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sábado, 12 de março de 2005

2005, Stieglitz em Madrid

 Diálogos americanos 

Expresso  12-03-2005


Stieglitz em Madrid. O fotógrafo e o agente artístico 


«Nova York e a Arte Moderna - Alfred Stieglitz e o Seu Círculo (1905-1930)»


Às duas grandes exposições da agenda de Madrid, uma centrada na figura do fotógrafo, editor e galerista nova-iorquino Alfred Stieglitz (no Museu Rainha Sofia até 16 de Maio) e outra dedicada ao centenário do grupo expressionista alemão Die Brücke (Museu Thyssen, 15 de Maio), veio juntar-se esta semana uma grande mostra de desenhos de Dürer vindos do Museu Albertina de Viena (Museu do Prado, 29 de Maio). É uma conjunção rara em qualquer capital, a reafirmar o poder de um centro cultural que ultrapassou a sua área peninsular de influência.


Stieglitz (1864-1946), além de fotógrafo com uma obra longa e muito influente, percorrendo diferentes e até contraditórias orientações, foi um decisivo activista da afirmação da fotografia como arte e um agente determinante na abertura dos Estados Unidos à arte moderna, mas é certamente o pólo menos conhecido desse triângulo de exposições madrilenas. Vinda do Museu de Orsay, numa co-produção que foi o grande acontecimento do Mês da Fotografia de Paris em 2004, é uma exposição que pela primeira vez apresenta largamente a sua obra fotográfica na Europa e um precioso panorama sobre os artistas e os acontecimentos que marcaram a modernização artística norte-americana, a que em geral não se tem acesso directo fora dos Estados Unidos.


«Nova York e a Arte Moderna - Alfred Stieglitz e o Seu Círculo (1905-1930)» toma como ponto de partida a inauguração da galeria - The Little Galleries of the Photo-Secession - que fundou num pequeno prédio com o nº 291 na 5ª Avenida, com o também fotógrafo Edward Steichen (1879-1973), que viria muito mais tarde a dirigir o departamento fotográfico do MoMA e a organizar a muito discutida exposição «The Family of Man» (1955). Essa opção cronológica deixa em parte na sombra a carreira anterior de Stieglitz, que se integrara, desde os anos 1880, nos círculos da fotografia picturialista europeia, em crescente sintonia com as correntes simbolistas. Ainda que a sua obra pessoal, pelo predomínio do olhar fotográfico face às manipulações picturais e pelo interesse nas abordagens naturalistas da paisagem e das figuras, não exprimisse a ambição visionária do simbolismo mais extremo, é esta a orientação dominante tanto dos fotógrafos da Photo-Secession, que Stieglitz reúne em Nova Iorque em 1902, como dos primeiros anos da revista «Camera Work», que dirige de 1903 até 1917, e também da galeria, que ficou conhecida pelo número 291 e encerrou no mesmo ano devido às dificuldades da I Guerra Mundial.


Em 1908, Stieglitz faz escândalo ao expor os desenhos eróticos de Rodin e desenhos e esculturas de Matisse, a que se seguem as primeiras apresentações na América de Cézanne, Picasso e Brancusi, antecipando o grande choque cultural que foi a exposição do Armory Show (1913). Ao mesmo tempo, começava a apresentar artistas americanos dos meios vanguardistas de Paris, como John Marin, Max Weber, Marsden Hartley e Arthur Dove, a que se junta, já em 1917, a jovem pintora Georgia O’Keeffe, com quem viria a casar. Toda essa abertura de Nova Iorque às revoluções da arte moderna é em geral documentada na exposição através das próprias obras expostas e coleccionadas por Stieglitz.


Ainda que a «Camera Work» e a galeria 291 continuassem, cada vez mais esporadicamente, a mostrar os grandes nomes do picturialismo, como Steichen, o barão Adolf de Meyer, Clarence White e Gertrude Käsebier, Stieglitz vai-se desligando dos meios fotográficos e volta-se para os artistas mais inovadores, sob a influência de Max Weber e do caricaturista e escritor mexicano Marius de Zayas. Embora muito influente, essa sua aproximação às novas tendências é, em geral, ainda moldada por um modelo esteticista de inspiração simbolista que o leva a entender o cubismo como caminho para a abstracção, aceitando esta por analogia com a música e vendo a arte como expressão do «élan vital» bergsoniano e do eu profundo de cada criador.


