sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Elmano Cunha e Costa, fotógrafo em Angola, 1935-39


´de 29 12 2014 revisto em 13 02 2026

Documentação fotográfica adquirida ao autor, o advogado Elmano Cunha e Costa, pela Comissão Nacional dos Centenários (criada no âmbito da Presidência do Conselho de Ministros para organizar as comemorações do "Duplo Centenário da Nacionalidade" i.e. a Fundação da Nacionalidade em 1140 e a Restauração de 1640) e pelo Ministério das Colónias, (Castelo e Mateus,p. 106). Foi integrada na Agência Geral das Colónias: uma pequena parte depois de 16 de setembro de 1941, na sequência da extinção daquela Comissão, outra provavelmente após junho de 1943 (Castelo e Mateus, p. 97). Extinguida a Agência Geral do Ultramar, esta documentação fotográfica foi transferida do Palácio da Cova da Moura para o Arquivo Histórico Ultramarino, ambos em Lisboa, a 31 de Maio de 1984, por despacho da Direção-Geral da Reforma Administrativa de 29 de Abril de 1983.

História administrativa/biográfica/familiar

A Agência Geral das Colónias (depois Agência Geral do Ultramar), enquanto organismo de propaganda e informação e editora, foi constituindo um acervo fotográfico relevante sobre as anteriores colónias portuguesas. Este acervo resultou sobretudo da atividade dos próprios serviços e de encomenda e/ou compra. As espécies fotográficas agregadas nesta série foram adquiridas ao autor, Elmano Cunha e Costa. Elmano Morais da Cunha e Costa (Aveiro, 1892 - Lisboa, 1955), bacharel em Direito, além de advogado, teve outras atividades profissionais.

Viveu em Angola entre 1929 e 1939 e, depois de dois anos em Lisboa, esteve na Guiné entre Outubro de 1941 e 1943. Apoiante do Estado Novo e apaixonado por fotografia levou a cabo, de 1935 a 1938, um extenso registo de imagens de natureza etnográfica em Angola, enquadrado pelo conhecimento do padre Carlos Estermann (Illfurth, 1896 - Angola, 1976), superior da Missão Católica da Huíla, da Congregação do Espírito Santo. Na Guiné fotografou a viagem do ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado, em 1941 (V. Castelo e Mateus, p. 85-89).

Instrumentos de pesquisa

ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO - [Base de dados de descrição arquivística]. [Em linha]. Em atualização permanente. Descrição e imagens disponíveis em https://actd.iict.pt/collection/actd:AHUECC Inventário do acervo fotográfico AHU/IICT: Colecção Elmano Cunha e Costa (AGU/ECC). Actualizado em Janeiro de 2012. Disponível no AHU.

Fonte imediata de aquisição ou transferência

Incorporação: Documentação fotográfica transferida do Palácio da Cova da Moura, em Lisboa, a 31 de Maio de 1984, por despacho da Direção-Geral da Integração Administrativa, do Ministério da Reforma Administrativa, de 29 de Abril de 1983.


Cláudia Castelo e Catarina Martins, "Etnografia Angolana (1935-1939: histórias da colecção fotográfica dec Elmano da Cunha e Costa, in  2014, Filipa Lowndes Vicente, "O Império da Visão: fotografia no contexto colonial português" 
Liliana Oliveira da Rocha, 2016, "Clichés de um Império Imaginado - Na mira de Elmano Cunha e Costa"
Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura, UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO, Vila Real

Inês Vieira Gomes, 2022,"Elmano Cunha e Costa, etnógrafo em Angola,1935-1938: amadorismo versus ciência" in Fotografia e Império. - Imagens da África colonial portuguesa entre 1875 e 1940", Universidade de Lisboa, Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Évora - http://hdl.handle.net/10451/52250 (sob request)



Obras reproduzidas em: 
1940 (?)Exposição do Mundo Português. Secção Colonial. Dir. Henrique Galvão. Catálogo. Indica-o como Colaborador fotográfico * (ver tb pgs. 271, 281 e 284) com 20 fot. de Angola


1943. Mendes Correa, Raças do Império. Com 98 fotog., creditadas e cedidas pela AGC

1946. Castro Soromenho, *A Maravilhosa Viagem dos Exploradores Portugueses, Início da publicação em fascículos em 1946, até 1948. Ilustrações e arranjo gráfico de Manuel Ribeiro de Pavia e fotografias de Elmano Cunha e Costa (ambos não creditados). Ed.

