Páginas de história
Da Rua Augusta aos Restauradores:
coisas várias, artes (plásticas, fotográficas e comestíveis), escritos, promoções e embirrações
Para memória futura e para "contextualizar" a inauguração de hoje (todos ao Pavilhão de Portugal às 19h!) recuperam-se documentos históricos de grande importância para a arte em Portugal (ou documentos artísticos de grande importância para a história de Portugal). Fotografias de 2009, do anúncio público da bienal de Lisboa e Grândola. Na Central Tejo.
E ainda há vestígios mediáticos da Bienal:
2/30/2020
Ana Mata na Módulo, 3 anos depois (estas
pinturas não se fabricam depressa).
Gostava de tentar explicar (a mim próprio) por que isto (esta pintura) é muito interessante (ou muito boa), e rara.
É
uma pintura depois da fotografia, com recurso à fotografia, não para
impregnar as telas ou para copiar projecções, mas para ver o visível de
outro modo, para encenar, recortar, modelar, reflectir o visto e recriar
a sua luz; sem as facilidades da apropriação fotográfica e sem as
rotinas do "fazer qualquer coisa que sai sempre". A fotografia ilumina
(num caso há um flash sobre um corpo); a pintura ilumina a luz e a
sombra da fotografia (há um pano negro que atravessa um quadro).
Não
é a pintura que é mediada pela fotografia, é o olhar que se alimenta do
registo fotográfico, para ver melhor, ou ver diferente, mais
profundamente, demoradamente, mas com a surpresa de um primeiro relance
ou com a energia de uma imagem a afirmar-se, a reconhecer-se. A pintura
(a pintora) serve-se da fotografia, às vezes serve-a como modelo, de
passagem, e resgata a pintura, o prazer de ver pintura, na velha
confrontação com a fotografia. Trata-se de passagens, de trânsitos,
entre o visto, o fotografado e o pintado, não de fronteiras,
acrescentando sempre - o modo de ver, o fazer e um campo aberto de
observações/interrogações, de histórias.
Alguma coisa se imobilizou (na fotografia feita/captada/organizada e na pintura a fazer-se, gesto a gesto, pincelada visível, demorada) sem se suster a velocidade do ver e do pintar, sem ser a transcrição do registo e sem se mostrar como execução de um programa, mas ele existe, programa pensado, conceptual.
A pintura é rápida, sem incertezas legíveis, mas a obra da pintora (a carreira) é lenta, escassa, e a diversidade dos formatos, do muito grande (a 1ªa foto) ao muito pequeno, do heróico ao íntimo, a diversidade dos suportes (tela, alumínio e papel) e dos meios (óleo e tinta acrílica) e dos assuntos (a figura, o retrato (também auto-retrato), as plantas - natureza viva, e a "natureza morta", uns óculos), a circulação entre a cor e sombra/grisaille, conferem a cada pintura a densidade de um encontro único e a certeza da possibilidade dispensável de muitas variantes (mas cada peça é definitiva).
Não conheço agora nada de mais surpreendente em pintura, até por se tratar da lenta maturação de um trabalho ao mesmo tempo muito reflectido e intensamente vivido (vívido) e inesperado. Conhecido de anteriores mostras sempre novo e diferente. Ganhei o ano nos seus últimos dias. Agora vou ler o pequeno livrinho em que a Ana Mata, que não conheço, reuniu "notas do atelier". Chama-se "A pintura é o visível das histórias desconhecidas", e espero não contradizer aquilo que eu procurei pensar sobre as suas pinturas a justificar a admiração.
11/07/2010
A cada nova exposição de Ana Mata apetece ver-rever o que foi mostrando antes, porque é uma obra discreta com que não nos cruzamos nos sítios habituais (mostram sempre o mesmo, sempre os mesmos -. e é uma pasmaceira) e porque as pinturas continuam-se uma às outras, ou continuam a mesma discreta relação entre a produção de imagens, a prática (e interrogação prática) da pintura e a vida da pintora, já que a auto-representação está presente, mas não precisamos de o saber para que a pintura e a vida evidentemente se encontrem e se troquem, entre si e com o olhar do espectador.
Há aqui quatro telas de grande formato, 179x138 cm a de cima, acrílico sobre tela, Sem Título, de 2009.
Sem título, 2010.Acrílico s/ tela, 151 x 143 cm.