Entretanto, Stieglitz começara a modificar a sua obra pessoal numa direcção mais ancorada no real, ainda que continuasse a rejeitar as orientações do realismo social de um Lewis Hine (bem como a pintura reformadora e antiacadémica de Robert Henri e John Sloan). Fotografa a transformação arquitectónica de Nova Iorque e defende através da «pureza» dos processos da fotografia «straight» uma nova concepção formalista da autonomia do médium. No último número da «Camera Work» publica a obra de Paul Strand como expoente desse novo modernismo fotográfico, ao mesmo tempo que inicia a série admirável de retratos de Georgia O’Keeffe. Num percurso sempre surpreendente, a sua última fase reencontrar-se-ia com uma perspectiva simbólica da abstracção, em séries de fotografias de nuvens de analogia musical, «equivalentes» a uma identificação espiritualista com a natureza. Como galerista (The Intimate Gallery e An American Place), ao longo das décadas de 20 a 40, Stieglitz passou a apresentar apenas artistas norte-americanos, numa busca da «americanidade», antieuropeia e distante das mutações trazidas pela Grande Depressão, que viria a ser uma das raízes da abstracção expressionista dos anos 50.


Entre estes dois períodos, diferentes mas unidos por uma subterrânea coerência idealista, Stieglitz foi uma das figuras da agitação protodadaísta em Nova Iorque, em cumplicidade principal com Picabia e Duchamp (para quem fotografou a famosa Fonte assinada por R. Mutt). Esses anos de efervescência cosmopolita que se seguiram ao Armory Show e ao início da I Guerra Mundial, num tempo de radical mudança do mundo, são outro dos grandes capítulos desta extensa e sempre surpreendente exposição.

sábado, 16 de março de 1996

1996, Balthus, Reina Sofia Madrid: "Da vida das imagens". E em filme: "Balthus de l'Autre Côté du Miroir", 2000

 Balthus em Madrid (1996)

Da vida das imagens 


Em Madrid, no Museu Rainha Sofia, retrospectiva de Balthus, um pintor raramente visto que atravessou o século XX afirmando a modernidade da sua pintura “antiga” como um desafio às tendências e aos interditos dominantes


Expresso / Revista 16 Março 96, pp. 84-87

QUANDO a arte do século XX está à beira de deixar de se poder dizer contemporânea para se tornar a arte do século passado, Balthus é um dos artistas que assegura a passagem da pintura para o próximo século, precisamente porque a sua obra não pode ser vista apenas como um episódio na história dos gostos, das vanguardas e das crises dos últimos cem anos, que ele quase atravessou por inteiro. A retrospectiva apresentada no Museu Rainha Sofia, em Madrid, que muitos viram por ocasião da feira Arco, é uma rara oportunidade de encontro como uma obra quase secreta, tão venerada como polémica.
São 52 os quadros expostos, desde as primeiras pinturas parisienses dos anos 20 até à mais recente tela do pintor, seguindo um percurso cronológico que é, pelo menos, tão excepcional pela longevidade, que nunca se deixou aprisionar num formulário repetido, como pela originalidade do diálogo que a mestria de uma pintura "antiga» foi sempre estabelecendo com sucessivas tendências do seu tempo, mesmo quando parecia traduzir uma atitude liminar de condenação do novo.

Se algumas das suas peças iniciais mais significativas não foram dispensadas pelos museus que as expõem, o conjunto é revelador da diversidade dos géneros a que se dedicou o pintor (o retrato, o nu e as cenas de interiores, a paisagem e ainda a natureza morta – para além de se reunirem numerosos desenhos). Não faltam, entretanto, algumas das mais famosas composições dominadas pela presença das suas adolescentes de inquieto e inquietante erotismo, cujos corpos se suspendem em gestos de oferenda e retraimento, detidos no tempo em acções indecifráveis.



