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Jorge Soares
01.07.2015

Azulejos, bidés, candeeiros, pequenas esculturas, bancos,
aspiradores, mobílias, telefones, brinquedos… Uma infinidade de objetos
reaproveitados fazem do “Solar dos Jorges” um mundo de fantasia singular
no concelho, construído ao longo de décadas por Jorge Soares. Antigo
jogador de futebol do Benfica, fixou-se há já alguns anos na Boavista
depois de reformado. A sua moradia e todo o seu pitoresco universo foram
recentemente alvo de um trabalho de vídeo realizado por Alexandre Pomar
e Tiago Pereira, o qual esteve patente na Paços – Galeria Municipal. À
[Torres Vedras], Jorge Soares falou desse seu mundo, bem como de outras
questões como a importância do reaproveitamento de materiais, o seu
percurso de vida, a terra que o acolheu e algumas curiosidades
interessantes da sua carreira desportiva…
Como começou este seu interesse em recolher material para fazer as “obras de arte” que estão patentes no seu solar?
Bem, já quando era miúdo a minha professora de desenho dava-me sempre
muito boas notas e dizia-me que tinha muito jeito para o desenho.
Entretanto cresci, apareceu o desporto, fui inclusivamente jogador de
futebol do Benfica nos juniores, pratiquei também outras modalidades
como o atletismo e o voleibol, e essa faceta artística acabou por ficar
para trás. Aliás, naquele tempo já ganhávamos como juniores no Benfica, e
desisti também por isso dos estudos. Depois casei, nasceram os meus
dois filhos, e agora quatro netos, até que comecei a aspirar ter uma
casa de férias. Comprei esta casa na Boavista em 1972. A minha mulher
faleceu por volta do ano 2000 e, estando reformado, resolvi fixar-me
aqui. Se ficasse em Lisboa acabava nos jardins a jogar à sueca e assim
estou por aqui a fazer o que me dá prazer, que são os meus trabalhos.

Ainda no tempo em que trabalhava passava pelos vazadouros e ia
tentando encontrar alguma coisa que me despertasse a atenção. A partir
daí comecei a juntar coisas como é o caso daquelas pias, às vezes
encontrava bocados de azulejo partidos e ocorria-me que com aquilo podia
fazer uns “bonecos”... Como tenho algum jeito para o desenho, primeiro
concebo os trabalhos no papel e depois recorto os azulejos com uma
turquês. E assim, a pouco e pouco, fui construindo este mundo, também
com poemas que ia fazendo e colocando nas paredes, para além de ir
colecionado todo o tipo de objetos, alguns dos quais tenho dentro de
casa…
todos nós temos jeito para qualquer coisa
O que me influenciou também para enveredar por estes trabalhos foi o
facto do meu pai, que era pedreiro, fazer o aproveitamento de materiais.
Por exemplo, havia pessoas que tiravam os azulejos das paredes para as
pintar e ele aproveitava, ou tiravam madeiras para pôr alcatifas, e ele
fazia o mesmo. Para além disso punha-me a endireitar pregos para
reaproveitá-los. E assim ficou esse bichinho em mim. Os azulejos de
flor-de-lis que tenho no muro da minha casa eram inclusivamente dele.
Entretanto, as pessoas que passavam pela casa davam-me os parabéns
pelos meus trabalhos, incentivando-me a construir este mundo de
fantasia.
Para além do seu gosto pelo reaproveitamento de
materiais e de passar o seu tempo de reforma a executar estes trabalhos,
houve alguma situação que tenha de forma especial despoletado o seu
gosto para realizá-los?
Sim. Na altura em que já estava na pré-reforma, a junta de freguesia
da zona da Alameda, em Lisboa, organizou um curso, em que até participou
o juiz que condenou as FP 25. Durante a semana, ao fim da tarde, a
junta disponibilizava o espaço e os materiais e éramos coordenados pelo
professor Melício. Até chegou a ser equacionado fazer-se escultura, mas
acabou por não acontecer, acabando por se fazer essencialmente trabalhos
de pintura. Na sequência desse curso, fizemos inclusivamente exposições
em vários locais e chegámos a vender trabalhos. Lembro-me até de um
quadro que fiz de S. Jorge e que desapareceu numa dessas exposições.
Tinha a intenção de o colocar aqui, mas como tal não foi possível acabei
por fazer outro com bocados de azulejo. Foi uma experiência
interessante, de vários meses, com gente de todas as idades e era bom
porque não pagávamos nada. Talvez tenha sido essa experiência que
despoletou em mim a vontade de realizar trabalhos artísticos.
Como escrevi algures aqui na minha casa, todos nós temos jeito para
qualquer coisa. No meu caso descobri nessa altura o meu jeito para os
trabalhos artísticos.
Tem tido muitas pessoas a visitar o seu solar?
Sim, tenho tido muitas visitas. Os meus trabalhos têm sido muito apreciados.
