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sábado, 21 de junho de 2003

2003, Bienal de Veneza, os Giardini, Pedro cabrita Reis

"Bazar veneziano"

EXPRESSO/Actual de  21-Junho-2003 (pág. 36-37)

Bienal gigantesca expõe débil panorama internacional <onde Bruno Gironcoli era a única surpresa relevante>

Veneza-pcr

Foto PCR Studio / Tânia Simões. <A obra veio de Veneza para se arruinar ao longo de anos no Pátio da Inquisição em Coimbra, à porta do chamado CAV - ainda haverá restos? nunca + lá fui...>

A República Popular da China, que devia comparecer oficialmente em Veneza pela primeira vez, cancelou a viagem por causa da pneumonia atípica, mas muitos jovens chineses participam, com uma energia transbordante, numa das exposições sectoriais de uma bienal apostada em comprovar a globalização do universo artístico. Questões da actualidade também atingiram o pavilhão da Venezuela, que não chegou a abrir devido a declarações anti-Chavez. No entanto, foi muito mais notado o encerramento do pavilhão da Espanha por um muro de blocos de cimento erguido 65 centímetros a seguir à entrada (Parede Fechando um Espaço, é
o título da "obra"), enquanto o nome do país foi embrulhado em plástico negro - «Palavra Tapada é uma simples escultura realizada com materiais pobres», assegura a comissária.
Dois seguranças armados exigem o passaporte espanhol para se aceder pelas traseiras ao interior vazio e devastado. O sempre demagógico Santiago Sierra diz tratar-se de uma
«performance» sobre a fronteira e as políticas de imigração, acrescentando que «o orgulho nacional é um conceito do século passado». A direita civilizada <no caso, o governo de Aznar> já aprendeu a administrar a irrelevância do espectáculo cultural e as respectivas clientelas / ou camarilhas.

As bandeiras do arco-iris pacifista que pendem de muitas janelas de uma cidade assaltada pelas exposições da Bienal, como metásteses que invadem igrejas e palácios ao longo dos canais, são o testemunho mais directo da conjuntura internacional (e também da contestação a Berlusconi); o efeito é bonito mesmo se o argumento é atacável. Entretanto, o título escolhido para a 50ª edição da Exposição Internacional de Arte, «Sonhos e Conflitos» - seguido por um complemento mais obscuro, «A Ditadura do Espectador» -, aponta para uma polarização da criação contemporânea nas direcções alternativas do «sonho estético», mais ou menos separado do mundo, e o «documento do conflito», segundo a lógica rudemente esquemática de Francesco Bonami, um italiano sediado na América nomeado comissário-director.

A alternativa mais evidente, no entanto, é a que resulta do modelo organizativo da Mostra: por um lado, os representantes dos países (63, número record) que expõem em pavilhões próprios (ou por vezes em conjunto, mas há também mostras /nacionais ou regionais?/ autónomas da Escócia e do País de Gales, por exemplo), uns construídos há muitos anos nos Giardini di Castello e outros alugados em lugares mais ou menos periféricos, como se fossem embaixadas oficiais; em simultâneo, o comissário encarrega-se duma exposição colectiva onde propõe um tema ou uma perspectiva genérica sobre o estado das artes.
Este ano, porém, Bonami decidiu partilhar responsabilidades e dividiu os 12 mil metros quadrados dos antigos Arsenais com mais 11 comissários, que apresentam oito exposições temáticas sucessivas, conseguindo assim fazer das divergências estéticas assumidas uma demonstração equívoca da unicidade do mundo da arte. Se no subtítulo se pretendeu sublinhar a liberdade de apreciação do espectador face à singularidade das obras, o resultado acaba por ser uma esmagadora demonstração da ditadura dos comissários, cuja visibilidade autoral suplanta em muito a dos artistas. Como estes são perto de 400, o espectáculo é o de um gigantesco bazar, e o calor sufocante dos dias da pré-inauguração ainda tornou um pesadelo maior a romagem dos seis mil jornalistas e críticos acreditados. Até 2 de Novembro esperam-se mais de 350 mil visitantes, em geral turistas estrangeiros, o que resultaria em receitas globais de cinquenta milhões de euros para um investimento de cerca de oito milhões, segundo números do «Corriere dela Sera».

A fórmula dos pavilhões dos países é uma herança oitocentista das exposições universais e das escolas nacionais (a Bienal festejou o centenário em 1995, mas os anos de guerra atrasaram a chegada à edição nº 50). Criticada por alguns, porque as nacionalidades artísticas são uma questão controversa face à dominação dos grandes centros e à circulação dos artistas, ou porque muitas presenças periféricas nunca acertam com o padrão dominante, não deixa de ser uma oportunidade de competição internacional arduamente disputada, e cada país dedica sempre o maior espaço informativo a defender os seus representantes.

Não é possível fugir à regra e não há que temer dúvidas de chauvinismo quanto à participação de Pedro Cabrita Reis como representante português, reforçada por um convite de Bonami para expor uma segunda obra nos Giardini. A apresentação dos projectos em Lisboa (ver «Actual» de 24 de Maio) assegurava que um forte impacto visual os distinguiria da cacofonia ambiente, mas essa é apenas uma questão de eficácia elementar. No terreno, a presença espectacular das duas obras, diversas entre si mas identificando nas suas estruturas formais uma mesma autoria, é também a afirmação da densidade poética de um artista que se serve da escala arquitectónica para equacionar simbolicamente questões vitais e que se arrisca a utilizar de novo a condenada palavra beleza.

A dupla presença de Pedro Cabrita Reis é uma das mais destacadas da 50ª Bienal

Nomes Ausentes, uma casa fechada instalada nos Giardini, pintada no interior com um uniforme cor-de-laranja incendiado sobre o qual se desenham, por vezes em desordem, centenas de lâmpadas brancas de néon (em que cada um poderá ler os nomes das suas próprias memórias), habita-se como um lugar de recolhimento e celebração, um espaço monumental e de dimensão humana, ao mesmo tempo dramaticamente íntimo e solar. Viagens Cada Vez Mais Longas é uma longa estrutura de vigas de alumínio, de dois pisos, como uma casa inacabada, cortada por portas móveis pintadas de um branco irregular e néons também brancos. Fotografada antes ao ar livre, percorre-se (na Giudecca) no espaço imenso de um antigo depósito de cereais, de paredes de pedra, numa disposição ligeiramente oblíqua, com um perfeito sentido de escala e, como dissera Cabrita Reis, «com a leveza e o rigor de um traço de desenho no papel». Ideia de casa e arquitectura ambiguamente precária, confronta-nos com a estranheza absoluta do próprio acto de construir.
Um livro monográfico onde se ilustra e comenta toda a obra de Cabrita Reis acompanha a presença em Veneza, cujos ecos na imprensa internacional já tinham principiado antes da inauguração, apontando-a como uma das mais destacadas da Bienal. A concorrência, acrescente-se, não é grande, nomeadamente quanto aos países que justificariam maiores expectativas.

Gironcolli 

Bruno Gironcoli, um veterano escultor austríaco (n. 1933)

É o caso da França com Jean-Marc Bustamante (n. 1952), que juntou a fotografias «sem qualidade nem actualidade» (será um elogio do «Le Monde»?), ampliadas como grandes quadros, mais algumas pinturas banais transformadas em fotografias sobre plexiglas. E também o da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, ambos com representações decerto muito correctamente políticas, confiadas a artistas identificados como negros que «reflectem» sobre questões de identidade rácica. 

Chris Ofili (1968, Manchester, com raízes na Nigéria), Prémio Turner  98 e vedeta da exposição «Sensation» graças a uma Virgem com bosta de elefante, pintou agora «amantes afro-lunares» com a grosseira debilidade «kitsch» de decorações de bar em versão popular africana, inevitavelmente apoiados em volumosos dejectos, forrando as salas com o mesmo verde ou vermelho berrante dos quadros (cores do nacionalismo pan-africano). As autoridades britânicas queixaram-se de a oposição à guerra do Iraque lhes ter tirado o prémio
Fred Wilson (1954, Bronx, NY) reuniu referências aos negros na arte veneziana e também em bugigangas decorativas, colocando à entrada do pavilhão um dos muitos irmãos de cor, mas não de classe, que pela cidade vendem malas de senhora aos turistas – tudo mais do domínio da sociologia da arte do que da criação artística.

Candida Höfer comprovou os limites inultrapassáveis de um género alemão de grandes fotografias neutras de interiores arquitectónicos; Jana Sterbak, canadiana nascida em Praga, apresentou ao som de Glenn Gould uma instalação-vídeo em grandes ecrãs articulados, usando o ponto de vista irrequieto do seu cão, que transportava a câmara numa viagem até Veneza; Thierry de Duve comissariou uma representação belga confiada a discretos discursos confessionais femininos.
A um nível mais afirmativo deve citar-se a presença do Brasil, com Beatriz Milhazes e Rosângela Rennó, que já expuseram em Portugal, pintora a primeira de abstractos motivos florais e geométricos, vibrantes de cor, e a segunda fotógrafa pictural que tinge de vermelho sangue quase invisíveis retratos antigos. Olafur Eliasson, pela Dinamarca, é um construtor de experiências perceptivas, que, num espaço labiríntico, oferece ao visitante visões caleidoscópicas ou o coloca no interior de espelhos multifacetados.

Presença insólita num contexto filtrado pelo grande mercado institucional globalizado é a de Bruno Gironcoli, veterano escultor austríaco (n. 1933) pouco conhecido no exterior, de quem se apresentou uma antologia de obras singulares. Algo de Giacometti e Moore (nomes finais da tradição da escultura?) comparece nas suas obras monumentais, onde elementos biomórficos ou a figura humana se fundem em estruturas maquínicas de ficção científica ou em composições teatrais de formas simbólicas proliferantes, com elementos ornamentais de aparência oriental, sempre integrando a «assemblage» sob a cor uniforme (prateada, amarela, etc) do metal. <Foi apresentado por outro veterano: (Commissioner: Kasper König)>

Museu Gironcoli, Viena

O júri preferiu a surpresa de premiar a representação do Luxemburgo confiada a uma jovem sino-britânica estudante em Paris, Su-Mei Tse (n. 1973), muito pouco visitada por se situar fora dos Giardini. Trata-se de uma instalação-vídeo em dois ecrãs, um ocupado por varredores parisienses (imigrantes, claro) a vassourarem um deserto africano e o outro pela própria artista tocando violoncelo diante de uma «paisagem das montanhas suiças, idílica ou mesmo kitsch-sublime», em estilo «Heidi», segundo o catálogo. Air Conditioned (jogando com o sentido de era, ária e área) era o título mais promissor sob o sol abrasador de Veneza.


sábado, 16 de junho de 2001

Veneza 2001: João Penalva, "R."