Foi sempre o escândalo que envolveu esta obra: à possível perversidade obsessiva das "jeunes filles en fleur», onde o nu se prolonga como tema cimeiro da pintura – mas ganhando com Balthus um novo mistério, ao mesmo tempo que a nudez se banalizava com a queda dos códigos censórios –, soma-se o extremo domínio do ofício de pintor com que se retomam todos os recursos de uma antiga tradição ameaçada, sem que a seu respeito seja possível falar de academismo.

Balthus, que parece atravessar o século à distância de todas as grandes correntes, é um dos artistas que condensam na sua obra as questões essenciais que se põem à pintura do presente, quando Arthur Danto afirma que a arte chegou ao seu fim, transformando-se em filosofia: a continuidade de uma tradição chamada pintura, muitas vezes condenada, mas, de facto, sempre duplamente presente na actualidade fascinante das obras do passado e na constante busca dos artistas actuais para lhe assegurarem a permanência ou a reinvenção. Mais especificamente ainda, a persistência de uma interrogação sobre a vida e o mundo que precisa de se moldar na criação de imagens e que tem como pólo maior de eficácia, questionante e jubilatória, a representação do corpo.

CLÁSSICO E CONTEMPORÂNEO

Balthus ocupa a estranha posição de ser ao mesmo tempo um clássico e um contemporâneo, pagando os custos dessa ousadia pela perda de qualquer lugar próprio nas histórias dominantes, onde a sua obra incontornável nunca é vista em si mesma e no momento próprio (que é também o dos anos 90), embora possa ser várias vezes usada como ilustre antecedente para legitimar um qualquer «regresso» episódico à representação e à figura. Insituável, senão a partir do realismo mágico proposto por Chirico nos anos 20, mas desenvolvido numa vertente original, a sua obra faz vacilar o discurso linear e finalista da história das vanguardas e dá à modernidade (que não é o mesmo que modernismo) a sua mais exacta dimensão de simultânea tradição de rupturas e de ressurreições.

Sempre mais admirado por artistas e escritores do que pelos críticos, ele foi-se tornando, entretanto, uma espécie de pintor de culto. Para isso contribuiu a referida longevidade de Balthus, atravessando oito décadas com uma produção tão lenta como escassa, e também o segredo em que o pintor gostava de se envolver, mostrando raramente a obra e recusando por muito tempo os dados biográficos, as fotografias e as entrevistas.

 «Recuso-me a qualquer confidência e não gosto que se escreva sobre arte» foi a única referência pessoal autorizada num livro dos anos 40. Sob o diminutivo usado em criança (e o mundo imaginário da infância é o território de eleição da sua pintura, o que desde logo o situa num terreno moderno), ocultava-se o conde Balthazar Klossovski de Rola, nascido em Paris em 1908 de uma família de origem polaca, arruinada mas bem integrada nos meios culturais parisienses. Hoje, com 88 anos, Balthus prefere envolver-se numa aura aristocrática, deixa-se fotografar de quimono junto da sua mulher japonesa, o modelo de La Chambre Turque, e multiplica-se em declarações de uma vaga religiosidade oriental que é conveniente considerar sob reserva: «A minha pintura é uma espécie de oração para celebrar a beleza divina.» 

Ainda que o pintor negue agora a intensidade erótica das suas figuras fatais e cândidas («uma menina é um elemento sagrado que não se pode tocar; é anti-erótico, sobrenatural, divino e angelical», no catálogo), ela é um dos elementos do culto criado à sua volta, tal como a procurada sabedoria artesanal de uma pintura «antiga» que o artista contrapôs, com o gosto da provocação, à decadência da pintura do seu tempo: «Não sou um pintor moderno, nem sequer contemporâneo. Na realidade, sou um homem medieval».