Já tenho até sido solicitado para abrir a casa a grupos escolares e a
outros. Até para fazer aqui uma peça de teatro. Apareceu também aqui o
Alexandre Pomar que se interessou muito por isto, e o seu pai, o Júlio
Pomar, também já cá esteve. Fiquei muito feliz pelo facto do Alexandre
Pomar e o Tiago Pereira, filho do músico Júlio Pereira, se terem
interessado pelo meu trabalho e terem feito o vídeo que esteve patente
na Galeria Municipal. O Sérgio Godinho também passou por aqui, e gostou
muito… A provar tudo isto é o “livro de honra” onde os visitantes podem
deixar as suas impressões da visita.
Sou conhecido como o “Gaudi da Boavista
E como é que as pessoas fazem as visitas?
De várias formas. Há pouco tempo apareceu aqui um grupo de amigos que
me contactou. Outros passam aqui à porta, param para ver, e eu
convido-os a entrar. Há pessoas que até perguntam quanto custa a entrada
e obviamente digo que não custa nada. Às pessoas que veem aqui até
proponho que tragam familiares, vizinhos, amigos. Há também outros que
param, mas acanham-se e não entram. E passam por aqui inclusivamente
muitos estrangeiros, que também deixam no livro as suas dedicatórias.
Para além disso, o Expresso esteve aqui e fez uma reportagem com
grande destaque na sua revista sobre a minha casa. Há pessoas que até me
dizem que já têm ido a muitos museus e nunca viram uma coisa assim. Eu
fico muito contente, claro…
Houve até quem me chamasse Gaudi. Sou conhecido como o “Gaudi da
Boavista”, e quando fui ao programa do Goucha, ele até me chamou de
“Gaudi português”. Aumentou a parada (risos)… Além da TVI também estive
na SIC.
Como fim de vida, é uma boa forma de passar o tempo…
Quais são os motivos dos seus trabalhos, as suas fontes de inspiração?
É algo que é difícil de explicar. Eu posso ter um sonho, com
determinada situação, e então, transporto isso para o papel e depois
executo. Nos jornais, nas revistas, na televisão, também vejo coisas que
me inspiram.
Há algum trabalho seu de que goste de forma especial?
Gosto de todos, mas principalmente da figura do S. Jorge a matar o
dragão. Escolhi essa figura porque por um lado S. Jorge tem o meu nome e
por outro lado é um santo guerreiro. Também tenho alguns quadros com
animais e aves de que gosto muito. Aquelas duas parabólicas com um corvo
e uma gaivota, que são o símbolo de Lisboa, também é um trabalho de que
gosto de forma especial.
A figura do S. Jorge tem alguma relação com o facto de ter chamado a esta sua casa “O Solar dos Jorges”?
Sim, mas o nome desta casa tem mais a ver com o meu nome e o dos meus
filhos. Dei esse nome a esta minha residência porque há umas décadas
atrás havia ruas que não tinham nomes e as pessoas tinham de dar nomes
às suas casas. Dentro desta casa criei até ruas com o nome de familiares
como forma de homenagem.
Acha que o seu trabalho é importante no sentido de
alertar para a reciclagem dos materiais, numa altura em que não se
aproveita nem se arranja nada, compra-se tudo novo?
Eu acho que é importante. Tive um colega numa profissão diferente, já
há muitas décadas, que falava da reciclagem, numa altura em que ninguém
ligava a isso. Já na altura ele falava da importância de reaproveitar
as coisas inclusivamente de forma a matar a fome. Ele batia muito nessa
tecla e isso ficou-me na memória, o que também contribuiu para que
enveredasse por este caminho de aproveitamento de materiais.
Ao longo da sua vida que profissões e ocupações teve?
Fiz o 5.º ano do liceu, depois o desporto tomou conta de mim, e fui
conciliando a vida desportiva com a profissional. Quando cheguei a
sénior o Benfica enviou-me para a Régua com um rapaz que veio de
Moçambique com o Eusébio, o Zambane, e fui lá campeão de Vila Real.
Depois fui jogar para o Loures e o presidente desse clube arranjou-me um
emprego num escritório, foi o primeiro que tive. Fui também na altura
campeão distrital. Eu queria continuar lá, mas estava vinculado ao
Benfica que me enviou para Portimão. Não estive muito tempo no Algarve,
acabei por me desvincular do Benfica, e fiz o resto da minha carreira
desportiva em clubes como o Nazaré, o Alhandra, o Povoense, o Desportivo
dos Olivais e o Costa da Caparica. Até que em 1975 tirei o curso de
treinadores. Foi o primeiro em Portugal, em que participou por exemplo o
Manuel José. Treinei clubes do distrito como o Venda do Pinheiro, o
Vitória de Lisboa, e outros. Fui ainda árbitro. Paralelamente fui
vendedor de bebidas, depois fui para uma empresa em que tive como função
a de chefe de armazém e trabalhei ainda numa empresa de ar
condicionado. Para conseguir amealhar mais algum dinheiro vendi também
livros no Círculo de Leitores.

