Isabel Sabino, "Do, don't", 2026, tríptico 81x270cm, técnica mista de tintas acrílicas sobre tela.
1. (dia 18)
Apetece dizer que é a exposição de uma jovem artista, embora se trate de uma professora catedrática aposentada da FBAUL, com uma já longa carreira que se pode considerar discreta, por se fazer fora das habituais e totalitárias escolhas institucionais.
Poderia falar de "imaturidade" no sentido que Witold Gombrowicz elogiava no seu romance "Ferdydurke", mas é mais fácil falar da frescura, agilidade e experiência/experimentação, ou vitalidade como que espontânea desta pintura nova com que a Isabel Sabino prossegue os seus caminhos. O contrário de uma obra estabilizada em processos, onde há invenção e surpresa tanto na maneira de fazer pintura como nas pistas descritivas e ficcionais que se oferecem.
A exposição intitula-se "Nada", o que inclui vários sentidos que se descobrem em andamento e em especial numa sala negra onde a luz é intermitente e os desenhos se apagam e se lêem numa escrita luminescente.
Há por aqui rios e mares de pintura por onde nadamos.
Está até 4 de outubro em Loures, na Galeria Municipal Vieira da Silva, Parque da Cidade de Loures ou Parque Adão Barata (ver o cartaz abaixo)
NA SALA NEGRA:
"this is an age of insolence", em cima
"Who are we? where do we come from? Where are we going? ...awaits us?", em baixo
texto luminescente na mesma folha
2. (dia 19)
"Nada" (ou tudo?):
'Olha', 2026 152x200cm ('Reset_it', 2026, díptico 152x220cm; 'Stop it', 2025, 150x100cm; 'Miss_x', 2022, 152x110cm.) São títulos secretos. Nademos.
A água está sempre presente nestas pinturas, que são paisagens ficcionadas (sonhadas, imaginadas - irrealistas, se se quiser, "abstractas" sem serem não-objectivas: adivinham-se devagar). Nelas se inscrevem personagens e acções, em espaços que se desdobram em mares e céus, caminhos, praias, rios, icebergues, chão e abismos, que não se tratará de interpretar mas de percorrer: não são puzzles nem mapas, são histórias. Há carros, barcos e aviões, carrocéis, pessoas, pássaros e peixes, até uma ilha de pinguins e caezinhos e coelhos de peluche. Há também palavras, por vezes. Um mundo sem ordem certa, que ora atrai e seduz como proposta de felicidade. ora assusta e ameaça um qualquer caos.
Com o título "Nada" I.S. oferece várias pistas. Nada é nome, substantivo, o nada; é verbo, de nadar, e é advérbio: não é nada, não sei nada. Numa sala negra dos desenhos luminescentes conta-se uma história de crianças que aprendiam a nadar, em Gaza. E numa pagina escrita do catálogo a pintora acrescenta como coincidência apenas sugerida o nome de uma poetisa palestiniana falecida, Hiba Abu Nada. Há por aqui uma difícil actualidade representada, discreta, para lá do mundo dos sonhos.
Reset_it,. 2026
3. (dia 20)