A acessibilidade imediata das suas pinturas aparentemente realistas bem como o mítico isolamento são contrariados, no entanto, por leituras mais atentas. Os seus temas mais frequentes sustentam-se por uma prática permanente da citação de inúmeras fontes históricas, retomando personagens e posições dos corpos de uma imensa galeria que vai de Piero della Francesca a Caravagio e Poussin, ao mesmo tempo que parecem veicular significados esotéricos, em cerimónias rituais e iniciáticas cuja complexidade se oferece à interminável decifração erudita.

 Por outro lado, o virtuosismo oficinal que o levou a recuperar nas telas a aparência dos frescos do «Quatroccento», através das matérias granulosas e interiormente iluminadas que resultam da sobreposição das camadas de têmpera e caseína, não impede que na procurada atemporalidade da sua obra se veja um efectivo relacionamento com os seus contemporâneos. O pintor refaz a sabedoria da pintura face às direcções apostadas na sua redução a um qualquer elemento formal tido por essencial, e mantém a solidez da figura quando a renovação do seu poder de expressão parecia passar pela inevitabilidade da deformação e do fragmento.

Balthus não é um solitário transplantado de outro século, mas alguém cuja obra se entretece numa teia imensa que começa com a influência de Derain e Bonnard, com quem conviveu na juventude, passa por um longo diálogo com Picasso e com Braque, e depois pela cumplicidade com Giacometti, num meio intelectual parisiense marcado por Antonin Artaud, Pierre Jean Jouve, Starobinski, Bataille e Camus, que escreveram textos decisivos sobre a sua obra.
Por outro lado, Jean Clair já sublinhou os contactos de Balthus com a Nova Objectividade alemã e com o «retorno à ordem» dos Novecentistas italianos, que conheceu enquanto estudava en Arezzo os frescos de Piero della Francesca. A recusa do surrealismo não desmente também uma próxima sensibilidade aos poderes do inconsciente e do maravilhoso,  embora separando-se o pintor do que o movimento teve de demonstrativo e de disciplinado.

Autodidacta, mas filho de uma pintora e de um crítico de arte, o jovem Balthus fez a sua aprendizagem nos museus, através da cópia dos mestres; pelos anos 60, quando se instalou em Roma a pedido de Malraux, para restaurar a Villa Medicis, o pintor viria ainda a adicionar a uma cultura plástica muito vasta a descoberta da antiga pintura chinesa, dando à obra tardia o estranho carácter de um encontro entre diferentes tradições.  

Dormeuse, de 1943, seria uma pintura realista se o rosto sereno, a boca entreaberta, a torsão excessiva do corpo e o seio descoberto e iluminado não criassem ao olhar uma dúvida indecidível sobre a visão oferecida – o sono-sonho, a morte, a hipótese de um crime – , e se a composição espacial (o braço caído e o ângulo aberto que formam a cabeceira deslocada e a manta) não forçasse a entrada do espectador, que invade a cena como «voyeur» e interveniente da acção, diante de uns olhos fechados que podem ser uma recusa ao seu desejo. A redução extrema dos elementos sublinham o equilíbrio «abstracto» da cena, onde é provável que o pintor cite uma Vénus (e Vulcano) de Parmigianino, enquanto a matéria densa, que substitui a cor pela construção da luz, se dá  a ver como superfície de pintura.

 Cinquenta anos depois, Le Chat au Miroir, terceiro quadro de uma série, põe em cena dois elementos inúmeras vezes presentes na sua obra, o gato e o espelho, com toda a sua carga simbólica, enquanto a figura adolescente ganha uma estranha indiferenciação sexual e temporal. O espaço indefinido marca a frontalidade do quadro e todos os panejamentos do divã, onde se retomam pavimentos perspécticos da pintura renascentista e também arabescos de tecidos orientais, apenas reforçam a planificação integral da superfície da pintura, que nenhum foco iluminante exterior vem alterar – está-se longe de todas as tradições da profundidade, e o humor é, como em muitos outros quadros do pintor, uma presença sábia. A síntese das referências ocidentais e orientais, que tem a força de um manifesto na Chambre Turc, surge aqui numa composição em que a intensidade dos valores decorativos concentra toda a atenção sobre as questão da identidade que o espelho e o gato duplamente simbolizam, num ritual talvez esotérico, talvez apenas evocativo de uma infância nunca perdida.



