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sábado, 24 de janeiro de 2004

2004, Matisse, Lettres Portugaises, Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva

 O desenho essencial

    Litografias de Matisse para as cartas de Mariana Alcoforado 



Henri Matisse

 

Lettres Portugaises    

 

Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva 

Expresso 24-01-2004 

   

 

 

    «...vous m’avez trahie...», retrato imaginário da freira de Beja

 

É para alguns uma decepção: a exposição de um livro, alinhando sobre as paredes as litografias que o ilustram, quase todas retratos imaginados da freira portuguesa e motivos vegetais a ornamentar as outras páginas, apenas isso. Desenhos de poucos traços rápidos, isolando o rosto em grande plano sob a touca de freira, repetidos com ligeiras variações, ou simples flores e frutos.


É sem dúvida uma pequena exposição, mas não menos emocionante por isso, tratando-se de uma edição de Matisse e sendo estes desenhos litográficos, de extrema depuração linear e escultural concisão, um dos passos da década final da sua vida, quando explora o recorte da cor com a tesoura e realiza os projectos decorativos que são a última síntese da sua pintura. A mostra reuniu dois dos 250 exemplares editados e reconstitui a sequência das páginas ilustradas, por vezes segmentada perpendicularmente por folhas de duas faces, numa montagem que se prolonga pela disponibilização do texto traduzido. O que permitirá, com tempo, avaliar a relação calculada dos desenhos com a sucessão dos estados emocionais de Mariana e reconhecer quatro outras freiras na série de 15 retratos.


Editado em 1946 por Tériade, quando a preparação de Jazz (que o Museu já expôs) estava em andamento, inclui-se na série notável dos livros de artista que o editor grego de Paris (Efstratios Eleftheriades) então reinventava como modernos manuscritos iluminados. Publicou Divertissement com Rouault em 43, Correspondances com Bonnard em 44, e Matisse já realizara Poèmes de Charles d’Orléans, que só se publicou em 1952, com reprodução dos desenhos a cor em fotolitografia. Escritos à mão pelos artistas, com textos seus ou alheios, mudavam a regra comum dos livros ilustrados, encarregando-se aqueles de toda a concepção gráfica da obra, das capas ao «design» dos mais mínimos elementos. Tériade, que coeditara a revista «Minotaure» (1933-36) com Albert Skira, e manteve as edições da «Verve» de 1937 e 1960, viria também a publicar as fotografias de Henri Cartier-Bresson em Images à la Sauvette e Les Européens (1953 e 55), em livros com capas originais de Matisse e Miró.


Foi Matisse quem propôs a Tériade a edição das Cartas, por cujo texto se apaixonara, num tempo em que corria ainda a lenda da sua atribuição à freira de Beja, e inscrevendo por isso o nome de Mariana Alcoforado no frontispício. Publicadas pela primeira vez em 1669, com um êxito que justificou apócrifos acrescentos de mais cartas e respostas, deram densidade essencial a um género de ficção epistolar de largo futuro e foram mais tarde atribuídas a Gabriel de Lavergne de Guilleragues (1628-1684), o editor que pretensamente as descobriu e fez traduzir. Mas Racine é também considerado autor possível.


Nas Lettres Portugaises Matisse usou o texto tipográfico, mas acrescentou-lhe capitulares desenhadas e páginas de flores e frutos que são mais que motivos ornamentais, sempre diferentes para as cinco cartas (pinhas, romãs, pêssegos, jacintos e flores de romanzeira, ao longo de várias páginas). Separou-as com retratos psicológicos de Mariana, feitos na presença de um jovem modelo, e folhas de filodendro, um motivo vegetal muito frequente nas últimas obras. O paralelismo entre o vegetal e o humano é o mesmo que associa as «máscaras» e as flores nas últimas obras, chamando Matisse máscara ao retrato de alguém em particular que na sua síntese desenhada ganha uma dimensão geral, sem cair no ideal, no imaginário ou abstracto. São desenhos admiráveis, na aparente modéstia de uma simplicidade longamente aprendida.

(até de 24 Abril)

sábado, 8 de abril de 2000

2000, Louise Nevelson no Museu Arpad e Vieira da Silva

 A reconstrução do mundo 

LOUISE NEVELSON

Museu Arpad Szènes - Vieira da Silva

Até 25 de Junho 2000


 A UMA mini-retrospectiva de um grande artista pode certamente chamar-se uma grande exposição. É o caso da mostra com que o Museu Arpad e Vieira da Silva apresenta a escultora norte-americana Louise Nevelson (1899-1988), na sequência de outras exposições dedicadas a nomes decisivos da arte do século XX que têm passado pelas suas salas. Bastaria a vasta escultura de 1960, Sky Presence II, que viajou de Buffalo, Nova Iorque até Lisboa, para justificar a importância do acontecimento, mas estão ainda em exposição quatro outras peças negras bem características da sua produção, de entre 1950 a 1985, acompanhadas por alguns exemplos raros dos seus anos de formação, através de desenhos e cerâmicas dos anos 30 e 40.


