domingo, 7 de junho de 2026

2026, Atelier-Museu: A sequência da colagem e da assemblagem na obra de JP. Parte I

 Considerando a exp do Atelier-Museu "A cola não faz a colagem", deve dizer-se que os comissários não entenderam seguir um critério estritamente focado na colagem e assemblagem, fazendo digressões periféricas e interrompendo a exibição sequencial de colagens entre 1980 e 2000. Parte-se, sem ordenação cronológica (há vários começos), de uma pintura que se pode dizer premonitória, um Metro de 1964 (50x150cm), incluindo o motor de um brinquedo colocado no lugar de um rasgão da tela: foi um acidente feliz e um 1º objecto colado. Está bem no Piso 1 ao lado de uma das 1ªs colagens.


Metro 1964, pormenor com objecto colado


De facto, a colagem aparece muitos anos mais tarde nas séries que vieram a ser referidas como O Espaço de Eros e Teatro do Corpo, títulos de textos de catálogos de exposições em Bruxelas 1978 e Paris 1979. Note-se q a anterior exp de JP ocorrera num já longínquo 1973 na 111 (5 anos antes e nas vésperas do 25 de abril, que interrompeu o mercado de arte). Em 1973 havia apenas 'pinturas pintadas' (Banhos Turcos e Retratos); antes Jorge de Brito comprara quase por completo as importantes séries dos Rugbys e Maios'68, que não se mostraram em Paris e só se puderam ver na antologia de 1986 devido à captura da sua colecção.
1978 é o ano da 1ª retrospectiva, na FCG, levada ao Soares dos Reis e em parte a Bruxelas. Aí se mostraram pela primeira vez, com surpresa e escândalo, as séries eróticas que vinham de 1976 e também as assemblages de 1967 e 1977.


Assemblage de 1967, col. Cruzeiro Seixas (FCM - VNFamalicão), exposta em 1979
Para fixar a sequência da obra de Pomar há que voltar atrás e registar em 1966 a destruição das telas que vinham das pesquisas da "figuração dinâmica" (cenas de trabalho, tauromaquias, metros e corridas de cavalos, em especial), e que se abeiravam da abstração não referencial. É também o ano em que a anterior Galerie Lacloche, na famosa Place Vendôme, muda de programa e interrompe as exposições de sucesso de 1964 e 65, Tauromachies e Courses - só voltará a ter galeria em Paris em 1979, a Bellechasse, e só em 1982 volta à 111, com os Tigres.
Em 1967 acontecem as primeiras assemblages de materiais encontrados na praia, com um jogo de relações formais não narrativo e onde estão presentes sugestões fálicas que depois passarão às colagens de telas <ver FOTO>.
Nesse ano e no seguinte, a pintura muda nos Rugbys, um espectáculo não presenciado (o que acontece pela 1ª vez) e apoiado em recortes fotográficos. Os fundos tornam-se lisos e a pincelada vai conter-se na definição de formas que vão parecer cada vez mais recortadas, distantes do arabesco painterly anterior. Em 1968 aparece em simultâneo e em sequência a série dos Maios e logo os Banhos Turcos. Não há colagem. Existe então em Pomar uma (insuspeita e só mais tarde reconhecida) aproximação à Pop norte-americana e inglesa, no jogo gráfico do cartaz e no interesse por Ingres e Matisse que são revisitados na época (Wesselmann, Larry Rivers, Martial Raysse, etc: o Louvre inclui Pomar numa grande mostra internacional dedicada ao Banho Turco em 1971).


Ilustração de Rose et Bleu, de Jorge Luis Borges, 1976, ed. Différence (primeiro tigre)
A colagem como processo e material, em papel, aparece em 1975 nos guaches recortados das ilustrações para Malcolm Lowry (ed. Différence), e volta para ilustrar Rose et Bleu de Jorge Luis Borges (Différence 1977), uma 1ª história de tigres <ver FOTO 2>.
Também em papel são os estudos para a série de cinco grandes serigrafias editadas pela Galerie Bellechasse em 1976 - primeiras colagens efectivas <ver FOTO 3>.
No tempo das rupturas pós-68 afirma-se a suspeição face à pintura e ao mercado, trocados por intervenções, acções e objectos, e múltiplos. Alinham-se logo com abril-74 a revolução sexual e novas abordagens da psicanálise e da (anti)psiquiatria. Em Pomar, os retratos de cores lisas e formas recortadas em dispersão no plano da tela assumiam uma sexualização explícita que transita para as colagens, mas nestas a cor reduz-se e os corpos são desenhados e colados em tela crua - e em tela livre não engradada, só mais tarde passando ao quadro.


Chambre Noire, serigrafia, 1976, ed. Bellechasse.

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