quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

OS ÍNDIOS de Júlio Pomar, Amazónia, 1988-2006

 

 2017, Atelier-Museu, exp.


OS ÍNDIOS de Júlio Pomar, Amazónia, 1988/89 e 1997

“Em 1988, Pomar passou perto de dois meses no Alto Xingú, um território em Mato Grosso, na bacia do Amazonas, habitado pelos Txicão, os Kamaiuras, os Iawalapitis e outras tribos indígenas, num acampamento montado para a rodagem do filme de Ruy Guerra baseado no romance ‘Quarup’, de António Calado, a convite do produtor Roberto Fonseca. 

As pinturas que realizou constituíram o último grande ciclo que teve por origem um “espectáculo” a que o artista assistiu ao vivo, transferindo-o e reinterpretando-o do visto para o quadro, e aconteceu – excepto algumas pequenas tábuas de produção local – depois do seu regresso a Lisboa e a Paris. 

Deu origem a duas exposições diferentes que decorreram em 1990 em Madrid, na feira Arco, apresentada pela Galeria 111, e em Paris, na Galeria George Lavrov: ‘Os Índios’ e ‘Les Indiens’, com dois catálogos. As pinturas foram precedidas e sustentadas por um extenso corpo de desenhos de observação que também foi parcialmente exposto e deu origem, muito mais tarde, a um pequeno álbum editado pela Fundação Júlio Pomar em 2017: "Xingu".

     

lançamento no Bar Irreal

Segundo sublinha Hellmut Wohl no catálogo da exposição antológica ‘A comédia Humana’ (CCB, 2004), citando o artista, “durante este tempo que passou entre os índios, Pomar fez desenhos, mas não tocou nos pincéis: ‘Ver, ouvir, tocar, sentir, era apenas esse o meu programa. O que faria ou não faria, relativamente à pintura, isso viria depois… Enquanto lá estive, renunciei à pintura’ ” (in Alain Gheerbrant, Peinture et Amazonie, Ed. Différence, Paris, 1997, p. 22) 

De facto, os desenhos feitos no Xingu, sendo desenhos de observação, são já, em muitos casos, estudos para pinturas, apontando desde logo as figuras, os motivos e as situações que surgem depois nas telas do atelier. Noutro local Pomar referiu que era quase impossível desenhar frente aos Índios, porque as crianças o cercavam, observando-o e pedindo cadernos e lápis. Os desenhos foram quase sempre executados ao final do dia, de regresso à tenda, e mais do que apontamentos “do natural” (“sur le vif” – diante do motivo) são estudos repetidamente retomados que se tornam desenhos preparatórios, com a excepção de alguns muito pequenos blocos e figurações mais rápidas.

    

A observação de cariz etnográfico, identificando grupos étnicos, personagens e rituais, referidos nos títulos, ilustram e distinguem presenças físicas, pinturas corporais, lugares (a floresta, o terreiro, a maloca), plumagens e instrumentos (as flautas, os arcos, etc). Não é propriamente um programa documental mas a série constitui um retrato raro da Amazónia, em pintura e desenho, mesmo no Brasil.

Hellmut Wohl, loc. cit.: “Algumas palavras acerca dos títulos das pinturas que Pomar fez depois de regressar: Pajé Tocando Jakui [catálogo AMJP, p. 135, versão em serigrafia] representa um xamã (pajé) a tocar uma flauta (jakui) que nunca deve ser vista pelas mulheres; Kuarup II refere-se à celebração dos mortos; Jakui  II [cat.  p. 121] representa o tocar das flautas cerimoniais; Os Txicão [cat. p. 149] são uma das tribos indígenas do Xingu.”

Pajé Tocando Jakui, 1988

O tema dos índios iria regressar com novas pinturas em 1997, desencadeadas pelo projecto de uma exposição da série de 1988-89 em Biarritz (Festival Cinemas e Culturas da América Latina). Surgem aí as grandes telas dos “Banhos das Crianças no rio Tuatuari”, um assunto ausente da primeira série mas que estava presente em alguns desenhos esquecidos pelo pintor. A referência a Cézanne foi reconhecida por Pomar e é apontada por Hellmut Wohl: “É impossível não se pensar nestes três quadros de Pomar como uma resposta às Grandes Baigneuses de Cézanne, de 1899-1906, que está no Philadelphia Museum of Art. 

