sábado, 2 de maio de 2026

ARQUIVO 1996, há 30 anos, um mês de abril de exposições internacionais em notas do Cartaz do Expresso

Um mês em 1996, abril 

A circulação de exposições não era o que é hoje. Via-se Matisse na Fundação Arpad & Vieira, o Grupo Cobra (vindo do Stedelijk de Amsterdão) e Julio González (do Centro Reina Sofia) e ainda a Magnum na Culturgest, Tàpies no CCB, vindo do Auditorio de Galicia, de Santiago de Compostela - e outros mais; havia vários colaboradores a escrever notas e artigos. E viam-se pintores africanos no Espaço Oikos, uma ONG sediada junto à Sé que à época tinha uma assinalável acção cultural e importava a Revue Noire. 

A circulação internacional de exposições chegava a Portugal; mais tarde são só os directores e comissários que viajam. Não há informação, não há referencias. Nesse ano ainda se poderiam ver em Lisboa GEORGE ROUAULT na Gulbenkian, ARSHILE GORKY no CAM, NAM JUNE PAIK e TOM WESSELMANN na Culturgest.


05 04 96

EDOUARD BOUBAT

Institut Franco-Portugais

Todos os lugares comuns foram ditos sobre Boubat, o «correspondente de paz» segundo Prévert, mas as suas fotografias, que se sabe serem um dos paradigmas da tradição humanista, descobrem-se ou voltam a ver-se incólumes à passagem do tempo, dos estilos ou das modas. São raras, aliás, as suas imagens que transportam a marca de um tempo preciso, talvez porque, como sucede com as fotografias da Nazaré e do Minho (1956-58) ou com a série «Anjos», sobre as procissões do Norte (1973), nelas reconhecemos — em «momentos em que não se passa nada, salvo a vida de todos os dias» — as marcas mais fundas de um país. «Les Voyages» reúne imagens feitas ao longo de quatro décadas, do México ao Tibete, e é uma notável exposição. (Até 29)

A 15 04 "Toda a beleza do mundo - as viagens fotográficas de Boubat, com passagens repetidas por Portugal"



Edouard Boubat, «Nova lorque, Ponte de Brooklyn», 1982



HENRI MATISSE

Museu Arpad Szenes/ Vieira da Silva

Nos estudos para a grande pintura mural "A Dança", encomendada pelo Dr. Barnes, no início dos anos 30, Matisse serviu-se pela primeira vez do recorte de papeis previamente coloridos a guache, processo que continuaria a usar quando a idade ia tornando mais difícil o manejo dos pincéis, e que lhe permitiria explorar novas relações entre a cor e o desenho. «Recortar a cor ao vivo lembra-me o talhe directo dos escultores», escreveu o pintor em "Jazz", um belíssimo livro publicado em 1947, impresso ao «pochoir», cujas «imagens de tons vivos e violentos provêm de memórias cristalizadas do circo, de contos populares ou de viagens». (até 5 Maio)



ARTISTAS DE NAIROBI

Espaço Oikos

Um dos dois pintores quenianos apresentados é Kivuthi Mbuno, que participou nos «Encontros Africanos» mostrados pela Culturgest: projectado do circuito turístico para a grande circulação internacional que se propôs fazer a crítica do etnocentrismo, Mbuno é um intérprete de cenas da vida tradicional da sua tribo, entretanto já desaparecidas, através de um codificado e muito curioso estilo gráfico. Zachariah Mbuth ensaia uma menos bem sucedida adaptação de uma temática africana a uma informação ocidentalizada.





