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sábado, 13 de março de 2004

2004, Català-Roca, Barcelona/Madrid Anos 50, Galeria da Mitra

 A Espanha do interior

 

    Madrid e Barcelona vistas nos duros anos 50 franquistas por um grande fotógrafo catalão 


EXPRESSO 13-03-2004 

   

 Català-Roca

Barcelona/Madrid Anos 50    

Galeria da Mitra


Barcelona

 

A Espanha que no início da década de 50 se conhecia para além dos Pirenéus era a de W. Eugene Smith, graças à reportagem que realizou numa aldeia extremenha, publicada pela «Life» em 1951: «Spanish Village». Não era já a abjecção extrema do filme Las Hurdes, de Buñuel (1932), mas a pobreza e o arcaísmo de uma sociedade arrastadamente rural, que aquele fora procurar em Deleitosa, traziam à memória a fractura sangrenta de um país que Robert Capa e Gerda Taro tinham testemunhado nas suas fotografias da Guerra de Espanha. Eugene Smith foi naturalmente censurado por um regime vitorioso que detinha o controlo total sobre a Imprensa, e só em 1999 esse trabalho foi objecto de uma primeira exposição e de um álbum do Museu de Arte da Catalunha.


Os dois livros que se publicaram em 1954 com fotografias de Francesc Català-Roca sobre Madrid e Barcelona podem ser certamente vistos como uma resposta à reportagem do americano, reconhecida como um paradigma da fotografia humanista. Não se tratava de um trabalho de propaganda, nem Català-Roca era um homem do regime, antes pelo contrário. As suas imagens mostram, no entanto, as duas grandes cidades da Espanha franquista como metrópoles evoluídas, com a nova arquitectura moderna que ia surgindo em Barcelona e a monumentalidade quase norte-americana de Madrid, embora a Grã Via se chamasse então Avenida José António.


Os néons, as montras das lojas, as elegantes que passeiam e os cromados dos carros são mais visíveis, especialmente nas imagens da capital, que os mendigos e as ruínas da guerra, embora estes também lá estejam, cuidadosamente doseados para atravessar sem escândalo as malhas das conveniências oficiais - observe-se que a única criança descalça é cigana e que são discretíssimos os impactos de tiros que ainda se podiam ver. Essa ambiguidade calculada, que é própria daqueles que experimentavam então as barreiras e as possibilidades de luta no exílio interior, constitui uma das qualidades das fotografias que se expõem na Mitra. Elas são talvez mais «verdadeiras» que as de Eugene Smith, e também foi preciso esperar muito tempo para as (voltar a) ver.


Fotos: «Vendedora furtiva de tabaco na Grã Via», Madrid, 1952

         «Sombras na Barceloneta», Barcelona, 1952-54

 

A mostra foi organizada em 2003 pelo Museu Rainha Sofia - comissariada por Juan Manuel Bonet, o respectivo director, e Andrés Trapiello -, sendo acompanhada pelo catálogo-livro Barcelona/Madrid Años Cinquenta, co-editado por Lunwerg, com um grafismo à maneira dos «fifties». Entrou depois em digressão internacional graças a um protocolo com o Instituto Cervantes, que passou a intervir como co-produtor de grandes exposições e depois as faz circular no exterior (é mais um exemplo do que pode ser a racionalidade de uma política cultural).


Francesc Català-Roca (1922-1998) teve uma longa carreira profissional para a Direcção de Turismo e foi fotógrafo de livros de arte, além de documentarista, especialmente dedicado a Miró. Desde 1982 tem vindo a ser redescoberto como um grande fotógrafo (a primeira retrospectiva na Galeria Maeght de Barcelona valeu-lhe nesse ano o Prémio Nacional de Artes Plásticas). Refira-se, entretanto, que já o seu pai, Pere Català i Pic, fora um dos nomes da escassa vanguarda espanhola dos anos 30, autor de óptimas fotografias de publicidade e de uma das mais famosas fotomontagens antifascistas.


A exposição de Català-Roca, que foi um pioneiro da renovação da fotografia espanhola, com Ramón Masats, Xavier Miserachs, Joan Colóm e outros, já nos anos 60, permite uma curiosa abordagem à prática do documentário sob férreas condições de censura e, em especial, uma oportuna comparação com a história portuguesa, que conheceu pela mesma altura um diferente e quase secreto processo de renovação.


Por um lado, Català-Roca distancia-se (ou é forçado a tal) do carácter mais imediatamente interventivo ou panfletário da fotografia humanista do pós-guerra e, em especial, dos estereótipos do realismo poético francês. Ao fotografar a cidade e não a ruralidade mais atrasada, ou o pitoresco dos bairros populares - embora eles também surjam nas imagens de Barcelona -, a sua fotografia ganha em subtileza e em modernidade (ou melhor, reata eficazmente com uma modernidade vinda dos anos 30), enfrentando os ainda terríveis anos 50 espanhóis no terreno do adversário: é a Espanha dos vencedores que ele fotografa, como alguém já assinalou, mas testemunhando os sinais de mudança, sem se comprazer num olhar de vítima. Sem ser um inovador, Català-Roca opõe um olhar moderno à fotografia oficial, ignora os símbolos do regime (pelo menos nesta antologia) e dá a ver criticamente uma realidade plural e contraditória, que só é a preto e branco nas óptimas reimpressões recentes que se expõem. Se é admirável a solitária imagem ainda de guerra, o regresso dos últimos prisioneiros da Divisão Azul (libertados pelos soviéticos), que se conhecia sob o título Semíramis, no mais habitual, e sempre excelente, formato quadrado, também são notáveis as fotos aparentemente banais do trânsito madrileno, ou o rosto fechado da mulher bem vestida que vende furtivamente cigarros na Grã Via.


Pela mesma altura, a renovação da fotografia portuguesa era ensaiada por homens à margem da profissão, o que é uma diferença com grandes consequências - embora haja trabalhos de investigação a fazer sobre alguns estimáveis profissionais esquecidos. O trabalho de Castello-Lopes, reunido agora no CCB, permitirá estabelecer uma interessante observação comparativa entre estratégias fotográficas quase contemporâneas mas diferentes e, neste caso, então sem viabilidade editorial. Por outro lado, recorde-se que, de outra maneira ainda, Lisboa - Cidade Triste e Alegre, de Victor Palla e Costa Martins, de 1959, foi, quase em segredo, um dos grandes livros de fotógrafo da década, no panorama internacional, o que não chegaram a ser os livros de fotografias Madrid e Barcelona. (até 15 de Abril)