O BALTHUS DA COLECÇÃO BERARDO


Balthus em filme: Balthus de l'Autre Côté du Miroir


Expresso / Cartaz, 11 Março 2000

Um filme sobre Balthus apresentado pela Culturgest, no ciclo «Cinema & Arte. Imagens de Imagens». 

A imensa longevidade do pintor (nasceu em 1908), a originalidade de uma obra que atravessa o século, rejeitando as direcções predominantes que a arte seguiu após a II Guerra Mundial, a raridade das suas telas, muito demoradamente elaboradas, e a fascinação que elas exercem sobre um largo público fiel, tornaram-no uma das figuras mais singulares e admiradas da criação do século XX.

Intitulado Balthus de l'Autre Côté du Miroir, o filme foi realizado por Damian Pettigrew e é uma longa-metragem de 72 minutos. Diz o programa que foram necessários 14 meses de filmagens a uma pequena equipa que teve acesso à casa onde Balthus vive na Suíça, um antiquíssimo chalé isolado numa aldeia de montanha com 400 habitantes. Mas antes já tinham passado dez anos de troca de correspondência entre o realizador canadiano e o pintor, que lhe fora apresentado por Fellini – o cineasta escreveu sobre Balthus em 1977 e apresentou-o na Bienal de Veneza de 1980.

Balthus fala da sua vida e da sua obra e recorda, em especial, as relações de amizade que manteve com Artaud, Camus ou Malraux. A japonesa Setsuko, que foi modelo do pintor e se tornou sua mulher e indispensável assistente, os seus dois filhos, Stanislas e Thadée Klossowski de Rola, estão também presentes e incluem-se várias outras aparições e testemunhos: o actor Philippe Noiret evoca uma amizade inesperada, o académico Jean d'Ormesson faz uma curiosa intervenção, o pintor Francis Rouan, antigo discípulo, lembra algumas das preocupações mais características do artista.

A pintura de Balthus é comentada por Jean Clair, que acaba de prefaciar o catálogo «raisonné» do pintor, publicado no final de 1999; por Jean Leymarie, autor de uma importante monografia editada em 1982 e depois várias vezes aumentada; e também por James Lord e Pierre Rosenberg, este director do Museu do Louvre.

O conde Balthazar Klossowski de Rola, que ficaria conhecido como Balthus, nasceu em Paris numa família de ascendência polaca muito relacionada com o mundo artístico, convivendo desde cedo com Derain, Bonnard e Matisse. Rainer Maria Rilke foi o seu primeiro mentor e fez publicar pela primeira vez os seus desenhos em 1921. A primeira exposição, em 1934, foi «descoberta» por Antonin Artaud e despertou o interesse dos surrealistas, embora a sua pintura, então dominada pela estranheza de cenas da vida urbana e pelos retratos, não lhe estivesse directamente ligada, aproximando-se mais de algum realismo fantástico alemão. A partir de finais dos anos 30, torna-se marcante na sua pintura um erotismo intimista, concentrado sobre a presença de adolescentes cândidas e perversas, ao mesmo tempo que a obra assume a continuidade explícita dos mestres do Quatrocentto (Piero della Francesca, Ucello), evocando também Degas, Cézanne e Bonnard. Mais tarde viria a influência da cultura japonesa. Balthus é também um desenhador prodigioso e a paisagem é outro dos temas muito presentes na sua obra.

Em 1996, por ocasião da Arco, o Museu Rainha Sofia dedicou-lhe uma importante mostra antológica (ver “Da vida das imagens”), e um dos seus retratos dos anos 30 faz parte da Colecção Berardo. 