MAGNUM CINEMA 

COLECÇÃO COBRA

Culturgest/CGD

A visita aos arquivos da Magnum, produzida a pretexto do centenário do cinema, excede o propósito comemorativo, e onde se poderia esperar a mera ilustração de um tema de circunstância descobre-se um universo fotográfico fascinante, no qual realidade e ficção, actores e personagens, se desdobram num infindável jogo de espelhos. Também em últimos dias, uma colecção que se circunscreve a algumas produções regional e temporalmente definidas, mas que faz desse circunstancialismo um poderoso exemplo de coerência. (Magnum, até 7; Cobra, até 14)


COLECÇÃO COBRA

Culturgest/CGD

20-01-96

Uma exposição histórica de uma rara dimensão e importância no panorama expositivo nacional, a que convirá reconhecer também uma pouco comum capacidade de questionar o presente — e um forte sentido de oportunidade, portanto. A mostra, vinda de um dos mais dinâmicos museus europeus, o Stedelijk de Amsterdão, reconstitui a breve irrupção do grupo Cobra (activo como movimento entre 1948 e 1951) e acompanha ainda os percursos individuais dos seus artistas até ao final da década de 50, enquanto se prolonga a sua eficácia profunda e se definem as suas expressões individuais próprias, quer isoladamente quer mediante outras movimentações colectivas: por exemplo, Asger Jorn e Constant foram participantes activos da Internacional Situacionista, até esta se converter num grupúsculo orientado para a intervenção política. Em paralelo com a afirmação da 2ª Escola de Paris e a academização da sua abstracção lírica, o grupo Cobra, através das contribuições trazidas de culturas artísticas periféricas (nórdicas, holandesas e belgas) e de uma convergência de vontades experimentalistas (a «Internacional dos Artistas Experimentais»), serviu de agente indisciplinador de um período atravessado por um subterrâneo cruzamento de inquietações onde se encontram a valorização das expressividades marginais (populares, das crianças e dos loucos), contribuições surrealistas e atitudes antiformalistas, preocupações sociais e a defesa da expressão livre e pessoal contra os vários impasses programáticos do tempo. Segunda vaga do expressionismo primitivista, segundo a expressão usada por Willemijn Stokvis no catálogo (na sequência do expressionismo alemão dos anos 10), os artistas do grupo Cobra tiveram uma influência profunda na problematização da dicotomia entre abstracção e figuração então dominante e também na reafirmação de algumas condições essenciais (mas não essencialistas) da criação artística. Entretanto, esta exp. pode ser igualmente lida como afirmação do interesse das histórias e dos itinerários artísticos vividos, quer em situações de periferia geográfica (sem as marcas da procura de exotismo que caracteriza muito multiculturalismo actual) quer à margem das sínteses canónicas da «evolução» da arte. O contacto com as obras reunidas do grupo Cobra, com a sua inventividade indisciplinada e libertadora, com as suas procuras individuais da expressividade, surgirá menos como lição de história do que como reaproximação a necessidades e possibilidades certamente outra vez reprimidas sob o aparente predomínio actual do discurso especulativo. 

02-03

Movimento sem programa nem carácter de tendência, o grupo Cobra trouxe à situação do pós-guerra a frescura da afirmação de alguns jovens pintores, o fermento das tradições poéticas de regiões periféricas, nomeadamente dos países nórdicos, e uma rebeldia de heterodoxa filiação surrealizante. Com a sua breve existência organizada e as suas carreiras individuais posteriores, os artistas Cobra reactivaram uma linha de fundo expressionista, sobre um novo primitivismo valorizador da criatividade popular e infantil, que contribuiu para pôr em causa a dicotomia figuração-abstracção. Se Asger Jorn, Robert Jacobsen, Alechinsky e Appel são artistas de destacada presença internacional, as obras de outros nomes de menor notoriedade cosmopolita testemunham de uma mesma urgência interventiva e, em especial, comunicativa.


13 04

PINTURA AUSTRÍACA

Palácio Galveias

("A década da pintura, 1980  a 1990 - Pintura Austríaca Contemporânea - Colecção Schomer")

Desconstrução em acto da tese jornalística dos anos 80 como década da pintura, em versão austríaca. O panorama é certamente representativo e seguramente traumático, tanto mais que as únicas obras potencialmente sobreviventes são aquelas que se constituem como vestígios maneiristas (Amulf Reiner) e ritualizados (Günter Brus e Hermann Nitsch) da negação da pintura nas décadas anteriores, o que permitirá recentrar a reflexão sobre os paradigmas modernistas e pós-modernistas dominantes. Maria Lassnig (n. 1919) tem tido uma projecção recente que aqui não se justifica, Anzinger e Schmalix são nomes internacionalizados por obscuras razões e os «novos selvagens» estão domesticados.


