Ontem fui à inauguração da exp da Helena Lapas na galeria Monitor (ao Sol ao Rato). Estou ainda a pensar sobre estes trabalhos (esta obra) que vêm da nova tapeçaria de artista dos anos 60, que ganhava volume e a mão directa do/da artista, para a construção de formas escultóricas complexas (a chamada técnica mista) de matriz orgânica e volumetria original. Lembram casulos, ninhos, colmeias, geologias, rochas abertas com formações minerais, lembram esqueletos, entranhas, mas não é preciso "lembrarem", são objectos enigmáticos que não existem para ser decifrados ou explicados, são materiais pacientemente trabalhados (papeis acumulados sobre estruturas interiores de arame, sucessivamente colados, amalgamados, pintados) que se tornam relevo, rede, pedra, parede... (espelho?)
coisas várias, artes (plásticas, fotográficas e comestíveis), escritos, promoções e embirrações
sábado, 14 de fevereiro de 2026
2026, Helena Lapas na Monitor
domingo, 16 de junho de 2024
Eugénia Mussa, 2024, Monitor
06/16/2024
Eugénia Mussa 2024, Monitor Gallery
https://www.monitoronline.org/eugeniamussa-releasethechicken/
“Venham daí as críticas” desafiou a Eugénia Mussa. Sim, alguém que arrisque a crítica - mas, sem rede (?!), não é fácil enfrentar essa subtil e sábia facilidade aparente, e para mais cada pintura foge para o seu lugar singular que lhe coube na montagem. Não há rede, para além da que formam, talvez, mas já à distância, outras pinturas suas que antes vimos, sempre em seguro crescendo. Sem um formulário alheio e colectivo, sem um código oferecido ou previsível, secretas mas explícitas, enfrentamos cada pintura (diferentes também nos formatos, nos suportes e nos materiais) como um acontecimento a explorar sem mapa ou agenda.
Esta pintura "diz", mostra, mas não saberemos o que ela narra. “Release the chicken!” / Soltem as galinhas!, o título, é um desafio - não perguntarei o que significa (Soltar a franga vem no dicionário - fui depois ajudado). São espaços onde acontecem "coisas", onde acontecem imagens com títulos mais ou menos precisos e descritivos (Eden, Floresta Vermelha/The Red Forest, Familia de Patos/Duck Family, etc) que reflectem o que vemos sem "explicar" o que vemos - são uma discreta chave para seguirmos por aí a percorrê-los.
Agora E.M. afasta-se da referência fotográfica que se reconhecia em pinturas anteriores como aparente transcrição de apropriações fotográficas, em versões irónicas de consumos vários, para tornar mais enigmática a desconhecida origem de cada obra - donde vêm estas imagens de imaginação, e que importa a dúvida? Que vemos nestas imagens? - e aqui não há que fugir ao que se nos oferece. Não se trata de reconhecimento de imagens prévias, mas de surpreender a sua invenção, são paisagens, e de percorrer espaços povoados com figuras onde a matéria do óleo, preciosa e rude, leve ou densa, se dá a ver em diferentes superfícies e respectivas preparações sobre tela, cartão, esmalte - quase sempre de pequeno formato, o que as torna mais íntimas, mais cúmplices. A cores, sempre intensas, fluidas ou firmes, são cores imaginadas.




