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domingo, 15 de março de 2026

2026, Graça Morais, Palácio Anjos, Algés

Graça Morais, notas no fb


(1) nunca foi exposta em Serralves, no CCB ou na Gulbenkian * e no MAAT, que têm funcionado como uma cúpula fechada (e parasita) do meio da arte em Portugal. Tem sido ocultada ou excluída por uma rede convergente e cúmplice de directores, a quem importa mais a sua tutela continuada (tantas vezes medíocre) do que a abertura ao que é inegavelmente melhor. Sim, expôs na Culturgest em 2013, no Museu do Chiado em 2019, no Museu do Coa em 2022 e no Centro de Arte com o seu nome em Bragança em 2008 e depois. **
A sua melhor exposição, a mais poderosa e eficaz, foi sem dúvida a que aconteceu em 2017 na Fundação Champalimaud, um lugar fora do circuito. Aí os temas da guerra e da violência desumana do séc. XXI tinham uma presença avassaladora - de que agora se vislumbram alguns sinais.

A actual exp em Algés contém-se em obras na posse da artista (que tem reunido e às vezes adquirido obras maiores do seu itinerário) e da colecção do Centro de Arte de Bragança, em geral doações próprias. A escolha de muitos desenhos, em geral excelentes, e também de estudos preparatórios, não substitui a limitada presença da pintura, e as fotografias mostradas são só memórias e documentos pessoais, deveriam estar pousadas em vitrinas e não nas paredes. Faz falta mais pintura, mesmo se esta é uma importante exposição, a ver com atenção e gosto. Mas a actual mostra no Atelier-Museu Júlio Pomar incorre no mesmo vício (expor pintura é difícil? É mais caro?)
O grande estudo (pintura sobre papel) para o painel de azulejo a instalar em Caxias, relativo à prisão política, anuncia uma excelente obra pública. Uma encomenda acertada de Isaltino Morais.

* Mas sim na delegação de Paris em 2001 (com Francisco Bethencourt) e 2017 (por Helena de Freitas e Ana Marques Gastão, com colóquio internacional) - e é um "exílio" significativo.
** Exclusão mais chocante foi a ausência na grande exp. que o MNAA dedicou ao retrato também contemporâneo em 2018 - CQD.


Uma resposta a Emília Ferreira: estas fotografias não são “obra plástica”, deviam ter uma apresentação modesta, discreta, acessória; ; seriam uma surpresa, uma curiosidade significativa, não mais. No Chiado havia excesso de “estudos” e falta de escolha, saturação. Deveria ter sido uma exp de câmara. Acho que há agora outra vez um excesso de desenhos e q eles se multiplicam ou repetem. Na última parede da última sala cabiam da tribuna obras fortes e não flores e tomates, para acabar em grande. Falta pintura. Falta pintura. Falta pintura. Mas é muito difícil e mais caro (transporte, seguros, empréstimos, localização….) fazer exp de pinturas. A GM merece e precisa de uma exp “esmagadora”. / e em geral os desenhos da G são estudos, ensaios, variações, apontamentos. Sensíveis, belíssimos, muitos. Não estou a censurar, queria mais. 
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(2) ANOS 80: O Caçador, 1982; Pieta, 1986.

Nos anos 80 não dávamos conta (e eu também não), ou não queríamos dar conta, de que o (a) mais notável artista desses anos 80, e o/a que melhor continuou, era Graça Morais. Por sinal não apareceu numa mostra em Serralves que pretendia balizar a década (1992, Alexandre Melo, “10 Contemporâneos”), recortando conveniências tácticas - mas logo em 1983 participou na Bienal de São Paulo e em 1997 expôs no Museu Soares dos Reis. Além de não estacionar no Frágil, centro do centro, tinha passado os anos de 1976 a 1979 em Paris como bolseira da Gulbenkian e voltou para o atelier em Trás-os-Montes, Vieiro. Algumas das pinturas desse tempo, inéditas, têm sido vistas em Bragança, e eram das mais originais do seu tempo.
A terceira obra aqui reproduzida (Mãe Terra, 1981, sanguínea e carvão, 139x98cm) não veio a Lisboa, e faz falta, como muitas outras. Falta uma grande exposição, mais completa, com muito mais pintura.




(3): AZULEJOS PARA CAXIAS
e "Raiva", 2012,152x102cm, tinta acrílica sobre papel.









Projecto para painel de azulejo de 6 por 20 metros em homenagem aos presos políticos do Forte de Caxias, 2026, encomenda da Câmara de Oeiras. Não cabia para Caxias uma obra dramática: o medo, o sangue, a guerra, os desalojados e fugitivos têm ocupado grande parte das obra recente da GM e esta tinha de ser festiva e dedicada à vida. O rio azul e o céu amarelo que é também um largo sol; os rostos sempre expressivos e diferentes, atentos e surpresos, alguns caídos, e os braços levantados, os corpos - também flores e animais - no longo friso que é a regra conveniente de uma obra decorativa, a arte pública marca, comemora e decora. No início dos ano 1980 GM trabalhou bastante e muito bem referências a Guernica. Não seria agora caso para essa memória, passamos do negro à luz e à cor. Mas os olhos, muitos olhos, inquietos, lembram o exemplo maior de Picasso.
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