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domingo, 7 de dezembro de 2025

2015, a Barbado Gallery, Martin Parr, Arco Lisboa

"O presente poderia ter sido diferente"

Aberta em 2015, bloqueada em 2017 no acesso à Arco Lisboa pela máfia galerística nacional, quando ia apresentar inéditos portugueses de Martin Parr, mantendo acesso directo à Agência Magnum, a Barbado Gallery veio a encerrar pouco depois. Ainda lá apresentei uma exposição do José M. Rodrigues nas vésperas do fecho.

VER: 2017, Exclusões na Arco Lisboa de 3 galerias de 1º plano: 111, Barbado e Underdogs. Martin Parr...

19 de fevereiro de 2017


No Público em 2015:

"Na Barbado Gallery, Menina Afegã até aos cães de Martin Parr"

É na nova galeria dedicada à fotografia que Parr terá a sua primeira exposição a solo em Portugal. Para já, ele, Steve McCurry, Nadav Kander ou Ren Hang em imagens únicas ou de séries limitadas.

https://www.publico.pt/2015/06/11/culturaipsilon/noticia/na-barbado-gallery-vese-da-menina-afega-ate-aos-caes-de-martin-parr-1698558

Na Barbado Gallery, que foi inaugurada no final de Maio, os visitantes poder-se-ão fazer acompanhar pelos seus cães e ser recebidos pelo galerista e pelo seu cão Fox, que esporadicamente estará na galeria. Este é um novo espaço que nasceu para promover o coleccionismo de fotografia na rua Ferreira Borges, uma das mais movimentadas de Campo de Ourique. A carta de intenções com que se apresenta é tão ambiciosa quanto os nomes que representa, cujas fotografias podem ser vistas na exposição que marca a sua inauguração, intitulada Retrato do Mundo.

A primeira exposição reúne 35 imagens (uma em forma de escultura) de 12 artistas, nomes como Steve McCurry, Martin Parr, Nadav Kander, Ren Hang, Gaston Bertin, Alison Jackson ou Boris Eldagsen. Uma das estrelas da mostra é o retrato de Sharbart Gula, a famosa Menina Afegã de Steve McCurry.

“Não é uma simples galeria de fotografia. É uma galeria de fotografia que visa dar a conhecer e tornar acessível à cidade de Lisboa e ao país a obra dos grandes fotógrafos contemporâneos”, disse ao PÚBLICO João Barbado, dono da galeria, que considera não ter concorrentes directos. “A galeria tem um conceito muito distinto de tudo quanto existe em Lisboa.” Há mais galerias em Portugal que se dedicam à venda e promoção de fotografia, “mas estão essencialmente vocacionadas para a promoção de artistas portugueses emergentes”.

Galerista, marchand ou negociante de arte é como se intitula João Barbado, que é formado em Direito pela Universidade de Lisboa e exerceu advocacia durante 10 anos. Quase a chegar aos 35 anos, apercebendo-se que “não era feliz”, mergulhou “de cabeça” neste mundo: fez uma pós-graduação no Sotheby’s Institute of Art, em Londres, onde se especializou em Mercados de Arte, e resolveu abrir a sua própria galeria. “Não foi uma transição fácil, mas foi uma transição natural. Sempre frequentei galerias e museus e era uma coisa que me via a fazer.”






quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

2017, CAM, Penelope Curtis (foto)

 

Diretora do Museu Calouste Gulbenkian (set. 2015 – ago. 2020); Diretora da Tate Britain (2010 – 2015)

