A fotografia e o resto
Desfoco da fotografia para me lembrar de uma viagem directa a Gandía com o Zé, partilhando o volante. Abaixo de Valência, aonde nunca tinha descido; a cidade de onde partia a família dos Bórgias no século XV - o Zé dedicou-lhe uma série conceptual "La producció de la presència", em 2010, evocação teatralizada dos tempos dos três papas, com que interveio nas celebrações do 5º centenário do nascimento de São Francisco de Borja (foi o 4º duque de Gandia, 1510-1572; wiki/Francisco_de_Borja).
Era então (01 a 04 outubro 2022) o tempo das festas -- Fira i Festes, em honra desse São Francisco, patrono da cidade --, nos inícios de outubro, e nunca vi nada assim: os espectáculos de rua ao longo do percurso demarcado, com excelentes teatros, orquestras e circos actualizados, e depois o cortejo nocturno dos demónios mascarados e do fogo de artifício lançado aos pés dos espectadores-participantes, ora em fuga ora envolvidos pela cor, fumo e pólvora: o Correfoc de la Colla de Dimonis numa "noite mágica de fuego y tradición", e em Espanha as festas antigas mantém uma energia única, organizada e vibrante (o grande Cristóbal Hara visitava-as com génio, e a Cristina García Rodero também).
E igualmente em Gandía acedi à excelência das paellas locais (mais o fideuà e arròs a banda ou al forno) em festas familiares e almoços de fim de semana com casais amigos da Fabi. Uma ocasião sem paralelo de gastronomia convivial só acessível aos íntimos. Eram dois lados da Espanha viva, em toda a sua excelência.
Outra memória pode ser a das fotografias do Zé que aconteceu programar por três vezes. Parte substancial do meu gosto pela fotografia vem da lição do Zé, quando comecei a acompanhar os Encontros de Coimbra, aos quais trazia os seus contactos holandeses, quando era possível reunir no programa Nozolino, Molder, o José Rodrigues (ainda sem o M. de Manuel), mais a Ether de António Sena. Isto logo em 1982 nos 3ºs Encontros, ainda não havia o Albano, quando se afirmou a geração dos novos fotógrafos nacionais e já internacionais, quando o público da fotografia convergia em Coimbra. Foi um dos fundadores do grupo Perspektief de Roterdão, programava a respectiva galeria e trouxe "A touch of Dutch Photography".
As fotografias do Zé foram -- depois com o José Cabral e outros Moçambicanos -- a relação mais estreita, e veio até agora, no seu caso.
Com ele inventei um Grupo de Évora que nunca existiu para o apresentar reunido com os retratos de João Cutileiro, mais António Carrapato e Pedro Lobo (depois deslocado para Borba) logo na terceira exposição da Pequena Galeria em 2013. Era o meu breve interlúdio de galerista, focado em Évora e Maputo -- também brevemente no saudoso Augusto Alves da Silva, que me cedeu para expor uma magnífica prova.
A seguir, em montagem alargada, o Grupo foi ao Palácio D. Manuel I em Évora e por fim a Sines, ao memorável Centro Cultural Emmérico Nunes, então incluindo David Infante, seu colaborador e discípulo cedido pela Módulo. Por sinal foi simultânea da surpreendente mostra «Improvisos», no Centro de Artes de Sines, que sucedia à «Antologia Experimental», na Fundação Eugénio de Almeida, Évora, 2008, momentos maiores à data da visibilidade quase sempre periférica do Zé.
Também na Pequena Galeria, já em 2014, mostrou "FLOW", onde se comissariou a si mesmo, talvez a mais íntima das suas individuais e antologias. Atravessava todo o pouco espaço disponível com uma linha horizontal contínua, um friso de fotografias de diferentes pequenos formatos, às vezes marcado por acumulações sobrepostas e verticais, às vezes intervencionadas. Era uma instalação de fotografia que contrariava a minha intenção de trabalhar com e para o mercado, embora se admitisse a venda de provas a ampliar, o que nunca seria fácil. Mas era uma antologia autobiográfica que percorria imagens de diversas épocas em associações inteiramente livres numa montagem com um significado muito pessoal e intimista, onde as ideias de morte e finitude estavam sublinhadas. Devia ter havido um video-catálogo que percorresse essa linha de vida.
Por último, em 2017, outros dos seus raros regressos a Lisboa, na Barbado Gallery de breve existência também memorável (mostrou Arno Rafael Minkkinen, Steve McCurry, Antoine d'Agata, Martin Parr, nomes da Magnum com quem operava, e havia mercado - https://www.barbadogallery.com/). Chamou-lhe "ERRATA" e quis ser uma antologia breve que atravessava toda a carreira recorrendo ao seu imenso acervo, apenas com provas impressas de diversas exposições, em geral não vistas na capital. Com o título que propôs, o José M. Rodrigues disse querer apontar a «reconciliação profissional e emocional com Lisboa», onde nasceu, depois de longos itinerários de aprendizagem e exílio, ou "fazer as pazes com Lisboa" como o apresentou Sérgio B. Gomes em duas páginas no Público. À data a galeria de João Barbado já estava sabotada pela concorrência lisboeta, ao propor-se trazer à Arco inéditos portugueses do Martin Parr. Apesar de tudo, o panorama não era antes tão medíocre como agora.
26 abril 2026
escrito para um livro fabricado pela filha Anne Rodrigues oferecido ao JMR no aniversário.

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