Manuel Castro Caldas - ao escrever sobre os Mascarados de Pirenópolis, uma primeira série "documental" brasileira - fez notar que as obras tardias de Cézanne foram uma das fontes de inspiração da última maneira (do estilo tardio, segundo H.W.) de Pomar, para a construção da forma e do espaço através da cor. La Baignade II [cat. AMJP p. 104-105], pela cor escura das figuras e o aplanamento das formas dos banhistas em primeiro plano, sugere também a influência de Gauguin.”

O Banho das Crianças no Tuatuari I, 1997

As telas de 1997 (La Baignade des enfants dans le Tuatuari I e II e La grande baignade) foram também expostas nesse ano em Paris numa mostra na Galerie Gerald Piltzer que se intitulou “Les Joies de Vivre”, acompanhada por um álbum com textos de Marcelin Pleynet e António Lobo Antunes. Não é irrelevante o título escolhido e que a passagem aos muito grandes formatos, dois trípticos e um políptico no caso dos Índios, tenha ocorrido por altura de uma operação e da quimioterapia…

Em 1999, uma primeira Mãe Índia - Via Láctea - surgiu numa pintura realizada para uma exposição de vários artistas convidados a comemoraer o Achamento do Brasil

Outros Índios, esses pintados a pastel, apareceram numa individual em 2002 na Galeria 111 (“Os três Efes, 1996-2002 – fábulas, farsas e fintas”).

E há de novo Mães Índias, Mères Indiennes, Meridiennes, em nove versões apresentadas na Gal. Patrice Trigano em 2006 e numa série de litografias, editadas num álbum com texto de 

Na exposição do Atelier-Museu mostraram-se apenas as quatro pinturas acima referidas e numerosos desenhos, optando-se pela inclusão de obras de três jovens artistas.

Os Índios tinham-se sucedido a uma outra série brasileira que resultou da visita, em 1987, a Pirenópolis, no Estado de Goiás, para assistir às festas do Divino Espírito Santo, cujas Cavalhadas vieram a ser o tema da série de quadros ‘Mascarados de Pirenópolis’ (expostos na Arco e em Lisboa pela 111, catálogos com texto de Manuel Castro Caldas). Tratara-se igualmente de um convite de amigos brasileiros, por ocasião da instalação de uma decoração mural em azulejo com motivos circenses e festivos realizada para o Grã Circo-Lar de Brasília, na Esplanada dos Ministérios, ao tempo do governador José Aparecido de Oliveira (os painéis foram muito mais tarde, em 2009, refeitos e reinstalados no exterior da Biblioteca Nacional na Praça da Língua Portuguesa, com 130 metros quadrados de azulejos e 26 figuras desenhadas a azul sobre fundo branco). 

Revendo a cronologia deste tempo de obras e viagens brasileiras acrescente-se que ele se iniciara em 1986 com a circulação de uma mostra antológica organizada pelo Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian (Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro, e já em 1987 Lisboa). Em 1988 os desenho para o Grã Circo Lar foram mostrados em galerias brasilerias (Ana Maria Niemayer e Paulo Figueiredo), com a edição do livro “Os desenhos do Circo de Brasília”, com um texto de Paulo Herkenhoff, edição Galeria 111. A seguir, em 1990, a exposição ‘Pomar / Brasil’ reuniu essas três séries de trabalhos e foi levada ao Rio de Janeiro e São Paulo e mostrada também em Lisboa.

Pode assinalar-se ainda que os Mascarados brasileiros tiveram uma sequela na série “Festas do Divino Espírito Santo, na Ilha Terceira”, realizada em 1991-93 e exposta em 1994 na Culturgest – CGD (“O Paraíso e outras histórias”) e em 1996 no Instituto Açoriano de Cultura, Angra do Heroismo.

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A seguir ao ciclo dos Tigres (1979-1982) a obra de Pomar orientara-se para os temas literários – e depois mitológicos – que constituiriam o centro do seu trabalho nas décadas seguintes, em especial a partir do ciclo de desenhos para o Metropolitano de Lisboa dedicados a Camões, Bocage, Pessoa e Almada (1983), que se prolongou na série sobre ‘The Raven’ / ‘O Corvo’ de Edgar Allen Poe e os seus tradutores, Baudelaire, Mallarmé e Pessoa (Le Livre des Quatre Corbeaux, Ed. Différence), 1983-1985, depois as variações sobre Adão e Eva, Ulisses, Hércules, etc.