 "Um palácio em Veneza"

Expresso (Cartaz Actual de 16/6/2001, pp. 4 e 5, e antes/abaixo  19-08-2000)

Portugal em competição em Veneza com uma cenográfica instalação de João Penalva

Coexistem duas bienais em Veneza. Uma é a das representações nacionais, apresentadas quer em pavilhões próprios nos Jardins do Castelo, construídos desde 1907 numa bem curiosa sucessão de estilos arquitectónicos (a bienal seguiu o modelo das exposições universais), quer dispersas pela cidade em espaços variados, no caso dos países sem pavilhão. Outra bienal, a grande exposição do director de cada edição, que visa ser uma proposta cosmopolita sobre o estado da arte e o seu futuro. Esse diálogo, em grande medida um diálogo de surdos, entre valores nacionais e um ponto de vista internacional, no qual intervêm tanto os países do centro como as periferias mais distantes (excepto a África), é bem elucidativa das resistências à globalização da arte do mundo, que não é o mesmo que «o mundo da arte».

Candidato à construção de casa própria desde 1995, para o que foi convidado Álvaro Siza (mas nesse ano suspenderam-se todas as solicitações nacionais), Portugal é um dos exilados dos «Giardini», compensando a localização periférica com a dignidade de um palácio alugado e vontade de identificar-se com os valores dominantes do «art world». Depois de Julião Sarmento e Jorge Molder, em 97 e 99, é João Penalva quem ocupa o Palazzo Vendramin dei Carmini, por escolha do comissário nacional designado para este ano, Pedro Lapa, director do Museu do Chiado.





A palavra ocupar tem aqui pleno sentido porque a obra de Penalva se instala cenograficamente ao longo de cinco salas comunicantes entre si, configurando o espaço de um espectáculo sem actores, mas com projecções de vídeo, a percorrer demoradamente para que seja possível detectar e relacionar as pontas das numerosas histórias esboçadas pelo artista. Trata-se de uma instalação, onde a decoração do palácio é em parte utilizada no seu luxo decadente, em parte alterada e ocultada, para acolher três grandes ecrãs, vitrinas com objectos ou documentos, fotografias de grande formato, mobiliário e adereços diversos. Tudo peças de um vasto «puzzle» montado com ambição de obra de arte total (um conceito wagneriano), que por isso mesmo nunca se resolverá numa narrativa ou chave únicas.

O título, "R.", preserva o segredo sobre os «enredos» presentes. Saberão alguns, ou lerão na informação disponibilizada, que a inicial designava Richard Wagner nos diários de Cosima, e a obra do compositor alemão está presente através de "Os Mestres Cantores de Nuremberga" (Die Meistersinger von Nürnberg). As duas salas sem ecrãs são-lhe dedicadas - sem música, mas invadidas pelo som (e diálogos) dos vídeos -, com material gráfico (imagem e texto: retratos de cantores, fotografias de cena, fragmentos do libretto, etc) e adereços que se dispõem nas vitrinas e nas paredes, ocupando espaços da decoração mural. Na mais pequena, apenas um idêntico expositor com bolas de papel: «Cinco críticas muito más a produções de "Os Mestres Cantores"». A citação de Wagner também referirá a relação pessoal de Penalva com os (alguns) críticos. No modelo e uso das vitrinas pode reconhecer-se a referência a Joseph Beuys.

Mais do que a homenagem a Wagner, importa aqui o argumento daquela ópera e também o trânsito entre identidade artística e intimidade pessoal, fazendo um desvio da obra do compositor para a relação com a sua mulher, da arte à vida. "Os Mestres Cantores" é a história de um prova de admissão à respectiva corporação prestada por um jovem aristocrata. O tema envolve um concurso, com regras definidas e júri, logo, as ideias de exame, prova, êxito ou derrota, aprendizagem, perfeição, cumprimento de normas e originalidade. A esses tópicos Penalva associou ilustrações do mundo competitivo do desporto, dos concursos de dança ou patinagem no gelo e mesmo do Festival da Eurovisão, evocando o desaire da «Desfolhada» cantada por Simone em 1969 noutra vitrina de documentos e em fotografias de época. Implicitamente, é a própria participação de Penalva na Bienal que está presente como problema.

O desporto comparece em grandes fotografias a preto e branco dos pódios onde se consagram os vencedores e, em especial, num vídeo de poderoso impacto (projectado em alternância com um texto da ópera) no qual se vê um atleta na prova de argolas, filmado em planos fragmentados e muito aproximados, com a concisão e o ritmo de um «spot» publicitário. Toda a instalação dialoga com esse vídeo, que opõe o vermelho-vivo do fato aos tons barrocos do cenário, a urgência mecânica à lentidão dos outros filmes sem acção, o impacto directo dessas imagens breves à possível densidade narrativa de tudo o resto, um corpo vivo a um mundo de memórias.

Os dois outros ecrãs são preenchidos por imagens quase fixas (um lago da Suiça próximo de Lucerna e um pedaço de paisagem filmada na Madeira, com uma fogueira) acompanhadas por uma presença marcante de textos literários, cartas passionais, o diário de Cosima, etc. - lidos em esperanto com legendas em inglês. Uma dessas projecções é feita sobre um pequeno palco precedido por um piano, diante de filas de bancos desirmanados. O contraste da decoração luxuosa das salas e de algum mobiliário com a precaridade pobre de outros elementos é uma das notas que se reconhecerão lentamente, a somar a outros sentidos alegóricos do trabalho de Penalva.

A representação é acompanhada por um catálogo trilingue sobre a instalação, prefaciado por Pedro Lapa, e por uma volumosa monografia sobre a obra de Penalva, em edição Electa, também encadernada, com textos em inglês do comissário e de Mark Gisbourne e Guy Brett, mais um diálogo de Yuko Hasegawa com o artista. Esses são elementos de uma acção promocional de grande escala que tem procurado, desde 1997 (após a mais pobre participação de 95, em que compareceram Croft, Cabrita Reis e Chafes, o que foi uma boa ideia de programação), conferir visibilidade à presença nacional. Conduzida pelo Instituto de Arte Contemporânea, em moldes idênticos aos usados nos festivais de cinema, a operação inclui «marketing» profissionalizado, jantar e festa oferecidos no pavilhão (este ano substituindo o fausto do Pap'Açorda por um mais económico menu italiano), e a presença de alguns convidados, incluindo imprensa, como se diz, especializada. (1)

     Perfil      
João Penalva nasceu em Lisboa em 1949 e reside e trabalha em Londres desde 1976, onde estudou na Chelsea School of Art até 1981. No seu itinerário artístico há que contar os anos anteriores dedicados à dança, tendo chegado a fazer parte da companhia de Pina Bausch, e mais tarde trabalhou como cenógrafo. Em 1990 foi como pintor que expôs no Centro de Arte Moderna, em Lisboa; passou, na década seguinte, a apresentar instalações e montagens de materiais diversos com sentido narrativo. Para além de expor regularmente em Londres, representou Portugal na Bienal de São Paulo de 1996 e o Centro Cultural de Belém organizou em 1999 uma ampla mostra do seu trabalho. Entre outras participações em mostras internacionais, destaca-se a presença na 2ª Bienal de Berlim.

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E a história desta bienal começara assim com a nomeação do comissário:

Pedro Lapa comissário da Bienal de Veneza
Expresso Cartaz (actual) 19-08-2000

O MINISTRO da Cultura, José Sasportes (2), nomeou Pedro Lapa, director do Museu do Chiado, para comissariar a representação portuguesa na próxima Bienal de Veneza, que decorrerá em 2001. Depois da retoma das representações nacionais, em 1995, sucederam-se nessas funções José Monterroso Teixeira, que seleccionou José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes; Alexandre Melo, que apresentou Julião Sarmento em 1997, e Delfim Sardo, com a escolha de Jorge Molder, em 1999. Portugal continua, no entanto, a não possuir um pavilhão próprio no recinto da Bienal, sendo forçado a alugar um espaço exterior de menor visibilidade.

Pedro Lapa comissariou - no Museu do Chiado, cujo quadro integrou em 1990 (ainda Museu Nacional de Arte Contemporânea) - a retrospectiva de Jorge Vieira, foi co-responsável pela retrospectiva de Mário Eloy e dirigiu mais recentemente a exposição e o catálogo «raisonné» dedicados a Joaquim Rodrigo. Entre outros projectos, conta-se a apresentação, desde 1995, de dois ciclos de mostras de jovens artistas no mesmo museu (o ciclo «Interferências» prossegue com uma instalação de Miguel Palma), tendo ainda integrado temporariamente o quadro do Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém, onde programou, a mostra inglesa «Life/Live» e exposições de Picabia e Júlia Ventura. Actualmente, Pedro Lapa prepara uma antologia de Man Ray para o museu que dirige, uma mostra de Stan Douglas e ainda uma colectiva de jovens artistas portugueses para a Culturgest e uma outra, internacional, a ser apresentada na Fundição de Oeiras com o título «More Words About Building and Food». Num texto recente sobre os anos 90, «O Grupo e as Suas Migrações», publicado na revista «Arte Ibérica» de Fevereiro deste ano, Pedro Lapa assumira uma posição muito negativa face ao curso da arte nos anos 80, condenando o «efeito de moda que os 'regressos à pintura' e todos os neo-expressionismos representavam», bem como face aos «investimentos promocionais em artistas contemporâneos já consagrados nessa década», a propósito de uma falta de promoção institucional dos artistas revelados nos anos 90 que se teria verificado nos anos mais recentes.

Quanto aos artistas surgidos na última década, valorizava o «reactivar de uma perspectiva crítica, através de deslocações forjadas pela apropriação dos tradicionais meios de comunicação de massas e respectivas recontextualizações ideológicas». No mesmo artigo destacava os percursos de João Penalva, João Paulo Feliciano, João Louro e João Tabarra, Fernando José Pereira, Miguel Palma, Ângela Ferreira, Augusto Alves da Silva, Cristina Mateus ou Francisco Tropa, tendo alguns deles apresentado instalações no Museu do Chiado.

(1) Tinha decidido não ir a Veneza (apesar de Szeemann) mas Sasportes insistiu/investiu na cobertura da representação nacional, e fui a convite do MC, o que aconteceu só nesta edição.

(2) Sasportes inaugurou um novo modelo de escolha da representação, atribuindo-a a um museu ou instituição artística. A seguir coube a Serralves e depois o modelo foi abandonado.

Veneza 2001: Harald Szeemann

 "Volta ao mundo"

EXPRESSO/Cartaz, Actual de 16/6/2001, pp. 6 e 7 (e  9/6/2001)

O «Palco da Humanidade» Plateau of Humankind, segundo Harald Szeemann

Vinte e oito pavilhões nacionais nos Jardins, 21 pela cidade, incluindo os do colectivo latino-americano, de Singapura, Taipé e repúblicas ex-soviéticas. Mais as duplas representações que se multiplicam, da Espanha, Holanda, Suiça, etc., e várias mostras «a latere». Ao gigantesco programa, cada vez mais um mercado mundial de exposições, soma-se o projecto do comissário-geral, a ocupar o vasto Pavilhão da Itália (que fica sem presença própria) e um quilómetro de edifícios fabris, o Arsenal, herança da antiga potência marítima.



