mais tempo sem deixar de satisfazer os compromissos mínimos do relacionamento europeu: a Europália em Bruxelas, em 91; o semestre de presidência do conselho das Comunidades, em 92; a capital europeia da cultura, em 94. 


É um calendário de acontecimentos efémeros que impõe vastas acções e recursos (em especial nas áreas dos espectáculos e das exposições), que em si mesmo constituirão oportunidades positivas e factores de criação, mas que pouco alterará uma situação de carências e atrasos generalizados, sem que, ao mesmo tempo, ocorra a inclusão da cultura no quadro dos planos de desenvolvimento do país, a afectação de meios financeiros significativamente mais elevados, a clarificação de linhas estruturais de política cultural.

 

Tudo indica, assim, que os equipamentos e infraestruturas indispensáveis, como os auditórios, as orquestras, as salas de exposição, os museus correctamente apetrechados, etc., continuarão, no final dos «anos de ouro», a faltar; as políticas de apoio à criação e à difusão, manter-se-ão, para além das necessidades do momento, no seu habitual nível mínimo. O atraso cultural do país tenderá a medir-se cada vez mais por comparação com o que se faz nas cidades de província dos países próximos (com Las Palmas, Sevilha, Valência, Bordéus, etc), perdida definitivamente a possibilidade de disputar qualquer lugar entre os centros europeus. 


«Um programa como nunca foi feito» 

Santana Lopes, ao fazer seis meses de exercício de funções, anunciou em conferência de Imprensa «um programa como nunca foi feito». Se, aparentemente, nunca se terá prometido tanto em tão curto tempo, na realidade, o secretário de Estado amalgamou aquele calendário de celebrações com um leque disperso de medidas pontuais para todos os sectores que tutela, sem que pareçam impor-se claras perspectivas globalizantes, hierarquias ou prioridades. Às declarações de intenções em diversas áreas, muitas vezes excessivamente vagas, somam-se as promessas de iniciativas, indispensáveis e positivas umas, e outras que ora retomam programas já antes formulados ora se afiguram de exequibilidade improvável ou de alcance discutível. 


Positivo é o anúncio do lançamento imediato de uma campanha de inventariação do património nacional, que deverá incluir os particulares, a Igreja e as autarquias e procurará salvaguardar a livre circulação de bens culturais a partir de 93. 

A proposta de lei a enviar à Assembleia em Outubro para revisão da Lei do Mecenato, com especial incidência no domínio do património, será igualmente aguardada com expectativa. 

No domínio dos museus conta-se o lançamento de um projecto piloto de autonomia financeira do Palácio de Queluz, ensaiando novas formas de gestão desburocratizada, e também a revogação do decreto que integrou o Museu de Arte Popular no Museu Nacional de Etnologia, reconhecendo justamente a diferença de objectivos das duas instituições e integrando o edifício de Belém num projecto de revitalização da zona ribeirinha. Por outro lado, se parecem correctas as declarações referentes à maior abertura dos museus e monumentos às crianças e aos deficientes, já surgem como prioridades discutíveis os anúncios da criação de um Museu da Criança e outro do Cinema, ao mesmo tempo que o documento divulgado é omisso quanto à recuperação do Museu de Arte Contemporânea (já em fase de projecto com apoio da França) e ao lançamento efectivo do Museu de Arte Modema do Porto, há muito previsto para Serralves. Tal como ficou por fazer a clarificação sobre quais os equipamentos a situar no Centro Cultural de Belém. 


Quanto a grandes projectos na área patrimonial, Santana Lopes destacou a recuperação do Palácio da Ajuda e zona envolvente e a intervenção em Sagres como «prioridade cimeira», apoiando a instalação aí de uma Escola de Ciências do Mar. Por outro lado, preconizou a supressão da faixa rodoviária que liga o Cais do Sodré ao Terreiro do Paço e a recondução da Ribeira das Naus a «centro permanente de evocação da gesta dos Descobrimentos». 

Também para a zona ribeirinha anunciou-se a criação de um centro de exposições temporárias das artes e ofícios tradicionais e a instalação de uma livraria de artes e espectáculos, aberta 24 horas por dia (!), na zona envolvente do Museu de Arte Popular. 