Mascarados e Índios descentraram o artista, naqueles anos 1987-90, e depois 1997, dos temas da literatura e da imaginação (que incluía também os retratos de escritores) para a observação e a recriação do espectáculo visual directamente visto, o mundo visível e real, que constituíra quase desde o início a base, o assento, do seu ‘realismo’, da sua figuração gestual e/ou da sua particular des-figuração, quando na passagem dos anos 1950 aos 60 se desligou da alegoria neo-realista. Citem-se as antigas cenas de trabalho, as tauromaquia, os metros e as corridas de cavalos, o catch (a que se seguiu o rugby, este já com origem na apropriação de fotografias), com cuja gestualidade livre Pomar de certo modo se reencontrou ao tempo do seu “estilo tardio”. 



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Brasil ÍNDICE (in progress) 1994-2006

"Pintores viajantes"

À descoberta do Brasil no século XIX 

Exp. «Artistas Viajantes e o Brasil no Século XIX» 

Galeria de Pintura do Rei D. Luís, Palácio da Ajuda, no regresso do ano do Brasil em França: «Os Pintores Viajantes Românticos no Brasil (1820-1870)»

Expresso, 20-05-2006


"Excepções à regra" 

SÉCULO XX: ARTE DO BRASIL

Da Mostra do Redescobrimento, São Paulo

Centro de Arte Moderna

Expresso, 06-01-2001


"Repensar as artes indígenas" 

José António Braga Fernandes Dias: Fazer entrar as artes indígenas brasileiras no mapa das artes universais

Mostra do Redescobrimento

Expresso, 26-02-2000


"Identificação de um país"

Exp. "OLHARES MODERNISTAS"

Museu do Chiado

Expresso 6 de Maio 2000


"Mosaico brasileiro" 

O BRASIL DOS VIAJANTES

LÚCIO COSTA

RUY OHTAKE

MÁRIO CRAVO NETO

COLECÇÃO PIRELLI-MASP

Centro Cultural de Belém

Expresso, 28-01-95


"Brasil, Brasis"

«Memória da Amazónia: Etnicidade e Territorialidade»

«Recife, Raízes e Resultados»

J. A. Fernandes Dias

Alfândega, Porto

Expresso, 27-08-94


"A razão tropical"

O Brasil reinventado por uma arquitecta italiana numa exposição e num livro que atravessam continentes

LINA BO BARDI 

Estufa Fria

Expresso 25 03 94


1994 ARQUITECTURA RURAL NA SERRA DA MANTIQUEIRA 
Expresso 15 01 94
Fotografia   
Marcelo Carvalho Ferraz
Exp. Sociedade Nacional de Belas Artes

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Elmano Cunha e Costa, fotógrafo em Angola, 1935-39


´de 29 12 2014 revisto em 13 02 2026

Documentação fotográfica adquirida ao autor, o advogado Elmano Cunha e Costa, pela Comissão Nacional dos Centenários (criada no âmbito da Presidência do Conselho de Ministros para organizar as comemorações do "Duplo Centenário da Nacionalidade" i.e. a Fundação da Nacionalidade em 1140 e a Restauração de 1640) e pelo Ministério das Colónias, (Castelo e Mateus,p. 106). Foi integrada na Agência Geral das Colónias: uma pequena parte depois de 16 de setembro de 1941, na sequência da extinção daquela Comissão, outra provavelmente após junho de 1943 (Castelo e Mateus, p. 97). Extinguida a Agência Geral do Ultramar, esta documentação fotográfica foi transferida do Palácio da Cova da Moura para o Arquivo Histórico Ultramarino, ambos em Lisboa, a 31 de Maio de 1984, por despacho da Direção-Geral da Reforma Administrativa de 29 de Abril de 1983.