FG https://gulbenkian.pt/historia-das-exposicoes/entities/19744/

Assume, desde 2015, o cargo de diretora do Museu Calouste Gulbenkian, dando expressão ao modelo que funde, pela primeira vez, as duas coleções e os dois museus: Coleção do Fundador e Coleção Moderna. Nesse contexto, e além da programação do Museu e da gestão de um novo regime de aquisições, assinou algumas exposições, nomeadamente: «Linhas do Tempo: 1896, 1956, 2016. As Coleções Gulbenkian. Caminhos Contemporâneos» (2016); «Portugal em Flagrante», com a equipa de curadoria da Coleção Moderna do Museu (2016-2017); «Escultura em Filme / Sculpture on Screen: The Very Impress of the Object» (2017).
Assumiu o cargo de diretora na Tate Britain em abril de 2010, onde coordenou várias exposições, tendo sido responsável pela abertura da nova Tate Britain, em 2013, e pela reorganização das galerias. Foi presidente do júri do Prémio Turner. Antes de assumir a direção da Tate Britain, foi diretora do Henry Moore Institute, em Leeds, a partir de 1999. Nesse período, além de ter aprofundado o conhecimento sobre as coleções, com a promoção da investigação e de novas publicações, motivou a aquisição de obras de artistas como Rodin, Epstein e Calder. Foi curadora de exposições na Tate Liverpool, aquando da sua abertura em 1988.
Assinou a curadoria ou cocuradoria de exposições maiores, como: «Barbara Hepworth: A Retrospective» (1994), na Tate Liverpool; «Sculpture in Painting» (2010), no Henry Moore Institute; «Modern British Sculpture» (2011), na Royal Academy of Arts.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Moçambique 40 anos 4 fotógrafos. Leiria

6 Junho - 22 de Agosto

M/i/mo - Museu da Imagem em Movimento, em Leiria

  Sala 1_5922M/i/mo - Museu da Imagem em Movimento, Leiria link

1. Uma história breve (e recente) da fotografia em Moçambique em 4 vitrinas

Livros 1 _5895
Ricardo Rangel: "R.R. Photographe du Mozambique", Paris 1994.  "Pão nosso de cada noite", Marimbique, Maputo 2004 e "R.R. Insubmisso e Generoso", Marimbique 2014.
Rogério (Rogério Pereira, Lisboa 1942-1987),  MOMENTOS, Fundação C. Gulbenkian, Lisboa, 1982.
MOÇAMBIQUE A TERRA E OS HOMENS, Associação Moçambicana de Fotografia, 1984 (capa de R. Rangel)
e dois DVDs: Licínio de Azevedo, FERRO EM BRASA 2006
e "SEM FLASH - Homenagem a Ricardo Rangel (1924-2009)",  de Bruno Z'Graggen; Angelo Sansone, 2012

4 fotógrafos de Moçambique

Moçambique, 40 anos - 4 fotógrafos
Moira Forjaz - José Cabral - Luis Basto - Filipe Branquinho

No Mimo - Museu da Imagem em Movimento, 
A fotografia em Moçambique, somando os caminhos do fotojornalismo, da documentação e da afirmação artística, constitui uma das dimensões mais reconhecidas da produção e da identidade cultural do país. Para isso contribuiu em especial a figura e a obra de Ricardo Rangel (1924-2009), fotógrafo de imprensa influente desde os anos 60, que se impôs no tempo colonial e exerceu uma eficaz acção formativa depois da independência. Apesar das dificuldade criadas pela longa guerra civil e pela debilidade económica do país, até tempos recentes, Moçambique tem conhecido condições para a prática e a divulgação da fotografia que constituem um caso singular no panorama africano, comprovado por toda uma galeria de autores relevantes e uma assinalável continuidade criativa.

