Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Molder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Molder. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de janeiro de 2007

2007, Jorge Molder em Madrid e Coimbra

 

Jorge Molder Madrid 2007

Autor e actor
Duas perspectivas paralelas da obra de Jorge Molder

EXPRESSO/Actual de 06-01-07

 

F1a171_2

 

Pormenor da instalação «Algum Tempo Antes», em Madrid

Em Madrid, o jogo de Molder com a auto-representação, o uso da sua própria imagem-máscara oferecida à interrogação de ser ou não ser auto-retrato, sempre organizada em sequências que põem a questão de um sentido narrativo específico (um episódio, uma acção, um título), é prolongado até novo limite: uma réplica do corpo do artista ocupa o lugar central da galeria. Segura um catálogo com uma fotografia sua (as mãos que guardam a luz, da série «The Portuguese Dutchman», 1990) e está parcialmente voltado para uma parede onde se vê um rectângulo negro (janela ou espelho obliterados, papel de impressão queimado pela luz).

Esta outra presença, em versão corporal imóvel, conduz a habitual reflexão sobre identidade e duplicidade (disfarce, ilusão, enigma, ficção, etc.) para outro patamar de intencionalidade, que se pode entender como mais dramático e talvez mais irónico. O autor-actor atribui-se aqui a condição de espectador da sua própria obra e deixa certamente sugerida ou implícita a identificação com a figura do comissário ou director de um centro de arte - sabendo-se que essa é a sua actividade paralela, à frente do CAM. Numa entrevista do catálogo, Molder refere-se a essa problemática identidade dupla: «O facto de dirigir um centro de arte inibe uma ampla série de contactos e trocas, por razões de decência, morais e deontológicas.»

À volta desse corpo, na mesma instalação que dá o título à mostra (já antes apresentada no CGAC de Santiago de Compostela), dois conjuntos simétricos de seis elementos mostram outras folhas negras e duas mãos enluvadas, uma delas com a mancha vermelha de uma gota de sangue. É, sem dúvida, a mesma luva de detective presente na série «The Secret Agent», de 1991, que tem um papel destacado nas duas exposições - todo o subnúcleo das caixas é exposto em Coimbra, e Delfim Sardo, o comissário no CAV, relaciona-o com Joseph Cornell e Marcel Broodthaers, além de referir Joseph Conrad.

É nessa série, tal como no livro intitulado Joseph Conrad, que Molder terá levado mais longe a tentativa de explorar uma possível condição ficcional do seu trabalho fotográfico, distinta quer da narratividade literária quer da ilustração, antes de essa construção de um personagem, ao mesmo tempo agente e narrador, se converter na imagem repetitiva do autor - o seu duplo e ele mesmo. À acção do «agente secreto» associa-se a ideia de enigma, e a busca que ele conduz é tomada como metáfora do trabalho do artista.

Em Coimbra, a recuperação de outro trabalho de 1991, feito com a colecção zoológica da Universidade («Uma Taxidermia de Papel»), liga-se a uma nova série de muito grande formato, em provas digitais, onde a imagem se aperta sobre o olho do fotógrafo-fotografado, jogando com dificuldades e derivas de reconhecimento que o título sublinha: «Comportamento Animal». Outras dificuldades de identificação são as de «Desconhecimento Imediato», onde o rosto é sujeito a camuflagens, ocultações ou acidentes sucessivos, apontando a autoviolência (a auto-imolação?) como decisiva questão inscrita em várias outras séries. Igualmente constante é a presença de múltiplas citações ou referências cultas nos diversos trabalhos de Molder, como sucede no vídeo inédito Vasistas, onde o Quadrado Negro, de Malevitch, é prolongado por memórias cinéfilas. As listas de livros e filmes que se incluem no final da mostra de Madrid são um útil guia para a vasta teia de interesses e informações do artista.