Se o exercício da reflexão pictural ou da pintura reflexiva a respeito da fotografia e da pintura está presente - sobre a materialidada das respectivas imagens e dos seus tempos - serão também questões de representação que se abordam. Há aqui a passagem à condição de pinturas bem sucedidas do que seriam noutra modalidade/materialidade de imagens fotografias falhadas: a desfocagem do rosto sobre um movimento súbito ou a ocultação do rosto - relacionando-se este com uma (com a) identidade pessoal, que se quer fugidia, semi-privada. Mas há também, por esse mesmo caminho, o levantar do tema do reconhecimento: representar é descrever e facultar um (re-)conhecimento, faculdades de que a pintura julgou dever abdicar para ser auto-referencial ou pura. A figura, que é uma auto-representação suspensa,também "serve" aqui para fixar à sua volta um espaço de natureza - jardim, espaço cultivado, natureza recriada - e acrescenta um segundo tópico de abordagem dos géneros em pintura, retrato e paisagem.
A pintura sobre a pintura tornou-se uma prática ensimesmada, embora uma surpresa seja sempre possível. A pintura sobre o trânsito entre fotografia e pintura é também um campo muito trilhado, nas suas duas eventualidades mais distintas, a que oculta o seu referente próximo tornado processo de trabalho ou a que o afirma imediatamente ou não - desde antes da formalização da invenção da fotografia já esse trânsito acontecia. Não há novidade alguma aqui, em torno de tal questão, enquanto tal, excepto no facto de se transformar em frescura e intensidade visual o que noutros casos anteriores é já só o uso de uma fórmula: Morley contra Richter (mesmo sem B.B.). As qualidades visual da mancha, o jogo entre a visão próxima e visibilidade distanciada, a materialidade das cores sobre a tela, não serão valores a considerar por si mesmo mas na sua eficácia construtiva e representaiva. Aproximamo-nos aqui de uma pintura narrativa, no que se sucede como imagens pessoais, e também representativa, no que descreve e faz reconhecer.
Mas é a luz - a luz solar - que se propõe aqui como objecto a considerar. Pode ser oportuno repensar classificações históricas a respeito destes novíssimos quadros, voltar a pensar na revolução naturalista, no subcapítulo impressionista e depois na experiência do luminismo, que tem em Sorolla a expressão mais próxima, já que são as luzes que variam, pelo menos tanto como as formas naturais. Tenho de voltar a ver as pinturas de pequeníssimo formato, quer não sei se são apenas promessas ou ensaios de grandes formatos, tenho de voltar a ler o que fui escrevendo sobre uma das poucas obras que vão surpreendendo.
Vale a pena também pensar porque é que a Módulo é a única galeria (ou uma das únicas) onde importa não perder nenhuma das exposições que se sucedem.
aqui a figura é desfocada ou parcialmente tapada, mas não deixa de ser um exercicio centrado na propria autora do trabalho
são belas imagens sem duvida e não questiono o virtuosismo da técnica da captura de luz, mas não deixa de me remeter para um qualquer album privado de familia (logo, de interesse relativo, quiçá como documentos históricos dentro d algumas decadas) ..."
O comentário assinado que chegou por outra via fica aqui registado, porque será significativo lê-lo e talvez interessante responder-lhe, logo que possível.
Pode ser falta de memória, mas as edições 2007 dos vários prémios mais notórios parecem uns furos abaixo dos anos anteriores. Foi claramente o caso do Anteciparte, que afogou as intenções ou os projectos escolhidos em grandes investimentos cenográficos (excesso de meios?, arquitectos à solta?, excessos curatoriais?), e é também o do 3º Prémio de Pintura Ariane de Rothschild*, de que amanhã sábado se encerra a exposição.
até 22 DEZ 2007
Rua Rodrigues Faria, 103
(Antiga Gráfica da Mirandela do Diário de Notícias - Alcântara - Largo do Calvário)
* <esta srª apareceu em 2025/26 como mt próxima do Epstein e o banco afastou-a >
A
visita recomenda-se desde logo como descoberta de uma parte oculta da
cidade - uma área fechada na zona Alcântara-Calvário, antigas
construções industriais destinadas a um próximo empreendimento. Entra-se
de carro num parque guardado e circula-se entre quase ruinas - um
deserto no meio da cidade.
Há ou havia um catálogo, oferecido, 29 x
28,3 cm de formato, enorme, em bom papel - design Silva!, impressão
Textype - a baronesa e o banco precisam de gastar dinheiro, mas é
daquelas coisas difíceis de guardar (já perdi o da edição 2005). Um
objecto absurdo, obrigado.