Para apresentar a importância da fotografia moçambicana, optou-se nesta exposição por reunir um conjunto alargado de obras de quatro fotógrafos com lugares destacados e também diferenciados ao longo do tempo, em vez de se procurar reunir uma antologia interessada na enumeração exaustiva dos muitos nomes dessa mesma história. A mostra conta com obras expostas desde 2009 em várias iniciativas e com outras escolhidas para este novo projecto, cuja oportunidade se sublinha na ocasião em que se celebram os 40 anos da independência de Moçambique.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gravura

Considerando a prática da gravura, o tema da reprodutibilidade (...o W. Benjamin andou a tentar entender, e a sua tentativa tem sido demasiado reproduzida...) distrai com frequência da questão principal: a consideração da originalidade ou especificidade do modo de criação da obra. No caso da gravura a obra original é a impressão sobre papel de um desenho realizado sobre cobre - o que não é o mesmo, quanto à materialidade do objecto e à sua eficácia visual, que um desenho sobre papel ou que a reprodução tipográfica ou fotográfica ou fotomecânica. 
Os processos de criação/gravação e de impressão de uma matriz são muito diferentes entre si. Acontece que algumas obras gráficas (estampas) não chegam a ser objecto de edição, não são reproduzidas/ /multiplicadas, conhecendo-se apenas um ou dois ou pouco mais exemplares impressos (em geral não numerados). 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Entrevista de autor não identificado no site da CMTV. O filme o SOLAR DOS JORGES e a exposição na Galeria Municipal - Paços foram coisas que gostei de fazer. Como estará a casa agora?

http://cm-tvedras.pt/artigos/detalhes/jorge-soares/

Jorge Soares

01.07.2015

Jorge Soares

Azulejos, bidés, candeeiros, pequenas esculturas, bancos, aspiradores, mobílias, telefones, brinquedos… Uma infinidade de objetos reaproveitados fazem do “Solar dos Jorges” um mundo de fantasia singular no concelho, construído ao longo de décadas por Jorge Soares. Antigo jogador de futebol do Benfica, fixou-se há já alguns anos na Boavista depois de reformado. A sua moradia e todo o seu pitoresco universo foram recentemente alvo de um trabalho de vídeo realizado por Alexandre Pomar e Tiago Pereira, o qual esteve patente na Paços – Galeria Municipal. À [Torres Vedras], Jorge Soares falou desse seu mundo, bem como de outras questões como a importância do reaproveitamento de materiais, o seu percurso de vida, a terra que o acolheu e algumas curiosidades interessantes da sua carreira desportiva…

 

Como começou este seu interesse em recolher material para fazer as “obras de arte” que estão patentes no seu solar?

Bem, já quando era miúdo a minha professora de desenho dava-me sempre muito boas notas e dizia-me que tinha muito jeito para o desenho. Entretanto cresci, apareceu o desporto, fui inclusivamente jogador de futebol do Benfica nos juniores, pratiquei também outras modalidades como o atletismo e o voleibol, e essa faceta artística acabou por ficar para trás. Aliás, naquele tempo já ganhávamos como juniores no Benfica, e desisti também por isso dos estudos. Depois casei, nasceram os meus dois filhos, e agora quatro netos, até que comecei a aspirar ter uma casa de férias. Comprei esta casa na Boavista em 1972. A minha mulher faleceu por volta do ano 2000 e, estando reformado, resolvi fixar-me aqui. Se ficasse em Lisboa acabava nos jardins a jogar à sueca e assim estou por aqui a fazer o que me dá prazer, que são os meus trabalhos.

Ainda no tempo em que trabalhava passava pelos vazadouros e ia tentando encontrar alguma coisa que me despertasse a atenção. A partir daí comecei a juntar coisas como é o caso daquelas pias, às vezes encontrava bocados de azulejo partidos e ocorria-me que com aquilo podia fazer uns “bonecos”... Como tenho algum jeito para o desenho, primeiro concebo os trabalhos no papel e depois recorto os azulejos com uma turquês. E assim, a pouco e pouco, fui construindo este mundo, também com poemas que ia fazendo e colocando nas paredes, para além de ir colecionado todo o tipo de objetos, alguns dos quais tenho dentro de casa…

todos nós temos jeito para qualquer coisa

O que me influenciou também para enveredar por estes trabalhos foi o facto do meu pai, que era pedreiro, fazer o aproveitamento de materiais. Por exemplo, havia pessoas que tiravam os azulejos das paredes para as pintar e ele aproveitava, ou tiravam madeiras para pôr alcatifas, e ele fazia o mesmo. Para além disso punha-me a endireitar pregos para reaproveitá-los. E assim ficou esse bichinho em mim. Os azulejos de flor-de-lis que tenho no muro da minha casa eram inclusivamente dele.