A 49ª edição é frágil na mostra dos países, pelo menos aos olhos estrangeiros a cada um deles. As atenções voltam-se para o «centro» e as pulsões multiculturais ficam sempre por justificar-se, porque o localismo dos grandes é muito mais poderoso. É o caso norte-americano, onde Robert Gober aparece debilitado num exercício de espaços e objectos perdidos. Ou da França de Pierre Huyghe, com jogo de luzes no tecto, interactivo, e vídeo com heroína Manga.

Já o britânico Mark Walling (n. 1959) dispara uma rajada de ideias jocosas com provocações à pátria e a Deus, desde a bandeira nacional de cores trocadas (irlandesas) e a falsa fachada do pavilhão até ao demasiado humano "Ecce Homo" moldado em resina com coroa de espinhos de arame farpado dourado ou à música de Handel a acompanhar o trânsito em «slow motion» por uma porta de aeroporto ("O Limiar do Reino"). Em "Anjo", o próprio artista com bengala de cego vai descendo uma escada rolante que sobe, entoando uma melopeia: fica ilustrada com humor bastante a desrazão do mundo e da arte.

Mais sério é o pavilhão alemão (estilo imperial de 1938) onde uma estreita porta, ao cabo de uma hora de espera, dá acesso a um velho prédio que se percorre como um labirinto de espaços alterados, secretos e absurdos, que desembocam em escadas e corredores cada vez mais estreitos, em quartos despojados ou com estranho mobiliário, em portas fechadas. Vem à memória o esconderijo de Anne Frank, mas a situação ultrapassa todas as referências, partindo de um mundo pessoal e proporcionando uma insólita experiência. Há vários anos que Gregor Schneider (n. 1969) tem recriado esse espaço, já comparado à estrutura do inconsciente, agora premiado com um justo Leão de Ouro para o melhor pavilhão.

Das periferias fica na memória o chão lavrado de pintura do polaco Leon Tarasewicz, ambiente de cor a compensar a penúria da modalidade; o humor do velho egípcio Ramzi Mostafa, pioneiro modernista em trânsito entre culturas; a dureza auto-sacrificial dos vídeos de Ene-Liis Semper (Estónia). O brasileiro Ernesto Neto é mais eficaz no Arsenal, com os odores exóticos dos seus volumes-sacos de pano. Sem a ambição de se ver tudo.

Entretanto, a mostra de Harald Szeemann é em si mesmo uma dupla volta ao mundo: inventário dos temas que fazem o bom e mau humor da Humanidade, mapa dos jogos e angústias que moldam o quotidiano vivido e também a gratuitidade ou gravidade da arte. O projecto é em absoluto generalista, reúne artistas de todas as idades e disciplinas, e o autor atribuiu-lhe a ambição e o título de «Palco da Humanidade». Associou-o à polémica exposição fotográfica «The Family of Man», de 1959, num apelo «ao que há de eterno no homem, na base dos enraizamentos locais», e ao programa humanista de «Identidade/Alteridade», de Jean Clair, Veneza'95, mas recusando separar figuração e abstracção em arte. Chamou «Plataforma do Pensamento» ao coração da mostra, onde colocou o "Pensador"  e "O Homem que Marcha" de Rodin ao lado de esculturas populares ou ingénuas e divindades hindus.

Mal recebida por alguns pelo seu ecletismo e, diz-se, por não trazer nada de novo, a opção do velho comissário, que em 1969 e 72 («When Attitudes Become Form» e Documenta de Kassel) ajudou a consagrar as tendências mais radicais, parece voltar-se da arte para o mundo: «Não estamos face a novas revoluções da arte, como no fim dos anos 60, mas num clima de crescente interesse pela existência humana».

Apesar do predomínio do vídeo («a jovem geração exprime-se com a imagem em movimento»), Szeemann fez saber do seu interesse em mostrar pintura e lamentou que só pudesse dispor do pavilhão italiano para tal, por razões de climatização. Aí juntou alguns nomes consagrados (Cy Twombly, Gerhard Richter, Helmut Federle) e jovens como o filipino Manuel Ocampo, o alemão Neo Rauch e o costa-riquenho Federico Herrero. E ele próprio se distanciou do excesso de projecções, que constitui uma queixa recorrente dos visitantes: «Espero que em breve haja menos vídeo, porque começo a estar um pouco cansado...»

Claramente dirigida a um largo público, a mostra associa obras de impacto certo, como os manequins de Ron Mueck, que levam a presença do corpo ao extremo da incerteza entre ilusão e verdade, central a toda a arte (construtor de bonecos para séries de TV, Mueck fez um Pinóquio para servir de modelo a Paula Rego, de quem é genro, e nunca mais parou), a peças de escândalo de recentes mostras londrinas (o papa caído de Maurizio Cattelan, os «clips» eróticos de Chris Cunningham), mas também a outras produções mais discretas ou poéticas, num percurso estruturado por tópicos antropológicos, sem ser escolar ou demagógico.

Um núcleo aproxima figurações do corpo (realismo de Mueck e pequenos monstros criados por Xiao Yu; vídeos contemplativos ou manipulados), adiante há referências ao mundo colonial (imagens recuperadas e algum exotismo multicultural), depois ao desporto (dois treinadores reagem a um jogo invisível; um jogo de futebol disputado de fato completo; duas equipas de futebol e basket no mesmo recinto, com referência a segregações raciais). Diante de uma série fotográfica sobre Chernobil estão os surpreendentes desastres de automóvel, desde os anos 50, de um polícia suíço (Arnold Odermatt); diante dos corpos excessivos do cinema de Cunningham está a observação microscópica e pictural do vídeo de Bill Viola. A tradição da fotografia documental é recuperada num trabalho de Cristina Garcia Rodero sobre cultos vudu e o fotógrafo Nick Wapplington distribui posters de falsos portais da Internet pelos corredores.

Não se trata de sacrificar as obras às intenções da montagem, antes de inseri-las em conjuntos significantes que as justificam ou valorizam, mesmo quando é escasso o impacto individual. Por outro lado, o próprio pluralismo temático e a diversidade das linguagens e das formas concede ao espectador um lugar soberano onde o envolvimento emocional ou intelectual com algumas obras pode coexistir com o desinteresse ou rejeição de outras, sem quebra da relação de empatia habilmente tecida por Szeemann, mesmo que pareça ceder a compromissos com vedetas (as fotos de calendário de Vanessa Beecroft) ou acolha projectos infelizes <?>, como a instalação final de Kabakov, "Nem Todos Serão Levados para o Futuro", um apeadeiro com quadros caídos e o comboio que parte... Próxima, a gigantesca espiral de oblíquas paredes de aço, de Richard Serra, é uma forma que parece nascer do espaço fabril do Arsenal, mas provocar tonturas (a alguns) é um destino pouco credível para uma escultura penetrável.

O lixo faz parte da actualidade artística que Szeemann condensa na sua mostra (o saco de plástico passado a bronze de Gavin Turk, "Saco de lixo"). Um gesto de humor sintetiza no quadrado de um púbis recortado um dos ícones que marcou o século (Malevitch) e a carne sexuada que a abstracção construtiva combateu: a obra de Tanja Ostojic, jugoslava, n. 1972, terá sido vista por Szeemann, está reproduzida no catálogo mas não é «exposta». A nostalgia e a caricatura da pintura ganham uma presença tão simbólica quanto real com os dois operários que vão cobrindo sucessivamente de branco e de preto, durante os cinco meses da Bienal, as paredes de uma galeria (ideia do búlgaro Nedko Solakov, n. 1957).

Do impossível inventário ressalvem-se as presenças portuguesas: o vídeo de João Onofre, Casting, e a instalação de Egon Ekoyan e Julião Sarmento, na qual imagens fragmentadas de corpos se projectam num estreito corredor onde o espectador quase esbarra no ecrã. Eficaz provação oferecida ao voyeurismo de cada um e ruptura com a rotina da passiva contemplação de tanto vídeo.

(Fotos: «Uma Vida (Preto e Branco)», de Nedko Solakov, com operários em actividade durante cinco meses / «Sem Título (Rapaz)», de Ron Mueck / «Saco de Lixo», em bronze pintado, de Gavin Turk / «Quadrado Negro sobre Branco (no meu Monte de Venus)», de Tanja Ostojic / Espiral de aço de Richard Serra/ «Anjo», vídeo de Mark Wallinger)

history-biennale-arte

The 49th International Art Exhibition took place from June 10 to November 4, 2001, under the title Plateau of Humankind. It was directed, as the 1999 edition, by the Swiss critic Harald Szeemann and attracted over 243,400 visitors. Szeemann said that “No set theme was applied in choosing the artists; indeed, it is their work which decides the dimension of the event. The Venice Biennale hopes to serve as a raised platform offering a view over humankind”. A key work by Joseph Beuys, The End of the Twentieth Century, was exhibited. According to Szeemann, “It was Beuys above all who was the indefatigable spokesman for the concept of liberty”. Alongside Beuys, various other artists of the 20th century were exhibited: “Cy Twombly, whose generous gestures restore myth to the modern world; Richard Serra, the creator of a new concept of the monumental; Niele Toroni, the champion of painting as trace. Then come a number of those contemporary artists who have focused on the human figure – for example, Ron Mueck”.

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Expresso Cartaz Actual 9/6/2001
Prémios da Bienal de Veneza

Cy Twombly e Richard Serra distinguidos com dois Leões de Ouro

A 49ª edição da Bienal de Veneza, que hoje se inaugura, atribuiu dois Leões de Ouro aos artistas norte-americanos Cy Twombly e Richard Serra, designados como mestres da arte contemporânea. As distinções foram concedidas por proposta de Harald Szeemann, director da Bienal e comissário da exposição paralela «Palco da Humanidade», em que ambos participam. Outros prémios são hoje anunciados, para o melhor pavilhão nacional, para mais outros três artistas representados na Bienal e ainda para quatro jovens participantes. 

Cy Twombly nasceu em Lexington, Virginia, em 1928, pertencendo à geração de Robert Rauschenberg e Jasper Johns, marcada pelo expressionismo abstracto. A sua pintura, inicialmente informal, caracteriza-se por uma despojada e elegante escrita de sinais alusivos, próxima dos «graffiti», em que comparecem gestos gráficos, letras e algarismos ou mais raras figuras, numa aproximação gestual a símbolos culturais e temas da mitologia helénica. Depois de ter viajado por África, Espanha e Itália, deixando-se marcar pelo fascínio da antiguidade clássica, instalou-se em Roma,em 1957, onde ainda reside. A sua obra, luminosa e discreta, influenciou os pintores alemães e italianos revelados nos anos 70.

Richard Serra, escultor, nasceu em São Francisco em 1939, sendo famoso pelas suas paredes ondulantes em aço industrial, com grandes dimensões, de herança minimalista, onde se manifestam questões de escala e equilíbrio. A sua colocação em espaços públicos foi várias vezes objecto de contestação.

