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sábado, 3 de fevereiro de 2007

2007, Jorge Calado, INGenuidades, Gulbenkian

 

“INGenuidades”, Fotografia e Engenharia

"Com arte e engenho "

Fundação Gulbenkian, (prolongada até 6 de Maio)


ThomasWeinberger, "Cracker", Refinaria Esso, 2003

EXPRESSO-Actual de 03-02-2007

«Fotografia e Engenharia», as forças da natureza, as obras-primas da humanidade e o estado do planeta numa exposição enciclopédica a inaugurar dia 8 de Fevereiro-   

Começa-se pelo princípio, pela separação da água e da terra (vista aérea da costa ocidental da Austrália, do grande paisagista Richard Woldendorp) e do dia e da noite (um pôr-do-sol de Ansel Adams, numa rara prova de exposição de grande formato, isolado à entrada da exposição). Segue-se assim o esforço de entendimento das coisas do mundo que parte do acto de as distinguir e que as palavras do Génesis já transmitiam. É um preâmbulo que logo nos fala da beleza do planeta e dos seus perigos, os cataclismos que o fizeram e reconstroem, sempre numa dialéctica de construção-destruição. E também comparecem, a propósito da aparição dos animais, as grandes ameaças que são as variações climáticas e as acções humanas (uma tempestade australiana olhada pelo lagarto barbudo da fotografia de Nick Moir e os dodós da ilha Maurícia ressuscitados neste século por Harri Kallio, um jovem artista finlandês presente com fotografias e esculturas).

A exposição é um panorama de todas as engenharias, das mais antigas – a
militar e a civil – às mais novas – a biotecnologia e a informática -,
mais a chamada engenharia social, com um programa científico que a
justifica como iniciativa do Serviço de Ciência da Fundação Gulbenkian,
no âmbito das comemorações do 50.º aniversário. E é «uma exposição
universal de fotografia» a pretexto da engenharia, feita por Jorge
Calado com 340 imagens de 160 autores, dos primórdios à actualidade e
das mais diversas origens e colecções internacionais, que é uma proeza
reunir em Lisboa.

«INGenuidades», o título, parte de jogos de palavras com a história e o
inglês, entre génio, ingénuo, engenho, etc. As relações da técnica e da
estética (que podem ser sinónimos, ensina o comissário), tanto nos
domínios da ciência como nos da fotografia, são um dos tópicos do
projecto – aliás, as construções da engenharia civil continuam a
chamar-se obras de arte. É «uma homenagem à liberdade e génio criativo
dos cientistas, técnicos e engenheiros» e também «um comentário sobre o
estado do nosso planeta» em tempo de alarmes ecológicos. Em síntese, um
projecto de rara dimensão em qualquer parte do mundo, que inaugura no
dia 8 na galeria principal da Gulbenkian, fica até 29 de Abril e vai em
Outubro para o Palácio de Belas-Artes de Bruxelas, por ocasião da
presidência portuguesa da União Europeia.

Terá, com atraso de alguns
dias, um catálogo de 620 páginas (impresso na Guide) e uma rede de
monitores para consulta de mais informação e exploração de itinerários
alternativos.
Neste projecto de fôlego enciclopédico distingue-se uma aproximação à
fotografia que, ao lado dos ícones famosos e dos artistas reconhecidos,
descobre e celebra muitas imagens de carácter técnico, documental,
jornalístico… e às vezes de autores anónimos, com as quais se devem
questionar as fronteiras da arte, para lá da respectiva ambição, de que
o inferno está cheio.

Têm abundado por cá contemplações autistas da
identidade do médium e da figura do autor e falta conhecer os grandes
projectos com que a fotografia actual se continua a enfrentar com o
mundo – por exemplo, na vasta obra intercontinental do canadiano Edward
Burtynsky sobre a paisagem transformada (e degradada) pelo homem, que
se expôs no último PhotoEspaña.
Muitos dos pioneiros e clássicos dos séculos XIX e XX surgem ao lado
dos autores mais recentes, com circulação como artistas (Hiroshi
Sugimoto, com Forma Mecânica, 2004, na secção Máquinas e Ferramentas)
ou premiados como fotojornalistas (Dean Sewell – o World Press Photo
distinguiu as imagens do tsunami em Aceh e foi também testemunha da
guerra em Timor).

