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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Brasil ÍNDICE (in progress) 1994-2006

"Pintores viajantes"

À descoberta do Brasil no século XIX 

Exp. «Artistas Viajantes e o Brasil no Século XIX» 

Galeria de Pintura do Rei D. Luís, Palácio da Ajuda, no regresso do ano do Brasil em França: «Os Pintores Viajantes Românticos no Brasil (1820-1870)»

Expresso, 20-05-2006


"Excepções à regra" 

SÉCULO XX: ARTE DO BRASIL

Da Mostra do Redescobrimento, São Paulo

Centro de Arte Moderna

Expresso, 06-01-2001


"Repensar as artes indígenas" 

José António Braga Fernandes Dias: Fazer entrar as artes indígenas brasileiras no mapa das artes universais

Mostra do Redescobrimento

Expresso, 26-02-2000


"Identificação de um país"

Exp. "OLHARES MODERNISTAS"

Museu do Chiado

Expresso 6 de Maio 2000


"Mosaico brasileiro" 

O BRASIL DOS VIAJANTES

LÚCIO COSTA

RUY OHTAKE

MÁRIO CRAVO NETO

COLECÇÃO PIRELLI-MASP

Centro Cultural de Belém

Expresso, 28-01-95


"Brasil, Brasis"

«Memória da Amazónia: Etnicidade e Territorialidade»

«Recife, Raízes e Resultados»

J. A. Fernandes Dias

Alfândega, Porto

Expresso, 27-08-94


"A razão tropical"

O Brasil reinventado por uma arquitecta italiana numa exposição e num livro que atravessam continentes

LINA BO BARDI 

Estufa Fria

Expresso 25 03 94


1994 ARQUITECTURA RURAL NA SERRA DA MANTIQUEIRA 
Expresso 15 01 94
Fotografia   
Marcelo Carvalho Ferraz
Exp. Sociedade Nacional de Belas Artes

sábado, 10 de janeiro de 2026

JÚLIO POMAR, 1989 - 2025, a Colecção Manuel de Brito e quatro exposições monográficas

 A Colecção Manuel de Brito foi apresentada pela primeira vez em 1994 no Museu do Chiado, na programação de Lisboa Capital Cultural. A exp. teve o subtítulo "Imagens da arte portuguesa do século XX" e foi comissariado pelo próprio e Raquel Henriques da Silva. Um última secção do catálogo, "Escolhas electivas" incluiu Júlio Pomar (12 pinturas) entre Dacosta, Menez, Eduardo Luiz, Paula Rego e Graça Morais. Foi depois apresentada e Macau, Galeria do Forum 1995; no MASP em São Paulo e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro,

Já em 1989 MB apresentara uma mostra antológica de JP na Galeria do Leal Senado em Macau com um texto crítico de Helmut Wohl no catálogo. (8 pinturas da colecção MB, 2 de Arlete Alves da Silva, e outras proveniências)
Nova exp em Macau aconteceu em 2000, no Centro de Arte Contemporânea de Macau com apoio da Fundação Oriente. Catálogo com texto de José Luís Porfírio, "Mudança e estrutura . JP em 26 exemplos 1948-1998" (com obras da colecção de Manuel de Brito: 26 obras). Foi apresentada na Galeria Nacional de Pequim, 2001

Julio Pomar no CAMB, Palácio Anjos, Algés, 2009. Texto de Celso Martins, "JP e o princípio da adequação" (30 pinturas)
A colecção foi depois parcialmente dividida com o filho mais velho de MB, que apresentou a sua colecção em 2024: "O nome igual nos dois? Um receituário para a Liberdade na coleção de Manuel Brito ", na Galerias da Casa Comum (Reitoria) da Universidade do Porto. Com 8 pinturas de Júlio Pomar.

2026, 10 jan. no Centro de Arte Manuel de Brito, Campo Grande



sábado, 23 de setembro de 2006

1994, 2006, Sommer Ribeiro

 Sommer Ribeiro, a Gulbenkian, o CAM

...a propósito da exposição "50 Anos de Arte Portuguesa" e dos 50 anos da Gulbenkian... porque faltam alguns dados para se fazer a história.

1 . Em 28/05/94 referi no Expresso  a saída por reforma do arq. José Sommer Ribeiro do Centro de Arte Moderna, que dirigira desde o início (1983):
"CAM: passagem de testemunho"

2 . e a 23/09/2006 publiquei uma brevíssima notícia necrológica

Sommer Ribeiro (1924-2006)

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Também se pode ver, no Diário de Notícias de 20 de Julho de 1981, em página inteira, n.n. ("Reportagem"):

"No 25º aniversário da Fundação
SEGUNDO MUSEU GULBENKIAN É DEDICADO À ARTE MODERNA"

publicado na véspera da inauguração da exposição "Antevisão do Centro de Arte Moderna", com base numa entrevista com Sommer Ribeiro, defenindo-se aí o respectivo programa e recordando-se as vicissitudes que conheceu o seu projecto.

1 .