História administrativa/biográfica/familiar

A Agência Geral das Colónias (depois Agência Geral do Ultramar), enquanto organismo de propaganda e informação e editora, foi constituindo um acervo fotográfico relevante sobre as anteriores colónias portuguesas. Este acervo resultou sobretudo da atividade dos próprios serviços e de encomenda e/ou compra. As espécies fotográficas agregadas nesta série foram adquiridas ao autor, Elmano Cunha e Costa. Elmano Morais da Cunha e Costa (Aveiro, 1892 - Lisboa, 1955), bacharel em Direito, além de advogado, teve outras atividades profissionais.

Viveu em Angola entre 1929 e 1939 e, depois de dois anos em Lisboa, esteve na Guiné entre Outubro de 1941 e 1943. Apoiante do Estado Novo e apaixonado por fotografia levou a cabo, de 1935 a 1938, um extenso registo de imagens de natureza etnográfica em Angola, enquadrado pelo conhecimento do padre Carlos Estermann (Illfurth, 1896 - Angola, 1976), superior da Missão Católica da Huíla, da Congregação do Espírito Santo. Na Guiné fotografou a viagem do ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado, em 1941 (V. Castelo e Mateus, p. 85-89).

Instrumentos de pesquisa

ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO - [Base de dados de descrição arquivística]. [Em linha]. Em atualização permanente. Descrição e imagens disponíveis em https://actd.iict.pt/collection/actd:AHUECC Inventário do acervo fotográfico AHU/IICT: Colecção Elmano Cunha e Costa (AGU/ECC). Actualizado em Janeiro de 2012. Disponível no AHU.

Fonte imediata de aquisição ou transferência

Incorporação: Documentação fotográfica transferida do Palácio da Cova da Moura, em Lisboa, a 31 de Maio de 1984, por despacho da Direção-Geral da Integração Administrativa, do Ministério da Reforma Administrativa, de 29 de Abril de 1983.


Cláudia Castelo e Catarina Martins, "Etnografia Angolana (1935-1939: histórias da colecção fotográfica dec Elmano da Cunha e Costa, in  2014, Filipa Lowndes Vicente, "O Império da Visão: fotografia no contexto colonial português" 
Liliana Oliveira da Rocha, 2016, "Clichés de um Império Imaginado - Na mira de Elmano Cunha e Costa"
Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura, UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO, Vila Real

Inês Vieira Gomes, 2022,"Elmano Cunha e Costa, etnógrafo em Angola,1935-1938: amadorismo versus ciência" in Fotografia e Império. - Imagens da África colonial portuguesa entre 1875 e 1940", Universidade de Lisboa, Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Évora - http://hdl.handle.net/10451/52250 (sob request)



Obras reproduzidas em: 
1940 (?)Exposição do Mundo Português. Secção Colonial. Dir. Henrique Galvão. Catálogo. Indica-o como Colaborador fotográfico * (ver tb pgs. 271, 281 e 284) com 20 fot. de Angola


1943. Mendes Correa, Raças do Império. Com 98 fotog., creditadas e cedidas pela AGC

1946. Castro Soromenho, *A Maravilhosa Viagem dos Exploradores Portugueses, Início da publicação em fascículos em 1946, até 1948. Ilustrações e arranjo gráfico de Manuel Ribeiro de Pavia e fotografias de Elmano Cunha e Costa (ambos não creditados). Ed.

195-, Henrique Galvão, Outras terras, outras gentes: viagens em África. Porto, 2 vol.

Bibliografia activa:

Negros / Carlos Estermann, Elmano Cunha e Costa. - Lisboa : Livraria Bertrand. - XV + 207 páginas, [8] p., 1 est. ; 20 cm (ilustrado)

Alguns aspectos dos estudos etnográficos, In Boletim geral das colónias. - Ano 19º, nº 220 (Outubro de 1943), p. 93-108

 "O Regaleira e...os seus fantamas", Lisboa 1943 (?) 

Biblioteca do Tribunal da Relação de Lisboa

(será Vasco Regaleira, arq.? Será referente ao conflito com a Ordem dos Advogados?)