A Bienal de Veneza decorre até 4 de Novembro, com a presença de João Penalva como representante oficial de Portugal, enquanto João Onofre, com um vídeo, e Julião Sarmento, com um filme em colaboração com Atom Egoyan, participam na exposição de Harald Szeemann.

sábado, 5 de junho de 1999

Veneza 1999: Expresso: Molder/Delfim Sardo. Harald Szeemann

O ritual de Veneza

Expresso Cartaz de 05-06-99

Foto: Jorge Molder, fotografia da série exibida em «Alfândega Nova»

A 48ª EDIÇÃO da Bienal de Veneza é oficialmente inaugurada no próximo sábado, prevendo-se a passagem por Serralves de muitos dos visitantes vindos das Américas. O evento tem este ano (e também em 2001) a direcção de Harald Szeemanm, o histórico comissário de «Quando as Atitudes se Tornam Forma», de 1967, e da Documenta de 72, que em 1990 instituíra um sector da bienal para jovens artistas intitulado «Aperto». Szeemann, no entanto, em vez de restabelecer a mesma fórmula, promoveu uma vasta exposição em que juntou jovens e veteranos, distribuída por vários espaços de Veneza sob o título «dAPERTutto, APERTO over ALL, APERTO par TOUT, APERTO uberrall».

Portugal é um dos 59 países oficialmente presentes, embora ainda não disponha de um pavilhão próprio nos «Giardini» – Álvaro Siza já foi convidado para o projectar, mas a reforma da Bienal, transferindo-a para a tutela da cidade, tem demorado a atribuição de lugares aos países candidatos a uma presença fixa. Jorge Molder, designado como representante nacional, sendo Delfim Sardo o comissário, ocupará o Palácio Vendramin ai Carminini (em Dorsoduro), alugado para a ocasião, como sucedeu em 97 com Julião Sarmento. Apresentará uma série de auto-retratos fotográficos, a preto e branco e grande formato, intitulada «Nox» (noite), na sequência do trabalho que vem desenvolvendo desde 1990.

A sua presença envolve a edição de um catálogo específico e também de uma monografia retrospectiva, reunindo 160 imagens das séries de auto-retratos, com textos de Delfim Sardo e Ian Hunt e uma entrevista conduzida por John Coplans, fotógrafo há anos apresentado numa grande exposição no CAM. A promoção da representação contou também com a co-produção de um documentário realizado por José Neves, com o título "Por Aqui Quase Ninguém Passa". No total, incluindo um jantar servido pelo restaurante Papa'Açorda, o investimento conjunto dos Ministérios da Cultura e Negócios Estrangeiros, bem como do ICEP, é orçado em 70 mil contos (como termo de comparação, os orçamentos de funcionamento do Centro Português de Fotografia e do Instituto de Arte Contemporânea são, respectivamente, de 123,9 e 195.6 mil contos).

Entre as outras presenças oficiais podem destacar-se Ann Hamilton pelos Estados Unidos, Rosemarie Trockel (Alemanha), Gary Hume (Grã-Bretanha), Jean-Pierre Bertrand e Huang Yong Ping (França), Nelson Leirner e Iran do Espírito Santo (Brasil), Manolo Valdés e Esther Ferrer (Espanha), Komar & Melamid e Sergey Bugaev (Rússia), Ann Veronica Janssens e Michel François (Bélgica), todos eles nos seus pavilhões dos «Giardini», enquanto 19 países sem casa própria são alojados nos Arsenais e mais nove, incluindo Portugal, optaram por procurar outros locais. Entretanto, os artistas italianos foram este ano incluídos na mostra internacional, entre os 95 artistas da selecção de Szeemann.

Dois espanhóis, Antoni Abab e Ana Laura Alaez, quatro franceses de circulação recente, Dominique Gonzalez-Foerster, Thomas Hirschhorn, Pierre Huyghe e Philippe Parreno, estão entre os eleitos. A par de nomes consagrados ou frequentes – Dieter Appelt, Sigmar Polke, Bruce Nauman, Chris Burden, Paul McCarthy, Wilfgang Laib, Jenny Holzer, Katharina Fritsch, Jimmie Durham, Frank Thiel, Maurizio Cattelan, Douglas Gordon, Pipilotti Rist, Rirkrit Tiravanija, etc –, é prestada homenagem a James Lee Byars, Gino de Dominicis, Martin Kippenberger, Dieter Roth e Mario Schifano, recentemente falecidos. Mas, ao lado de dois artistas africanos (Georges Adéagbo, do Benin, e William Kentridge, da África do Sul), de um só da América Latina (Kcho, Cuba), a surpresa é o grande número de jovens artistas chineses convidados (16 mais quatro a residir no estrangeiro). Segundo Szeemann, eles «traduzem plasticamente o choque do impacto com os mass media ocidentais».

domingo, 2 de fevereiro de 1997

Veneza 1997: Expresso: Sarmento / Alexandre Melo e Cabrita Reis

Acompanhamento da Bienal à distância

Teria curiosidade em conhecer melhor o norte-americano negro Robert Colescott, de 71 anos, perdido em terra inóspita...

I - Veneza marca Bienal

Expresso/Cartaz/Actual de  2-2-97 

 Sarmento no Pavilhão oficial da 46ª edição, comis. A. Melo

e Cabrita Reis na colectiva de Germano Celant, «Futuro, Presente, Passado»

Germano Celant é o director da próxima Bienal de Veneza, cuja 47ª edição terá lugar em Junho, apesar de se ter admitido o seu adiamento para não coincidir com a realização da Documenta de Cassel e para dar tempo à anunciada privatização e reoganização da estrutura responsável pela «Mostra». O crítico italiano, que foi o divulgador da «Arte Povera» nos anos 60-70 e é actualmente conservador de arte contemporânea no Museu Guggenheim de Nova Iorque, foi eleito em 29 de Novembro, no quinto escrutínio realizado e com o mínimo de votos necessários (9—5), contra Achille Bonito Oliva, comissário da «Bienale» de 1993 e, nos anos 80, paladino da chamada «transvanguarda».

Com seis meses para preparar a Bienal e um orçamento reduzido de pouco mais de 600 mil contos, Celant conta com um prazo muito curto para promover as habituais exposições paralelas às representações nacionais e terá de enfrentar as dificuldades que certamente também serão levantadas pelos países que dispõem de pavilhões próprios nos «Giardini» de Veneza.

Entretanto, Portugal, através do Ministério da Cultura, tinha já designado no início do ano anterior Alexandre Melo como responsável pela representação portuguesa, anunciando-se simultaneamente a escolha do pintor Julião Sarmento.
Uma vez que o país não tem pavilhão permanente, terá de ser alugado um espaço fora do recinto dos «Giardini», tal como sucedeu em 1995, quando José Monterroso Teixeira foi designado comissário nacional e apresentou os escultores José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes.
Recorde-se, a propósito, que Portugal encetara nesse mesmo ano diligências para vir a construir um pavilhão próprio em Veneza e Álvaro Siza Vieira fora escolhido para o projectar. No entanto, ainda não foi decidida a respectiva localização pelas autoridades italianas, mesmo depois do actual Ministério da Cultura ter reiterado as anteriores propostas.
A França, por outro lado,  já tornou pública a designação do artista Fabrice Hybert, de 36 anos, como seu representante.

A edição anterior da Bienal de Veneza foi a única que teve um director não italiano, o crítico francês Jean Clair, que é também o director do Museu Picasso, de Paris. Comemorando-se então o centenário da «Bienale», Jean Clair contou com meios financeiros avultados e apresentou uma grande exposição paralela intitulada «Identidade e Alteridade — Figuras do Corpo, 1895-1995», que constituiu uma reconsideração de toda a evolução das artes plásticas ao longo do século sob o ponto de vista da permanência dos temas do corpo e do retrato, parcialmente ocultados pelas análises que previligiaram a emergência da abstracção e a dinâmica vanguardista do modernismo. Intensamente polémica, mas também inesquecível pela pela excelência do discurso expositivo apresentado no Palazzo Grassi e no Museu Correr e igualmente pela coerência das teses defendidas, a exposição concitou a hostilidade de muitos sectores da crítica e igualmente permitiu recuperar um número total de visitantes que a Bienal perdera nas edições anteriores.
Germano Celant, sendo um crítico de grande notoriedade internacional, detém um perfil totalmente oposto ao de Jean Clair. 
A Bienal de Veneza decorrerá entre 15 de Junho e 4 de Novembro, enquanto a Documenta de Cassel, considerada a mais importante das exposições periódicas mundiais, este ano dirigida pela francesa Catherine David, se inaugura a 19 de Junho e encerra a 28 de Setembro. À concentração das datas somam-se as da Feira de Basileia, de 10 a 16 de Junho.

II - Veneza: Bienal 97

Expresso/Cartaz de 07 Jun.97

A representação portuguesa na Bienal de Veneza é este ano particularmente significativa, com a presença oficial de Julião Sarmento a ser fortemente promovida e com a participação de Pedro Cabrita Reis na mostra colectiva apresentada por Germano Celant, comissário da presente edição. A 47ª Bienal de Veneza abre ao público no dia 15 e decorre num Verão muito concorrido em acontecimentos dedicados à arte contemporânea, com destaque para a Documenta de Kassel e as bienais de Munster (escultura) e de Lyon. Para estas outras mostras, porém, não foram convidados artistas portugueses e deverá notar-se que Julião Sarmento e Cabrita Reis entraram já há vários anos no circuito internacional (Kassel 82 e 87 o primeiro; Kassel 92 o segundo).

Julião Sarmento apresenta uma nova série de trabalhos intitulada «Casanova», no prolongamento das suas pinturas brancas, concebidos para os espaços do Palácio <?>. Portugal não dispõe de pavilhão próprio no recinto da Bienal, os Giardini, e teve portanto, de alugar instalações no exterior, como ocorreu em 1995, mas agora com outra escala de meios. Segundo Alexandre Melo, o comissário da representação portuguesa, a série dedicada ao famoso libertino tem como tema a unidade e multiplicidade da figura da mulher.

A participação é apoiada por um pequeno catálogo para distribuição ao público e, em especial, por uma monografia com centenas de reproduções dedicada à totalidade da obra de Sarmento. O volume é publicado pela Electa em versão inglesa e em português por Assírio & Alvim, com um ensaio de A. Melo e uma longa entrevista feita por Germano Celant, que se encontrava já prevista antes de este ser designado comissário-geral da Bienal. Sempre graças a um substancial apoio do Instituto de Arte Contemporânea, a divulgação internacional de Sarmento foi confiada a uma agência de Nova Iorque, por forma a assegurarem-se referências na imprensa especializada.

Por sua vez, Cabrita Reis estará incuido na mostra «Futuro, Presente, Passado», entre 60 artistas representativos das «promoções» ocorridas nas últimas três ou quatro décadas. As obras que apresenta prolongam a série das «portas» que mostrou no CCB, em «Para Heiner Muller». O catálogo geral desta exposição inclui um ensaio de Alexandre Melo intitulado «O fim ou o princípio», crítico das concepções teleológicas sobre os fins da história, da arte, da pintura, etc e onde se considera a situação artística presente em termos de sobreposições, cruzamentos e pluralidades.