Image2

2. Sommer Ribeiro (1924-2006)
23-09-2006

"Director e administrador da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, desde a sua inauguração em 1994, José Sommer Ribeiro faleceu no dia 16, em Lisboa, vítima de cancro. Foi também o primeiro director do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian (FG), entre 1983 e 94, e em ambos os casos esteve desde o início associado à definição dos respectivos projectos e à sua instalação. Anteriormente, dirigira o Serviço de Exposições e Museografia da FG, criado em 1969, mas a ligação a esta instituição iniciara-se logo no ano da sua criação, em 1956, ao participar na equipa que lançou os primeiros estudos relativos à construção da futura sede.
Nascido a 26 de Junho de 1924, em Lisboa, José Aleixo da França Sommer Ribeiro, que se formara em arquitectura em 1951, teve um papel decisivo na renovação e abertura do panorama artístico nacional ao longo de várias décadas, com independência face às diversas tendências e gerações. Na Fundação Gulbenkian, sobre a qual gostava de dizer que entrara como soldado raso e saíra como coronel, contou com uma relação pessoal de grande confiança da parte de Azeredo Perdigão, o que lhe foi permitindo lançar sucessivos projectos na área das artes plásticas.
Para além da organização de centenas de exposições, e em especial de numerosas retrospectivas, teve uma participação muito influente na aquisição pela Gulbenkian do acervo de Amadeo de Souza-Cardoso e de parte significativa da colecção de Jorge de Brito, bem como na criação da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva."

sábado, 9 de março de 1996

1996, Vermeer, Haia, "As cores do silêncio"

 Vermeer em Haia

"As cores do silêncio"


Expresso Revista de 09-03-96, pp. 78-84

    Nunca tantos quadros de Vermeer foram reunidos numa exposição, já quase esgotada e tão saturada de visitantes que não garante a visibilidade mais conveniente. Todos os enigmas do pintor e da obra persistem, mas alguns quadros foram restaurados




DESDE há perto de um ano, quando se iniciou a promoção da exposição Vermeer, vêem-se por toda a parte as reproduções dos seus quadros e os magazines e revistas de arte foram sucessivamente publicando a pequena obra completa do pintor. Em Haia, a entrada no Mauritshuis, o Gabinete Real de Pinturas que ocupa um pequeno palácio do século XVII, junto à sede do governo da Holanda, faz-se por um corredor decorado com «posters», numa grande tenda instalada sobre um pontão que flutua no Lago da Corte. Torna-se assim mais flagrante que a atracção que exerce esta exposição — para além do desejo de participar num acontecimento que o «Paris Match», por exemplo, classifica como «o maior momento da história da arte do fim do século XX» — reside na expectativa de uma diferença irredutível entre o encontro com a obra original e todas as reproduções multiplicadas até ao infinito.


Quando a circulação das imagens e conhecimentos ganha os novos canais da rede informática, como um fluxo ininterrupto à escala do globo, parece ser mais importante que nunca o efeito da aura do objecto autêntico e único, e mais poderoso o encontro com a insubstituível realidade material da pintura. Mesmo que esse encontro só seja possível através dos vidros de protecção das telas e de uma muralha de espectadores quase impenetrável, uma vez que a máquina promocional das super-exposições internacionais conduz à fatal deterioração das condições de visibilidade.

Depois de vista em Washington por 327 mil pessoas, apesar dos encerramentos dos serviços públicos e da dureza do inverno, a mostra de Vermeer em Haia encontrava-se já quase esgotada no momento da sua inauguração, no primeiro dia de Março. Com perto de 300 mil bilhetes previamente comprados, num total calculado de 350 mil visitantes durante três meses (400 pessoas por hora diante de minúsculas pinturas distribuidas por quatro salas, até 2 de Junho), os responsáveis do Mauritshuis estudam agora a possibilidade de prolongar os horários do fim de semana até à meia-noite para tentar responder à pressão desencadeada.


RARO E MISTERIOSO


VERMEER é o pintor de todos os consensos e os enigmas que envolvem a sua obra e a sua vida asseguram os restantes ingredientes da admiração e curiosidade universais. Não foi preciso nenhum centenário para garantir a projecção do acontecimento; basta tratar-se da maior reunião de sempre de obras do pintor, tornada possível por oito anos de complexas negociações com dez museus e duas coleccões privadas, incluindo a casa real britânica.

Ao longo da sua curta vida (morreu aos 43 anos) terá pintado apenas 45 quadros. Dos 35 que hoje se conhecem foi possível juntar em Haia um total de 22 (ou 23, contando com uma obra de atribuição duvidosa). O único precedente aproximável data de há exactamente três séculos, por ocasião do leilão de 21 quadros que pertenceram ao impressor Jacob Dissius,  de Amsterdão, e mesmo esse «record» foi agora ultrapassado. No entanto, ao contrário do que se tem escrito, esta não é exactamente a primeira retrospectiva de Vermeer, a qual teve lugar em Roterdão, em 1935. Mas seis dos 15 quadros então expostos eram-lhe incorrectamente atribuídos, o que dá bem a medida da atribulada constituição do «corpus» da sua obra.


Inversamente proporcional à escassez da produção é, desde há pouco mais de um século, a admiração imensa que envolve a redescoberta internacional de Vermeer, assente em paixões absolutas (para Proust, a Vista de Delft era a melhor de todas as obras primas), vários mitos (o do génio incompreendido no seu tempo, por exemplo), infindáveis especulações sobre o significado dos quadros, polémicas entre investigadores a respeito da legitimidade das atribuições e ainda múltiplos episódios mediáticos, como os do falsário Han van Meegeren, nos anos 30, alguns roubos famosos (o último, em 1990, foi O Concerto, de Boston, que continua desaparecido) e as apropriações exibicionistas de Dali nos anos 50.   

Vermeer é ainda a «Esfinge de Delft» e cada um dos seus melhores quadros parece transportar um enigma idêntico ao do sorriso da Gioconda.

As mesmas interrogações são invariavelmente repetidas — o que torna a obra de Vermeer tão fascinante? qual é o segredo da sua atracção? — e as respostas, quando existem, andam sempre à volta da palavras mistério e milagre.


Como escrevia em 1932 o historiador John Huizinga, «todas as suas figuras parecem ter sido transplantadas da existência quotidiana para um cenário claro e harmonioso onde as palavras não têm som e os pensamentos não têm forma. As suas acções estão envoltas em mistério, como as das figuras que vemos em sonho.»