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É possível situar um 1º período de actividade fotográfica que vai  até à exp. de 1938 (já com o projecto do Álbum Etnográfico do Império Colonial Português, referido em 1937)
Em 1938 fotografa a Exp. Feira de Angola
Um segundo período de campanha de 1938 a 1939, com vista à Exp. do Mundo Português. Referências directas em Negros
Em 1941 fotografa na Guiné a visita do ministro das colónias

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Exposições individuais:
1937, Benguela, p. 96, 100 fotografias
1938 - EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS DE ANGOLA / PELO DR. ELMANO CUNHA E COSTA
com desdobrável (44 obras)
1946 - Exposição de Etnografia Angolana / Promovido pela Agência Geral das Colónias) (e Porto, Coliseu, 1947) catálogos, 
e 1951 - Exposição de Penteados e Adornos Femininos das Indígenas de Angola / promovida pela Agência das Colónias sob o patrocínio de S. Exª o Ministro das Colónias - catálogo, com 200 nºs 

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Além dos 8718 negativos 6x6 digitalizados e divulgados pelo Arquivo Histórico Ultramarino - https://digitarq.arquivos.pt/documentMigrated/7c585457bd624145adce1867883b7c9c, - apresentados como "Levantamento de grupos étnicos em Angola na década de 30, séc. XX, por Elmano Cunha e Costa para a Agência Geral do Ultramar. Retratos, usos e costumes, feitiçaria, rituais, habitação, arte" 
existem no AHU 535 provas ampliadas (de alguns destes mesmos negativos) distribuídas por 12 álbuns. [ A Agência recebeu o acervo no início dos anos 1940 (1941?) e disponibilizou-o imediatamente (por exemplo a Mendes Corrêa), mas não se terá tratado de uma encomenda sua ]

Essa é a grande surpresa do estudo de Cláudia Castelo e Catarina Mateus publicado em O IMPÉRIO DA VISÃO, 2014,
org. Filipa L. Vicente. As autoras - que traçam o mais aprofundado perfil biográfico do autor, acreditam estar perante um "protótipo" para o Álbum Etnográfico de Angola, que o advogado-fotógrafo se propôs publicar em parceria com o Pe Carlos Estermann e de que fala logo em 1937, em Moçâmedes. Dão algumas informações suplementares: "as provas são impressas em papel fotográfico mate e com viragem a sépia".

Esclarecem as autoras que a "Missão fotográfica a Angola", diversas vezes referida (por exemplo por A. Sena, p. 261, que o diz "encarregado pelo Governo de organizar o Album..."), nunca existiu como tal, com carácter oficial reconhecido, sabendo-se apenas da encomenda de um documentário fotográfico no contexto das Comemorações Centenárias, o qual se destinou à Secção Colonial dirigida por Henrique Galvão, com contrato assinado a 12 de Junho de 1938 (n. 19, p. 87).
Foi realizado entre meados de 1938 e outubro de 1939, e em cumprimento daquele contrato procedeu E.C.C. à entrega de 896 clichés (clichés e não negativos, que são 8718, não correspondendo também aos 12 álbuns com 535 provas ampliadas - pág. 97). 
As atribulações do fotógrafo, quanto ao respectivo pagamento, estão documentadas em 1941 e 1943, contando com intervenção directa de Salazar.

Catálogo da Secção Colonial da Exposição de 1940 (pág. V). 
O Dr. Elmano figura no fim da 1ª página de retratos da equipa responsável, ao lado de Vasco Regaleira, Gonçalo Melo Breyner, Roberto de Araújo e José Bastos, mais os escultores Manuel de Oliveira e Júlio de Sousa (autor da capa de Negros, 1941), na 2ª página


Não é o fotógrafo que interessa às autoras: os 12 álbuns e as 535 provas positivas não são notícia  destacada e esta surge só no final do artigo. "Estes álbuns, embora de fraca qualidade de materiais [a encadernação? as folhas de álbum? o papel fotográfico?], despertam curiosidade (sic): não só as provas são impressas em papel fotográfico mate e com viragem a sépia, conferindo-lhes um certo carácter 'artístico', (...)".  A seguir anota-se que a legenda das imagens é manuscrita em 4 línguas e é "decorada por desenhos de artefactos africanos ou elementos alusivos ao 'exótico', que mudam para cada grupo étnico." [Poderia pensar-se que estamos sempre no domínio do exotismo, nas fotografias e nos artefactos... mas trata-se de "elementos alusivos" - quais?]

