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sábado, 25 de abril de 2026

2026, reflexões sobre o novo MUZEU em Braga. "Quanto mais oferta menos recepção informada e crítica"

Inaugurou o  MUZEU

Le lotissement du ciel, 1963. (foto via Elisa Camarinha no FB)

Um bom René (1935-2005) dos inícios da Figuração Narrativa, uma das novas figurações parisienses. Nesse ano acaba o KWY. Individual na Galerie du Dragon com (Jacques) Chemay; e "Images à cinq branches" na Mathias Fels (B., Klasen, Reuterswärd, Télémaque e Voss). 



(FB 25/26, à distância de Braga, tx revisto)
Espero agora um texto crítico sobre a exposição inaugural do Muzeu (Z de Zé Teixeira) aberto com pompa presidencial e cardinalícia em Braga, com sólida rectaguarda empresarial do grupo Dst. Tivemos o grande jornalismo noticioso e/ou promocional do Público e do Diário do Minho, entre outros OCS - será agora a vez de se lerem vozes reflexivas, analíticas, críticas, que incomodem ou sustentem a emoção mediática. Promete-se no Muzeu o Pensamento além de Arte Contemporânea (AC).
O fenómeno local é grandioso, um grande museu de arte contemporânea em Braga (parabéns!), cidade de vários museus (Biscainhos, Nogueira da Silva, D. Diogo de Sousa, do Traje, etc) com história e arqueologia, de igrejas e santuários, também com um interessante passado de dedicação à fotografia (ainda está activo o Museu da Imagem, junto ao Arco da Porta Nova, renovado pela CMB em 2025?). É um museu que, disse-se, concorre com a Tate de Londres (onde há Rothko) e com o Guggenheim de Bilbau (Serra, Richard), talvez também com o Ivan de Valência, que optou por Júlio Gonzalez como figura cardinal, sem falar do Reina Sofia que acolheu Guernica. Ali há Kiefer, que estava livre para servir de “âncora”. Serão obras relevantes de Kiefer? Representam condignamente o gigante e/ou gigantesco Kiefer, que se considera uma marca imperial? Sobre essas obras acessíveis ao empresário-mecenas de Braga, essa âncora, essa sala Kiefer, espero a palavra da crítica. Se a crítica existe ainda. Se não substituiu a multiplicação dos museus e centros de Arte Contemporânea (AC) o que era a informação reflexiva, argumentada, crítica, polémica, disputada (lembremos as páginas culturais que publicavam todos os diários do antigamente obscuro e cego regime anterior, o semanal Jornal de Letras e Artes (1961-1970), o trimestral Colóquio e depois o Colóquio Artes, e etc). Se é que a oferta avassaladora da AC não cilindrou a recepção atenta e ponderada. Será altura de falar de um excesso de arte disponível em salutar competição de eventos e lazeres de fim de semana com os centros comerciais? Enquanto estádios e casinos virtuais ocupam o topo do espaço público. Há sem dúvida arte a mais, artistas a mais, mas haverá melhor arte? Há juízo crítico? Duvido.
A região minhota não é um deserto artístico, se nos lembrarmos, desde logo, da Fundação Cupertino de Miranda em Vila Nova de Famalicão, cujo museu se dedicou ao surrealismo, coleccionando espólios do respectivo movimento. Ancorados em figuras nacionais de origem local, temos na região norte, muito à frente nesta corrida, esquecendo Serralves e sem descair a São João da Madeira (com dois museus acoplados, José Lima e Treger Saint Silvestre ), vários "equipamentos" de raizes autárquicas: O Centro internacional de Arte José de Guimarães precisamente em Guimarães, agora orientado por Miguel Wandschneider, ex-Culturgest, que substituiu Marta Mestre, agora no CCB. Alargando a órbita a Trás-os-Montes temos o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, em Chaves, dirigido pela respectiva Câmara , em sempre difícil relação com a viúva do artista, a Dona Laura Afonso, que mantém outro pólo operacional em Boticas, o Centro de Artes Nadir Afonso mais o Boticas Hotel Art & Spa (inesgotável Nadir!). Mais adiante em Bragança há que referir o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais (direcção actual de António Meireles, também à frente do Laboratório de Artes na Montanha – Graça Morais, com ligação académica.)
O Mapa não estará completo, e para lá do nicho da Arte Contemporânea outras artes vivem ou vegetam.
Vejamos por agora a Zet Galery (Zet de Zé Teixeira), galeria e loja virtual e certamente virtuosa, de arte, em Braga com extensão em Lisboa, Rua da Prata (já lá fui ver a Sara Maia e a Rita GT), que tem direcção de Helena Mendes Pereira em acumulação com a direcção-geral e comissariado do MUZEU acima referido.
Os coleccionadores ditam as colecções dos museus ou o contrário? As galerias fazem o mercado de museus-e-coleccionadores? O círculo ou circo fechou-se em cumplicidades sem alternativa: sempre os mesmos, sempre o mesmo?
Na dinâmica oferta da loja anuncia-se por exemplo a obra “Candieiro dentro de candieiro” de João Maria Gusmão por uns assinaláveis €47 700 euros - imagem junta. (É um artista da galeria Cristina Guerra, por acaso)
Instalação:
Dimensões variáveis.
Projeção, instalação de lanterna mágica. 3 projetores de slide 6x6 modificados, mecanismo, filtros de gelatina e vidro. Automação controlada por sinal DMX, reóstato e gravador de DMX
2/3 + 1AP
Na plataforma comercial e site digital abrem-se três possibilidades: Comprar / Adicionar ao carrinho / Adicionar aos favoritos. (É um artista da galeria Cristina Guerra, por acaso)