Ana Mata, Sem Título, 2007, acrílico sobre tela, 181 x 129 cm
Há uma obra a merecer a visita, a pintura sem título de Ana Mata (Setúbal, 1980). Dizem-nos que começa por ser um auto-retrato, o que é, aliás, muito frequente na sua obra, que se tem podido ver na Módulo (2003, 2006 e já em 2007 - ver notícia de 4 de Maio), e são evidentes as relações entre fotografia e pintura - deixando-se logo nesse enunciado o caminho das evidências e das facilidades.
O olhar frontal sob um foco de luz, a lanterna na mão direita, a ideia habitual do auto-retrato (e a pose) negada no inesperado ou acidental da situação surpreendida, a presença material da luz e a circulação entre processos com incertas fronteiras ou passagens, o grande formato do retrato de aparato e a ironia do aparente instantâneo furtivo, a sugestão ficcional condensada numa vista única, sem título e destituída de imediatas referências literárias. Tudo isto constitui um campo infindável de interrogações e de exploração do que é materialmente visível.
Ana Mata é um(a) das mais interessantes jovens artistas. O facto das premiações a terem poupado é uma garantia adicional.
Os
prémios são geralmente entendidos como actos de cooptação pelas tutelas
do meio da arte - é natural que se escolha o menos bom ou o mais
insignificante, por complexas razões ou manobras. Mas, como aqui
acontece, os júris desclassificam-se muito visivelmente com as escolhas
que fazem, e com as quais se julgam defender premiando-se a si próprios.
Ignore-se a ingenuidade do "prémio distinção" e a preguiçosa vacuidade
pretensiosa do 1º prémio, à boleia de Aurélia de Sousa. Olhe-se para um
júri que premeia um artista, aliás interessante, José Baptista Marques,
que aqui se candidatou com uma pintura à maneira dos históricos cromos
ditos hiperrealistas de Malcolm Morley. Há coisas que não passam - e é
bom que aconteçam para nos alertar.
Outras obras a reter ou a considerar serão os guaches de André Almeida e Sousa, registos mediados e suspensos de paisagens, representações contrariadas, sob influência ainda bem reconhecível; talvez a instalação de pinturas de Marta Moura. Há quem aprecie o género de ideias ou achados postos em prática por Nuno Sousa, espécie de auto-caricatura ou declaração de impotência da pintura, elogio crítico do vazio? E abaixo de prestações anteriores encontram-se as propostas de Marco Pires e Rita GT (a autocomplacência, já?).
No actual estado de coisas, um artista só ou uma única obra recomendável (Ana Mata) já fazem uma boa exposição.
Mas o Prémio Ariane de Rotschild tinha começado melhor em 2003 e 2005, com a presença algo insólita de Vicente Todolí e Julião Sarmento nos júris dessas edições, e alguma irreverência ou imprevisibilidade nas admissões. Havia uma presença mais substancial da pintura que o título do prémio continua a prometer. VER AQUI E o facto de se aceitar uma obra única (condição agora torneada por alguns instaladores que se julgam espertos) era outra diferença corajosa, tal como a montagem "tipo Salão" (não é defeito). Agora, lá para Alcântara (para além do agradável passeio de reconhecimento), o armazém arruinado é menos propício.
A edição de 2007 contou no júri, entre outros, com uma tal Lilian Tone, vinda do MoMA, e Pedro Cabrita Reis, com coordenação e escrita de Filipa Oliveira, que nos explica "o conceito", ou "o âmbito", ou "a filosofia" - serão agora sinónimos? Chama seminal a uma especulação fúnebre de Arthur C. Danto e cita Yve-Alain Bois - são caminhos obscuros. O facto de pintura não ser o mesmo que quadro dá origem a muitas confusões. Mas conviria considerar o quadro pintado (mais ou menos plano...) como o resultado de uma longa evolução que o torna um objecto quase perfeito, talvez inultrapassável. (O quadro fotográfico teve uma vida breve, mas ainda há quem use.)
BES Revelação em Serralves
#
Em tempo - ao sair dos barracões da baronesa Rothschild pensava que alguma coisa que se chamou arte se ía acabando (com o Anteciparte 2007, o EDP Novos Artistas no Porto, etc). Depois, visitei a exposição de pintura da Maria Condado, a sua "Promised Land", na Caroline Pagès Gallery...