Entretanto, as pessoas que passavam pela casa davam-me os parabéns pelos meus trabalhos, incentivando-me a construir este mundo de fantasia.

Para além do seu gosto pelo reaproveitamento de materiais e de passar o seu tempo de reforma a executar estes trabalhos, houve alguma situação que tenha de forma especial despoletado o seu gosto para realizá-los?

Sim. Na altura em que já estava na pré-reforma, a junta de freguesia da zona da Alameda, em Lisboa, organizou um curso, em que até participou o juiz que condenou as FP 25. Durante a semana, ao fim da tarde, a junta disponibilizava o espaço e os materiais e éramos coordenados pelo professor Melício. Até chegou a ser equacionado fazer-se escultura, mas acabou por não acontecer, acabando por se fazer essencialmente trabalhos de pintura. Na sequência desse curso, fizemos inclusivamente exposições em vários locais e chegámos a vender trabalhos. Lembro-me até de um quadro que fiz de S. Jorge e que desapareceu numa dessas exposições. Tinha a intenção de o colocar aqui, mas como tal não foi possível acabei por fazer outro com bocados de azulejo. Foi uma experiência interessante, de vários meses, com gente de todas as idades e era bom porque não pagávamos nada. Talvez tenha sido essa experiência que despoletou em mim a vontade de realizar trabalhos artísticos.

Como escrevi algures aqui na minha casa, todos nós temos jeito para qualquer coisa. No meu caso descobri nessa altura o meu jeito para os trabalhos artísticos.

Tem tido muitas pessoas a visitar o seu solar?

Sim, tenho tido muitas visitas. Os meus trabalhos têm sido muito apreciados.

Já tenho até sido solicitado para abrir a casa a grupos escolares e a outros. Até para fazer aqui uma peça de teatro. Apareceu também aqui o Alexandre Pomar que se interessou muito por isto, e o seu pai, o Júlio Pomar, também já cá esteve. Fiquei muito feliz pelo facto do Alexandre Pomar e o Tiago Pereira, filho do músico Júlio Pereira, se terem interessado pelo meu trabalho e terem feito o vídeo que esteve patente na Galeria Municipal. O Sérgio Godinho também passou por aqui, e gostou muito… A provar tudo isto é o “livro de honra” onde os visitantes podem deixar as suas impressões da visita.

Sou conhecido como o “Gaudi da Boavista

E como é que as pessoas fazem as visitas?

De várias formas. Há pouco tempo apareceu aqui um grupo de amigos que me contactou. Outros passam aqui à porta, param para ver, e eu convido-os a entrar. Há pessoas que até perguntam quanto custa a entrada e obviamente digo que não custa nada. Às pessoas que veem aqui até proponho que tragam familiares, vizinhos, amigos. Há também outros que param, mas acanham-se e não entram. E passam por aqui inclusivamente muitos estrangeiros, que também deixam no livro as suas dedicatórias.

Para além disso, o Expresso esteve aqui e fez uma reportagem com grande destaque na sua revista sobre a minha casa. Há pessoas que até me dizem que já têm ido a muitos museus e nunca viram uma coisa assim. Eu fico muito contente, claro…

Houve até quem me chamasse Gaudi. Sou conhecido como o “Gaudi da Boavista”, e quando fui ao programa do Goucha, ele até me chamou de “Gaudi português”. Aumentou a parada (risos)… Além da TVI também estive na SIC.

Como fim de vida, é uma boa forma de passar o tempo…

Quais são os motivos dos seus trabalhos, as suas fontes de inspiração?