Albuminas dos primórdios convivem sem atritos com
enormes edições digitais. O itinerário onde os fotógrafos comparecem
não é cronológico nem autoral, e os mais representados (Dean Sewell,
David Stephenson, Edward Cranstone, australianos, Kees Sherer, um
discreto holandês dos anos 50) vão surgindo em diferentes tópicos – é
preciso exercitar a atenção e voltar várias vezes, apesar de a
exposição ter bilhetes pagos (pelo menos a ciência devia ser
gratuita!). Não se trata de um «puzzle», mas de um percurso bem
arrumado, embora sempre inesperado, onde se conta uma história.

O primeiro capítulo é dedicado às «Forças da Natureza» e aí se apresenta
logo a ideia dos quatro elementos, vinda já dos gregos e hindus, que
vai estruturar toda a exposição. Começando pelo Fogo, comparecem os
vulcões (a erupção do Vesúvio em 1872 e as descobertas arqueológicas
dessa década; paisagens americanas alteradas pelo homem de Frank
Gohlke, um dos artistas das «Novas Topografias» de 1975) e depois os
incêndios às portas de Sydney e Camberra (Nick Moir e D. Sewell), ou na
Beira, Portugal, por Edgar Martins (da série «O Presente Diminuído»,
2005).

A seguir, a Terra e a grande «vista de águia» das ruínas de São
Francisco após o terramoto de 1906, tirada de um engenhoso papagaio com
câmara comandada por sinal de telefone pela Geo. R. Lawrence Company. E
Carlos Miguel Fernandes, na separação das placas tectónicas eurasiática
e americana, na Islândia, em 2006, além das minas de cobre da Tasmânia
de David Stephenson (de quem se mostra também a série das cúpulas de
templos).

Abreviando, continua-se com a Água e o Ar, passando ao
capítulo «As Grandes Maravilhas» para percorrer construções em
cinco-seis continentes, das pirâmides do Egipto e do México até à ópera
de Sydney, vista como corpo em construção por Max Dupain e pelo «olho
de peixe» de John Gollings – a homenagem ao arquitecto dinamarquês Jorn
Utzon inclui um desenho e uma maqueta.
É então que se entra em pleno nas engenharias, seguindo sempre a pista
dos quatro elementos.

Terra: Máquinas e Ferramentas (Jeff Carter e o latoeiro que trabalhou 30 anos nas estradas da Nova Gales do Sul, 1955), Engenharia Civil (o jovem francês Mathieu Pernot com os postais
de arquitecturas modernas, as implosões e as «testemunhas»), Mecânica e
de Minas. Água: Hidráulica, Naval (o «Great Eastern», o maior barco do
século XIX, construído pelo grande engenheiro I. K. Brunel e
fotografado para o «Times» por Robert Howlett, os desmanteladores de
navios no Bangladesh, de Burtynsky e Gudzowaty, e a barbatana de
Tubarão II por Robert Cumming).

A seguir, um novo «Regresso à Terra» e «O Corpo Prolongado» (a série de Matthew Pillsbury iluminada só pelos ecrãs dos computadores), Biotecnologia, Engenharia Social (M. Pernot e
Sewell, ciganos e aborígenes, e um tríptico de Paulo Nozolino). Fogo:
Engenharia Metalúrgica, Química, Nuclear. Ar: Pontes, o vento,
Engenharia Eléctrica, Aeronáutica, o Espaço.
Além das fotografias da América, sempre decisiva, estão em destaque os
fotógrafos da Austrália, continuando as descobertas de outra grande
exposição de Jorge Calado, «À Prova de Água», no contexto da Expo-98.
E, além dos três portugueses já citados, a lista alarga-se a José M.
Rodrigues (um inédito cromeleque dos Almendres, visto do alto de uma
escada magirus), Luís Pavão (Auto-Europa, 1998), António Júlio Duarte
(investigação e trabalho fabril), Luísa Ferreira (laboratórios
científicos, de um projecto à espera de ser mostrado), um campo de
futebol em Alhandra, de Paulo Catrica. E os antigos Paulo Guedes, para
mostrar o aqueduto de Lisboa ao lado da muralha da China, mais Emílio
Biel e os Caminho-de-Ferro do Douro.


Parte 2: No curso da história

EXPRESSO/Actual de 03-02-2007

– (Momentos e nomes grandes da história da fotografia a pretexto das engenharias e vários jovens artistas para descobrir)-

A fotografia é a última grande invenção da primeira Revolução Industrial. Divulgada em 1839, invade rapidamente todos os campos da actividade humana, documenta as grandes explorações e construções do século XIX e acompanha a dinâmica da diversificação e especialização das engenharias. No enorme cruzamento de temas desta exposição não cabem todas as vertentes da sua história, mas estão presentes várias direcções ou movimentos marcantes e muitos nomes de primeira linha.