Ou, noutro passo, «estas mulheres com vestes amarelas, azuis ou verdes, que se adornam com pérolas, que recebem uma carta ou que tocam um instrumento musical, parecem pertencer a um semimundo desconhecido (...). Vermeer criou um mundo que é por metade imaginário, um ideal modesto de alegria de viver e de luxo, e transfigurou este mundo com a claridade e a harmonia inacreditáveis das suas cores, bem como com a simplicidade da sua alma ingénua. Em tudo o que pinta Vermeer flutua ao mesmo tempo uma atmosfera de recordações de infância, uma calma de sonho, uma imobilidade completa e uma claridade elegíaca, que é demasiado delicada para ser chamada melancólica. Realismo? Vermeer leva-nos para muito longe da tosca e nua realidade quotidiana».

Inúmeros outros comentários, repetidos até se transformarem em lugares comuns, sublinharam a estranheza absoluta das telas de Vermeer, ainda que estas se inscrevam por inteiro (e se destingam como excepções geniais) numa extensa tradição da pintura holandesa, que a interdição protestante das temáticas religiosas orientou para o mercado privado e para as representações da vida burguesa e as cenas domésticas: a «pintura de género» onde o gosto da descrição realista se conjuga com a anedota, a alegoria ou o pretexto moralista.

Vezes sem conta, às mesmas figuras dos quadros de Vermeer se reconheceu tanto a mais próxima intimidade familiar como uma distanciada impressão de eternidade que transcende o realismo do momento e do lugar, a serena tranquilidade dos gestos e uma surda tensão dramática à beira do paroxismo, a ausência de história e a presença de um desígnio moralizador, a exactidão fotográfica das cenas do quotidiano e uma abstracta depuração das composições aos elementos essenciais. 

E se as obras resistem a todas as tentativas de «explicação», a vida de Vermeer não é menos insondável, como reafirma agora no catálogo Artur K. Wheelock, conservador de pintura barroca setentrional na National Gallery of Art de Washington e principal comissário da exposição:

«Ignoramos tudo a respeito dos seus mestres, da sua formação, da duração da sua aprendizagem, e também quanto à cidade, ou cidades, onde adquiriu o seu ofício. Nenhuma fonte escrita nos revela se era versado em teoria da arte ou se se interessava pela filosofia. Alguma vez deixou os Países Baixos para se dirigir a Itália, a França ou à Flandres e familiarizar-se com outras tradições artísticas? Talvez, mas não dispomos de nenhum indício sobre tudo isso.»

Também nenhum desenho, nenhuma obra gráfica, nenhum estudo ou obra inacabada chegaram até aos nossos dias. Nenhuma carta pessoal ou alheia nos ilucida sobre as relações com outros artistas ou com os coleccionadores das suas obras, nem qualquer documento conserva o mínimo pensamento do pintor a respeito da sua pintura. Não consta que Vermeer tenha aceite discípulos e nenhum biógrafo ou comentador contemporâneo se ocupou da sua carreira.

No entanto, Vermeer não foi um artista desconhecido no seu tempo e são até numerosos os registos de vários episódios biográficos. Foi tratado em vida como «o célebre pintor Vermeer» e conhecem-se os assentos do casamento, dos enterros de quatro dos seus quinze filhos, dos empréstimos que foi contraíndo e de algumas heranças, o inventários dos bens que deixou e os testamentos dos familiares. O suficiente para que o homem mantenha o pintor envolto em mistério.



VIDA SEM HISTÓRIA


COM 20 anos, a 29 de Dezembro 1653 (Johannes Vermeer fora baptizado em 1632), foi aceite como mestre pintor na Guilda de São Lucas de Delft, que ao tempo controlava a actividade dos pintores, escultores e negociantes de arte, e também dos artesãos do vidro e da olaria, impressores e bordadores — noutros centros mais evoluidos, em Itália e França, os artistas-artesãos já se tinham libertado dos grémios medievais e reuniam-se em academias sob protecção régia. Sabe-se que Vermeer não dispunha de meios para pagar a jóia requerida, que só foi saldada por inteiro dois anos e meio depois, mas ignora-se onde e com quem cumpriu os seis anos de aprendizagem obrigatória, eventualmente abreviados pelo facto do pai ter sido negociante de quadros inscrito na mesma corporação, actividade que Vermeer, aliás, acumulou com a pintura.

Delft era então uma pequena cidade que gozava da notoriedade histórica de ter sido a primeira capital das Sete Províncias protestantes revoltadas contra o domínio espanhol, mas perdera importância a favor de Haia e estava prestes a entrar em decadência. Nos meados do século, embora apenas por uma década, foi um dos centros do florescimento da pintura holandesa e aí trabalharam Carel Fabritius (um famoso discípulo de Rembrandt, morto em 1654) e também Gerard Ter Borch, Pieter de Hooch e Jan Steen, três dos mais notáveis pintores de cenas do quotidiano.

A influência destes artistas terá sido determinante para que Vermeer passasse de um primeiro período de pinturas de temas religiosos e mitológicos, de inspiração italiana, do qual se expõem as três obras conhecidas, para os mais caracteríticos quadros com personagens situados num interior doméstico. Por volta de 1660, porém, aqueles pintores procuraram outras cidades de mais favorável mercado — um exposição paralela que se apresenta em Delft é uma excepcional oportunidade para situar Vermeer no seu meio e encontrar alguns outros grandes mestres menores.