195-, Henrique Galvão, Outras terras, outras gentes: viagens em África. Porto, 2 vol.

Bibliografia activa:

Negros / Carlos Estermann, Elmano Cunha e Costa. - Lisboa : Livraria Bertrand. - XV + 207 páginas, [8] p., 1 est. ; 20 cm (ilustrado)

Alguns aspectos dos estudos etnográficos, In Boletim geral das colónias. - Ano 19º, nº 220 (Outubro de 1943), p. 93-108

 "O Regaleira e...os seus fantamas", Lisboa 1943 (?) 

Biblioteca do Tribunal da Relação de Lisboa

(será Vasco Regaleira, arq.? Será referente ao conflito com a Ordem dos Advogados?)

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É possível situar um 1º período de actividade fotográfica que vai  até à exp. de 1938 (já com o projecto do Álbum Etnográfico do Império Colonial Português, referido em 1937)
Em 1938 fotografa a Exp. Feira de Angola
Um segundo período de campanha de 1938 a 1939, com vista à Exp. do Mundo Português. Referências directas em Negros
Em 1941 fotografa na Guiné a visita do ministro das colónias

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Exposições individuais:
1937, Benguela, p. 96, 100 fotografias
1938 - EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS DE ANGOLA / PELO DR. ELMANO CUNHA E COSTA
com desdobrável (44 obras)
1946 - Exposição de Etnografia Angolana / Promovido pela Agência Geral das Colónias) (e Porto, Coliseu, 1947) catálogos, 
e 1951 - Exposição de Penteados e Adornos Femininos das Indígenas de Angola / promovida pela Agência das Colónias sob o patrocínio de S. Exª o Ministro das Colónias - catálogo, com 200 nºs 

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Além dos 8718 negativos 6x6 digitalizados e divulgados pelo Arquivo Histórico Ultramarino - https://digitarq.arquivos.pt/documentMigrated/7c585457bd624145adce1867883b7c9c, - apresentados como "Levantamento de grupos étnicos em Angola na década de 30, séc. XX, por Elmano Cunha e Costa para a Agência Geral do Ultramar. Retratos, usos e costumes, feitiçaria, rituais, habitação, arte" 
existem no AHU 535 provas ampliadas (de alguns destes mesmos negativos) distribuídas por 12 álbuns. [ A Agência recebeu o acervo no início dos anos 1940 (1941?) e disponibilizou-o imediatamente (por exemplo a Mendes Corrêa), mas não se terá tratado de uma encomenda sua ]

Essa é a grande surpresa do estudo de Cláudia Castelo e Catarina Mateus publicado em O IMPÉRIO DA VISÃO, 2014,
org. Filipa L. Vicente. As autoras - que traçam o mais aprofundado perfil biográfico do autor, acreditam estar perante um "protótipo" para o Álbum Etnográfico de Angola, que o advogado-fotógrafo se propôs publicar em parceria com o Pe Carlos Estermann e de que fala logo em 1937, em Moçâmedes. Dão algumas informações suplementares: "as provas são impressas em papel fotográfico mate e com viragem a sépia".

Esclarecem as autoras que a "Missão fotográfica a Angola", diversas vezes referida (por exemplo por A. Sena, p. 261, que o diz "encarregado pelo Governo de organizar o Album..."), nunca existiu como tal, com carácter oficial reconhecido, sabendo-se apenas da encomenda de um documentário fotográfico no contexto das Comemorações Centenárias, o qual se destinou à Secção Colonial dirigida por Henrique Galvão, com contrato assinado a 12 de Junho de 1938 (n. 19, p. 87).
Foi realizado entre meados de 1938 e outubro de 1939, e em cumprimento daquele contrato procedeu E.C.C. à entrega de 896 clichés (clichés e não negativos, que são 8718, não correspondendo também aos 12 álbuns com 535 provas ampliadas - pág. 97). 
As atribulações do fotógrafo, quanto ao respectivo pagamento, estão documentadas em 1941 e 1943, contando com intervenção directa de Salazar.