Nas representações nacionais presentes em Veneza, podem destacar-se, em função da notoriedade internacional dos artistas participantes e entre as mais numerosas presenças «excêntricas» , as seguintes:
Bélgica, Thierry de Cordier;
Brasil, Jac Leirner e Waltercio Caldas;
Canadá, Rodney Graham;
França, Fabrice Hybert;
Alemanha, Gerhard Merz e Katharina Sieverding;
Grã-Bretanha, Rachel Whiteread;
Federação Russa, Vitaly Komar and Alexander Melamid, residentes nos Estados Unidos (recentemente apresentados na Gulbenkian através do projecto sobre «a pintura mais desejada»);
Espanha, Joan Brossa e Carmen Calvo, mantendo a tradição de apresentar um artista histórico e outro mais jovem;
Suiça, Helmut Federle e Urs Frei (numa igreja de Veneza).

Os Estados Unidos estão presentes com Robert Colescott, um artista negro (aliás, afro-americano) de 71 anos, praticamente desconhecido no exterior.
Colescott (Oakland, Califórnia, n. 1925) estudou em Paris com Fernand Leger e viveu depois no Cairo, antes de vir a representar um papel significativo do renascimento da pintura figurativa na West Coast durante os anos 60. Desde meados de 70 passou a fazer na sua obra referências directas à sua experiência de afro-americano, incorporando imagens da cultura popular ou paródias raciais de obras primas da história da arte.

A colectiva de Germano Celant é uma exposição destituída de um claro projecto selectivo, em consequência do limitado tempo de concepção. Tratar-se-à de apresentar o panorama actual da criação como um firmamento ocupado por «estrelas» de três ou quatro gerações, que detêm brilho próprio e não podem ser agrupadas em tendências ou orientações colectivas. Em termos cronológicos, o percurso inicia-se com dois artistas afirmados nos anos 50 e na proximidade do expressionismo abstracto, Agnes Martin, nascida em 1912 e de origem canadiana, e o italiano Emilio Vedova (1919), que foram distinguidos com dois Leões de Ouro pela sua contribuição para a arte contemporânea — obras dos dois pintores podem ser vistas no Museu de Sintra.
Revelados a partir dos anos 60 e desde a arte Pop, estão presentes com obras recentes e por vezes inéditas, entre outros, Claes Oldenburg, Jim Dine, Roy Lichtenstein, Edward Ruscha,  Artschwager, Sol LeWitt e Baldessari, Panamarenko, Gino De Dominicis, Giulio Paolini, Luciano Fabro, Zorio e Merz, Buren, Jan Dibbets, Brice Marden, Richard Tuttle, Marina Abramovic, Ann Hamilton, Rebecca Horn, Ilya Kabakov, Gerhard Richter e Anselm Kiefer, Langlands & Bell, Bertrand Lavier, Annette Messager, Franz West, Julian Schnabel, Robert Longo, Francesco Clemente, Tony Cragg, Jan Fabre, Jeff Koons, Haim Steinbach,  Wolfgang Laib, Luc Tuymans, e ainda  Vanessa Beecroft, Dinos and Jake Chapman, Douglas Gordon, Marie-Ange Guilleminot,  Mariko Mori, Maria Nordman, Pipilotti Rist e Sam Taylor Wood.
         

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sábado, 17 de junho de 1995

1995 Bienal de Veneza, Jean Clair


Veneza 1995

No ano do centenário da Bienal, o ano de Jean Clair, Portugal esteve representado por José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes, sendo comissário José Monterroso Teixeira, então director de Exposições do CCB.

Publicaram-se à data duas noticias sobre a representação portuguesa (chegara a convidar-se Paula Rego e Álvaro Siza para projectar o Pavilhão de Portugal) e dois textos extensos sobre a bienal, em semanas consecutivas.

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"Veneza, Cem anos de guerrilha"

EXPRESSO/Revista de 17-06-95

A Bienal de Veneza faz cem anos, mas, mais do que a celebração do centenário, esta é a bienal de Jean Clair, o primeiro estrangeiro a ser nomeado director do sector das artes visuais da Mostra e, certamente, o mais polémico personagem de todo o actual universo artístico. Polémico, note-se, já não significa o mesmo que vanguardista, numa situação geral em que «a tradição do novo» é promovida directamente pelos museus e outras instituições oficiais: quando a inovação ou «arte jovem» são o centro e não as margens do sistema, o que é controverso, hoje, é afirmar uma relação de distanciamento crítico perante as regras de funcionamento do mundo da arte.

Director do Museu Picasso de Paris e especialista de Marcel Duchamp, ex-crítico de vanguarda — hoje tratado como reaccionário e «arrependido», ou «conhecido pelas suas reservas perante as novas gerações e sobre a própria definição da modernidade», segundo uma informação oficial francesa —, ensaista de formação psicanalítica, Gérard Regnier/Jean Clair foi o organizador das grandes exposições do Centro Pompidou sobre Duchamp, Magritte, Balthus, Bonnard e também das mostras retrospectivas «Les Réalismes, 1919-1939» e «Vienne, L' Apocalypse Joyeuse».
A sua ruptura com o «mainstream» fez escândalo em 1983, graças à publicação de Considerations sur l'État des Beaux-Arts — Critique de la Modernité, um panfleto por vezes excessivo e obviamente nostálgico onde fazia um terrível balanço do «progresso» das artes, da «tradição da ruptura» instituída pela modernidade e também da própria modernidade, enquanto estética da «innovatio», como um dos dois grandes flagelos do primeiro meio século (o outro foi o nazismo). À «institucionalização acelelerada de novas categorias estéticas como o não-importa-o-quê e o quase-nada», que dominariam o curso da arte desde os anos 60, contrapunha Jean Clair o «regresso ao 'métier' e à figura», defendendo a ideia de renovação, que não rejeita a tradição, como base de um possível «renascimento», contrário à fatalidade hegeliana da morte da arte.
Colocar Jean Clair à frente da Bienal «é como entregar um jardim de infância à guarda de Herodes» — assim resumiu um crítico italiano toda a expectativa que antecedeu a inauguração. O balanço crítico dos estragos e a previsão dos seus efeitos a longo prazo serão agora terreno aberto para a contraposição de diferentes pontos de vista, se não vingar a táctica do silêncio que tem respondido a muitas outras vozes incómodas, como as de Octavio Paz, Robert Hughes, Thierry de Duve, Rainer Rochlitz, etc.
De qualquer modo, parece inquestionável que o papel central de Jean Clair nesta Bienal resulta tanto da importância excepcional da mega-exposição histórica que directamente organizou para Veneza, como da notória fragilidade da grande maioria obras apresentadas nos pavilhões nacionais e nas muitas exposições paralelas que compensaram a suspensão do «Aperto», o sector oficial dedicado desde 1980 aos jovens artistas.

ANTROPOMETRIAS

O centenário das Exposições Internacionais de Arte (a designação Bienal de Veneza inclui, de facto, os festivais anuais de cinema e os outros programas bienais dedicados ao teatro, à música e, mais recentemente, à arquitectura) podia ter proporcionado uma edição rendida à auto-celebração do passado da Mostra ou uma revisitação conformista da história do século através de um qualquer inventário de obras-primas ou de movimentos artísticos.
Jean Clair, no entanto, conseguiu evitar os riscos de um programa apenas comemorativo, apropriando-se da tradição temática das últimas bienais para apresentar uma gigantesca exposição em que o itinerário retrospectivo constitui, de facto, a defesa  de uma original e polémica reconsideração da história, pensada contra a tradição formalista, e é também uma desencantada meditação sobre o «declínio» que, cem anos depois, se sucederia à decadência do anterior «fin de siècle».
«Identidade e Alteridade — Imagens do Corpo, 1895-1995» é um projecto onde Clair retoma o tema da exposição «L'Âme au Corps», que apresentara em Paris, no Grand Palais, no final de 1993, partindo do estudo da inter-relação das formas de representação do corpo humano nos territórios das artes e das ciências (que nunca foram estanques). O itinerário vai do positivismo e do triunfo da antropologia normativa, que vieram dar o golpe de misericórdia ao últimos vestígios do culto das proporções ideais dos modelos clássicos, até uma actualidade que seria definida quer pelas novas tecnologias da imagem digitalizada e interactiva, quer pela «predominância dos temas da doença, do sofrimento, do sexo impossível e da morte» (J.C.).
Toda a exposição é marcada por uma defesa acerba da permanência dos temas da figura humana, em especial do nu e do auto-retrato, ao longo de um século visto como dominado pelo império da abstracção, que Clair tende a ver apenas como um afloramento de uma pulsão iconoclasta também permanente através dos tempos, valorizando no seu desenvolvimento alguns artistas, ou fases das suas obras, que são habitualmente excluídos da história canónica das inovações. Mas quem esperava a ilustração de um novo «regresso à ordem» encontra um trajecto guiado por uma interrogação trágica sobre a dificuldade crescente dessa vontade de representação do corpo, entre os dados da informação científica e da fotografia, a tentação da máquina e os desastres da guerra, as normas totalitárias e as pulsões da abjecção, no qual se incluem numerosos artistas com projecção nos anos mais recentes. Afinal, a exposição parece mais identificada com o «espírito do tempo», na sua evidente atracção pela escatologia e pela violência, do que com a sacralização da história e das disciplinas tradicionais.
Distribuida em três núcleos (Palácio Grassi, Museu Correr e Pavilhão Itália, com uma extensão e uma importância que justificam uma próxima abordagem autónoma), a exposição conta ainda com uma produção anexa, «O Eu e o seu Duplo», dedicada a «Um Século do Retrato Fotográfico em Itália». Afinal, 1995 é também o ano do centenário do bilhete de identidade, tal como da descoberta do raio X, da radiactividade e do cinema.

É uma outra grande exposição, essa promovida pela Comuna de Veneza, que pretende ser a directa evocação do passado da Bienal, através de alguns dos seus momentos mais fortes, das consagrações oficiais e das aquisições para os museus italianos, dividida em dois núcleos complementares dedicados à pintura e escultura, desde 1895 até 1968 (no Palácio Ducal), e às artes decorativas, que estiveram presentes na Bienal até 1972 (em Ca'Pesaro).
«Veneza e a Bienal: Itinerários do Gosto» é um muito interessante olhar sobre as convenções académicas dos primeiros tempos da Mostra e sobre a sua lenta abertura a outras inquietações artísticas (e, por ausência, também sobre as relações de rejeição de correntes como o cubismo, o futurismo e a abstracção), sobre as distâncias entre a tradição italiana e a afirmação de novos valores internacionalistas, mantidas até ao final da 2ª Guerra, e, em geral, sobre a relatividade da ideia de obra-prima. A importância do simbolismo no processo italiano de oposição ao academismo dos Salões e a prolongada especificidade de uma produção plástica que, sob complexos circunstancialismos políticos, tentou manter uma ligação viva com os exemplos clássicos são outros dados curiosos que se impõem ao espectador, numa exposição que não visa exactamente uma celebração da arte italiana, mas em que também dominam os temas do corpo e se insinua, por outro lado ainda, a questão essencial da relação interrompida entre as «artes maiores» e as artes decorativas.
São questões afins que marcam o pavilhão italiano, onde as presenças do cenógrafo Pier Luigi Pizzi e do estilista Roberto Capucci motivam estranhas contestações. Acompanhado pelo comité de consultores da bienal (Maurizio Calvesi, Gillo Dorfles, Gabriella Belli, Giulio Macchi e Hans Belting), Clair apresenta um conjunto heteróclito de artistas, onde as suas escolhas pessoais se encontram entre as mais controversas — Ida Barbarigo, Ruggero Savinio e um Vito Tonguiani cuja estatuária desportiva não é fácil de distinguir dos realismos totalitários. Em geral, parece querer-se documentar, acima de tudo, a diversidade das gerações e tendências  que coexistem no terreno, de Clemente à escola dos anacronistas em versão neo-metafísica (Paola Gandolfi, Stefano Di Stasio), da tradição abstracta à versão kitsch dos «nuovi-nuovi» (Luigi Ontani), numa reafirmação da autonomia italiana perante as circulações internacionais ou, em última instância, numa oposição provocatória face ao ritmo de visão imposto pelas circunstâncias próprias de uma mega-exposição.