Exibem-se provas de excepcional importância, como A Nave da Catedral de
Wells, de Roger Fenton (c. 1860), o Pôr-do-Sol no oceano Pacífico, de
Ansel Adams, com 1,70 metros de altura (c. 1953), o topo do Empire
State em construção, de Lewis Hine (1931), também numa raríssima prova
de exposição de grande formato, e mesmo ao lado outra prova «vintage»
do famoso The Maypole, de Edward Steichen (1932), com múltiplas
exposições. Ou a também célebre curiosidade fotográfica de George
Barker, Niagara no Verão, Visto de Baixo (c. 1888), de composição
ficcionada com vários negativos (o rochedo à esquerda é acrescentado).

Noutros casos trata-se de situar alguns momentos que ampliaram a
possibilidade de ver, com O Primeiro Raio-X Humano, do professor
Wilhelm Röntgen, 1896 (a mão enluvada da mulher e moeda numa caixa),
Adam Clark Vroman, o primeiro que conseguiu fotografar bem as nuvens
(Nuvens Perto da Enchanted Mesa, 1899), as já referidas proezas aéreas
de George R. Lawrence (1906) e uma das primeiras fotografias
radiotransmitidas, de René Barthélemy, o cianotipo Aeroplano Levantando
Voo Dum Barco, 1930.

É possível percorrer a história da fotografia e encontrar os amadores
que usaram o novo meio para fixar imagens artísticas de sítios e
monumentos, como os ingleses Fenton e Charles Clifford, este na Corte
espanhola de Isabel II, antes de se vulgarizarem os estúdios e a
produção do exotismo. Dos pioneiros das vistas topográficas que partem
para lugares distantes e instalam as primeiras empresas estão presentes
Felice e Antonio Beato, Francis Frith, Carleton Watkins, Giacomo Brogi.

Entrado o século XX, aparece o primeiro Stieglitz simbolista, chamando
A Mão do Homem, 1902-1911, à aproximação fumarenta do comboio, e Lewis
Hine a denunciar a exploração infantil em 1908. Edward Weston
instala-se no México (Pirâmide do Sol, 1923), onde influencia Alvarez
Bravo (Instrumental, 1931), enquanto o peruano Martín Chambi, indígena
quechua, fotografava Macchu Picchu (c. 1930). Deste lado do Atlântico,
Rodchenko alia vanguarda e propaganda nos anos 20, seguido pelos heróis
do realismo estalinista de Arkadi Shaikheit e Max Alpert, que mostra a
construção dos canais de Estaline (Fergana, 1939). Margareth
Bourke-White fotografa em Moscovo, 1930?, e faz a capa do n.º 1 da
«Life», em 1936 – veja-se outra foto da revista, de Nina Leen, 1947,
sobre o trabalho da dona de casa. Em 1956, Dan Weiner regista o Boicote
dos Autocarros, Alabama, no exacto início dos motins raciais.
E o percurso segue até hoje, com os mais jovens Harri Kallio e Mathieu
Pernot, com uma alegoria do índio norte-americano Victor Masayesva Jr
ou as extraordinárias imagens de Thomas Weinberger, que sobrepõem
digitalmente o dia e a noite. A história continua

Parte 3: "O estado do Planeta"

-(Uma viagem pelas vias da criação-destruição-renascimento que põe a tónica na ideia de reciclagem)-

«Mais do que uma exposição sobre engenharia, ‘INGenuidades’ é um
comentário sobre o estado do nosso planeta, transformado e mal gerido
pelos humanos», escreveu Jorge Calado. A sua perspectiva quanto à
relação do homem com o ambiente não parece ser, no entanto, a de uma
caminhada interminável para o abismo – e, aliás, o tema último da
conquista do Espaço pode entender-se como um final optimista (ou um
começo promissor, iniciando a visita em sentido inverso), num
itinerário que tem por objectivo didacticamente assumido mostrar o
progresso técnico da humanidade.