Catálogo da Secção Colonial da Exposição de 1940 (pág. V). 
O Dr. Elmano figura no fim da 1ª página de retratos da equipa responsável, ao lado de Vasco Regaleira, Gonçalo Melo Breyner, Roberto de Araújo e José Bastos, mais os escultores Manuel de Oliveira e Júlio de Sousa (autor da capa de Negros, 1941), na 2ª página


Não é o fotógrafo que interessa às autoras: os 12 álbuns e as 535 provas positivas não são notícia  destacada e esta surge só no final do artigo. "Estes álbuns, embora de fraca qualidade de materiais [a encadernação? as folhas de álbum? o papel fotográfico?], despertam curiosidade (sic): não só as provas são impressas em papel fotográfico mate e com viragem a sépia, conferindo-lhes um certo carácter 'artístico', (...)".  A seguir anota-se que a legenda das imagens é manuscrita em 4 línguas e é "decorada por desenhos de artefactos africanos ou elementos alusivos ao 'exótico', que mudam para cada grupo étnico." [Poderia pensar-se que estamos sempre no domínio do exotismo, nas fotografias e nos artefactos... mas trata-se de "elementos alusivos" - quais?]

O "carácter 'artístico'" não diminui o interesse etnográfico e antropológico da obra do Dr. Elmano. É mesmo uma garantia de qualidade fotográfica que reverte a favor do documentário.
E seria errado fazer residir o interesse etnográfico nos 8718 negativos 6x6 digitalizados e positivados (visíveis no site do AHU) e, em paralelo, situar o interesse artístico, com ou sem aspas, nas 535 provas ampliadas (provas de autor, presumivelmente) reunidas nos 12 álbuns. 
A obra fotográfica e etnográfica do advogado-fotógrafo-etnólogo, também político (monárquico e salazarista, mas certamente não filiado) e publicista ( "O Sul de Angola", Moçâmedes, 1937, jornal que dirigiu) e até espião (ou acusado disso, a favor da Alemanha, em 1941 na Guiné...), está também abundamente disponível nas páginas de várias edições impressas, livros e catálogos. Certamente em provas fornecidas sob a sua atenção, com os reenquadramentos e ampliações convenientes. O formato 6x6, o negativo quadrado, é só uma consequência do uso prático da Rolleiflex, nunca mantido nas provas finais.

Convirá reconhecê-lo decididamente como fotógrafo, expositor nos salões do Grémio de Arte Fotográfica (1938, 1940, 1943, pelo menos), de que foi sócio e dirigente (1941-44); e expositor em várias mostras individuais (quatro, de 1937, em Benguela, a 1951, em Lisboa, sem contar a repetição no Porto da de 1946), que eram escassas à época, e também, em 1940, com presença destacada na Secção Colonial da Exposição do Mundo Português, Pavilhão de Angola e Moçambique, Sala 6. 
Para lá da extensa presença impressa em várias obras (Mendes Correa, Castro Soromenho e Henrique Galvão).

O dr. Elmano é um dos expositores do 2º Salão Internacional de Arte Fotográfica de Lisboa, em 1938, indicando residência em Mossâmedes (sic). Representa-se com: 273 - Um filósofo... de pevides e 274 - Sonolência, Bromóleos, mas nenhum deles é reproduzido. Não é certo que tenham tema africano.

Expôs em 1940 no 4º Salão, segundo C Castelo e C Mateus, p. 87, que não referem outras edições.

Aparece referido em 1941 no catálogo do 5º Salão como 4º vogal da direcção do Grémio, mas não expõe nessa edição (expõem entre outros Manuel de Oliveira e Cotinelli Telmo, membro do Grémio). 

Voltou a expôr no Salão 6º, de 1942-43 (1943), com "Na Costa de África, o mar amigo" (nº254, não rep.), como sócio do Grémio (e membro da direcção do Grémio Português de Fotografia, com residência já indicada em Lisboa. 