PRÉMIOS

Mas a 46ª edição da Bienal (houve interrupções durante as duas guerras, atrasando a numeração do centenário) são também os 31 pavilhões estrangeiros presentes nos Giardini, mais as representações de outros 19 países que ocupam galerias, igrejas e palácios da cidade — como sucede com Portugal, regressado a Veneza depois de uma última participação em 1986. E ainda as incontáveis iniciativas paralelas com que os países mais ricos desdobram as suas representações e propõem os seus mais jovens artistas. Como dar conta dessa diversidade infindável de participações individuais, de referências culturais mais ou menos exóticas, de gerações e de projectos, num tempo que não parece propício à renovação dos estilos colectivos?
A lista dos prémios oficiais pode constituir uma primeira linha de abordagem, em que se volta a deparar com a forte influência de Jean Clair, ainda que este tenha afirmado a sua discordância com a atribuição de distinções: «Reinstauremos os prémios a partir do momento em que o academismo seja restabelecido nas artes plásticas. Numa situação em que não há ensino, excepto o ensino da dúvida, se tal coisa pode existir, a ideia de um palmarés não tem rigorosamente nenhum sentido» (in «Journal des Arts»). Para o director da Bienal, esse futuro academismo será «o regresso a uma comunidade de indivíduos participando de uma mesma profissão (métier) e partilhando os mesmos ideiais». 
De qualquer modo, um juri oficial em que se destacaram a presença do espanhol Thomas Llorens e a ausência de Robert Hughes, ainda anunciado nos catálogos, atribuiu os leões de ouro de pintura e escultura a Ronald B. Kitaj e a Gary Hill, ambos apresentados na exposição histórica, e o do melhor pavilhão ao Egipto.
Em Kitaj, pintor americano exilado em Londres e Paris, que esteve no início dos anos 60 associado à afirmação da Pop britânica, foi distinguida «a coerência de uma pesquisa que redescobre no 'Moderno' os trilhos da pintura europeia e traz uma nova abertura à imaginação colectiva», representada com obras dos anos 76-77 e 84, entre outros artistas que cultivam a pintura de modelo vivo, como Hockney, Lucien Freud, Lopez García e Avigdor Aricka. Mas a distinção também teve certamente em conta a retrospectiva que circulou no ano passado por Londres, Nova Iorque e Los Angeles (sendo, aliás, objecto de uma hostilidade da crítica britânica que atingiu proporções raras) e o próprio papel de Kitaj em defesa da figuração e da pintura da «Escola de Londres», por ocasião da exposição «The Human Clay», de 1976, cujo título é retomado por J.C. nessa secção da mostra retrospectiva. Ao lado de Hockney e Aricka, Kitaj é realmente um dos maiores pintores vivos, e também um dos menos vistos.
Por seu lado, Gary Hill, também norte-americano, será um exemplo maior da necessidade de continuar a interrogar a presença e a representação do corpo através das novas tecnologias da imagem. Comparece com uma instalação inédita, Wither Shines, em que dois ecrãs limitam um espaço negro cujo chão é ocupado por um labirinto de barras de aço,  onde a passagem dos espectadores desencadeia a audição de um texto bíblico; tal como na obra que se pôde conhecer em «Multiplas Dimensões», no CCB, os meios mais sofisticados são utilizados com uma deliberada depuração de efeitos, fazendo da presença física  a origem de uma inquietante interrogação sobre a eficácia da imagem e da comunicação.
Entretanto, o mesmo interesse pelas pesquisas tecnológicas justificará também três das menções honrosas concedidas a Richard Kriesche (Austria), Jehon Soo Cheon (Coreia) e Hiroshi Senju (Japão), que apresentavam instalações com recurso à processos informáticos, ao vídeo e à fotografia microscópica (ver foto). Uma outra menção faz a sempre conveniente distinção de um italiano, Nunzio, enquanto a irlandesa Kathy Prendergast mereceu o prémio para um artista de menos de 40 anos, atribuibuido a uma série de pequenos mapas desenhados onde a malha urbana se pode ver ambiguamente como ilustrações anatómicas — o corpo, de novo.
Claramente político, ainda que as obras expostas consiguam controlar as marcas do exotismo e da produção dependente que são tão comuns aos países periféricos, é o Leão de Ouro atribuido ao Egipto, cujo pavilhão, segundo o juri, «propõe com êxito a integração num complexo itinerário arquitectónico da obra de três jovens artistas que associam a tradição da arte moderna ocidental com antigos modelos da cultura egípcia». Único representante do mundo árabe, o Egipto é um país fortemente ameaçado pela pressão do fundamentalismo, que no discurso de Jean Clair surge como uma nova e muito próxima ameaça iconoclasta que paira sobre a Europa: «Quando vemos o que se passa na Argélia... é todo este nosso sistema cultural centrado sobre o culto da imagem que pode, dentro de dois ou três decénios, ser totalmente varrido.»

GEOGRAFIAS

Entretanto, a apresentação de artistas consagrados revela-se uma estratégia comum a vários países — não se sabe se em resposta à crise, se como aproximação ao possível gosto de Jean Clair. É o caso do escultor César, apresentado pela França, que consegue ainda surpreender quem já não esperava mais do que a repetição de um formulário vulgarizado. Uma acumulação de compressões de automóveis com 540 toneladas (o título) impõe a sua monumentalidade no espaço interior do pavilhão com um poderoso acerto de escala e também com a energia de uma certa picturalidade assumida pela parede de sucata; em paralelo, alguns esmagamentos parciais de Citroen ZX novos, negros e reluzentes, oferecidos pela marca, apresentam-se como peças de parede, formalmente eficazes e impressivos como manifestação de um consumo absurdo.
O pavilhão britânico, por seu turno, apresenta uma vasta antologia de Leon Kossoff, outro dos pintores da «Escola de Londres», em cujas telas se repete obsessivamente um reduzido leque de opções temáticas directamente referidas a um quotidiano pessoal — retratos, nus, paisagens urbanas vista da janela, estações de metropolitano —, tratadas com pesadas sobreposições de matéria e um desenho esquemático. Nessa contradição insinua-se a ideia de uma construção laboriosa e o congelamento de um estilo, embora se esteja sem dúvida perante um respeitável pintor.
Mais débeis são as opções históricas da Espanha, com o pintor Eduardo Arroyo e o escultor Andreu Alfaro a revelarem apenas grandiosas condições de produção. Takis, apresentado pela Grécia, encerrou o pavilhão com uma pose contestária, destituida de sentido para quem souber que a sua obra há muito se orientou para a intervenção em espaços exteriores; a originalidade das construções electromagnéticas ou dos sinais luminosos e sonoros, afirmada desde os anos 60, mereciam uma mais bem calculada representação.
Outro escultor consagrado, esse americano de ascendência italiana, Mark Di Suvero, ocupa com sete gigantescas obras as margens do Grande Canal, num projecto acolhido pela bienal à margem da representação oficial. As pesadas vigas de aço industrial elevam-se com a leveza de desenhos construidos no espaço, que, por vezes, a cor vermelha acentua ainda mais, associando a monumentalidade da escala urbana a elementos móveis que baloiçam lentamente com o vento. Entretanto, o pavilhão dos Estados Unidos é ocupado por uma série de instalações video de Bill Viola, pretenciosas ou dificilmente observáveis nas condições de um desfile constante de espectadores.
Na mesma área do vídeo é particularmente curioso o pavilhão da Suiça, onde Peter Fischli e David Weiss apresentam os seus Arquivos Panópticos, visíveis em 12 ecrans tv em emissão permanente. São cerca de 80 gravações de mais de cem horas de registo, feito em tempo real, de viagens ou de observação de situações de trabalho, lazer, espectáculo, desporto, etc: «em vez de tornar visível o invisível, como pretende a tradição da arte, F. & W. tornam invisível o visível (o quotidiano), registando-o nas suas longas sequências filmadas» (do catálogo). Com uma aparente natureza de «ready mades», repousantes no imenso itinerário da Bienal, os filmes contrariam os efeitos estetizantes geralmente procurados pela arte-video e ganham a cumplicidade do espectador numa situação em que toda a expectativa é anulada a favor de uma continuidade não ficcional, neutra e inexpressiva.
Entretanto, um outro artista suiço, Christian Marclay, ocupa toda a nave de uma igreja com gigantescas ampliações de banais fotografias de amadores, impressas sobre finíssimos véus, mostrando-se as respectivas provas originais em cada um dos altares. Aqui, uma mesma indiferença das imagens apropriadas, testemunhos de situações privadas, contrapõe-se a uma eficaz ocupação de um espaço carregado de outros sentidos.