Passando ao teatro e à dança, as intenções vão da aprovação de um novo regulamento de apoio ao teatro ao anúncio da realização anual de um ciclo «Verão da Nova Dança Portuguesa», visando a itinerância de grupos peIo país - quando se julgaria que a Nova Dança está ainda à espera dos primeiros estímulos à criação. Anuncia-se a redistribuição das verbas para o apoio ao teatro, destinando metade dos respectivos valores à recuperação de salas; o impedimento sistemático durante dois anos da desafectação de salas de espectáculos às artes cénicas ou ao cinema, assim como a recuperação faseada das principais salas de teatro e a promoção de iniciativas para recuperação do Parque Mayer. Sobre S.Carlos ficou a pairar uma ideia de encerramento temporário, para além da intenção de alterar o seu estatuto para o de uma Fundação com participação de capitais privados. 


Por outro lado, Santana Lopes prometeu já, para 91 , entre 27 de Março e 25 de Abril, a realização, pela primeira vez, de um Festival Internacional de Teatro, divulgando importantes companhias estrangeiras e desenrolando-se em Lisboa, Porto, Évora, Coimbra, Braga e Setúbal, «pelo menos». (Ficou por referir que tal projecto não se fará à custa do estrangulamento de outros festivais existentes e à espera de melhores dias.) Sem horizonte temporal definido ficou o anúncio, sob a epígrafe «Teatro Novo», da exploração pela SEC de uma sala de espectáculos para apoio a novos valores e tendências cénicas. 


O Congresso da Imaginação 

Como intenção apenas esboçada surge o anúncio de que a arte equestre, o fado, o folclore e a música modema serão «novas áreas» de intervenção, mas foi já anunciada a realização de um «Grande Congresso da Imaginação» e a constituiçãode um novo departamento da SEC «dedicado exclusivamente à detecção e estímulo das formas inovadoras de criatividade». 

São, neste caso, ambições tão vagas como as que estarão por trás de uma também prevista «semana dos artistas portugueses ausentes ou dos artistas portugueses universais» (para Junho de 91, em Lisboa) que daria «a conhecer ao público português a grande qualidade e mérito artístico de nomes, em grande parte, ausentes» (no sentido de radicados no estrangeiro). Ou tão fantasistas como um já anunciado programa anual de animação nas regiões fronteiriças, com início em 92. 

As artes plásticas, sector de decisiva competição internacional na actualidade, surgem «contempladas» apenas com o anúncio de uma exposição internacional «de grande impacto», no Porto, em Junho de 91 , enquanto a fotografia é referida no caso da criação de uma colecção pública (já em curso desde 1989 e a expor pela primeira vez em Novembro próximo), da comparticipação na recuperação das novas instalações do CEF de Coimbra no Edifício das Caldeiras e .na «edição de uma obra fotográfica sobre Portugal contemporâneo». 


Os.sectores do livro e do cinema contam na orgânica da SEC com departamentos próprios, cuja acção tem sido mais estruturada. Para o primeiro, Santana Lopes destacou o apoio às livrarias e a instauração do princípio do preço fixo; para o segundo, prometeu que «a Cultura assumirá, como lhe compete, um papel preponderante no Secretariado Nacional para o Audiovisual», além de se referir à promoção de uma sociedade de capital de risco destinada a financiar as produções nacionais e à privatização de uma parte do capital da Tóbis. 

Dentro de mais seis meses, aprovado o OGE para 91, clarificados os projectos vagamente enunciados, ver-se-á se brilham os «anos de ouro» de Santana Lopes.


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07 04 


direcção e programa de Ricardo Pais

projecto de obras de Gonçlo Byrne




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Veneza: bienal sem Portugal


Expresso Cartaz, Actual, 17 Março 1990, pág. 36


PORTUGAL não estará oficialmente presente, pela segunda vez consecutiva, na Bienal de Veneza, cuja próxima edição se inaugura a 27 de Maio. E se, em 1988, no entanto, um pintor português, Pedro Proença, fora integrado numa das mais importantes secções da Bienal, o «Aperto», destinada a revelar novos criadores independentemente das representações nacionais, nenhum outro artista foi este ano seleccionado: Portugal não existe na mais famosa das grandes exposições internacionais. 

Contactado pelo Expresso, um porta-voz da SEC confirmou que não foi oportunamente designado um comissário para decidir a presença portuguesa na Bienal, mas revelou, por outro lado, que existe o propósito de reatar a participação a partir de 1992 e também que foram recentemente transmitidas indicações à embaixada em Roma para se procurar assegurar um espaço condigno para as futuras representações. 