Jorge Molder
«Algún Tempo Antes»
Fundación Telefónica, Madrid, até dia 21
«Condições de Possibilidade»   
Centro de Artes Visuais, Coimbra, até dia 28

sábado, 5 de agosto de 2006

2006, Gulbenkian, Cabrita Reis, cinquentenário da Gulbenkian e Jorge Molder (05 08 e 19 08)

 A «Fundação» em obras
Pedro Cabrita Reis constrói instalação em público 

Expresso/Actual  (“Factual”) de 05-08-2006 

Esvaziar a grande galeria central do Centro de Arte Moderna tornou mais pertinentes as dúvidas que existiam sobre os planos para o respectivo museu e a sua colecção, além de também ter vindo sublinhar a falta de uma exposição de primeira grandeza no início das comemorações do cinquentenário da Fundação Gulbenkian. Mas o talento e o brio de Pedro Cabrita Reis serão certamente suficientes para ocupar o espaço que lhe foi entregue por Rui Vilar, com vista à criação de uma instalação de grandes dimensões que aí vai ficar exposta até Abril de 2007. Cabrita Reis está diariamente no CAM a instalar à vista do público a sua obra, a que chamou Fundação, com recurso a alguns materiais e objectos vindos dos armazéns da Gulbenkian e usando também paredes de tijolo, estruturas de aço e lâmpadas de néon. A inauguração será só a 15 de Outubro. 

<Só mais tarde se soube, mas não se divulgou, nunca, que durante a instalação in progress da instalação do P.C.R. um acidente envolveu uma escultura de Canova que ficou irrecupereável.>

 

 & 

«A ‘Fundação’ em obra(s)» II, carta de Jorge Molder
 

19-08-2006 
   

A propósito da notícia «A ‘Fundação’ em obra(s)», incluída no «Actual» de 5 de Agosto (pág. 12), recebemos de Jorge Molder, director do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), a seguinte carta:


«Importa corrigir uma informação falsa, que não respeita os leitores do EXPRESSO e que tem origem na decisão voluntária do jornalista Alexandre Pomar, que assina com as iniciais A.P. Eis a sua correcção: o artista Pedro Cabrita Reis foi convidado por mim para realizar uma instalação no CAM, do qual sou director. A proposta de instalação, muito anterior ao convite, foi igualmente feita por mim à administradora responsável, drª Teresa Patrício Gouveia. Isto significa que sou o comissário da referida exposição. É evidente que o dr. Rui Vilar, enquanto presidente do Conselho de Administração, é, em última instância, responsável por todas as iniciativas da FCG. Quanto aos comentários malevolentes sobre a falta de exposições de qualidade do CAM no cinquentenário da FCG, trata-se de uma variação de um hábito persecutório instituído pelo jornalista Alexandre Pomar desde que me tornei director do CAM. É sintomática a omissão gravosa da exposição ‘Relation’ de Craigie Horsefield e da instalação Book Cell de Matej Krén, inauguradas precisamente a 18 de Julho de 2006, dia do aniversário mencionado. No respeitante à restante programação, sobretudo no horizonte próximo das festividades do cinquentenário, o silêncio é o seu único conteúdo: ‘Amadeo - Diálogo de Vanguardas’, em Novembro, que promete ser uma revelação decisiva, uma exposição da obra gráfica recente de José Pedro Croft, em Outubro, e uma visita inédita ao espólio de Fernando Calhau, recentemente aumentado por doação ao CAM, em Novembro, foram inteiramente ignoradas. Por outro lado, a retrospectiva de Dominguez Alvarez ‘770 Rua da Vigorosa, Porto’, bem como a exposição de pintura de João Queiroz, igualmente patentes e que têm tido, como é público, um notório sucesso, caíram também no esquecimento. Assinale-se que essas exposições se inscrevem no mesmo programa de investigação e reavaliação de obras contemporâneas significativas.»

N.R. - Sobre as celebrações dos 50 anos da FCG, o «Actual» publicou um extenso dossier na edição de 15 de Julho (págs. 4-11). Na notícia que motivou a carta acima referia-se genericamente «a falta de uma exposição de primeira grandeza». As exposições de Alvarez e João Queiroz foram apreciadas em textos críticos publicados a 27 de Maio e 17 de Junho, respectivamente, por sinal ambos assinados por A.P. <ver blogspot 2006> Poderia juntar-se-lhes ainda as referências à exposição sobre a sede e o museu da FCG e, em especial, à vídeo-instalação de Filipa César, abordadas na edição de 1 de Abril <no blogspot>.