20 04 96

JULIO GONZÁLEZ

Culturgest/CGD

Depois de ter mostrado os desenhos de Modigliani e de Egon Schiele, a Culturgest apresenta a obra gráfica de outro artista da primeira metade do século e que com o primeiro partilhou círculos parisienses. Os desenhos vêm da colecção do Centro Rainha Sofia, de Madrid, e são testemunho de um itinerário particularmente atípico, em grande parte justificativo do seu relativo e injusto desconhecimento internacional até tempos recentes. González nasceu em Barcelona em 1876 e instalou-se em Paris em 1900 seguindo uma honrada carreira de ourives e de pintor, até se revelar, já no final dos anos 20, como um dos mais inventivos escultores do século, responsável por um inédito entendimento escultórico do vazio e por novos processos de soldadura do ferro que associaram desenho e escultura. A colecção distribui-se por um horizonte cronológico que vai de 1904 a 1941 (J.G. morreu no ano seguinte), documentando toda uma produção inicial cujo classicismo é identificável com o «noucentismo» que em Barcelona sucede a um modemismo Arte Nova, antes do desenho se afirmar especialmente como um meio de experimentação para o trabalho da escultura. Entretanto, a montagem da exposição revela-se particularmente sugestiva ao iniciar-se por um conjunto de auto-retratos tardios que reafirmam a autonomia própria do desenho e terminar com a expressividade dramática dos últimos estudos para a figura de Monserrat, enquanto a zona média exemplifica extensamente a pesquisa formal conduzida na fronteira da abstracção.  Através de um balanço constante entre tradição e inovação, entre o desenho do natural e o projecto analítico-construtivo, entre o visto e o estilizado, sempre conduzido à margem das afirmações de virtuosismo, o percurso de González não se deixa reduzir à condição de "um desenhador de novas formas". (J.L.P dia 27 04)






27 04 96

ANTONI TAPIES

Centro Cultural Belém

Apenas 38 obras integram esta exp. antológica, datadas de 1959 a 95, e elas bastam para sinalizar um longo e intenso percurso criativo que se prolonga num absoluto primeiro plano da actualidade. Depois da retrospectiva vista em 1992, em Serralves e na Gulbenkian, esta panorâmica mais compacta, vinda do Auditorio de Galicia, de Santiago de Compostela, comissariada por Elvira Maluquer, impõe-se pela segurarça de uma selecção que consegue ser representativa, incluindo pinturas, esculturas e desenhos (e mostrando como as fronteiras disciplinares se transcendem sob a energia mágica de uma fortíssima escrita pessoal), sem precisar de estabelecer um extenso percurso cronológico. As obras impõem-se no espaço muito amplo do CCB numa montagem inteligente, que faz dialogar as peças entre si, sublinhando a permanência de sinais obsessivos, a invenção das matérias, a passagem das coisas da condição de detrito ao plano da revelação. (Até 16 Jun.)


08-06 

Walter Benjamin, num texto famoso sobre «A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica», propunha que se deixasse de lado «uma série de conceitos tradicionais, como criação e génio, valor de eternidade e mistério», cuja aplicação «incontrolada (e por agora difícil de controlar)» serviria os desígnios do fascismo. A reflexão tem a data negra do anti-socialfascismo da III Internacional, mas não deixaria de exercer alguma influência posterior, e os mesmos «incontroláveis» conceitos continuaram a servir de «bête noire» a outras atitudes ditas revolucionárias ou vanguardistas. Perante a produção de Tàpies, que aspira para a sua obra a condição dos objectos mágicos, as palavras criação e génio, eternidade e mistério impõem-se em toda a sua incontornável e problemática actualidade e, se não têm por si mesmo qualquer carácter explicativo, servem para sublinhar a respectiva irredutibilidade a um qualquer programa ou conjuntura. Tàpies, cuja afirmação internacional se consolidou com o informalismo dos anos 50, é um dos mais importantes artistas do presente (anos 90) e esta antologia, acompanhada por um catálogo que inclui alguns estudos de grande qualidade, permite comprová-lo por mais alguns dias. 





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