Por duas vezes Vermeer foi eleito síndico da sua guilda, em 62-63 e 70-71, e sabe-se também que a fama que grangeara fez com que viajassem até Delft um diplomata francês, em 1663, que se surpreendeu com o custo elevado dos seus quadros, e, em 1669, um jovem e rico amador, o qual deixou anotado no seu diário que «a parte mais extraordinária e mais curiosa da sua arte consiste na perspectiva». Em 1667, Vermeer fora elogiado num poema de Arnold Bon publicado por Dirck van Bleyswijck na sua Descrição da Cidade de Delft, como o digno sucessor do já referido Carel Fabritius. Um outro documento, de 1672, cita uma deslocação a Haia para julgar a qualidade de 12 pinturas tidas por italianas: tratava-se, disse, de «objectos sem nenhum valor, quadros de execrável qualidade».

A presença de obras de Vermeer em inventários contemporâneos de colecções e de vendas encontrados em Haia, Amsterdão e Antuérpia são outros dados que confirmam a notoriedade do pintor, desmentindo o mito romântico do génio solitário e incompreendido. Mas o século XVIII iria ser fatal para a memória póstuma do pintor de Delft: o principal livro de referência sobre o «Século de Ouro», a Vida dos Pintores Holandeses de Arnold Houbraken, de 1718, apenas o nomeia sem fazer qualquer comentário; em seguida, os seus quadros, embora sempre presentes com destaque nos catálogos dos leilões, vão sendo cada vez mais confundidos com os de outros artistas.

A redescoberta de Vermeer data de meados do século XIX e deve-se ao francês Théophile Thoré, um republicano radical exilado depois da Revolução de 1848, partidário da «arte pelo homem» contra «a arte pela arte» e autor de uma primeira monografia (1866) onde se defendia o pintor como expoente máximo da «pintura democrática» holandesa, aplicada na descrição dos ambientes e da vida dos cidadãos comuns. Thoré identificava nada menos de 73 obras de Vermeer no seu inventário, abrindo assim um vasto campo para as investigações que se iriam suceder.

Em 1870, A Rendeira foi adquirida pelo Louvre e fazia crescer rapidamente a celebridade internacional de Vermeer, promovido do total desconhecimento para o primeiro plano ocupado por Rembrandt e Franz Hals. Não por acaso, a sua fama era contemporânea da difusão da fotografia (os Goncourt falariam de «daguerreótipo animado pelo espírito» a propósito de A Ruela) e também da afirmação do impressionismo, ao qual o podiam associar o interesse pelos efeitos plásticos da luz e os temas banais do quotidiano. Vermeer revelava-se então, como hoje, surpreendentemente moderno.

Entretanto, no mesmo ano de 1653 em que se estabelecera como pintor, Vermeer casou-se com Catharina Bolnes, oriunda de uma família mais abastada e católica, o que o levou certamente a desligar-se da formação calvinista da sua família. Sabe-se que passou a viver pouco depois em casa da sogra e que por diversas vezes teve de recorrer a empréstimos, acabando por morrer na penúria, em 1675  — o mesmo acontecera com Rembrandt e Hals.

Dois anos mais tarde, cercada pelos credores, a viúva faria do relato da morte de Vermeer o mais extenso dos seus documentos biográficos: «Durante a larga e ruinosa guerra com a França, não somente não pôde vender a sua arte como também, para seu grande prejuízo, lhe ficaram nos braços os quadros de outros mestres com que fazia comércio. Em consequência, e por causa da grande carga dos seus filhos, não tendo nenhum meio propriamente seu, caíra em tal frenesim e decadência que em um dia ou dia e meio passou de um estado de boa saúde para a morte».

São outros dados que apenas adensam o segredo à volta do pintor. Apesar da pobreza e da sua reconhecida mestria, Vermeer nunca terá pintado mais do que dois ou três quadros por ano, usava alguns dos pigmentos mais caros do seu tempo, o que os outros pintores só faziam em obras de encomenda, e nunca terá procurado trocar o meio fechado de Delft por outras cidades mais prósperas.


QUADROS RESTAURADOS


Que traz de novo esta retrospectiva? Uma revisão da cronologia da obra de Vermeer, que antecipa as datas de alguns quadros (A Ruela, A Leiteira, Rapariga com Copo de Vinho) e, no final, comprova um congelamento maneirista do estilo nas pinturas dos anos 70, a partir da Alegoria da Fé. A defesa da autoria de uma tela só atribuída em 1986, uma Santa Praxeda que é cópia de uma pintura italiana (e uma nova charada fica assim por resolver, uma vez que não há sinais de qualquer viagem de Vermeer e o original, entretanto, foi localizado em Ferrara) — datada de 1655 ficou a ser a sua obra mais antiga, relacionável com Cristo em Casa de Marta e Maria e Diana e as Companheiras, as duas outras obras conhecidas do período de formação. E a autenticidade da Rapariga com Chapéu Vermelho, escolhida para o cartaz oficial, foi reafirmada, em oposição ao parecer anterior de A. Blankert, embora se conceda a atribuição a um suposto «círculo de Vermeer» de um pequeno painel simétrico e dominado por outro chapéu exótico, a Rapariga com Flauta.

Entretanto, reavivou-se a polémica entre os especialistas americanos e holandeses a respeito dos processos usados por Vermeer para a construção da perspectiva, os primeiros insistindo no emprego da «camera oscura», os segundos defendendo a criação da ilusão espacial pela utilização de um sistema de triangulações entre um ponto de fuga marcado na superfície do quadro e dois pontos de distância situados no exterior deste, a igual distância e sobre uma mesma linha do horizonte. 15 pontos de fuga já foram fisicamente detectados nas telas de Vermeer, em orifícios resultantes da aplicação de um prego, do qual penderia um fio usado para definir a composição.