Com efeito, até 1984, Portugal dispunha de um pavilhão próprio cedido pela Bienal; a partir desse ano passou a integrar um pavilhão colectivo, em condições consideradas menos favoráveis. Uma vez que não existiam disponibilidades financeiras para encarar a construção de um pavilhão próprio, e tendo a SEC, entretanto, passado a apoiar as presenças portuguesas nas feiras de arte (trata-se de um terreno complementar, que não substitui a comparência nas grandes bienais internacionais), interrompeu-se em 1988 a ida oficial a Veneza. Segundo a mesma fonte, a SEC terá voltado agora a considerar ser vantajoso para a circulação internacional dos artistas portugueses reatar a presença em Veneza nas melhores condições possíveis. 


É este um terreno de actuação que a política oficial tem praticamente abandonado - exceptuando a presença regular na Bienal de São Paulo, confiada ao comissário José Sommer Ribeiro, director do CAM, e de facto suportada pela Fundação Gulbenkian. Não se trata, no entanto, de estar apenas fisicamente presente com meia dúzia de obras nas mostras internacionais; toma-se necessário assegurar condições para uma participação activa e competitiva, o que passa sempre por meios de promoção significativos que não têm sido considerados (em 1988, Pedro Proença recebeu um subsídio de 160 contos para apoiar a edição de um catálogo, a divulgação da sua participação, a publicidade nas publicações especializadas, os contactos com críticos e «curators». etc...; outro exemplo: em 1990, um programa de seis exposições cm Espanha do mesmo artista conta com um subsídio de 200 contos...). 

Fontes ligadas a galerias nacionais referiram igualmente ao Expresso que não foram este ano desenvolvidos ou apoiados nenhuns contactos com os comissários do «Aperto», que constitui uma das mais importantes plataformas internacionais de lançamento de jovens artistas. Convites para deslocações de comissários a Portugal para visitar ateliers e exposições, ou mesmo os envios regulares de dossiers e catálogos, são práticas desenvolvidas por todos os países e actualmente imprescindíveis para assegurar o conhecimento externo das produções nacionais, mas que em Portugal são deixadas por realizar ou abandonadas à iniciativa das galerias privadas. 

A criação de um Instituto, Centro ou Direcção oficial que seja publicamente responsável pela actividade nesta área (organizando também exposições, importando outras do estrangeiro. promovendo comissários nacionais, estabelecendo relações internacionais regulares — sabendo-se que as influencias mais poderosas não se movem pelos canais diplomáticos) parece ser indispensável. 

Entretanto. artistas com condições para se afirmarem no terreno externo parecem existir e a circulação constante de criadores portugueses por galerias estrangeiras é um facto que o comprova. Há igualmente solicitações para representações portuguesas que ficam por corresponder, ou que são mal aproveitadas seguindo-se o critério arcaico das colectivas que incluem «todos» os artistas. Uma pintora como Paula Rego conhece ultimamente uma projecção internacional inédita; apesar da sua dupla nacionalidade (portuguesa e inglesa por casamento) competiria a Portugal tentar assegurar as condições para a circulação de retrospectivas da sua obra ou apresentá-la como forte candidata aos grandes prémios das maiores bienais. Mas já foi a Grã-Bretanha que a apresentou em São Paulo, em 1995.


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Arte Antiga e novas maneiras 

Cartaz, Actual, 5 Maio 1990. pág. 34


 MARlA Alice Beaumont foi substituída por Natália Correia Guedes à frente do Museu Nacional de Arte Antiga, num processo que está a ser objecto de diversas críticas (nomeadamente, por parte do Grupo dos Amigos do Museu) e que, se não poderá ser considerado irregular, foi, pelo menos, de uma flagrante deselegância ou inabilidade política. 

A anterior directora ocupava o cargo há 18 anos, com competência geralmente reconhecida, sabendo-se que pretendia pedir a reforma dentro de meses (por motivos de saúde), logo que procedesse à inauguração de algumas salas do Museu remodeladas depois das obras de instalação da XVII Exposição do Conselho da Europa. Essas obras pretendiam recuperar o uso da luz zenital (luz solar) no andar superior do Anexo, e arrastaram-se por vários anos devido à insuficiência das verbas atribuídas para o efeito. 

No dia 18 de Abril, Maria Alice Baumont foi convidada pelo actual presidente do Instituto Português do Património Cultural para um cargo de sua assessora para a área da museologia. Antero Ferreira teria deixado perceber que precisava do lugar vago no Museu das Janelas Verdes com urgência, mas aceitou o pedido de um prazo de uma semana para uma resposta definitiva. No dia imediato, porém, a directora do MNAA seria surpreendida pela publicação no Diário de Notícias da notícia da nomeação da nova directora e resolveu de imediato pedir a sua passagem à reforma. 