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O que escrevi até às 3 da manhã mereceu uma simpática contribuição também madrugadora da Helena Mendes Almeida, directora, que transcrevo, agradecido:


"Estimado, Alexandre Pomar, nunca tive o gosto de o receber na ZET, galeria de arte, em Braga. Já por lá passou? Do tanto que comenta o nosso trabalho, é uma pena que ainda não o tenha feito com conhecimento de causa, que nunca se tenha dado ao trabalho de conversar connosco sobre ela, sobre o projeto, sobre o que fazemos. Sobre o MUZEU, recomendo-lhe a mesma coisa: veja com os seus próprios olhos. Braga não é assim tão longe de Lisboa. 
E, quanto a mim, bem sei que é difícil ser mulher e, ainda por cima, ser uma mulher no meio artístico que não tem um sobrenome pomposo e que não bem de nenhuma herança. Bem sei que o meio artístico ainda não está preparado para quem vem de parte nenhuma, da pobreza de uma aldeia no Douro, como é o meu caso. Mas acontece. 
Estou disponível para conversar consigo quando quiser e valorizo sempre todos aqueles que comentam e escrevem depois de verem, ouvirem e lerem, e não apenas por ouvirem dizer."

O que comentei assim: "Cara Helena, agradeço a atenção e o convite. Como saberá não estou no activo da comunicação social e da crítica. Retirei-me. Não comentei o que não vi, reclamei que outros o façam. Apontei a actual situação em que a oferta de arte cresce todos os dias e a recepção crítica desaparece, quer a avaliação independente dos especialistas (credenciados ou auto-proclamados), quer a apreciação informada dos espectadores, que também opinam e ajuizam, ou deveriam poder fazê-lo para além do olhar indiferente ou beato. 
Suponho que o excesso de arte em exposição (em geral, não comento o Muzeu) se alimenta da quase extinção da crítica. Também da ignorância. Mas trata-se só de uma realidade nacional, a criação de um analfabetismo funcional de massas que acompanha o crescimento democrático do público, tal como é só portuguesa a exclusividade da oferta do contemporâneo (seja lá o que AC quer dizer), que vai furtando as condições necessárias à recepção informada. As instituições deixaram de fazer o seu papel institucional. Alguns podem ir a Madrid ou Londres, mas não basta.

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Acrescento ainda: 
aprecio sinceramente a iniciativa local (Helena Mendes Pereira e José Teixeira) à distância dos centros de poder (Porto e Liboa) e das hierarquias do gosto (qual gosto? o que impera são hierarquias de poder e o gosto é posto de parte, Greenberg passou de moda, e ainda bem... ficaram os discípulos supostamente "gauchistes" da revista October). 
O melhor que foi acontendo é sempre obra de pessoas que se fizeram em andamento e com independência, entre amigos e em liberdade (não eram investidores em arte): coleccionadores como Jorge de Brito e Manuel Vinhas, que não dependiam do França e seus discípulos obrigados, depois um coleccionador como José Berardo, com Capelo e depois de Capelo, e por várias décadas um director que começou por ser um jovem arquitecto da casa Gulbenkian (José Sommer Ribeiro) e que foi subindo até à reforma no Centro de Arte Moderna, com erros e acertos. 
Agora, o que me desagrada é que pessoas que avançaram por si, com falhas e êxitos, percam a sua independência e o seu caminho aventuroso, e venham a fazer o mesmo que todos os outros, instituições e colecções, sob a batuta das galerias líder e de "curadores" sem obra, uniformizando-se o tecido social (feito pelos socialites das inaugurações e coleccionadores de "revelações" baratas). 
A aprendizagem faz-se em andamento, mas a ingenuidade perde-se, e às vezes rendem-se à glória momentânea. Começaram com artistas locais, compreende-se, mas depois abeiraram-se da rede institucional dos estilos colectivos, dos formalismos e restos académicos que se foram degradando. O risco é perderem a originalidade, a singularidade e a independência aventureira, passando da ignorância "natural" à cópia da norma mundana que fala ainda em vanguarda para a usar disciplinada a seu favor. A norma actual e nacional (num país onde "o meio" é demasiado estreito) é falsa e é corrupta, fechada sobre si mesma, assente em carreiras instaladas que admitem ocasionalmente alguns nomes que não ameaçam ser concorrentes porque não fizeram as mesmas escolas de marketing.