DESCOBERTAS

No plano das descobertas gratificantes, raras na bienal, situa-se o artista dinamarquês John Olsen (1939). Apresenta uma muito extensa produção de desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, «assemblages» e vitrinas de objectos encontrados, que constituem um universo original de criações intimamente ligados a uma existência solitária de caçador e recolector, à margem da cultura urbana. Cadáveres de animais, plantas mortas e materiais muito diversos consumidos pelo tempo e pelo mar são absorvidos numa prática de apropriação e reciclagem permanente, que parte de referências de uma formação artística tradicional (mais evidente no desenho) para o despojamento de uma experiência muito directa dos ciclos da vida e da natureza. As esculturas partem da observação de formas animais e ganham uma gravidade estranha nas suas escalas monumentais (ver «Sumário»).
No pavilhão do Brasil, Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) é a revelação de um original criador «alienado», internado durante 50 anos numa colónia psiquiátrica. As peças bordadas que sintetizam memórias pessoais associam-se, como inventário do mundo e preparação meticulosa da morte, a outros objectos insólitos que são surpreendentemente próximos das montagens, acumulações e relicários da tradição erudita, mas que se vêem com um acréscimo de ingenuidade e aparente humor.  Outro brasileiro, Nuno Ramos (S. Paulo, 1960), apresenta obras que se identificam como marcas fossilizadas de animais, em lages de pedra arenosa e numa barroca moldagem em alumínio.
Quanto a Portugal, as presenças de Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes e José Pedro Croft constituem a representação correcta (e possível no seu curtíssimo tempo de preparação) da energia que se reconhece à actual escultura nacional. As peças reeditam problemáticas experimentadas e mostram-se numa galeria da Praça de São Marcos que é fronteira à esplanada do frequentadíssimo Café Florian, o que garantiu à inauguração as presenças convenientes, apesar da dificuldade de um acesso oculto. O que mais importa é, afinal, o regresso a Veneza  e a perspectiva da construção de um pavilhão próprio nos Giardini, que Santana Lopes terá deixado confiada a Siza Vieira — espera-se agora que a desarticulação entre o comissariado pessoal de José M. Teixeira e as competências oficiais do Instituto Português de Museus, bem como os condicionalismos da troca de governos, não inviabilizem uma consideração oportuna do projecto.
Outra inesperada presença portuguesa é de João Tabarra, com uma fotografia utilizada no desdobrável-cartaz que anuncia o «Aperto 95», iniciativa com que três dezenas de centros de arte europeus, da Espanha à Austria, resolveram responder ao cancelamento da secção veneziana dedicada aos novos artistas, colocando sob aquela designação as suas programações de Verão.
A oposição mais visível a Jean Clair acabou, aliás, por concentrar-se na questão da anulação do «Aperto», respondendo o director da bienal com argumentos de ordem financeira ou burocrática e também com críticas dirigidas aos critérios de selecção das suas últimas edições. O local utilizado pelo «Aperto», o Arsenal, seria um espaço sem condições museológicas mínimas e, por isso mesmo, condicionava «subrepticiamente, insidiosamente» a apresentação de um único tipo de práticas, as instalações de obras efémeras e «site-specif». Clair lembrou também que «a modernidade fez-se em grande medida contra a Bienal», durante os seus muitos anos de exclusão das vanguardas, dizendo ver com bons olhos a possibilidade desta sua edição, que pretendia «coerente, forte e discutível», vir a gerar reacções e anti-corpos.
No entanto, o peso da história e a ausência do «Aperto» são já contrariados em Veneza por uma profusão de exposições paralelas, promovidas por diferentes países e acolhidas no programa oficial. É o caso de umamuito infeliz mostra francesa comissariada por Jean-Yves Jouannais, «História da Infâmia», dedicada a lançar «o descrédito sobre a obra-prima e a ridicularização do objecto de arte». A propósito, deve ler-se o número de Junho da revista «Art Press», de que é o chefe de redacção, para conhecer a dimensão da esquizofrenia instalada nos meios da arte — Catherine Millet, directora da mesma publicação, foi a responsável pela escolha de César e excede-se na sua resposta às defesas dos artistas «jeunnnes» (sic) e «vanguardisticamente correctos».
Outra mostra, patrocinada pelo Arts Council, reune em «General Release» alguns novos ingleses. Passa-se por aí do  humor fatigado e da subservão institucionalizada dos franceses para a aplicação escolar, sempre apoiada por protocolos escritos que justificam o desejo de sentido dos exercícios. Jane e Louise Wilsom, vistas nas Jornadas'93 do Porto, apresentam inquietantes fotografias de universos de pesadelo: a sua obra «é psicótica, psicadélica e psíquica» (sic) e interpreta as ruas tortuosas de Veneza «como uma metáfora arquitectónica do labirinto da insignificância». Os frascos de Adam Chodzko (na foto) são «uma interpretação das perdas fisiológicas que ocorrem na busca da experiência extrema». Na pintura de Gary Hill «os temas são claramente identificáveis, mas a nova iconografia do artista opõe-se a qualquer forma de conclusão lógica». Elizabeth Wright fotocopia as listas telefónicas de Veneza com uma redução a 65 por cento do formato para «reportar os objectos quotidianos a uma imagem de si próprios». Etc.
Mais radical, na via de uma indiferenciação total dos objectos e de uma desrazão essencial de todas as práticas artísticas, é uma colectiva de holandeses e flamengos, «Among Others», promovida pela Fundação Mondrian. O jogo compulsivo, a acumulação de restos, o desvio das funções imperam como actividades que prescindem de forma e de sentido para se reinscreverem, apenas como acções, numa realidade caótica.



Veneza 1995 - 2

O 2ºartigo sobre a 46ª Bienal de Veneza de 1995, sobre a exposição central, IDENTITY AND ALTERIY - FIGURES OF THE BODY 1895/1995, comissariada por Jean Clair.

"Corpo a corpo" 

EXPRESSO/Revista 24 -06 - 95

Com a aproximação do fim da década, vão multiplicar-se os projectos retrospectivos sobre a arte do século XX. Mas, se o centenário da Bienal oferecia a Jean Clair a oportunidade de uma primeira revisão da história da modernidade, o polémico director do Museu Picasso não ficou subjugado às regras dos inventários de obras-primas.
«Identidade e alteridade — Imagens do Corpo, 1895-1995» não é nem pretende ser uma síntese de toda a arte do século, embora tenha conseguido reunir em Veneza (até 15 de Outubro), graças ao prestígio do seu autor, um acervo irrepetível de 600 obras vindas de todo o mundo, do MoMA de Nova Iorque ao Ermitage de Moscovo, que ficará como um incontornável ponto de referência.


Exposição temática, ela afirma a importância central, ao longo de um século que costuma ser visto sob o signo da abstracção, da representação do corpo e do rosto, em especial do nu e do auto-retrato, constantemente investidos pelos artistas como uma necessidade íntima e inexplicada de confronto consigo mesmo e com os outros — quer através da continuidade das disciplinas tradicionais, a pintura e a escultura, quer em novos «media» como a fotografia e o vídeo, a «acção» e a instalação.
Reinterpretação da história da arte recente, entre tradição e ruptura, e não simples regresso a uma ultrapassada contradição entre figuração e abstracção, a exposição do centenário é deliberadamente parcial e provocante, enquanto afirmação de um ponto de vista e mesmo de um gosto pessoal que se verá como uma nova batalha de um itinerário crítico dirigido há anos contra as versões redutoras da modernidade (ver edição anterior da «Revista»). É uma história oposta às versões banalizadas desde o final da 2ª Guerra, a partir do eixo Paris-Nova Iorque, que se identificam com um processo linear desde Cézanne ao cubismo e à abstracção, depois às neo-vanguardas dos anos 60, numa sequência de cortes definitivos com a tradição, desconstruções das convenções e reducionismos constantes, até um eventual fim anunciado da arte que seria também, com a impossibilidade de novos -ismos, a emergência pós-moderna, regressiva ou paródica, de uma diversidade pós-histórica.
Exposição a diversos títulos problemática, ela poderá ser vista ainda como uma resposta ao «progressivo» estreitamento do território da arte ao universo dos seus especialistas profissionais, porque o desaparecimento do público não é uma consequência indiferente de uma história que passou (sem dilacerantes rupturas...) da subservão à institucionalização das vanguardas, cujas obras, aliás, se deveriam esgotar no próprio poder de negatividade e rarefacção estética. Importa saber que, apesar da democratização da cultura, do turismo e indústrias culturais, os visitantes da Bienal foram decrescendo dos 450 mil de antes da 1ª Guerra para menos de cem mil na década de 90.

NORMAS

A releitura da lugar do corpo na arte do século XX, desocultando, em grande medida, o não visto ou o recalcado, é uma aposta na defesa de certos artistas excluídos do discurso museológico dominante por serem inclassificáveis ou marginais em relação a uma história rectilínia (Beckmann, Stanley Spencer, Gaston Lachaise ou Arikha), na valorização das maturidades e dos itinerários longos, contra a prevalência das fases de afirmação e juventude (Picasso e Bonnard, De Chirico e Kokoschka), na revelação das rupturas individuais contra os interditos modernistas, tantas vezes censuradas ou desentendidas (Malevitch e Giacometti, Pollock e Guston), bem como na descoberta da produção originária de países periféricos, nomeadamente os do centro da Europa, aliás, segundo um exacto entendimento de Veneza como eixo de cruzamentos entre Oriente e Ocidente, entre a tradição católica da imagem sensorialmente exuberante e o diferente valor cultual do ícone bizantino. 
Esse retorno permanente ao tema, às obsessões e também às próprias formas do corpo, regresso compulsivo do mesmo e interrogação sempre renovada da imagem própria e do outro, relação carnal que é também a experiência directa da presença do sexo e da morte, da máscara e da doença, não é, no entanto, a história pacífica de uma mera continuidade da tradição — o corpo do século XX, segundo demonstra Jean Clair, não é nunca o dos modelos clássicos congelados pela Academia, mas um novo corpo de que no final de 800 se apropriaram as ciências experimentais, a antropologia normativa e também a psicanálise.
Militante anti-formalista, atento às questões do conteúdo e do sentido da «vida das formas», Clair considera a arte como uma das dimensões da história das ideias e, por isso, o seu programa expositivo, de facto multidisciplinar, é construído sobre uma permanente referência ao avanço dos conhecimentos e das técnicas, e, em especial, às respectivas consequências  sobre as linguagens artísticas, sobre as convulsões da política (as guerras, a emergência das utopias, os totalitarismos) e ainda sobre as mutações mais imprecisas do que se pode designar como «espírito do tempo», numa longa viagem entre dois fins de século — entre decadência e declínio, na sua perspectiva desencantada.
O horizonte cronológico de partida, a primeira Bienal, é sinalizado como uma data marcante da história das ciências e das mentalidades. Nesse ano surgem as fotografias com raio X do interior do corpo e discutem-se as provas científicas do Santo Sudário, descobre-se o cinema, generaliza-se o uso do bilhete de identidade, em ligação com a antropometria judiciária e criminal, que estende uma mesma confiança reformadora na classificação e na norma às questões do génio, da criminalidade e da loucura; Charcot publica os estudos sobre a histeria e Freud troca a neurofisiologia pelos caminhos da ciência dos sonhos. Em pleno triunfo do cientismo positivista, com a sua crença de que a essência do ser humano se pode reduzir a um certo número de dados físico-químicos, quantificáveis, a voga das «maravilhas da ciência» prolonga-se numa vaga imensa de espiritualismo, que compreende as versões mais fantasmagóricas do espiritismo e do ocultismo (e de que partilham Mondrian e Kandinski, Kupka e Boccioni).
Sobre o simbolismo que domina o final de 800 e as realidades invisíveis que a ciência desvenda estabelecem-se as pontes para uma representação do imaginário que conduz à pintura abstracta; a cronofotografia (Marey) disseca o movimento dos gestos, e Degas e Eakins tomam-na por modelo, antes que os futuristas a traduzam em vertigem da velocidade; as matemáticas e a quarta dimensão alteram a representação do espaço e do tempo, na sequência directa das experiências sobre a visão da cor dos pós-impressionistas. O triunfo da antropologia normativa, com os inventários fotográficos de Bertillon e de Lombroso, prolonga-se com a acção de Paul Richer, professor de anatomia na Escola de Belas Artes de Paris, num gigantesco esforço de fixação de novas medidas das proporções humanas. Mas artistas como Munch, Ensor ou Gerstl vão opor a «reivindicação expressionista» a essa dinâmica normalizadora e as Demoiselles de Avignon constroiem-se sobre inúmeros estudos que questionam a possibilidade de novos cânones para o corpo.