 


«Sky Presence II», 1960, escultura-parede com mais de cinco metros de extensão


 Esta pequena-grande mostra ocupa o espaço do Museu habitualmente dedicado à obra de Arpad Szènes (agora deslocada para outras salas) e poderá ser completada com a revisão de outra peça marcante da artista que faz parte da Colecção Berardo, exposta no Museu de Sintra. Em Royal Tide - Down, de 1960, a tinta negra que recobre regularmente as caixas de madeira construídas pela escultora dá lugar a um uniforme revestimento dourado, que faz lembrar a talha barroca.



Col. Berardo, Royal Tide - Down, de 1960


 Louise Nevelson não é hoje uma artista conhecida do chamado grande público, embora tenha tido uma enorme projecção, também europeia, na viragem dos anos 50/60, com início, em 1958, numa exposição parisiense na galeria Jeanne Bucher (onde também expunha Vieira da Silva) e sequência com a participação em duas decisivas exposições do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque - «Sixteen Americans» e «The Art of Assemblage», em 1959 e 1961 - e no êxito que alcançou na Bienal de Veneza de 1962. A sua obra ganhou notoriedade tardiamente, quando a artista já passava há muito dos 50 anos, e veio a ter sempre um curso pessoal e independente, não redutível à prateleira simplista de uma qualquer escola ou tendência. Embora no final dos anos 50 tenha surgido como um dos artistas que reinventavam a escultura de «assemblage», realizada por montagem e articulação de materiais encontrados, Louise Nevelson não se fixou na multiplicação de uma obra estereotipada, repetindo à exaustão a mesma fórmula e facilitando os formulários dos críticos.


 Ao partir da utilização de restos e desperdícios de madeira, o que a associou à «junk culture» da época, Louise Nevelson não tinha por objectivo a imposição do lixo e da banalidade como fins em si mesmo, num processo de redução ou destituição das potencialidades do objecto artístico, que por um breve momento poderia passar por irreverência. O seu trabalho punha em prática uma estratégia de reciclagem dos materiais encontrados, que os regenera e lhes dá a mesma dignidade dos materiais nobres da escultura tradicional, reconfigurando-os sob uma outra existência material e poética, valorizando-lhes as qualidades plásticas através da integração em construções ao mesmo tempo delirantes e enigmáticas que cresciam até à dimensão de «environments» ou ambientes, que incluem, envolvem e absorvem a presença do espectador.


Black Box nº 1, de 1950, exposta no Museu (mas erradamente envolvida por uma moldura larga que a artista usou em peças muito posteriores, de construção mais geometrizada e contornos irregulares), é uma peça pioneira, mesmo se miniatural. Como as invenções têm sempre influências e precedentes, poderia evocar-se a respeito das «assemblages» de pedaços de madeira, que expôs logo em 1944 em Nova Iorque, o exemplo da colagem cubista e cubo-futurista, alguma herança construtivista conhecida através de Torres Garcia, que Louise Nevelson admirava, e, em especial, a estratégia aglutinadora de Schwitters, que ela só viria a conhecer em 1960. Uma outra conjunção significativa, através da importância da caixa como receptáculo e palco em miniatura, pode estabelecer-se com a obra de Josef Cornell, mesmo se as «assemblages» deste traduzem mais directamente uma herança surrealista e integram as imagens e objectos sem lhes dissolverem o carácter referencial.


 No caso da escultora, as suas construções distinguem-se da lógica do «ready-made» porque o material encontrado, embora usado quase sempre sem alterações, é totalmente reassimilado e reintegrado numa composição global em que se funde por inteiro, e a pintura que o recobre prolonga e acaba essa unificação dos fragmentos, escolhidos e reunidos em função de princípios ordenadores que têm a ver com a tensão e o ritmo estabelecidos pelas formas entre si («a ordem na sua significação visual», segundo Louise Nevelson).


 Mesmo quando é possível identificar a procedência de alguns materiais, como pedaços de móveis, pernas de cadeiras, peças torneadas de balaustradas, cavilhas, tampos de retretes ou coronhas de pistolas, essa referência não se impõe à sua presença formal abstracta e é idêntica ao carácter vivido e usado de um qualquer fragmento anónimo.