É algo que é difícil de explicar. Eu posso ter um sonho, com determinada situação, e então, transporto isso para o papel e depois executo. Nos jornais, nas revistas, na televisão, também vejo coisas que me inspiram.

Há algum trabalho seu de que goste de forma especial?

Gosto de todos, mas principalmente da figura do S. Jorge a matar o dragão. Escolhi essa figura porque por um lado S. Jorge tem o meu nome e por outro lado é um santo guerreiro. Também tenho alguns quadros com animais e aves de que gosto muito. Aquelas duas parabólicas com um corvo e uma gaivota, que são o símbolo de Lisboa, também é um trabalho de que gosto de forma especial.

A figura do S. Jorge tem alguma relação com o facto de ter chamado a esta sua casa “O Solar dos Jorges”?

Sim, mas o nome desta casa tem mais a ver com o meu nome e o dos meus filhos. Dei esse nome a esta minha residência porque há umas décadas atrás havia ruas que não tinham nomes e as pessoas tinham de dar nomes às suas casas. Dentro desta casa criei até ruas com o nome de familiares como forma de homenagem.

Acha que o seu trabalho é importante no sentido de alertar para a reciclagem dos materiais, numa altura em que não se aproveita nem se arranja nada, compra-se tudo novo?

Eu acho que é importante. Tive um colega numa profissão diferente, já há muitas décadas, que falava da reciclagem, numa altura em que ninguém ligava a isso. Já na altura ele falava da importância de reaproveitar as coisas inclusivamente de forma a matar a fome. Ele batia muito nessa tecla e isso ficou-me na memória, o que também contribuiu para que enveredasse por este caminho de aproveitamento de materiais.

Ao longo da sua vida que profissões e ocupações teve?

Fiz o 5.º ano do liceu, depois o desporto tomou conta de mim, e fui conciliando a vida desportiva com a profissional. Quando cheguei a sénior o Benfica enviou-me para a Régua com um rapaz que veio de Moçambique com o Eusébio, o Zambane, e fui lá campeão de Vila Real. Depois fui jogar para o Loures e o presidente desse clube arranjou-me um emprego num escritório, foi o primeiro que tive. Fui também na altura campeão distrital. Eu queria continuar lá, mas estava vinculado ao Benfica que me enviou para Portimão. Não estive muito tempo no Algarve, acabei por me desvincular do Benfica, e fiz o resto da minha carreira desportiva em clubes como o Nazaré, o Alhandra, o Povoense, o Desportivo dos Olivais e o Costa da Caparica. Até que em 1975 tirei o curso de treinadores. Foi o primeiro em Portugal, em que participou por exemplo o Manuel José. Treinei clubes do distrito como o Venda do Pinheiro, o Vitória de Lisboa, e outros. Fui ainda árbitro. Paralelamente fui vendedor de bebidas, depois fui para uma empresa em que tive como função a de chefe de armazém e trabalhei ainda numa empresa de ar condicionado. Para conseguir amealhar mais algum dinheiro vendi também livros no Círculo de Leitores.

Tendo feito a sua vida em Lisboa, porque escolheu a Boavista para segunda habitação?

Comecei por ver casas na Costa da Caparica, mas não queria ficar muito próximo de Lisboa para manter algum afastamento do trabalho. Ainda vi umas casas no Algarve mas concluí que ficava muito longe. Até que resolvi dar uma volta pela Ericeira e Santa Cruz. Só havia aqui um problema que era o tempo, era uma zona de muito vento. Hoje em dia não é nada comparado com antigamente, quando o tempo era mais agressivo. Lembro-me de estar em tronco nu no quintal e parecia que tinha agulhas a espetar no corpo. Na altura falei com um construtor que tinha uma casa para vender em Santa Cruz, mas que precisava de obras, e acabei por não comprar essa. No entanto ele sugeriu-me esta na Boavista, que acabei por comprar.