Tendo feito a sua vida em Lisboa, porque escolheu a Boavista para segunda habitação?
Comecei por ver casas na Costa da Caparica, mas não queria ficar
muito próximo de Lisboa para manter algum afastamento do trabalho. Ainda
vi umas casas no Algarve mas concluí que ficava muito longe. Até que
resolvi dar uma volta pela Ericeira e Santa Cruz. Só havia aqui um
problema que era o tempo, era uma zona de muito vento. Hoje em dia não é
nada comparado com antigamente, quando o tempo era mais agressivo.
Lembro-me de estar em tronco nu no quintal e parecia que tinha agulhas a
espetar no corpo. Na altura falei com um construtor que tinha uma casa
para vender em Santa Cruz, mas que precisava de obras, e acabei por não
comprar essa. No entanto ele sugeriu-me esta na Boavista, que acabei por
comprar.
E tem gostado desta zona?
Acho que é uma zona agradável. Está-se aqui bem, não falta nada…
Estou na minha casa de manhã à noite, onde passo o meu tempo. De vez
em quando também vou dar uma volta, mas passo a maior parte do tempo em
casa.
Ainda me lembro de quando aqui cheguei a estrada ser em terra batida.
Hoje é alcatroada. Tem havido uma evolução e qualitativa imensa…
Teve uma boa recetividade da instalação/exposição sobre o seu trabalho que esteve patente na Galeria Municipal?
Sim. As pessoas foram dizendo bem dela e no próprio dia da inauguração os presentes estavam bastante agradados…
Não é muito normal pessoas que vêm do mundo do futebol desenvolverem interesse pelas artes…
Sim, é mais pela parte musical que os futebolistas se interessam…
A título de curiosidade, houve alguns colegas seus dos juniores do Benfica que se tenham tornado conhecidos?
Sim, o Simões, por exemplo. Tenho até uma história muito interessante
com o Simões. Na minha juventude, com um conjunto de rapazes
benfiquistas, fui aos treinos de captação do Benfica. Éramos seis e
nenhum ficou. No entanto não desistimos e fomos ao atletismo e dos seis
ficamos três. Modéstia à parte, fui considerado o melhor e
inclusivamente fui campeão de atletismo pelo Benfica. Só que quis de
novo jogar futebol e fui às captações do Sporting. Não falei com nenhum
dos meus colegas benfiquistas, fui lá, e acabei por ser aproveitado. E
assim fiz uma época nos principiantes do Sporting, que corresponde
atualmente aos juvenis. Joguei com jogadores como o Pedro Gomes, o
Oliveira Duarte, o Crispim, que atingiram um certo gabarito. E quando
acabei a época fui de novo ao Benfica para me submeter às provas. Quando
disse que tinha sido jogador do Sporting aceitaram-me logo. E o
treinador dos juniores, que era um argentino, chamado Valdeviezo,
perguntou-me se eu conhecia o Simões. Perguntou-me se ele era bom, eu
disse que sim, e questionou-me porque não jogava pelo Sporting. E o que
se passava era o seguinte: o Almada pediu determinado valor ao Sporting
pela sua transferência, o que não foi aceite. O Sporting manteve-o
durante um ano e passado esse tempo o Simões ficava desvinculado do
outro clube sem ser necessário pagar o que quer que fosse. Nos treinos o
Simões até jogava contra mim porque na altura eu era defesa direito e
ele era extremo esquerdo. Defrontávamo-nos os dois, mas eramos muito
amigos. Um dos primeiros jogos que fiz pelo Sporting até foi aqui em
Torres, ele acompanhou-nos, mas não podia jogar. E então o Simões esteve
um ano no Sporting sem jogar, mas acabou por ir para o Benfica porque
este clube chegou a um acordo financeiro com o Almada. Posso dizer que a
vinda do Simões para o Benfica teve o meu dedo…
É bom ter a sensação que passei por este mundo e fiz qualquer coisa de relevante
O Simões viria inclusivamente a ser campeão europeu de juniores. Eu e
o Bernardes de Torres Vedras chegamos a ser convocados para essa
seleção, até tenho uma fotografia tirada com ele, que jogava no
Torreense, mas dos 22 convocados houve 6 que não foram à Áustria, e nós
fomos desses que acabaram por não ir ao campeonato. Naquele tempo era
assim…
Tem algum desejo, ambição, para o futuro?
Bom, gostava de ter saúde para continuar a fazer isto. Por outro
lado, que as pessoas venham visitar o meu solar. Por outro lado ainda,
que a Câmara continue a apoiar as artes e a cultura.
Para além de fazer um ou outro objeto, não tenho nenhum objetivo em
especial. Tenho 73 anos e apenas gostava de ficar para a posterioridade.
É bom ter a sensação que passei por este mundo e fiz qualquer coisa de
relevante…
Última atualização: 23.12.2015 - 16:58 horas