Rua Tenente Ferreira Durão, 12 – 1º Dto. [Campo de Ourique] Lisboa
Tel. 21 387 33 76 Tm. 91 679 56 97 - www.carolinepages.com
Até sábado 22 - e por marcação até 5 de Janeiro
(Maria Condado aparecera no 2º Prémio Rotschield, em 2005, e as suas paisagens continuam a ser uma "terra prometida")
Dois lados de Serralves: Lourdes Castro e ruídos
faltaram os múltiplos e os trabalhos decorativos: fetichização do único? Ocultação de vertentes importantes do trabalho de Lourdes Castro
Não percebi porque se associam no programa de Serralves as exposições de Lourdes Castro (com Manuel Zimbro) e da norte-americana Dara Birnbaum (Nova Iorque, 1946). Talvez a ideia seja estimular a curiosidade do visitante colocando-o perante o desafio de perceber por que se associaram na programação de Serralves as exposições de Lourdes Castro e de Dara Birnbaum. Julgo que o visitante não descobrirá essa eventual razão, o que o levará a interrogar a lógica geral da programação de Serralves. Talvez isso o ajude a ser mais um visitante questionador do que um mero consumidor de arte contemporânea – é a minha perspectiva amigável ou optimista. Ou, pelo contrário, face à impossibilidade de perceber a associação de duas exposições tão adversas ou conflituantes, talvez perceba que estas coisas da arte contemporânea não são para perceber, mas só para consumir, passando-se pelo centro cultural com a mesma displicência indiferente com que se passeia nos restantes fins de semana pelos centros comerciais (e aliás, o tio Belmiro, o BPI, etc, estão de ambos os lados).

Lençóis bordados, "Sombras sobre lençol" ou "Sombras deitadas", c. 1968-72
"Faço-os eu própria porque realmente tenho prazer em bordá-los; é muito sossegado e tranquilizante; uma espécie de concentração e meditação. Às vezes ouço música, e muitas vezes não penso em nada." L.C. Paris 1969
iDe um lado, um silêncio desenhado por sussurros e intimidades: as caixas feitas de acumulações de objectos carregados de vidas – usados, recolhidos e reciclados, propostos a uma nova existência, que é lúdica e pode ser poética, se lida como tal. Os retratos dos amigos, apenas recortados como sombras, como se a sua presença efémera pudesse permanecer depois da sua passagem, dando identidade artística aos jogos de sombras projectadas com que todos convivemos sem dar por isso. Os lençóis bordados, retratos discretíssimos, e a recuperação de antigos lavores femininos, marcas deixadas por visitantes a não esquecer, talvez histórias. As flores fixadas na sua aparência menos gritante, despojadas das suas cores para serem só contornos, fantasmas que parecem mais pertencerem a um diário de memórias pessoais do que a um catálogo ou inventário botânico – afectos para além da ciência.
Do outro lado, a invadir espaços comuns e proximidades, a gritaria estridente de sonoridades televisivas. A mistura é imprópria, indecente, como se o importante fosse chamar a clientela com estridências de feira para as várias barracas de atracções.
De um lado, o silêncio, deixando ao visitante a necessidade de descobrir o sentido dos objectos, ou a sua serena ausência de sentido, existência apenas. Do outro, o ruído e uma dupla e simultânea agressão – o barulho "mediático" e a imposição de um sentido explicativo que qualifica os objectos como importantes a partir de uma mensagem política que se fornece com a autoridade do museu: aquilo não são estridências de feira televisiva mas – segundo se explica – a desconstrução das estridências de feira.
Logo na primeira tabela, o título completa-se com o que o espectador deverá perceber (à força) no que ouve e vê: "Tecnologia/Transformação, uma incendiária desconstrução da ideologia entranhada no formato televisivo e na iconografia cultural popular (…)". Incendiária, porque se vêm explosões e chamas, intervalando uma imagens de vulgares ou (rascas) programas televisivos. Incendiária, porque é com o mito das revoluções políticas que se acena ao passeante incauto e indiferente.