E TAMBÉM A NECROLOGIA, EM 2001


sábado, 24 de novembro de 1990

1990, Madrid, Museo Reina Sofia, re-inauguração,

ver 13 Janeiro, p. 35: "O próximo MNAC"

ver 24 Nov. Revista: Serralves: Alguém disse MNAM?, p. 89. b



24 Nov. Revista: O Museu mais próximo (o Reina Sofia). P. 91 + Três identidades, Arte italiana, Giacometti, Tapies. P. 92.


O MUSEU mais próximo é o de Madrid.

O antigo Hospital Geral, situado a50 metros da estação de Atocha, tinha-se  transformado já, em 1986, no Centro de Arte Rainha Sofia. Com mais 5.300 milhões de pesetas de obras de readaptação (perto de oito milhões de contos), depois de 22 meses de trabalhos e de um novo «Real Decreto», tornou-se o Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia. Foi re-inaugurado a 31 de Outubro e pretende agora vir a ocupar um lugar de primeiro plano internacional entre os museus de arte moderna e contemporanea; em números de metros de áreas de exposição (12 505) já está à  frente da Tate Gallery, do Museu de Tóquio ou do MoMA e aproxima-se do Centro Pompidou.

O dinamismo da reabertura, com uma vasta panorâmica da arte italiana do século XX até meados dos anos 60, uma exposição de objectos inéditos de Tapies e a maior retrospectiva desde sempre dedicada a Giacometti, inauguradas sucessivamente com intervalos de uma semana, dá também a medida dos meios investidos e do gigantismo dos propósitos.

Mas a rotação de exposições temporárias, por mais significativas que elas sejam, não faz um museu. Apesar dos enormes meios financeiros disponíveis, Madrid enfrenta as dificuldades resultantes do isolamento que os poderes públicos (mas não os artistas que emigravam «para a Europa») mantiveram durante décadas perante a evolução da arte moderna e contemporânea: inventariaram-se as colecções, reconheceu-se a «indubitável pobreza do ponto de partida» e fazem-se projectos a prazo. Tomás Llorens, que é desde 1988 o director do Museu-Centro (o CARS, abrevia-damente), avisa que há que «ter a coragem suficiente para abrir um museu e a lucidez necessária para compreender que são precisas duas ou três gerações para que um museu comece a ganhar corpo».

E por isso que quando o CARS, a 23 de Janeiro, fizer a apresentação inaugural da sua colecção permanente, a mostrará «como uma primeira aproximação, uma hipótese, como se se tratasse de uma exposição temporária, embora com a duração de dois anos.

Claro que o património disponível inclui obras como as de Picasso, Gris, González, Miró, Dalí e Tapies, para citar apenas nomes cimeiros da modernidade internacional, mas também é certo que lhe falta quase tudo o resto e que se torna cada vez mais difícil disputar nos leilões os Kandinsky, Pollock, De Kooning ou Jasper Johns imprescindíveis a uma panorâmica que se deseje completa da arte do século XX. A alternativa entre um museu restrito aos artistas nacionais e a abertura à história internacional implica opções museológicas radicais, tal como sucede com a definição de um horizonte que percorra todo o século ou marque um qualquer limiar cronológico mais recente a partir do qual se estruture a colecção.


Um relato singular

A escolha da actual orientação do CARS não se fez sem hesitações e polémicas, que afloram ainda por entre as reacções locais à re-inauguração. Eram duas as teses em confronto: a do «centro cultural» e a do «MoMA de Madrid».

Para alguns (por exemplo, para Carmen Giménez, que foi directora-geral de  Exposições ao tempo do lançamento do primeiro CARS e apontou a sua acção principal para a criação de condições que sustentassem o lançamento internacional dos artistas espanhóis dos anos 80, é já impossível recuperar o tempo perdido. Deveria partir-se, por isso, do estabelecimento de uma abertura prioritária à produção artística actual e apostar na circulação — é a tese que encontra, natural-mente, apoios maiores entre os artistas mais novos e os sectores de mercado mais agressivos.

