Não há fotografias coloniais, isto é ultramarinas, isto é, no caso, africanas, angolanas, como estas. Não se trata de defender o colonialismo "bom" de um fotógrafo militar envolvido em acções de guerra e de levantamento territorial (não se trata de julgar o passado, nem de o justificar ou avalizar*), nem se trata de apreciar as fotografias do tenente Veloso de Castro, realizadas em Angola entre 1904 e 1914, apenas como arte fotográfica.
* "O exame do passado requer uma abordagem crítica, porque não de trata de endossar ingenuamente as categorias de pensamento em vigor à época, mas requer igualmente uma capacidade de recuo, já que também não se trata de julgar os antecessores a partir de posturas intelectuais contemporâneas” (...nem endossar/avalizar nem julgar). In RETOUR D'ANGOLA, ed. Musée d'Ethnographie de Neuchâtel, 2010, exposição e catálogo modelares sobre a 2ª Missão Suíça em Angola, 1932-33, que além de fotografar fez grandes recolhas de espécies animais e objectos, o que nunca aconteceu com as explorações portuguesas.

Não conheço outras fotografias de pretos (não há a raça negra) onde o olhar o outro seja tão interessado (sem a objectificação dos habituais retratos exóticos), tão próximo, empático, não "etnográfico", isto é, fora da formatação "objectiva" das missões coloniais que exploram o diferente e insistem no primitivo. Se Veloso é um contemporâneo de Benoliel, e à sua altura, pelo menos, também me apetece compará-lo a Sebastião Salgado pela dedicada atenção aos grupos humanos e em especial pela relação dos corpos com a paisagem...
Para avaliar a diferença do fotógrafo Veloso de Castro no âmbito colonial-africano ("naturalmente" colonialista mas foi crítico das políticas centralistas de Lisboa e contava com o "progresso" civilizacional dos indígenas), basta comparar, só no espaço angolano, com os álbuns de Cunha Moraes, 1882-88, e da Expedição ao Muatiânvua, 1887, e com as edições posteriores da 2ª Missão Suíça, Neuchâtel, ed. 1934, de Fernando Mouta, 1934, e de Elmano da Cunha Costa, activo em 1935-39, ou visitar o vasto acervo de provas originais reunido por Castro Soromenho.
Em pesquisas no Google e no site Africa in the Photobook, de Ben Krewinkel (
https://benkrewinkel.com/), com quem já mantive alguma colaboração, podem visitar-se as publicações referidas, e em
https://africainthephotobook.com/early-albums-download/ acede-se às versões digitais de muitas outras edições internacionais sobre Africa, de 1852 a 1934. É um coleccionador e investigador que partilha as suas referências.
A aguardada publicação de um álbum Veloso de Castro será um acontecimento internacional, do ponto de vista artístico e enquanto informação sobre sociedades africanas e o contacto com europeus nos inícios do século XX: práticas sociais nativas, trabalho e comércio, habitação, convivência com os brancos e dependência, campanhas de ocupação ou pacificação, etc. Ampliará o acontecimento que é uma exposição onde se acrescenta à fotografia portuguesa um nome de primeira grandeza antes ignorado (conhecido em fontes escritas mas com uma obra não vista, ou mal vista em imagens deficientes). Era preciso re-imprimir e ampliar para ver de facto Veloso de Castro, escapando assim às preguiçosas rotinas arquivísticas.
Na exposição do Museu Militar organizada por Pedro Reigadas, no âmbito de um trabalho de mestrado, e graças a um imenso trabalho prático de investigação e apresentação, tão diferente das curiosidades académicas endogâmicas, estamos perante 120 fotografias mostradas em impressões actuais de médio formato a partir de negativos em vidro conservados nos arquivos militares, provas estas que asseguram uma extraordinária visibilidade de pormenores e de contrastes de luz, infinitamente superior às provas de época conhecidas e às que se encontram impressas nos livros do autor. São magnificas provas actuais tratadas e impressas por Roberto Santandreu que foram seleccionadas por Pedro Reigadas segundo o critério principal da avaliação estética - uma ulterior edição crítica do acervo alargaria naturalmente a sua abordagem, certamente sem alterar a apreciação actual do fotógrafo-militar.
Inaugurada em 29 de setembro, a mostra tem sido prolongada, agora até 1 de março, vencendo o silêncio, as "reservas" ideológicas de quem não viu ou quis ver mal, e em geral a prática do cancelamento que incide em tudo que escapa a tutelas académicas da moda ditas pós-coloniais, de facto "woke".
Na imprensa a mostra foi, ao cabo de 4 meses de desatençao, objecto de artigos no Expresso e no Público.
HOJE, DOMINGO, 1 de fevereiro, enfim uma capa: extenso artigo de Sérgio B. Gomes sobre a exposição Veloso de Castro / Pedro Reigadas e um comentário de Filipa Lowndes Vicente (numa abordagem revoltante, execrável..., um ataque ad hominem que se substitui à apreciação honesta e objectiva das fotografias, e onde, por exemplo, se refere largamente um processo de cariz moral que lhe foi levantado e de que foi absolvido, o que não se diz), mais uma entrevista da académica sul-africana Patricia Hayes, que veio da Cidade do Cabo, afirmativa e prudente.
soldado cuamato vencido (já não um prisioneiro, depois de reconhecida a vassalagem pelo soba local), a quem foi permitido conservar a arma e os adereços que vinham de militares portugueses mortos na campanha de 1904) Na legenda imprecisa do Público: "guerrilheiro Cuamato em cativeiro, à guarda do Exército de Portugal, durante a Campanha dos Cuamatos, em 1907"
" (...) Um d'estes cornbatentes tivemol-o mais tarde no Cunene, e para lá fôra preso pelo capitão Montez na segunda viagem por este feita com os despachos de Naloeque. Era notavel pelo seu ar de sobranceria e indifferença e por usar um cinto e suspcnsorios respectivos, do equipamento de um dos nossos soldados de
infanteria. Tambern tinha uma espingarda Snyder e os amuletos de guerra que usava suspensos do pescoço
eram dois mechanismos de rclogio, que disse ter recolhido em 1904 no Pernbe, dos nossos mortos, e que invuluraveis se consideravam todos os cuamatos quando usassem qualquer objecto dos que nos tivessem pertencido; d'elles todos se haviam munido n'esse anno de indelevel e pungente memoria.
Este soldado cuarnato, que no Cunene sempre esteve persuadido que morreria ás nossas mãos, foi despedido em paz quando lá chegou a columna, sem que da sua bocca saisse o menor agradecimento e sem que désse sequer mostras de admiração. Quanto aos que apparecerarn cm Naloeque , também se retiraram em paz e com as suas espingardas, que não foram apprehendidas com o fim de facilitar mais tarde a reunião de maior numero e a sua entrega." pp. 242-3, JVC, A CAMPANHA DO CUAMATOI EM 1907, Breve narrativa acompanhada de photographias, Loanda, Imprensa Nacional, 1908 - não um álbum, mas um extenso livro de c. 292 págs.


venus branca (pintura de Carlos Reis) e Venus preta