Uma fonte do IPPC viria posteriormente a justificar a substituição pela «necessidade de imprimir maior dinamismo ao MNAA», referindo a propósito que «várias salas se encontravam encerradas» mas omitindo qualquer menção às obras prestes a terminar. Outras notícias entretanto publicadas insinuam erradamente que diversas obras essenciais do acervo do Museu não se encontravam patentes ao público. 

Quanto a Natália Correia Guedes, foi fundadora do Museu do Traje e primeiro presidente do IPPC, dirigindo últimamente o Museu dos Coches, uma instituição considerada de menor importância. Uma vez que possui «o mais forte currículo da profissão», segundo reconhecem outras fontes ouvidas pelo Expresso, não é a sua nomeação que se presta a ser objecto de críticas, mas apenas a forma como todo o processo foi conduzido.



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Despachar o património 


28 Dez. 1990 Cartaz. P. 34-5.


SABE-SE que as coisas estão mal nos vastos domínios do Património Cultural. Fica agora a temer-se que estejam muito pior do que se sabia. Isto é: a partir de agora só se sabe o que o sr. presidente quer que se saiba. Sem autorização, ninguém fala. 

O despacho é de 6 de Dezembro. Aí fica dito que qualquer responsável dos «Serviços Centrais, Regionais e Dependentes do Instituto Português do Património Cultural”, (ou seja, por exemplo, o director de um museu) só pode conceder entrevistas «excepcionalmente e mediante autorização da Direcção». O «relacionamento» com os meios de comunicação social passa a ser «exclusivamente assegurado» pela mesma Direcção do IPPC através do respectivo Gabinete de Imprensa. 

A medida de controlo administrativo assinada pelo presidente do IPPC, Carlos Antero Ferreira, visa silenciar pessoas que não são meros funcionários públicos mas responsáveis por instituições culturais de primeira importância, e contraria em absoluto uma anunciada intenção programática de atribuição progressiva de autonomia (administrativa e financeira) a museus e palácios nacionais, de que Queluz deveria ser um primeiro e próximo exemplo. 

Trata-se agora, afinal, de reforçar o centralismo de uma entidade já reconhecida oficialmente como um dos maiores «monstros» da administração pública, impondo a funcionarização estrita de responsáveis que, pela sua função de animadores culturais, de criadores, de investigadores, etc., deveriam ser algo mais que anónimos servidores do Estado todo poderoso. 

 O acesso de autoritarismo sucede-se a notícias vindas a público sobre um pedido de exoneração apresentado pela direcção do IPPC, na sequência de críticas à  ineficiência dos respectivos serviços formuladas pelo próprio secretário de Estado da Cultura. O que permite pensar que as razões da crise não foram resolvidas, mas que se procurou acautelar o silêncio futuro sobre os seus efeitos. 

Há motivos para impor o silêncio, de facto, quando a situação dos principais museus do país se encontra à beira da ruptura, com obras de conservação paralisadas, com os programas de exposições temporárias reduzidos ao mínimo (e em muitos casos suportados por entidades privadas), com funcionários com salários em atraso, com insuficiente condições de segurança e vigilância, com os recursos mínimos de funcionamento esgotados e com o pagamento das contas da água, electricidade e telefones com meses de atraso (em vários casos sob ameaças de corte eminente dos fornecimento por parte das empresas públicas). Invocando as razões gerais da redução do .défice do sector público, os orçamentos de 1990 sofreram congelamentos que não permitiram sequer corrigir os efeitos da inflação; para 1991, apesar do crescimento do montante global atribuído pelo OGE à Cultura, foram impostos a todos os serviços valores «iguais aos montantes orçamentados para 1990, após os congelamentos», para além das despesas em remunerações permanentes e dos investimentos assegurados pelo PIDDAC. A conjuntura é de tal modo grave que já só a imposição autoritária do silêncio, após algumas primeiras «fugas» de informação, pode travar o protesto - em muitos casos, o desespero - dos responsáveis. 

Não são estes, naturalmente, os considerandos invocados pelo despacho de 6 de Dezembro. O que aí se diz é que «se torna imperioso evitar o veicular de informações parcelares e desinseridas de um contexto mais vasto e global inerente às políticas e prioridades de gestão superiormente definidas e aprovadas». 

As «prioridades de gestão» da SEC são hoje as do curtíssimo prazo: preparar festividades pré-eleitorais e substituir os dirigentes que se demitem. O património pode esperar mais uns meses. Em silêncio,