Não expõe em 1944 (ainda 4º vogal) e anos seguintes. Não sei dos catálogos anteriores a 1938 e de 39...

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Exposições individuais:
1937, Benguela, p. 96, 100 fotografias
1938 - EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS DE ANGOLA / PELO DR. ELMANO CUNHA E COSTA
com desdobrável (44 obras)
1946 - Exposição de Etnografia Angolana / Promovido pela Agência Geral das Colónias) (e Porto, Coliseu, 1947) catálogos, 
e 1951 - Exposição de Penteados e Adornos Femininos das Indígenas de Angola / promovida pela Agência das Colónias sob o patrocínio de S. Exª o Ministro das Colónias - catálogo, com 200 nºs 


Bibliografia passiva:
1938 - "Exposição de Fotografias de Angola pelo Dr. Elmano Cunha e Costa", não ass.
in Objectiva nº 15, Agosto, pág. 38*. 

1947, José Tenreiro, "Exposição de Etnografia Angolana", in Seara Nova, ano XXVI, nº 1020, 15 Fev. 1947, p. 18 (poeta são-tomense)

1947 - Exposição etnográfica de Angola / Elmano Cunha e Costa. - Possui ilustrações.
In: O Mundo Português. - II série, nº 7 (1947), p. 45-51
1951 - "Penteados e adornos femininos das indígenas de Angola" / sobre exp. de Elmano Cunha e Costa
In: Boletim geral das colónias.- vol. 26, nº 310.- (1951), p. 137- 141 (4 ilust do cat., 2 pgs)





quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

AS COMPRAS “DO ESTADO” DESDE 1976. (4) A COLECÇÃO SEC DESTINADA A SERRALVES, E DEPOIS DE 2019

AS COMPRAS “DO ESTADO” DESDE 1976: NEM SEMPRE SE DESRESPEITARAM OS MUSEUS COMO AGORA (4)
As aquisições programadas de obras de artistas nacionais (para além das compras do antigo MNAC até c.1987, de compras para sedes de embaixadas e outros destinos estatais) foram iniciadas por David Mourão-Ferreira, então secretário de Estado da Cultura (1976-Janeiro de 1978, e 1979), sendo Fernando Calhau, funcionário da Divisão de Artes Plásticas da Direçcão-Geral da Acção Cultural (DGAC), o seu primeiro responsável.
Nos anos 70 e 80, "o compromisso entre a ação do Estado e a Coleção teve maior continuidade" (cit. A. Carita, abaixo), através de Fernando Calhau e Fernando Pernes, no quadro do projecto do Museu de Arte Moderna no Porto, que viria a ser Serralves. E em 1985, a SEC apresentou a sua colecção destinando-a expressamente ao MAM do Porto.
Em 1995, o previsto MAM surge designado como Museu Nacional de Arte Contemporânea, fixado o limiar dos anos 60 como programa de acção, em articulação com a periodização prevista para o Museu do Chiado, instalado em 1994, após o fecho do MNAC em 1987.
V. Todolí fixa, em 1997, um novo programa cronológico para a colecção de Serralves, que passa a ter por limiar o final da década de 60, de acordo com uma suposta «mudança de paradigma» que será exemplificada na exposição inaugural «Circa 1968». Através de novo protocolo com o MC, Serralves abdica das obras que lhe tinham sido antes atribuídas e não se enquadram nesse período, a favor dos Museus Soares dos Reis e do Chiado, mas a partilha com este foi um processo tempestuoso. Entretanto um conjunto de obras foi entregue em depósito à Câmara de Aveiro, num episódio mal esclarecido.
Nas décadas que vão de 1990 a 2019, as aquisições da chamada Colecção SEC pararam, mas outras sempre aconteceram por iniciativa de diversas entidades, a Assembleia da República, Comissão dos Descobrimentos, Museus de Serralves, do Chiado e CCB (foi importante a parceria Berardo/Estado, com 1 milhão de euros/ano, obras que vieram a ser recompradas por Berardo)... E é em 2018/19 que António Costa responde a reivindicações económicas de alguns artistas re-iniciando a velha colecção, mas então sem destino atribuído e à revelia dos Museus.
Em 2022 a Fundação de Serralves, a Fundação do Centro Cultural de Belém, a Fundação e Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva, o Museu do Chiado ou Museu Nacional de Arte Contemporânea, o Município de Aveiro e o Centro de Arte Contemporânea de Coimbra (?) eram os espaços que acolhiam a ex-Coleção SEC e nova Colecção do Estado.
É de 2022 uma notícia-entrevista com David Santos no Observador, por Alexandra Carita, que fornecia alguns dados sobre a actualidade da ex-Colecção SEC. David Santos era então o coordenador da Comissão para a Aquisição de Arte Contemporânea (CAAC) e/ou curador da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE). https://observador.pt/.../para-preservar-patrimonio-e.../#
Fotos do catálogo de 1985 e da insólita montagem da exp na então Galeria Almada Negreiros, na sede da SEC. Uma notícia da colecção em Aveiro, anos 90. Extracto da entrevista citada.