Poderíamos esperar que a instituição museu descontruísse o discurso dito desconstrutivo, dissecando a sua ineficácia, ou melhor, a sua contribuição para que se instalasse o grande divórcio entre a ambição artística tida por erudita e pretendidamente crítica e, em oposição, o gosto cultural das chamadas massas – gosto acéfalo de massas ignaras que consomem os produtos de Hollywood e quejandos, uma velha conversa… Mas não, não é isso que faz o museu, onde o discurso ideológico contra a "ideologia entranhada" volta a ser fornecido acriticamente, mas agora recontextualizado como arte a que o Museu considera oportuno ceder o seu espaço. Poderia antes dizer-se na tabela de Serralves que aquilo que num determinado momento, circa ou após 68, se introduziu no campo da arte como combate ideológico tem hoje de ser desconstruído como objecto datado e inócuo, integrado num determinado contexto de contestações sociais e culturais mas depois recuperado pelas instituições culturais do presente como mercadoria artística, ao serviço das indústrias do entretenimento cultural e do mercado museológico. O formato televisivo, passível de reedição e redifusão, facilita em muito esse papel de mercadoria museológica. Mas o que era errado política e esteticamente é hoje uma mistificação oportunista.
Falta à exp. de Lourdes Castro a presença explicitada de uma vertente do seu trabalho que tem a ver com a produção de múltiplos, como uma prática de extensão do acesso aos objectos artísticos muito generalizada nos anos 60, num tempo de gostos e consumos Pop. Os múltiplos (serigrafias e outras edições) exploravam novas potencialidades técnicas de reprodução e multiplicação, visando um consumo artístico não dependente do fetichismo da peça única. Em grande medida, a lógica da produção de múltiplos é paralela à da produção de objectos ou instalações efémeras. O Museu, hoje, retoma aquela fetichização do único.
Outro desvio ou outra ocultação do sentido da obra/carreira de Lourdes de Castro (considerando que as condições e modalidades da produção não são alheias à realidade material das suas obras/peças) diz respeito à vocação decorativa de grande parte do seu trabalho, bem presente em muitos dos objectos (únicos ou não) e explicitamente afirmada nas sua obras em azulejo e em tapeçaria. As potencialidades decorativas são qualidades (e não defeitos ou limitações) do seu trabalho.
14/02/2010, a segunda mostra individual*
"Um tapete voador, uma casa, uma pirâmide, um jardim japonês, uma colecção de grelhas e uma pedreira (e mais algumas coisas)" Galeria 111
* Entre 2008 e 2010, apresentou na 111 do Porto "Um jardim, um tapete voador, um diorama, algumas paisagens e outras construções", pintura e desenho, 2009
Para acompanhar as naturezas mortas da Gulbenkian e prolongar o género ou a reflexão sobre o género até ao presente - os quadros mostrados na FG estão vivos e, aliás, as naturezas mortas, as coisas vistas e pintadas, são mais coisas inanimadas do que mortas - há que ir ver até dia 20, sábado, os desenhos e pinturas de João Francisco na galeria 111: já era certamente a mais importante exposição do início do ano e agora torna-se mais relevante ainda, com a associação à fantástica exposição que o Museu Gulbenkian nos traz ("Na Presença das Coisas" - título corrigido), e é, para ambas, uma mais-valia como agora se diz por tudo e nada.
Sem título - O Diorama, o/t, 160 x 180 cm. (1)
Pintura do natural, de observação, mas, acontecendo esta no atelier como é habitual na N-M, são também as construções e acumulações que importam e, entre outras coisas, a ironia com que são realizadas e pintadas, encenando e descrevendo um discurso visual que se abre a sucessivas pistas e sentidos (conteúdos, reflexões) vários - há artistas que se limitam as juntar as coisinhas encontradas, apropriadas, coleccionadas mas é uma prática preguiçosa: a recolha, a colecção, a montagem-encenação e a "transcrição" são aqui fundamentais.
Nunca se trata no caso de JF das coisas vistas/pintadas apenas por elas mesmas (mas também é isso, decerto), nem do exercício "puro" da representação, da sua veracidade ou verosimilhança (e aqui não há propriamente vontade de ilusão nem demonstração de virtuosismo - embora lá estejam), nem de "pintura só para os olhos", nem de "pintura face a ela própria"* (correspondendo por antecipação aos ditames da autonomia disciplinar do formalismo tardomoderno), etc. (* - referência ao útil artigo de Joaquim Caetano no Público de 12 de Fev.)