A querela parece algo bizantina, já que ambos os procedimentos eram correntes numa época em que as regras da perspectiva se tinham tornado há muito matéria regulada por tratados impressos e exercitada pelos pintores. Mais do que a perfeição ilusionista e o virtuosismo artificioso, em que outros pintores se consumiam, distingue-se em Vermeer o inefável equilíbrio de uma composição tão rigorosa como despida de todos os elementos não essenciais à eficácia plástica e emociona do quadro (por vezes, é já Mondrian que se adivinha). É no uso de efeitos de desfocagem dos planos mais aproximados  — a luz difusa das cabeças de leão que ornamentam as cadeiras para serem motivos da pintura, a fluidez gestual dos fios que saiem do saco de costura da Rendeira —, bem como na intensidade da cor e na condensação do espaço em torno da presença escultural das figuras, com a diferenciação quase fotografica da profundidade de campo, que o uso da câmara escura parece ter sido indispensável.

Contribuição maior desta retropectiva é, de facto, o restauro de sete das obras expostas, libertadas dos vernizes envelhecidos (ou deliberadamente enegrecidos), repintes póstumos e escamas deslocadas, tornando as cores mais claras e as luzes mais brilhantes, restabelecendo volumes e profundidades, deixando ver a imprecisão voluntária de alguns contornos, para além de acrescentarem dados significativos sobre os processos picturais de Vermeer. O uso da radiografia e da reflectografia revelou vestígios de importantes transformações das pinturas em curso de execução e, em especial, o apagamento de personagens, objectos e quadros dentro do quadro, confirmando a preocupação pela mais eficaz economia estrutural dos cenários. Essa depuração, certamente em resultado de uma muito lenta maturação de cada tela, sublinha que não é a representação realista dos ambientes e personagens que interessa ao pintor, mas o equilíbrio estrutural da construção, o domínio da luz e do espaço, e a recusa de todos os elementos anedóticos acessórios que abundam nas pinturas dos seus contemporâneos.

Por outro lado, tornou-se mais evidente que, se a produção é lenta, o pintor servia-se muitas vezes de escassos meios picturais e de processos que exigem rapidez de execução, como a frequente intervenção sobre a tinta ainda fluida. Os restauros confirmam a não utilização do desenho prévio, trocado pelo esboço com a cor, e tornam mais perceptível a variabilidade das texturas trabalhadas por empastamento ou por finas camadas transparentes, recriando os objectos com a matéria da pintura. São mais nítidas as passagens descontínuas do pincel, à distância do gosto comum pelos meticulosos acabamentos, as delicadas transparências que tiram partido da fusão da cor superficial com a «cor morta» subjacente, e também a técnica rara das pinceladas finais quase pontilhistas..

Restaurada, a Vista de Delft ganha uma outra claridade atmosférica, acentuando-se a sua sólida profundidade espacial pela variação da luminosidade que se estabelece entre as faixas banhadas pelo sol e a zona intermédia de luz coada pelas núvens escuras, em contrastes que fazem multiplicar as tonalidades das paredes e telhados da cidade, enquanto as sombras da muralha sobre o canal revelam novos tons azúis. Examinadas as superfícies da pintura, detectou-se o uso de areia misturada com os pigmentos, aplicada nas camadas finais para acentuar a rugosidade empastada das velhas paredes, enquanto brevíssimas pinceladas multiplicam reflexos e pontos de cor. São efeitos de uma surpreendente e intemporal modernidade que Elie Faure descrevera de modo inultrapassável, já em 1921, fazendo ancorar muito do mistério da obra de Vermeer na densidade única da sua matéria pictural:

«Nunca se penetrou tão fundo na intimidade da matéria. Cristalizando-a na sua pintura, deixando-lhe o seu grão, a sua espessura, a sua surda vida interior, Vermeer multiplicou-lhe a qualidade por todo o brilho límpido e a transparência quente que ela toma através do mais claro olhar de pintor que provavelmente algum dia existiu. O acordo é tão profundo entre ela e as harmonias que a acompanham, que estas parecem vir de dentro, parecem nascer espontaneamente da massa dos objectos, como um fruto que ganha cor à medida que amadurece lhe o sumo. A cor é moldada no tecido das coisas (...)»

Van Gogh rendera-se à estranheza de uma paleta em que dominava a combinação do amarelo limão  com o azul pálido e o cinzento pérola. Para os que preferem a ficção à pintura, as cenas galantes que se mudam, mais tarde, em convívios musicais, os personagem suspensos de um gesto, ou de uma carta, que se lê ou escreve, os retratos idealizados, oferecem outros tantos pretextos de infinita divagação literária. Os códigos da iconologia e das moralidades fornecem as chaves interpretativas sobre os perigos da luxúria e os méritos da temperança — uma pérola pode sempre ser um emblema da vaidade ou da pureza. Mas a eloquência das cores de Vermeer convida ao silêncio.

sábado, 29 de outubro de 1994

1994, Poussin, quarto centenário, Grand Palais, Paris, «Inesgotável Poussin»

 Poussin, quarto centenário


Expresso Revista 29 Outubro 94


«Inesgotável Poussin»


As grandes exposições dos artistas do passado, geralmente associadas à comemoração de alguma efeméride, parecem cerimónias rituais de uma cultura do espectáculo voltada para a ultrapassagem de records, em números de obras e de visitantes. O caso de Poussin, agora apresentado em Paris, no Grand Palais, a pretexto do quarto centenário do nascimento (1594-1665), mostra que essa dinâmica institucional pode esconder uma outra dimensão mais subterrânea de investigação e de interpretação das obras, servindo também como oportunidade excepcional de reconsideração de um artista que foi quase sempre referência essencial para outros pintores, mas também, sob uma máscara de severidade e sapiência, mais respeitado do que visto. Um pintor cuja vida e carreira continua a manter grandes zonas enigmáticas que permitem a existência de quase tantos Poussin quantos os seus biógrafos ou exegetas.