E tem gostado desta zona?

Acho que é uma zona agradável. Está-se aqui bem, não falta nada…

Estou na minha casa de manhã à noite, onde passo o meu tempo. De vez em quando também vou dar uma volta, mas passo a maior parte do tempo em casa.

Ainda me lembro de quando aqui cheguei a estrada ser em terra batida. Hoje é alcatroada. Tem havido uma evolução e qualitativa imensa…

Teve uma boa recetividade da instalação/exposição sobre o seu trabalho que esteve patente na Galeria Municipal?

Sim. As pessoas foram dizendo bem dela e no próprio dia da inauguração os presentes estavam bastante agradados…

Não é muito normal pessoas que vêm do mundo do futebol desenvolverem interesse pelas artes…

Sim, é mais pela parte musical que os futebolistas se interessam…

A título de curiosidade, houve alguns colegas seus dos juniores do Benfica que se tenham tornado conhecidos?

Sim, o Simões, por exemplo. Tenho até uma história muito interessante com o Simões. Na minha juventude, com um conjunto de rapazes benfiquistas, fui aos treinos de captação do Benfica. Éramos seis e nenhum ficou. No entanto não desistimos e fomos ao atletismo e dos seis ficamos três. Modéstia à parte, fui considerado o melhor e inclusivamente fui campeão de atletismo pelo Benfica. Só que quis de novo jogar futebol e fui às captações do Sporting. Não falei com nenhum dos meus colegas benfiquistas, fui lá, e acabei por ser aproveitado. E assim fiz uma época nos principiantes do Sporting, que corresponde atualmente aos juvenis. Joguei com jogadores como o Pedro Gomes, o Oliveira Duarte, o Crispim, que atingiram um certo gabarito. E quando acabei a época fui de novo ao Benfica para me submeter às provas. Quando disse que tinha sido jogador do Sporting aceitaram-me logo. E o treinador dos juniores, que era um argentino, chamado Valdeviezo, perguntou-me se eu conhecia o Simões. Perguntou-me se ele era bom, eu disse que sim, e questionou-me porque não jogava pelo Sporting. E o que se passava era o seguinte: o Almada pediu determinado valor ao Sporting pela sua transferência, o que não foi aceite. O Sporting manteve-o durante um ano e passado esse tempo o Simões ficava desvinculado do outro clube sem ser necessário pagar o que quer que fosse. Nos treinos o Simões até jogava contra mim porque na altura eu era defesa direito e ele era extremo esquerdo. Defrontávamo-nos os dois, mas eramos muito amigos. Um dos primeiros jogos que fiz pelo Sporting até foi aqui em Torres, ele acompanhou-nos, mas não podia jogar. E então o Simões esteve um ano no Sporting sem jogar, mas acabou por ir para o Benfica porque este clube chegou a um acordo financeiro com o Almada. Posso dizer que a vinda do Simões para o Benfica teve o meu dedo…

É bom ter a sensação que passei por este mundo e fiz qualquer coisa de relevante

O Simões viria inclusivamente a ser campeão europeu de juniores. Eu e o Bernardes de Torres Vedras chegamos a ser convocados para essa seleção, até tenho uma fotografia tirada com ele, que jogava no Torreense, mas dos 22 convocados houve 6 que não foram à Áustria, e nós fomos desses que acabaram por não ir ao campeonato. Naquele tempo era assim…

Tem algum desejo, ambição, para o futuro?

Bom, gostava de ter saúde para continuar a fazer isto. Por outro lado, que as pessoas venham visitar o meu solar. Por outro lado ainda, que a Câmara continue a apoiar as artes e a cultura.