A degradação da paisagem e os desastres causados pelas transformações
climáticas (naturais e cíclicas ou provocadas pelo aquecimento global)
atravessam a mostra e devem ler-se como sérias ameaças a que o presente
tem de dar resposta. Mas o seu sentido não é ingénuo. De facto, a
dialéctica da construção-destruição que está presente nas imagens de
toda a exposição prolonga-se numa síntese que é expressa pela ideia de
reciclagem. Esta é um dos grandes desafios do século, explica o
comissário, definindo «INGenuidades» como «uma viagem pelas vias da
criação-destruição-renascimento».
As «Grandes Maravilhas» do engenho humano e da engenharia, reunidas no
início, não são um capítulo encerrado do passado.
A fotografia feita na Austrália tem uma posição destacada na exposição
e, não por acaso, é também neste país-continente que se têm sentido com
maior violência algumas das mais preocupantes alterações do clima. A
uma situação de seca muito pronunciada seguem-se incêndios de extrema
violência, que em 2003 atingiram Camberra, a capital federal,
fotografados por Nick Moir e Dean Sewell. São do segundo, no capítulo
Fogo, um canguru reduzido a estátua em terra queimada e, já perto do
final, na secção Electricidade, a árvore que espirra faúlhas e brasas
incandescentes em primeiro plano, enquanto ao longe os automobilistas
procuram fugir da cidade.
Sempre no capítulo das «Forças da Natureza», David Stephenson fotografa
as cicatrizes deixadas pelas minas de cobre do monte Lyell, Tasmânia,
2005 (Terra) – adiante, Edward Burtynsky mostra as minas do Utah nos
seus exactos grandes formatos. Robert Polidori faz o levantamento das
devastações do Katrina em Nova Orleães (Água) e volta depois com uma
impressionante Escola: Sala de Aula de Teoria Musical, Pripyat, 2001,
visitada sob pesadas condições de segurança 15 anos depois. Nick Moir
explora os céus onde se formam as tempestades e furacões (Ar).
No final da exposição, junto aos trabalhadores fotografados por
Wolfgang Sievers, está um tríptico do islandês Hrafnkell Sigurdsson,
Conversão Dois, 2006, que se abre numa imensa paisagem azul ou fecha
sob camadas de lixo. Fica o recado final de que é preciso fazer um
esforço.


Foi primeiro a água em todos os seus estados e circunstâncias, em À Prova de Água ( Waterproof ), no CCB, com o gigantismo que permitia o ano da Expo’98. A edição Stemmle, 568 páginas, 380 nºs, é um imenso roteiro pelos caminhos da fotografia, dos primórdios à actualidade absoluta dos vários inéditos. Foi o primeiro grande contacto com a fotografia da Austrália (em destaque entre as várias origens), uma ruptura com o modelo rígido das montagens, um caminho para atravessar todas as fronteiras, de tempos, géneros, notoriedades, etc.
Em 2003, passou-se da água à terra com Pedras e Rochas ( Rocks and Stones ), em Évora, graças à abertura do Fórum da Fundação Eugénio Almeida, e depois em Lisboa, no Arquivo Fotográfico Municipal, que deu lugar à edição (corrigida) de Pedras & Rochas em fotografia ( Rocks & Stones in photography ), IST Press – 168 págs. impressas na Guide, 80 nºs.

O terceiro projecto enciclopédico é INGenuidades, Engenharia e
Fotografia 1846-2006
, apresentado na Gulbenkian nas condições difíceis
mas excepcionais do meio centenário, com itinerância prevista para o
Palais des Beaux Arts de Bruxelas, o Bozar, 5 Julho-9 Setembro,
correspondendo à capitalidade portuguesa (haverá catálogo em inglês). O catálogo cresceu até às 620
págs e a Guide voltou a imprimir com a qualidade máxima (para já, só
conheço uma edição antecipada, apenas com as imagens).
Mas, para além do
livro, também as condições físicas da exposição são excepcionais – o itinerário temático sempre surpreendente (a precisar de diferentes visitas); a presença do som, como uma soma global e diversas fontes particulares localizados; a montagem imaginativa e fluida das imagens, que cruza todas as origens, géneros, datas, formatos, processos, para propor leituras plurais.

A fotografia está na moda, mas é o gosto dos novos ricos que predomina. Para além ou a par do que é propriamente uma abordagem da engenharia e da ciência (do mundo em geral, e do estado do planeta em particular), a exposição abre outros caminhos de acesso à fotografia, à sua cultura, história e caminhos actuais de criação. Há vários novos fotógrafos por cá desconhecidos que aí se apresentam.


Ingen#330. NICK MOIR
Lagarto – Um dragão barbudo é testemunha duma enorme tempestade no sul da Austrália, 2005

A exposição INGenuidades, Fotografia e Engenharia, na Gulbenkian foi prolongada até 6 de Maio e o catálogo, após muitas vicissitudes, já foi finalmente posto à venda: são só 1000 exemplares de 620 págs, a 45 Euros. Com uma impressão de 1ª qualidade da Guide e um desenho gráfico excelente de Inês Sena. Tudo (imagens, texto, exposição e edição) de um nível  excepcional, apenas possível nas condições excepcionais do aniversário da casa.

Editado a 17 de Abril. (Ver textos publicados a 2 Fevereiro)