É, aliás, do início de um verdadeiro «ano Poussin» que se trata, a prosseguir nos próximos meses por uma actividade editorial intensa, por vários colóquios internacionais e por uma sucessão interminável de exposições tão eruditas como o prestígio do «pintor-filósofo», embora empenhadas, em alguns casos, em alterar a imagem de um artista erradamente identificado com o significado pejorativo da palavra académico.


Organizada pelo Louvre e dirigida por Pierre Rosenberg, que já depois da inauguração ascendeu ao lugar de director do Museu parisiense, a exposição do Grand Palais — com 110 quadros de um pintor que não terá pintado mais de 300 ao longo da vida, além de 145 desenhos — é apenas o pólo mais visível de todo este movimento.

De facto, ela é completada pela apresentação simultânea de dois outros importantes núcleos de obras nos Museus de Bayonne e de Chantilly, que por disposições testamentárias dos coleccionadores que as doaram não podem ser emprestadas: é no segundo que se exibe o extraordinário Massacre dos Inocentes, tantas vezes citado por outros pintores e agora acabado de restaurar. Entretanto, no Louvre, as salas reservadas a Poussin na ala Richelieu acolhem uma «exposição-dossier» com sete dos seus quadros na companhia de mais 25 de autores franceses que lhe foram próximos e que por vezes estiveram antes atribuídos ao próprio Poussin.


A exposição central (aberta até 2 de Janeiro) passará depois para a Royal Academy de Londres (de 19 Janeiro a 9 de Abril), sem os desenhos e com alguma rotação das pinturas, acompanhada por um diferente catálogo a cargo de Richard Verdi, sendo também completada por exposições paralelas de obras impedidas de viajar, enquanto outros projectos independentes se anunciam para os Estados Unidos e a Itália.

A multiplicação das publicações, iniciada por quatro catálogos parisienses e o lançamento em estreia, pelo Laboratório de Pesquisa dos Museus de França (LRMF), de um CD ROM onde se documentam os exames científicos realizados sobre 38 pinturas e de uma revista intitulada «Techne», é continuada por novos catálogos «raisonnés» da pintura (Jacques Thuillier) e do desenho (P. Rosenberg e L.-A. Prat) e pela edição ou reedição de ensaios de Alain Merot, Marc Fumaroli, Oskar Batschmann, Yves Bonnefoy, Louis Marin, da correspondência integral, etc.                                             

Por outro lado ainda, um colóquio reuniu na passada semana os maiores especialistas internacionais do pintor, e dele se esperavam algumas novidades. Como por exemplo, através da descoberta recente das suas contas bancárias, a constatação de que o estóico Poussin não desprezava as aplicações nos jogos da Bolsa e morreu rico.

A multiplicação exponencial dos estudos sobre o pintor, depois do colóquio que se realizou em 1958, justificava um vivo enfrentamento entre as teses antagónicas, tanto mais que a exposição parisiense reivindica a prioridade das confrontações visuais contra o primado tradicional da especulação mais abstracta. Rosenberg propõe a necessidade de um «regresso a Poussin», e J. Thuillier, o seu principal biógrafo, fala de «limpar a estátua» (ou «décaper le peintre», segundo o título do «Le Monde»).


Tal preocupação, que é também a de reforçar a acessibilidade de Poussin para o espectador comum, passou, na exposição do Grand Palais, pela decisão de acompanhar cada quadro com uma tabela em que se explica o respectivo tema, atendendo à distância a que estão hoje os textos mitológicos ou bíblicos — levando à letra o preceito do pintor de «ler a história e o quadro, a fim de conhecer se cada coisa é apropriada ao assunto», sem com isso, no entanto, voltar a aceitar o primado do literário sobre a percepção estética.

Da aglomeração dos espectadores-leitores resultam outros problemas mais físicos de acesso às obras, que são agravados ainda por uma opção de montagem que usa a iluminação natural em algumas áreas do percurso, valorizando as intensidades cromáticas da pintura de Poussin, mas também criando zonas de reflexo que impõem uma dupla visita à exposição.


Uma ocasião como esta é também a oportunidade para multiplicar as operações de restauro das pinturas e, em especial, para proceder quer à revisão intensiva das atribuições, redefinindo o «corpus» de uma obra por vezes confundida com as suas próprias cópias, quer à proposta de uma nova cronologia da produção de Poussin, afinando a leitura da evolução criativa através da relação directa com as pinturas, e menos segundo as fontes escritas. O ano Poussin, aliás, segundo refere o comissário, tinha começado em Washington, com o confronto factual de duas versões do quadro La Sainte Famille à l'Escalier sucessivamente reconhecidas por originais; a unanimidade foi então imediata, a favor do quadro conservado em Clevelend. Rosenberg conseguiu ainda apresentar dois «inéditos» e o efeito daquele reexame de autorias não foi demolidor, como no caso de Rembrandt.




FALSAS PISTAS


Esquecido em Itália e respeitado em França como distante fundador da tradição nacional, Poussin começou a sair de um prolongado «purgatório» apenas em 1960, por ocasião da primeira exposição monográfica organizada pelo Louvre, que teve o significado de uma espécie de renaturalização do pintor. De facto, Poussin viveu praticamente toda a sua vida criativa em Roma, com o breve intervalo de uma chamada a Paris em 1640-42 para intervir, como «primeiro pintor do rei», Luís XIII, nas decorações da grande galeria do Louvre — um episódio infeliz que para sempre o afastaria das grandes decorações e do papel de pintor cortesão, optando por um isolamento voluntário e orgulhoso no centro da vida artística do tempo. Por outro lado, o pintor tem em Inglaterra uma parte muito substancial da sua obra, aí gozou de uma admiração menos variável com a oscilação dos gostos e aí conta ainda com muitos dos seus principais estudiosos.