Para os outros (é a posição da actual direcção, apoiada pelo ministro Semprum, mais ligada à valorização das vanguardas históricas do que atenta às recentes evoluções artísticas, contando logicamente com o apoio de artistas destacados de gerações anteriores, como Tapies e Saura) impõe-se fazer o recuo ainda possível, começando desde já a colmatar as lacunas existentes na colecção e deixar em aberto o horizonte de um museu enciclopédico como o MoMA, o Guggenheim ou o Beaubourg.

Um dado curioso sobre as colecções do CARS diz respeito à herança recebida  do extinto Museu Espanhol de Arte Contemporânea (MEAC): das 2372 pinturas e 1350 esculturas aí reunidas não são mais que cinco dezenas as obras «aproveitáveis» para o novo discurso museológico em organização.

Simón Marchán Fiz (vice-presidente do Real Patronato do CARS e autor de importantes obras sobre estética e arte contemporânea) explicou no Porto, com notável rigor teórico, as ambições e os limites do projecto actual, apontado para a apresentação dos «clássicos modernos» e da actualidade — os primeiros já no museu e a segunda no circuito das mostras temporárias. Se, conforme afirmou, todo o museu é uma pura ficção, um relato que deve ter a sua singularidade, o CARS irá construir-se criando constelações em torno das «estrelas» espanholas, desde um primeiro período



 


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Rainha Sofia reabre a 31


05 10 1990

O CENTRO Rainha Sofia de Madrid vai reabrir as suas portas no dia 31, depois de uma nova reforma do edifício.

Duas torres envidraçadas para elevadores colocadas no exterior da fachada, uma outra torre para cargas e serviços, a instalação dum sistema de ar condicionado, alterações das zonas de circulação, a adaptação de espaços para salas de exposição, biblioteca e serviços administrativos são as principais beneficiações introduzidas no antigo hospital que é agora o Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia.

A inauguração far-se-á com uma exposição intitulada «Memória do futuro. Arte italiana dos começos do século até ao pós-guerra», um panorama de 1900 até aos anos 60 através de 300 peças, seguindo-se imediatamente a abertura de uma exposição antológica de Tapiès incluindo objectos, esculturas e obras sobre cartao (dia 7 de Novembro) e de outra dedicada a Giacometti,  com esculturas, pinturas e desenhos (14 de Nov.). Ainda no último trimestre, a 12 de Dez., inaugura-se a 1ª Bienal da Imagem em Movimento, que dará especial atenção à criação em vídeo.

A partir de Janeiro suceder-se-ão uma amostragem de obras primas do Museu Guggenheim (em circulação pela Europa enquanto decorrem obras de ampliação da sua sede), uma exposição de esculturas recentes do inglês Anish Kapoor (que foi presença saliente na última Bienal de Veneza) e uma antologia de Juan Brossa; para Fevereiro anunciam-se o alemão Markus Lupertz, pintura e escultura, e o espanhol Francesc Torres, instalações.

Desenhos de Pierre Klossovski e fotografias da Agência Magnum (Abril); pinturas de Frank Stella e Nicola de Stael (Maio); esculturas de Susana Solano e «Viena: os últimos dias da humanidade» (Junho) preenchem o calendário da temporada, a par de outras mostras antológicas de artistas espanhóis.

Entretanto, abrirá igualmente em Janeiro a exposição da colecção permanente do Museu, ocupando o segundo piso do edifício (entre 20 e 30 por cento da área do Centro, frente a 70 por cento para exposições temporárias). Ainda que o Rainha Sofia tenha herdado a colecção do antigo MEAC e aumentado os seus fundos com aquisições e legados de Picasso, Miró e Dali, o seu director, Tomás Llorens, não tem escondido «a pobreza do ponto de partida do museu».

As cerca de 3000 pinturas e 400 esculturas incluem em especial autores espanhois e europeus de 1920 a 1960, com destaque para o Picasso dos anos 30. Se as limitações económicas são determinantes para que se fale apenas numa «hipótese de museu», também permanece em aberto a definição de um conceito de colecção e a consideração das condicionantes impostas pelo próprio edi-fício.


Rainha Sofia, Surpresa no , 11 Jan.91

Rainha Sofia: projectos alterados, 19 Jan.91