sábado, 14 de janeiro de 2006

2006, Adami em Braga, desenhos, "A mão que pensa" (14 01)

Valerio Adami
Museu Nogueira da Silva, Braga 
 

«A mão que pensa» 
 

Os desenhos de Adami expostos em Braga 

Expresso 14-01-2006


Valerio Adami é habitualmente incluído nos panoramas alargados da arte pop, quando a designação anglo-saxónica, com distintas genealogias em Inglaterra e Estados Unidos, se estende à Europa continental e a vários realismos e novas figurações seus contemporâneos - foi assim a «travessia transatlântica» realizada na grande exposição que teve lugar em 1997 no CCB, onde esteve representado com dois quadros do princípio de carreira. Se existem em Adami pontos de contacto com a pop, o pintor italiano de Paris é um bom exemplo da extensão do termo e das contradições que envolve. De facto, é mais um artista erudito do que «popular», o seu universo é o da cultura, com destaque para as relações com a literatura e com mitos e valores clássicos, não o do consumo de massas, e o interesse pela disciplina do desenho liga-o a referências renascentistas e maneiristas. Em comum com a pop tem o uso preferencial de referentes fotográficos e de imagens «encontradas», além de o uso da cor, aplicada em planos lisos, ter muito a ver com a estética do cartaz.

Nascido em Bolonha em 1935, contou com sólida formação clássica em Itália, frequentou Nova Iorque e Paris desde 1957 (e aqui se fixou em 1970, sem deixar de ser um grande viajante, como os desenhos documentam), teve uma sala na III Documenta de Kassel, em 64, e participou na tumultuosa Bienal de Veneza de 68, reconhecido como um dos nomes salientes da chamada figuração narrativa. Fez uma primeira grande exposição no Museu de Arte Moderna de Paris, em 70, e teve uma retrospectiva no Centro Pompidou em 85, embora o seu reconhecimento tenha passado a mobilizar mais os escritores e filósofos que o meio da arte. Italo Calvino e Carlos Fuentes, Hubert Damisch, Jean-François Lyotard, Jacques Derrida e mais recentemente Pascal Guignard dedicaram-lhe livros ou foram cúmplices de edições ilustradas.

Agora, é em Braga, no Museu Nogueira da Silva. Galeria da Universidade, cujo programa tem vindo a ganhar maior projecção, sob a responsabilidade de Carolina Leite, que se apresenta uma significativa mostra centrada no desenho de Adami, inaugurada em Novembro com um dia de conferências («A Mão que Pensa, Desenho e Narrativa») em que participaram, além do próprio artista, Antonio Tabucchi, Carlos França, Carlos Cruz Corais, Carlos Couto Sequeira Costa, Vítor Moura e Vítor Silva. Um pequeno mas elegante catálogo-portfolio recolhe partes das intervenções.
Algumas dezenas de desenhos, no seu formato sistemático de 48x36 cm, ilustram a produção do artista desde os anos 80, muito bem expostos em duas salas pintadas de castanho escuro, acompanhados por uma antologia de livros e outras publicações, e mais três aguarelas que dão a conhecer o modo habitual ao artista de transitar dos desenhos até à pintura, através da sua ampliação rigorosamente exacta.

Adami pode ser visto no quadro do debate clássico sobre as relações entre o traço e a cor, o desenho e a pintura. Ao contrário de Cézanne, que condenava os contornos que delimitam a mancha de cor, o pintor italiano emprega um traço espesso e constante que constrói as figuras e as integra no espaço em volume e movimento, enquanto a cor lisa e também muito gráfica (nas aguarelas e nos quadros) se aplica em planos independentes do desenho. A linha é clara e nítida como em alguma banda desenhada, mas também como no vitral, embora o desenho revele sempre a presença do gesto e da pressão da mão e também da «arte da borracha», que Adami considera essencial. Com a tensão das linhas, as formas fechadas adquirem uma presença heráldica e às vezes hierática, mesmo se os seus contornos se multipliquem em variantes e em subtis metamorfoses que são também um exercício de desconstrução das aparências e de acumulação de referências cultas.

As obras reunidas na exposição tornam-se então, com leitura atenta, um complexo jogo de ironia e de memória, muito exigente pela complexidade dos sentidos envolvidos nos seus projectos de modernas alegorias. As cenas de viagem (a Turquia, a Finlândia, Goa, o Central Park) juntam-se a observações da política (Hiroshima, a Rússia de 1917-91, O Muro das Lamentações, Paz no Médio Oriente Americano), a retratos e outras homenagens culturais (Vivaldi, Leopardi, Poe), onde os títulos manuscritos e outras legendas, cuja caligrafia é também desenho, servem de primeiro guia para a viagem do olhar e do entendimento oferecida ao observador. A qual justifica a viagem até Braga.