domingo, 1 de fevereiro de 2026

VELOSO DE CASTRO, a descoberta de um militar-fotógrafo na Angola colonial dos anos 1904-1914

 Não há fotografias coloniais, isto é ultramarinas, isto é, no caso, africanas, angolanas, como estas. Não se trata de defender o colonialismo "bom" de um fotógrafo militar envolvido em acções de guerra e de levantamento territorial (não se trata de julgar o passado, nem de o justificar ou avalizar*), nem se trata de apreciar as fotografias do tenente Veloso de Castro, realizadas em Angola entre 1904 e 1914, apenas como arte fotográfica.

* "O exame do passado requer uma abordagem crítica, porque não de trata de endossar ingenuamente as categorias de pensamento em vigor à época, mas requer igualmente uma capacidade de recuo, já que também não se trata de julgar os antecessores a partir de posturas intelectuais contemporâneas” (...nem endossar/avalizar nem julgar). In RETOUR D'ANGOLA, ed. Musée d'Ethnographie de Neuchâtel, 2010, exposição e catálogo modelares sobre a 2ª Missão Suíça em Angola, 1932-33, que além de fotografar fez grandes recolhas de espécies animais e objectos, o que nunca aconteceu com as explorações portuguesas.



 

Não conheço outras fotografias de pretos (não há a raça negra) onde o olhar o outro seja tão interessado (sem a objectificação dos habituais retratos exóticos), tão próximo, empático, não "etnográfico", isto é, fora da formatação "objectiva" das missões coloniais que exploram o diferente e insistem no primitivo. Se Veloso é um contemporâneo de Benoliel, e à sua altura, pelo menos, também me apetece compará-lo a Sebastião Salgado pela dedicada atenção aos grupos humanos e em especial pela relação dos corpos com a paisagem...
Para avaliar a diferença do fotógrafo Veloso de Castro no âmbito colonial-africano ("naturalmente" colonialista mas foi crítico das políticas centralistas de Lisboa e contava com o "progresso" civilizacional dos indígenas), basta comparar, só no espaço angolano, com os álbuns de Cunha Moraes, 1882-88, e da Expedição ao Muatiânvua, 1887, e com as edições posteriores da 2ª Missão Suíça, Neuchâtel, ed. 1934, de Fernando Mouta, 1934, e de Elmano da Cunha Costa, activo em 1935-39, ou visitar o vasto acervo de provas originais reunido por Castro Soromenho.