Para além de fazer um ou outro objeto, não tenho nenhum objetivo em especial. Tenho 73 anos e apenas gostava de ficar para a posterioridade. É bom ter a sensação que passei por este mundo e fiz qualquer coisa de relevante…

 
Última atualização: 23.12.2015 - 16:58 horas
 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Ângela Ferreira, com uso indevido de Jorge Dias e Margot Dias

A amálgama realizada por Ângela Ferreira ao juntar imagens documentais filmadas por  Margot Dias e as montagens saudosistas do vídeo "Moçambique - Do outro lado do tempo" (de Luiz Beja - Prod. Beja Filmes, Massamá), projectadas sem identificação reconhecível, vem agravar a repugnância crescente que me tem provocado a actuação tida por artística da referida srª. Parece-me do domínio do abuso de confiança, do desvio delinquente, do confusionismo ideológico primário a coberto do "pensamento pós-colonial". Não estando editados os filmes de Margot Dias, tratou-se de uma utilização autorizada? E por quem? A "obra" de A. F. tem por objecto ou ambição  denunciar o colonialismo de Jorge e Margot Dias e também a cumplicidade entre o Museu Nacional de Etnologia e o antigo Ministério do Ultramar - tudo com base na indigência analítica, na preguiça metodológica e na debilidade formal das fotos que mandou fazer, bem como da construção apresentada como escultura. 


Tratar-se-ia, diz a apresentação no catálogo, de uma "visão perspicaz da vida e da obra dos antropólogos" Jorge Dias e Margot Dias..., sobre "a agenda política escondida por trás das investigações do casal Dias e das suas alianças com o regime salazarista"..., que "faculta ao público a possibilidade de ler nas entrelinhas". É grave o equívoco em que induz os incautos.



Ora nem se trata do resultado inédito de alguma investigação original, ou do uso de informação desconhecida, nem as afirmações que constituem a denúncia de uma "agenda escondida" são legítimas e correctas.

Há mais alguém (da área da Antropologia, por exemplo) que se incomode?

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O artista espontâneo

O Rui Poças chamou fotógrafo espontâneo ao António Saramago, que expõe na Pickpocket (até 24 de Abril). A fórmula ou classificação parece-me rara, ou não me lembrava de a encontrar.

Depois encontrei artista espontâneo num escrito de Fernando Pessoa referente a Alberto Caeiro:

"Dir-lhe-ei, e estou certo que concordará comigo, que nada há mais raro neste mundo que um artista espontâneo — isto é, um homem que intelectualiza a sua sensibilidade só o bastante para ela ser aceitável pela sensibilidade alheia; que não critica o que faz, que não submete o que faz a um conceito exterior de escola ou de moda, ou de “maneira”, não de ser, mas de “dever ser”."
Fernando Pessoa, carta a Adolfo Rocha (Miguel Torga), Junho de 1930

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Solar dos Jorges




O SOLAR DOS JORGES

Enquanto houver um espaço livre, Jorge Soares irá acrescentar sempre novas figuras às paredes e muros exteriores da vivenda que comprou em 1972 como casa de férias, perto de Lisboa, onde nasceu - situada a pouca distância da Praia Azul (Boavista, Silveira, Torres Vedras). Chamou-lhe Solar dos Jorges, incluindo os nomes dos dois filhos. Depois de reformado e viuvo, já no início do século, passou a dedicar todo o tempo às decorações murais em fragmentos de azulejo, pedras roladas e outros materiais encontrados, bem como às esculturas e instalações com objectos heteróclitos que foi antes acumulando e que continua a recolher para lhes dar novos usos. 

