sexta-feira, 29 de maio de 2026

2026, COLAGEM / ASSEMBLAGE, Atelier-Museu Júlio Pomar

1. 1964

A primeira inclusão de um objecto num quadro de JP aparece numa pintura de 1964: METRO (col. Manuel de Brito, exposto pela 1ª vez em 1966 na SNBA e depois incluído em várias antologias). Um corte acidental da tela justificou a colagem de um motor de brinquedo, o que se adequa bem ao tema da energia mecânica do Metro e à questão da velocidade do trânsito que é representado e em especial do movimento como aparição-formação-passagem de uma imagem fugaz. O formato de 50x150cm encontra-se noutras telas da época (Uccello em 1964 - e corridas de cavalos/Vincennes por três vezes, os primeiros Rugby já de 1967).


Os Metros resultam da instalação em Paris, desde 1963, de início em papel, e vão até 1967, surgindo logo desde 1964 as corridas de cavalos (outras velocidades).
Em 1967 iam acontecer as primeiras assemblages construídas com peças recolhidas na praia da Manta Rota (Trabalhos de Verão, só expostos em 1978 e 79, sob o título errado "Trabalhos de Férias"). Entretanto, no ano anterior, procedera à destruição de numerosas pinturas existentes no atelier, e vai acontecer em seguida uma viragem relevante na sua obra quando prescinde progressivamente da pincelada rápida e agitada (a "touche") para trabalhar superfícies de cor lisa e formas recortadas: as séries Rugby, Maio 68, Ingres e Retratos.

A exposição do Atelier-Museu não segue uma ordem cronológica, o que é acertado, e proporciona vários começos. O METRO de 1964 é um desses inícios. Outro começo, também no piso superior, está nas três obras de 1944, anteriores ao neo-realismo, e outro ainda encontra-se na apresentação das assemblages de 1967 e 1977, mas que é precedida pelas esculturas em ferros soldados de 1960, que estiveram associadas às ilustrações para D. Quixiote de Cervantes.



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Expulsão do Paraíso: 2000-2002






Adão e Eva na mão de Deus; a serpente e a maçã - são objectos vistos na companhia de um lobo e uma cadeira pintados.
Outra cadeira, outra maçã, esta pintada e certamente uma faca, em cima.
Um segundo lobo, quase informe, desenho sobre imprecisa mancha de cor.
Ao alto e ao centro um coração-objecto que fecha a composição como toque de humor, talvez, face à tensão grave das cadeiras e lobos.
O quadro tem a data 2000-2002. São 5 elementos numa dimensão total de 103x195cm: (81x65cm)x3 e (22x32,5cm)x2
Exposto pela 1ª vez na Galerie Patrice Trigano, Paris: "Trois travaux d'Hercule et quelques chansons réalistes"

Numa lista de obras entregues ou a entregar à galeria, o quadro aparece designado como "Deux loups, deux chaises", e é também este o título referido no prefácio do catálogo de Pierre Cabanne: "Em 'Dois lobos, duas cadeiras'..., estas cadeiras têm os seus fantasmas próprios, e os lobos são magmas de olhar aterrador: a um canto um casal de noivos, como se vêem no cimo dos bolos de casamento, celebra pelo humor a união dos contrários". O quadro não estaria ainda dado como terminado e a foto do catálogo mostra-o em andamento e estão mal montadas as suas partes.

No caso deste quadro os elementos da história são objectos fixados à tela: Adão e Eva (os noivos), a serpente e a maçã. Destacam-se de um fundo abstracto onde surgem figuras de um outro enredo, o qual se poderá adivinhar ou propor como complementar da Expulsão, indicando as suas consequências, a queda: o homem lobo do homem, e os lugar do poder ou da hierarquia que gere a mensagem divina. Há também uma faca, talvez sobre a mesa circular, que pode referir o pão ganho com o suor do rosto, ou ser arma.
A "acção" não segue uma ordem narrativa e o "fundo" não é cenário nem paisagem, é um espaço de pintura onde o fazer acontece, se improvisa, se altera, sem projecto nem ordem pré-concebida


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Duas outras "expulsões do paraíso" são dez anos anteriores à que expõe agora o Atelier-Museu Júlio Pomar. Não contaram com colagens ou objectos. Incluem-se num conjunto de 9 telas dedicadas a Adão e Eva, mostradas em 1994 na exposição "O Paraíso e outras histórias", Culturgest/CGD. Ou são 10 telas contando com "Frida Kahlo no papel de Eva", com serpente e maçã pintadas e um tigre...
Entre outras cenas bíblicas (Noé e Salomão) ou literárias (Diana e Acteon)
A livre reinterpretação dos mitos faz-se com o exercício do humor, mas é a prática e a matéria da pintura, a pincelada livre e as texturas cromáticas, que mais importam. O que acontece na tela é um jogo de acasos e improvisos, ou imprevistos, que vão surgindo ao fazer-se o quadro, aparições de figuras que se movem sem programa prévio e sem desígnios ilustrativo.
Os corpos de Adão (azul) e Eva (Dorado?) estão em queda livre, ainda com a serpente e a maçã por perto, e um anjo-pássaro em voo, ou helicóptero, ocupa o ângulo superior esquerdo a preencher o vazio de um céu vermelho abstracto.
No segundo, a mão de Deus aponta o castigo sobre um círculo de luz, e os corpos nus flutuam, entre céu azul e terra à esquerda. Eva tem um barrete frígio (a Revolução) e calça meias pretas que aparecem noutras mulheres tantas vezes pintadas de pernas para o ar (desde 1944, premonitóriamente, no quadro circular sem título visível no 1º Piso. Uma das pernas torna-se na mão que expulsa e na outra esvoaça um sapato branco. Serpente e maçã estão lá.
1992 e 1993, 97x130cm, colecções particulares.




3.

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