Jogam-se, por isso, graves questões de prestígio nacional em torno da revalorização de Poussin como o maior de todos os pintores franceses, ao mesmo tempo que se procura construir uma nova abordagem da sua obra. Alain Mérot já tinha procurado contrariar os preconceitos que envolviam a respectiva recepção ao valorizar o que na sua pintura é, ao mesmo tempo, inspiração e disciplina, sensualidade e rigor. J. Thuillier considera-o agora «um dos pintores mais eróticos de toda a pintura francesa» e associa a sua muito rápida fama romana à importação da tradição do nú da Escola de Fontanebleau, em plena Contra-Reforma.


O catálogo editado por Pierre Rosenberg contempla, como é de regra, o estudo minucioso de todas as obras expostas, sintetizando as leituras iconográficas e argumentando sobre opções cronológicas e evoluções estilísticas. Entretanto, o prefácio e a ordem dos 14 ensaios que inclui não ocultam um ponto de vista global apostado em fazer desta retrospectiva a oportunidade prática de ver em Poussin não tanto o suposto filósofo como o pintor, contrariando a versão dominadora de «um artista encerrado desde há mais de 300 anos no papel de grande intelectual da tradição europeia», como escreve Neil MacGregor, director da National Gallery de Londres e co-comissário para a pintura na exposição do Grand Palais.


Em causa está Poussin como erudito e teórico, e P. Rosenberg é bem claro: «Poussin não é um homem de doutrina, ou pelo menos não é o homem de doutrina que quiseram fazer dele». Enquanto teórico, à leitura da sua correspondência, «parece mais provável que a teoria tenha sucedido à pintura», para justificar os quadros já terminados, e o exame atento comprova que essa teoria «não tem nada de original e é mais uma compilação de fontes diferentes por vezes imperfeitamente compreendidas» («Connaissance das Arts»).

O intuito polémico é mais evidente ainda no texto do director da National Gallery, crítica explícita de uma situação em que «as árvores universitárias vieram muitas vezes esconder a floresta artística», onde se defende «um outro olhar sobre Poussin» que não permita que as suas pinturas continuem a «passar para o segundo plano, para trás das teorias que supostamente deveriam encarnar».\


MacGregor serve-se do prestígio de um dos mais importantes investigadores, Denis Mahon, e concretamente de um pouco conhecido artigo de 1965 intitulado «Plea for Poussin as a Painter», repetindo-lhe o título no catálogo, para contestar as «duas falsas pistas» por que seguiu o entendimento do pintor: «a importância excessiva atribuida ao lado intelectual ou cerebral de Poussin» e «a demasiada insistência sobre os dados históricos e as ideias em detrimento das pinturas».

Já segundo Mahon, «Poussin não era evidentemente um filósofo que empregava a pintura como meio de expressão, mas um pintor de primeiríssima ordem cuja arte revela, sobretudo em relação à maior parte dos outros pintores, uma componente que se pode qualificar vagamente como 'filosófica'».


MacGregor opõe-se agora a uma «geração encorajada a confundir a história da arte com a história das ideias», que se «lançou com entusiasmo na exploração das filosofias abstrusas do século XVI»  e que «acha normal interessar-se mais pelo pensamento do pintor que pelo suporte artístico utilizado para o veicular», defendendo no catálogo «a utilidade de examinar os quadros» e a necessidade de «elaborar uma biografia visual do pintor a partir das suas obras». Porque «a composição, a factura, a cor, o vocabulário plástico são muito mais convincentes, em ultima análise, do que as preocupações filosóficas e as fontes históricas».

Contrariando a tese dominante do «pintor-filósofo» (a que Rosenberg prefere a de «pintor-poeta», na linha de Gide), o autor inglês sublinha que o que sobressai da consideração da obra «não é um grande intelectual, mas um pintor sem paralelo», cuja obra «é empalidecida ainda em muitos casos pela etiqueta de filósofo ou pelas alegações dos seus admiradores universitários, quando ele foi em especial e antes de tudo um colorista tão subtil  e sensual como qualquer veneziano, dotado de um instinto muito seguro da iluminação».


ATEU OU RELIGIOSO


Entretanto, é o próprio confronto entre as teses dos principais estudiosos de Poussin, e em especial das suas contra-argumentações, que conduz à revelação da fragilidade dos suportes documentais e literários que alimentam a investigação erudita desencarnada das obras, ao mesmo tempo que é escasso o estudo de aspectos decisivos nos domínios da iconografia, da biografia, dos processos técnicos de trabalho ou, até, da identidade dos seus coleccionadores.

É particularmente curiosa a oposição entre Jacques Thuillier, que vem agora, no catálogo, defender o ateismo do pintor, prolongando a tese do estoicismo e do racionalismo pré-iluminista que Anthony Blunt propusera, e, por outro lado, a intervenção de um Marc Fumaroli que faz de Poussin um pintor mais religioso que filósofo.


J. Thuillier sustenta a defesa do ateismo do pintor de um modo que não é particularmente favorável à tese da vasta erudição, destacando a importância de uma prática da pintura que «escapa ao conceito e se anima com a inesgotável complexidade do vivido», como «lugar de uma experiência» que não pode «confundir-se com a 'ilustração'» das ideias.