Transformou todas as fachadas da vivenda original e deu uma nova pele às paredes da casa e aos muros junto à estrada, inventou monumentos no jardim (mais um barco, um poço, uma ponte), criou um labirinto de ruas e recantos, baptizou-os com os nomes dos familiares mais próximos, ergueu uma torre e hasteou uma bandeira, gravou versos em pedra, instalou colecções e abriu um museu privado. Todas as superfícies são invadidas por uma decoração proliferante, ordenada em painéis figurativos ou caoticamente distribuida, criada com uma grande diversidade de materiais, técnicas e inspirações, sempre com materiais reciclados e meios de trabalho rudimentares. É a construção de um universo pessoal, um puzzle enciclopédico, muitas vezes paródico, obra de um mestre do azulejo recortado que é antes de tudo um humorista.

sábado, 11 de abril de 2015

Estreia do filme O SOLAR DOS JORGES, a 17 de Abril, que continuará em exibição diária, acompanhado por uma exposição fotográfica documental.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pequena Galeria: Retratos

1
Auto-retratos e retratos de fotógrafos

Podem percorrer-se as duas paredes compactas de fotografias seguindo-lhes os números e o roteiro impresso. Pode deambular-se livremente pela Pequena Galeria apontando reconhecimentos ou preferindo a disponibilidade para os encontros ocasionais. Podem identificar-se figuras com notoriedade pública, nomes conhecidos, ou perseguir afinidades pessoais e gostos próprios, os desconhecidos.
A quantidade (e as qualidades) das fotografias reunidas pelo Guilherme Godinho e a Marta Cruz oferece múltiplas pistas e permite muitos diferentes itinerários. Por exemplo através dos auto-retratos: de Emílio Biel, circa 1895 (que também aparece logo ao lado fotografado por Carlos Relvas, numa prova com o passepartout impresso do autor, apresentada em Paris em 1882), de Fernando Lemos, de José Cabral (por duas vezes, em família, em provas vindas da mostra "Anjos Urbanos" (P4, 2008), e também retratado por Luís Basto, em 2004), de José M. Rodrigues e António Júlio Duarte, de Rita Barros (na foto junta).
E mais de Inês Moura aka Cretina ( http://c-r-e--t--i-n-a.tumblr.com/ ) e da sueca Malin Bergman https://instagram.com/vivaladiva_/ , já com uma outra dinâmica serial e de projecto, encenando o autor como actor, ou como modelo num jogo de construções-ocultações. E entre outros casos ainda a averiguar o Self Portrait de Guilherme Godinho é já outra coisa.
Aos quais - auto-retratos - se podem juntar os retratos de fotógrafos por olhos alheios: Man Ray por Ida Kar, Ricardo Rangel por Sérgio Santimano, no lançamento de Pão Nosso de Cada Noite, em 2005, numa prova pertencente a José Cabral; Manuel Álvarez Bravo por Clara Azevedo (nos Encontros de Coimbra de 1984), Paulo Nozolino por Luís Pereira, de 2012.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Brito Camacho, 1923

A caminho d'África

"O preto é mais do que uma besta e menos de que uma pessoa?
Ha, então, que fazer, em relação a elle, uma zootecnia que seja um pouco mais do que élevage, a creação e preparação de animaes de trabalho, tanto mais uteis quanto forem mais aptos e mais fortes.
O preto é um homem como o branco, apenas retardado de muitos séculos no seu desenvolvimento moral?
Ha, então, que o instruir e educar como se fosse branco, desenvolver gradual mas sucessivamente as suas faculdades animicas, só com o elementar cuidado de não exigir que elle faça o que os brancos não puderam fazer, isto é, saltar d'um estado de sociabilidade rudimentar, quasi zoologica, para um estado de socialização perfeita.
Se o preto, nas regiões tropicais, não pode ser substituido pelo branco nos seus labores agricolas, tudo aconselha, o humanitarismo e o interesse, a olhar para elle com solicitude, impedindo que se desvalorize pela doença e prematuramente se aniquile pela morte. Sinto-me negrophilo pela razão e pelo sentimento, ficando assim marcada uma orientação ao meu procedimento governativo."

Alto comissário em Moçambique de 1921 a 1923
Manuel de Brito Camacho foi um médico militar, escritor, publicista e político que, entre outros cargos de relevo, exerceu as funções de Ministro do Fomento e de Alto Comissário da República em Moçambique. Fundou e liderou o Partido Unionista. Wikipédia