Em pesquisas no Google e no site Africa in the Photobook, de Ben Krewinkel (https://benkrewinkel.com/), com quem já mantive alguma colaboração, podem visitar-se as publicações referidas, e em https://africainthephotobook.com/early-albums-download/ acede-se às versões digitais de muitas outras edições internacionais sobre Africa, de 1852 a 1934. É um coleccionador e investigador que partilha as suas referências.
A aguardada publicação de um álbum Veloso de Castro será um acontecimento internacional, do ponto de vista artístico e enquanto informação sobre sociedades africanas e o contacto com europeus nos inícios do século XX: práticas sociais nativas, trabalho e comércio, habitação, convivência com os brancos e dependência, campanhas de ocupação ou pacificação, etc. Ampliará o acontecimento que é uma exposição onde se acrescenta à fotografia portuguesa um nome de primeira grandeza antes ignorado (conhecido em fontes escritas mas com uma obra não vista, ou mal vista em imagens deficientes). Era preciso re-imprimir e ampliar para ver de facto Veloso de Castro, escapando assim às preguiçosas rotinas arquivísticas.
Na exposição do Museu Militar organizada por Pedro Reigadas, no âmbito de um trabalho de mestrado, e graças a um imenso trabalho prático de investigação e apresentação, tão diferente das curiosidades académicas endogâmicas, estamos perante 120 fotografias mostradas em impressões actuais de médio formato a partir de negativos em vidro conservados nos arquivos militares, provas estas que asseguram uma extraordinária visibilidade de pormenores e de contrastes de luz, infinitamente superior às provas de época conhecidas e às que se encontram impressas nos livros do autor. São magnificas provas actuais tratadas e impressas por Roberto Santandreu que foram seleccionadas por Pedro Reigadas segundo o critério principal da avaliação estética - uma ulterior edição crítica do acervo alargaria naturalmente a sua abordagem, certamente sem alterar a apreciação actual do fotógrafo-militar.
Inaugurada em 29 de setembro, a mostra tem sido prolongada, agora até 1 de março, vencendo o silêncio, as "reservas" ideológicas de quem não viu ou quis ver mal, e em geral a prática do cancelamento que incide em tudo que escapa a tutelas académicas da moda ditas pós-coloniais, de facto "woke".
Na imprensa a mostra foi, ao cabo de 4 meses de desatençao, objecto de artigos no Expresso e no Público.

HOJE, DOMINGO, 1 de fevereiro, enfim uma capa: extenso artigo de Sérgio B. Gomes sobre a exposição Veloso de Castro / Pedro Reigadas e um comentário de Filipa Lowndes Vicente (numa abordagem revoltante, execrável..., um ataque ad hominem que se substitui à apreciação honesta e objectiva das fotografias, e onde, por exemplo, se refere largamente um processo de cariz moral que lhe foi levantado e de que foi absolvido, o que não se diz), mais uma entrevista da académica sul-africana Patricia Hayes, que veio da Cidade do Cabo, afirmativa e prudente.


soldado cuamato vencido (já não um prisioneiro, depois de reconhecida a vassalagem pelo soba local), a quem foi permitido conservar a arma e os adereços que vinham de militares portugueses mortos na campanha de 1904) Na legenda imprecisa do Público: "guerrilheiro Cuamato em cativeiro, à guarda do Exército de Portugal, durante a Campanha dos Cuamatos, em 1907"

" (...) Um d'estes cornbatentes tivemol-o mais tarde no Cunene, e para lá fôra preso pelo capitão Montez na segunda viagem por este feita com os despachos de Naloeque. Era notavel pelo seu ar de sobranceria e indifferença e por usar um cinto e suspcnsorios respectivos, do equipamento de um dos nossos soldados de

infanteria. Tambern tinha uma espingarda Snyder e os amuletos de guerra que usava suspensos do pescoço

eram dois mechanismos de rclogio, que disse ter recolhido em 1904 no Pernbe, dos nossos mortos, e que invuluraveis se consideravam todos os cuamatos quando usassem qualquer objecto dos que nos tivessem pertencido; d'elles todos se haviam munido n'esse anno de indelevel e pungente memoria.

Este soldado cuarnato, que no Cunene sempre esteve persuadido que morreria ás nossas mãos, foi despedido em paz quando lá chegou a columna, sem que da sua bocca saisse o menor agradecimento e sem que désse sequer mostras de admiração. Quanto aos que apparecerarn cm Naloeque , também se retiraram em paz e com as suas espingardas, que não foram apprehendidas com o fim de facilitar mais tarde a reunião de maior numero e a sua entrega." pp. 242-3, JVC, A CAMPANHA DO CUAMATOI EM 1907, Breve narrativa acompanhada de photographias, Loanda, Imprensa Nacional, 1908 - não um álbum, mas um extenso livro de c. 292 págs.






venus branca (pintura de Carlos Reis) e Venus preta