Sky Presence II é uma grande parede envolvente na qual se acumulam, com um sentido ascensional que integra sugestões totémicas e cósmicas, sucessivas caixas de diferentes dimensões, por sua vez preenchidas pela acumulação de fragmentos muito diversos, e onde a junção aparentemente ocasional dos elementos se traduz numa ordenação estranhamente rigorosa e exacta, que não é um puro jogo de composição de formas. O carácter plano e pictural dessa construção-muro, tal como o grande formato ambiental que se impõe como paisagem e arquitectura, aproximam-no da ambição ou do sentido do melhor expressionismo abstracto da Escola de Nova Iorque, de que também foram contemporâneos os escultores David Smith e Louise Bourgeois.


 Louise Nevelson nasceu em Kiev, na Ucrânia, e emigrou com seis anos para os Estados Unidos. Da sua extensa biografia fez parte uma estadia na Europa nos anos 30-31, onde estudou com Hans Hoffman, que volta a encontrar quando este passou a ensinar em Nova Iorque. Também nessa década trabalhou como assistente de Diego Rivera e beneficiou por vários anos dos programas de apoio aos artistas da administração Roosevelt. A consagração tardia das suas construções ocorre quando em «Sixteen Americans» já se afirmam, com uma geração muito mais nova, os estilos não-gestuais e «neo-dadaistas», de Ellsworth Kelly e Frank Stella, de Jasper Johns e Rauschenberg, e um outro importante «junk-assemblage sculptor», Stankiewicks. Em direcções aproximáveis à de Nevelson, trabalhavam então John Chamberlain, que se associa por vezes à Pop pelas suas compressões de chapas pintadas de automóveis, e Mark di Suvero, com as suas monumentais construções de materiais recuperados.


 Duas outras peças tardias expostas no Museu, Sem Título, de 1976-78, e Música de Ouro, de 85, prolongam de modos diversos, em peças de parede, o programa «assemblagista», com associações entre a música e o ritmo formal que a escultora persegue. As três colunas de 1973 fazem a passagem da construção plana à monumentalidade volumétrica de algumas obras públicas da escultora, que nos últimos anos tomaram grande importância na sua carreira, como pode ver-se num filme de 30 minutos, Louise Nevelson in Process, de 1977, que é diariamente exibido (às 13, 15, 17 e 19h; ao domingo às 11, 13, 15 e 17h).


 Entretanto, logo nos anos 60, a sua obra conhecera diferenciações e metamorfoses que testemunhavam uma inquietação criativa de rara intensidade. A irregularidade gestual e por vezes barroca dos elementos amalgamados nas esculturas parietais dá lugar à montagem de caixas mais geometrizadas, ocupadas por peças de volumes idênticos e repetitivos, onde predomina o jogo rítmico entre espaços vazios e cheios, entre formas quadrangulares e esféricas, em composições mais construtivas e «abstractas». O trabalho com as sombras toma nessas obras tanta importância como a composição volumétrica dos fragmentos; logo depois a escultora ensaia a utilização do plexiglas, dando transparência às suas construções, então ainda mais geométricas e maquínicas. A constante experimentação de diferentes materiais leva-a a usar também o alumínio, e emprega o aço corten nas suas grandes esculturas para espaços públicos. Uma praça de Nova York, perto de Wall Street, tem o seu nome e sete esculturas em metal, Shadow e Flags.


 Louise Nevelson foi também uma militante feminista e teve uma actividade intensa em movimentos associativos de representação dos artistas plásticos - eleita presidente do National Artist's Equity em 1961. Foi ainda uma activista destacada nas intervenções dos artistas contra a guerra do Vietname, em 66-67, quando a decadência chic da Factory de Andy Warhol, e da era Eisenhower, se substituía por por uma nova consciência interveniente (Mark di Suvero, o outro grande escultor-«assemblagista», iniciaria pouco depois um longo exílio europeu).


 Vê-la no filme, insolitamente vestida, com as suas longas pestanas postiças e os lenços coloridos, trabalhando com os seus assistentes com uma energia surpreendente para os seus quase 80 anos, é também uma aproximação sugestiva à figura e à obra de uma grande artista. A exposição inclui-se no programa dedicado aos amigos de Vieira da Silva e Arpad Szènes - em 1978 a pintora participou numa exposição da Galeria Jeanne Bucher com Louise Nevelson e com outra grande escultora de origem polaca, Magdalena Abakanowicz.