ABISMOS

Seguindo um percurso cronológico definido — o positivismo (1895-1905), «a incoerência da vanguarda» (1905-15), «em direcção ao homem novo» (1915-30), «artes totalitárias e arte degenerada» (1930-45), o pós-guerra (1945-62), etc —, a exposição justapõe objectos com diferentes estatutos que permitem, ou não, distinguir a obra de arte da representação científica, da máquina e das imagens popularizados pelas novas técnicos. As experiências de medida e moldagem do corpo surgem referidas nas antropometrias de Klein ou nos retratos de Chuck Close, a maleta antropométrica de Bertillon vê-se ao lado de Stoppages Étalons  de Duchamp, as fotografias espíritas aproximam-se de imagens simbolistas, os desastres da guerra registados pela medecina confrontam-se com as suas versões artísticas,  as representações da histeria prolongam-se na obra recente de Louise Bourgeois, as primeiras fotos feitas numa morgue contrapõem-se às de Serrano, e mais do que a cor e a diferença de escala importa aí o peso da actualidade, a sida. Nesse trânsito entre objectos e tempos, é também a desconstrução da novidade que Clair persegue, opondo inovação e originalidade, e entendendo esta, sobre a raiz etimológica, como diferente regresso às origens.
Por outro lado, a sucessão dos núcleos históricos é interrompida por salas temáticas dedicadas ao auto-retrato, à representação da morte («ars moriendi») e do sexo («ars amandi») — e nestes três tópicos se condensa, afinal, toda a interpretação subjacente à mostra de Clair, uma viagem aos abismos do humano guiada por um autor que toma a figura da Medusa, emblema do sexo e da morte, como o exacto paradigma da visão do artista (em Méduse, 1989).
Aliás, a exposição inicia-se sob a dupla invocação do que foi o primeiro escândalo moral da Bienal e da Homenagem a Cézanne, de Maurice Denis (1900). Il Supremo Convegno, de Giacomo Grosso, reduzido a um único rosto sobrevivente (enquanto a mostra «Veneza e a Bienal, Itinerários do Gosto» se inicia com a exibição de uma réplica), é uma composição académica onde cinco mulheres nuas rodeiam com poses lascivas o caixão de um homem, que mereceu do então patriarca de Veneza a imediata condenação da Bienal. A Homenagem, por outro lado, é tanto uma referência ao mestre da pintura moderna como a memória da experiência perdida dos grupos de artistas, servindo de passagem, através de uma série de retratos colectivos, para um primeiro espaço temático dedicado ao trânsito da academia ao café (Dix e Kokoschka, Immendorff e o Caffè Greco de Guttuso), como dissolução da comunidade artística, outra ideia recorrente no discurso do comissário.
Com a sua exposição,  Clair interroga-se «por que se tornou tão difícil representar a singularidade de um corpo» quando toda a arte precedente o conseguia fazer com um júbilo que continua hoje a perturbar os visitantes do museu. De certo modo, é a dificuldade dessa vontade de representação que aqui se sumaria, por vezes com opções questionáveis que levam a privilegiar a evidência maneirista dessa mesma dificuldade, traduzida na densidade dos empastos (Freud, Kossoff, Leroy), tal como se acentua na sua antologia o gosto por uma visão torturada do corpo, como fragmento, ferida, decadência, sacrificando alguns outros exemplos maiores em que se afirmaria o prazer feliz dos corpos, a sua integridade e pujança sensual. «Neste fim de século, o clima da arte e da sociedade é razoavelmente mórbido» justifica J.C.
Depois das vanguardas, o itinerário equaciona toda a complexidade do primeiro pós-guerra segundo os eixos de uma figuração que hesita entre o optimismo da máquina, tomando o robot como padrão do homem novo, e os modelos clássicos visitados por um impossível «regresso à ordem», de que os manequins de Chirico são a melancólica interrogação.  Momento particularmente impressivo do percurso é, depois, a secção dedicada ao período de 1930 e 1945, onde as imagens do líder (Mussolini e Kirov) e dos corpos idealizados pelas normas totalitárias (Adolf Wissel e Samochvalov) se contrapõem aos auto-retratos dos «artistas degenerados» (Kokoschka e Felix Nussbaum) e, com uma máxima violência, às imagens do extermínio recordado por Zoran Music. A outra face dos mesmos anos é a da «beleza convulsiva» dos surrealistas, na explosão erótica de Lachaise e Spencer, ou no corpo distorcido por Kertesz e desmembrado por Picasso.
O segundo pós-guerra é revisto nas suas problemáticas cruzadas, em que a inquietação existencialista emparceira com um novo realismo militante, sobre a impossibilidade da figuração dos Otages de Fautrier ou os homúnculos de Dubuffet. O «eclipse do rosto» está também presente quer num monócromo negro de Rauschenberg e no gesto iconoclasta do apagamento de um desenho de de Kooning, em 53, quer na tela branca (Achrome) de Manzoni, em frente de Hélion e Artaud.  Mas a presença central é já a de Pollock, visto na junção de uma abstracção «clássica» e da emergência de um rosto, na sua final volta à figura, sobre a mesma técnica do «dripping».

SEXOS

É um «regresso ao corpo» (1962-1985) que se afirma mais plenamente numa segunda sala em torno de nove Donne di Venezia de Giacometti, com Gruber, Balthus e Bacon, Kossoff e Eugène Leroy, com outra presença indispensável de Picasso. Mas é ao paralelismo da pintura de Baselitz e Philip Guston, na sala seguinte, que o comissário chama «o ponto de viragem, 1962-73». O alemão volta ao retrato, não-naturalista, invertendo o quadro e o americano, ao abandonar o expressionismo abstracto, representa-se sob a máscara da Ku Klux Klan a desafiar a intolerância da crítica.
A seguir, a secção «Human Clay» (barro humano) retoma o título da exposição pioneira que Kitaj organizou em 76. Aí estão Hockney, com os retratos duplos dos anos 70 e com uma última série de desenhos onde a procura de uma interioridade psicológica sobreleva o virtuosismo do traço; o próprio Kitaj, que seria distinguido com o prémio máximo da Bienal para a pintura, presente com os retratos «diasporistas»; Freud, o espanhol López Garcia e esse pintor admirável que é Avigdor Arikha onde a disciplina do modelo vivo se retoma com a limpidez de um recomeço, na evidência do elo («link») estabelecido «entre o olho e a mão».
Notar-se-á que Clair ignora aqui o regresso à imagem do corpo, sempre já mediatizado, que definiu a Pop Art e o hiper-realismo, não convocando, por exemplo, Wesselman e Larry Rivers ou Alex Katz e Duane Hanson, que dariam outras configurações do tema. A insistência numa visão trágica do corpo justifica também exclusões como a de Niki de Saint-Phale, e em toda a exposição descobrir-se-á numa pintura «vache» de Magritte o único afloramento consentido ao humor. 
Mas o termo do itinerário do Palácio Grassi é ainda uma sequência de falsos fins sucessivos e de novos temas em aberto, num prodigiosa encenação de espaços que contou com a direcção de Gae Aulenti. «Ars Amandi» é a conjunção de obras muito diversas em torno da representação realista ou metafórica do sexo, de Georgia O'Keeffe, Fontana e Picasso a Robert Morris e Bruce Nauman. A seguir, uma sala de fotografias estabelece um confronto de atitudes perante a nudez do corpo e do rosto, em referência à diversidade das convenções culturais, com a série dos campos de nudistas de Diane Arbus e um díptico esplendoroso e voyeurista de Helmut Newton, em paralelo com duas séries de imagens de mulheres argelinas (Gatian de Clérembault e Marc Garanger). Por último, os volumes maciços dos lutadores Nuba do nigeriano Ousmane Sow, a única presença de um artista do Terceiro Mundo proposta por Jean Clair, que rejeita a tentação do exotismo que está presente nas recentes temáticas do multiculturalismo, mostram-se diante dos monstros sanguinários, brancos, de Jane Alexander, uma artista da África do Sul. É um último confronto, de corpos e de civilizações, entre «identidade e alteridade».
Duas outros secções que acolhem jovens artistas ou expressões e processos de mais recente emergência, desde os anos 60, alargam a exposição do Palácio Grassi a outros locais, numa distribuição por vezes confusa em que se reflectem dificuldades logísticas resultantes do gosto italiano pela improvisação — um mês antes da inauguração, Clair dirigiu-se ao primeiro ministro para pôr em causa a inauguração e impôr a cedência, não prevista, do Museu Correr.
«O corpo real e virtual» é um diálogo entre abordagens do corpo e do sexo em exemplos recentes de continuidade da pintura e de uma fotografia que, depois de ter tido valor de afirmação e prova, descobre a necessidade de se pôr em dúvida como manipulação e desrealização. Aí se mostram imagens de um discurso feminista sobre a identidade sexual, de Ines van Lamsweerde, Jeanne Dunning e Helen Chadwick, e também, noutro fim de percurso sobre a «monstruosidade», de Nancy Burson, fotógrafa que passou da reformulação informática dos rostos à reportagem sobre os efeitos de disfunções neurológicas. No entanto, a presença inicial dos registos fotográficos deixados pelos accionistas vienenses (G. Brus e Schwarzkogler) estabelece um preâmbulo de violência e abjecção que não mais será ultrapassado, num efeito de permanente interrogação do novo que se prolonga com as fotografias de Wols, frente aos corpos femininos, e da italiana Wanda Wulz, de 1932, diante das novas tecnologias da manipulação da imagem.
Pinturas de Marlene Dumas (holandesa, também presente no pavilhão do seu país e cuja projecção actual se comprova com a inauguração de uma dupla retrospectiva no Palácio Rivoli, ao lado de Bacon), Marie Lassnig e Chantal Wicki, bem como de Vincent Corpet e Michel Haas,  Clemente e Eric Fischl encenam outros olhares cruzados sobre o corpo nu e a guerra dos sexos. No Pavilhão Itália mostram-se ainda instalações e vídeos de Gary Hill (prémio de escultura), Nauman, Clegg & Guttman e Mona Hatoum.
Por último, «Impressões do corpo e do espírito», com organização de Adalgisa Lugli, é um núcleo temático sobre o uso da moldagem enquanto sinal tangível da presença directa do corpo, como vestígio de uma acção que ocupou nos anos 60 e 70 o lugar da representação, através do aprisionar de uma sombra ou silhueta, impressão («empreinte») e marca, ou ainda através de objectos metafóricos. Das telas queimadas de Burri aos moldes fechados de Tony Cragg, passando pelo polegar de César e múltiplos exemplos da Arte Povera, o percurso surge como uma amálgama de vestígios. Mas, também aqui, uma pegada de dinossauro e uma cabeça renascentista, a máscara de Rossini e a Elevage de Poussière de Duchamp vêm questionar todas as cronologias, com a evidência de um elo nunca quebrado, para lá da experimentação dos materiais e das diferenças de linguagem, com a questão da presença real do corpo.