O "carácter 'artístico'" não diminui o interesse etnográfico e antropológico da obra do Dr. Elmano. É mesmo uma garantia de qualidade fotográfica que reverte a favor do documentário.
E seria errado fazer residir o interesse etnográfico nos 8718 negativos 6x6 digitalizados e positivados (visíveis no site do AHU) e, em paralelo, situar o interesse artístico, com ou sem aspas, nas 535 provas ampliadas (provas de autor, presumivelmente) reunidas nos 12 álbuns. 
A obra fotográfica e etnográfica do advogado-fotógrafo-etnólogo, também político (monárquico e salazarista, mas certamente não filiado) e publicista ( "O Sul de Angola", Moçâmedes, 1937, jornal que dirigiu) e até espião (ou acusado disso, a favor da Alemanha, em 1941 na Guiné...), está também abundamente disponível nas páginas de várias edições impressas, livros e catálogos. Certamente em provas fornecidas sob a sua atenção, com os reenquadramentos e ampliações convenientes. O formato 6x6, o negativo quadrado, é só uma consequência do uso prático da Rolleiflex, nunca mantido nas provas finais.

Convirá reconhecê-lo decididamente como fotógrafo, expositor nos salões do Grémio de Arte Fotográfica (1938, 1940, 1943, pelo menos), de que foi sócio e dirigente (1941-44); e expositor em várias mostras individuais (quatro, de 1937, em Benguela, a 1951, em Lisboa, sem contar a repetição no Porto da de 1946), que eram escassas à época, e também, em 1940, com presença destacada na Secção Colonial da Exposição do Mundo Português, Pavilhão de Angola e Moçambique, Sala 6. 
Para lá da extensa presença impressa em várias obras (Mendes Correa, Castro Soromenho e Henrique Galvão).

O dr. Elmano é um dos expositores do 2º Salão Internacional de Arte Fotográfica de Lisboa, em 1938, indicando residência em Mossâmedes (sic). Representa-se com: 273 - Um filósofo... de pevides e 274 - Sonolência, Bromóleos, mas nenhum deles é reproduzido. Não é certo que tenham tema africano.

Expôs em 1940 no 4º Salão, segundo C Castelo e C Mateus, p. 87, que não referem outras edições.

Aparece referido em 1941 no catálogo do 5º Salão como 4º vogal da direcção do Grémio, mas não expõe nessa edição (expõem entre outros Manuel de Oliveira e Cotinelli Telmo, membro do Grémio). 

Voltou a expôr no Salão 6º, de 1942-43 (1943), com "Na Costa de África, o mar amigo" (nº254, não rep.), como sócio do Grémio (e membro da direcção do Grémio Português de Fotografia, com residência já indicada em Lisboa. 

Não expõe em 1944 (ainda 4º vogal) e anos seguintes. Não sei dos catálogos anteriores a 1938 e de 39...

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Exposições individuais:
1937, Benguela, p. 96, 100 fotografias
1938 - EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS DE ANGOLA / PELO DR. ELMANO CUNHA E COSTA
com desdobrável (44 obras)
1946 - Exposição de Etnografia Angolana / Promovido pela Agência Geral das Colónias) (e Porto, Coliseu, 1947) catálogos, 
e 1951 - Exposição de Penteados e Adornos Femininos das Indígenas de Angola / promovida pela Agência das Colónias sob o patrocínio de S. Exª o Ministro das Colónias - catálogo, com 200 nºs 


Bibliografia passiva:
1938 - "Exposição de Fotografias de Angola pelo Dr. Elmano Cunha e Costa", não ass.
in Objectiva nº 15, Agosto, pág. 38*. 

1947, José Tenreiro, "Exposição de Etnografia Angolana", in Seara Nova, ano XXVI, nº 1020, 15 Fev. 1947, p. 18 (poeta são-tomense)

1947 - Exposição etnográfica de Angola / Elmano Cunha e Costa. - Possui ilustrações.
In: O Mundo Português. - II série, nº 7 (1947), p. 45-51
1951 - "Penteados e adornos femininos das indígenas de Angola" / sobre exp. de Elmano Cunha e Costa
In: Boletim geral das colónias.- vol. 26, nº 310.- (1951), p. 137- 141 (4 ilust do cat., 2 pgs)