Argumentando contra Blunt, Fumaroli considera o neo-estoicismo apenas o resultado da adopção de máximas de sabedoria prática que eram comuns aos letrados desde o séc. XVI, e chega a invocar contra o investigador inglês a sua condição de espião ao serviço dos soviéticos, acusando-o de fabricar uma identificação entre ele próprio e o seu tema de estudo:


«Blunt foi tentado a atribuir a Poussin a personalidade dupla de um espião, por um lado perfeitamente adaptado ao meio ambiente, mas no fundo traindo-o por uma causa só conhecida por ele próprio e alguns cúmplices», como se fosse «um espião das Luzes cuidadosamente mascarado pela sua prudência estoica na Roma dos papas.» Recorde-se que Blunt, especialista incontestado do pintor, conselheiro artístico e ainda parente da rainha de Inglaterra, falecido em 1983, fez parte com Guy Burgess do célebre grupo dos cinco espiões de Cambridge, passando à condição de agente duplo em 1964, até ser denunciado por Margaret Tatcher em 1979, em pleno Parlamento.


Num artigo onde sintetiza a sua tese, Fumaroli vem valorizar, primeiro, um Poussin seguidor do neo-platonismo, interessado na continuidade entre os mitos e a sabedoria do paganismo e os mistérios revelados por Cristo e a sua Igreja; mais do que um precursor do racionalismo das Luzes, o pintor seria afinal um dos últimos herdeiros do platonismo cristão do Renascimento, identificado com a erudição dos antiquários romanos e o enciclopedismo dos jesuitas, de quem sempre esteve próximo. Na fase final, acentuar-se-ia a via da contemplação e do mistério sobre a do sincretismo arqueológico, «procurando a energia simbólica do lado da concentração e da limpidez», enquanto o seu «génio religioso», sempre identificado com uma igreja militante que tinha Bernini como expoente paralelo, ao estilo italiano, ficaria patente na segunda série dos «Sacramentos» ou na Anunciação de 1657, que «mesmo o 'libertino erudito' mais estoico, no sentido de Blunt, não poderia mimar».


LONGA INFLUÊNCIA


Nascido numa família de notários da Normandia, Poussin fugiu de casa aos 18 anos para seguir uma vocação contrariada. A sua formação é praticamente ignorada, para além da passagem de apenas alguns meses em ateliers franceses, chegando a Roma aos 30 anos sem que tenham sobrevivido da sua produção anterior mais do que alguns desenhos maneiristas. Desconhecido em 1624, mas recomendado em Roma por uma «furia di diavolo» muito diversa da imagem que depois lhe foi associada, Poussin ascenderia a um reconhecimento meteórico logo em 1627, com  A Morte de Germânicus, e seria já célebre três anos depois.

Glorificado ainda em vida como modelo de um ideal clássico que lhe sobreviveu por pouco tempo, mas que a segunda metade do século XVIII iria retomar, figura tutelar da Academia criada em Paris em 1648 (sem ter sido um dos seus proponentes nem acedido a cumprir funções oficiais), Poussin é desde logo o paradigma idealizado do pintor intelectual em oposição ao pintor artesão, num momento em que os artistas reivindicavam a libertação das condições regimentais das corporações e, num mesmo movimento, a entrada da pintura no plano das artes liberais, ainda muito antes da definição conceptual das Belas-Artes.

O perfil de «pintor filósofo», com a qualidade suplementar de não se ter submetido à dependência cortesã, que foi condição primeira dessa liberalização das cadeias corporativas, servia exemplarrmente a causa da transição Du Peintre à l'Artiste — título de uma notável obra de Nathalie Heinich (ed. Minuit, 1993). É a compreensão do preciso contexto histórico da defesa do primado do literário na pintura, e por isso da necessária nobreza dosseus assuntos, como momento prévio à emergência da percepção estética autonomizada (primeiro da imitação mecânica, e depois da literatura), que permite situar o processo de «intelectualização da relação com as imagens» (N.H.) patrocinado por Poussin e responsável pela sua assimilação da percepção da obra pictural a um acto de leitura. 

Por outro lado, aquele desconhecimento das etapas da formação de Poussin permitiria que, muito mais tarde, Balzac o tomasse por modelo romântico do artista boémio, o «génio» indisciplinado do Chef-d'Oeuvre Inconnu. O isolamento da carreira de pintor, a recusa da decoração mural para se confinar às telas de formato médio, a independência conquistada face aos mecenas e encomendadores, o facto de não ter criado um atelier nem trabalhar com assistentes, a recusa da vida oficial para se consagrar inteiramente à sua obra são aspectos que antecipam o artista inovador do século XIX.


O ensaio de Richard Verdi sobre a influência exercida por Poussin na evolução da pintura europeia, também publicado no catálogo, abre uma pista particularmente fecunda para entender a contraditória riqueza da sua obra, ora modelo da prioridade atribuida ao desenho (e ao «disegno») sobre a cor, ora exaltada pelas componentes imaginativas e irracionais, ora tomada por paradigma da tradição antiga do sublime, ora valorizada pela «veracidade» do seu entendimento da natureza. É toda a história da devoção demonstrada por Ingres e do interesse de Delacroix, passando Poussin de modelo do neo-classicismo para precursor do romantismo, e logo a seguir reivindicado pelos que procuraram uma representação realista da paisagem («Eis a natureza», diria Corot diante de O Outono), para ser mais adiante modelo de Degas, Pissarro e, em especial, Cézanne, depois dos cubistas, de Balthus e de Lupertz.


Neste sentido, exprime-se também no «regresso a Poussin» pretendido por Rosenberg e outros, se se recordar que o pintor foi referência essencial do «regresso à ordem» dos anos 20, em especial para Picasso, a ideia de que não se esgotou ainda a influência possível desse pintor que amava «as coisas bem ordenadas, fugindo à confusão».