Aqui a representação pictural toma por modelo (cenário) objectos que são já representações reduzidas do mundo, intermediações, miniaturizações: os vasos de plantas (e não floreiras), os pássaros-objectos e um Snoopy meio escondido, e o livro aberto, a escrita que descreve e interpreta todo o mundo e a arte. O grafismo que se aplica na bd, na ilustração e no "cartoon", sintético rápido plano, ágil e crítico, menos auto-referencial que interventivo e em especial comunicativo, está ali presente como lugar de passagem, homenagem e recurso a explorar - depois de uma certa (só parcial, relativa, é certo) condenação da pintura à mudez ao longo do século XX, por contradição compensatória com um anterior excesso de retóricas e precipitada defesa face à fotografia e ao cinema; esses destino do desenho são uma reserva de informação e energia com que a pintura se revitaliza.
O comprazimento na contemplação, a autocontemplação do olhar que segue a mão que segue o olhar (Arikha), a experiência vital da presença das coisas (e não "a perspectiva" como absurdamente se escreve na FG: andam todos a dormir!) são aqui questões que não empatam a eficácia e a pressa de João Francisco em fazer o que os outros não fizeram, mas referindo-os a tudo.
Sem Título - na Alemanha, 2008, a./p., 100 x 140 cm. (2)
As casinhas (a cidade), os blocos de madeira (noutras obras referem-se às "esculturas" do Carl André), o quadro no quadro, por sinal uma paisagem e também por sinal as altas montanhas com neve, o sublime - o relógio que marca o tempo, de trabalho e de vida, etc.
Sem Título - O coleccionador de grelhas, 2009, o.t., 160x180 cm.(3)
Aqui a natureza morta é uma paródia da teoria da grelha na pintura modernista (uma paródia por antecipação ao erro de tradução compreensão que o título da Gulbenkian "representa"): a grelha perspéctica da perspectiva que se autonomiza como tema da pintura "pura".
Sem Título - O homem que queria ter uma escultura, 2008, a.p., 100 x 140 cm. (4)
O gozo com o Carl André (o que é um exercício de admiração, pelo menos de curiosidade) é aqui notório, ou muito fácil de entender - e lá está em cima à dir. o relógio, mas virado do avesso (o tempo corria ao contrário? em direcção a lado nenhum?)
Sem Título - Atlântida, 2008, a.p., 100 x 140.(5)
O relógio é de sol, e o tapete é o mar que cobriu a cidade perdida, e em cima pode ser uma pintura "abstracta", não referencial, figurando o céu. A natureza morta pode ser narrativa, trocando as voltas à caracterização do género, é já pintura de história.
A presença da pintura "abstracta", no fundo de 2 e na janela de 5. A grelha. Carl Andre.
A paisagem e a pintura de história. A inversão da natureza-morta: as coisas sob a toalha de mesa; a toalha-mar
O fundo como chão
Influx Contemporary Art
(depois de African Contemporary Gallery desde 2005 na Rua da Rosa)
1. Chéri Cherin, pintor do Congo
2009/12/12/africa-contemporanea/
3. Africa 2.0
2010 (30 Jan. – 27 Mar.) ÁFRICA 2.0 > existe uma ‘arte africana contemporânea'?", Influx Contemporary Art, colectiva. No 1º aniversário do projecto que veio substituir-se a uma anterior galeria que existiu desde 2005 na Rua da Rosa com o nome African Contemporary Gallery – e que aliás continua na net: http://www.africancontemporary.com/. ( "Africa 2.0")
e 28/01/2010
4. Soly Cisse
01/28/2010 4/4/2010 > http://www.influxcontemporary.com/ Um artista nascido no Senegal (1969), que já tinha exposto em Lisboa (Arte Periférica) por ocasião do 1º Lisboa-Dakar
https://africancontemporary.com
&
cronologia "circulações africanas por Lisboa"
…
1972 (Out.) Bertina Lopes. Fundação C. Gulbenkian, Exposições de Bolseiros 3. Cat.
até 2011 (2 Maio-5 Junho) III Bienal de Culturas Lusófonas. Exp. colectiva de artes plásticas das culturas lusófonas. & "Sonhar Malangatana" (Coord. Fundação Malangatana – Filomena André). Centro de Exposições de Odivelas. 2 Catálogos.https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/2012/04/16/multiculturais/
Comentário: "(...) os exercicios que reflectem o autor como tema principal da obra pensei q se esgotaram c a Frida Khalo, mas, nos nossos dias parece ser ainda tema recorrente... (penso que fruto do excessivo individualismo ou até de solidão)