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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

JULIO POMAR e a GALERIA 111 (4) : ANOS 2000

 2002. 19 fev : OS TRÊS EFES - fábulas, farsas e fintas

obras de 1996 a 2002, com um desdobrável e a edição do livro "Apontar com o dedo o centro da terra " com texto de António Lobo Antunes, ed. D. Quixote / Galeria 111 (lançamento a 21 fev.). 

CONVITE. 19 JAN A 2 MARÇO
Ulisses e as Sereias com Guitarra Portuguesa 1001, pastel, fundo litográfico sobre tela



desdobrável capa e folha 2. design H. Cayatte e JP

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

JULIO POMAR e a GALERIA 111 (3) Anos 1980 e 1990

 3. JP e a 111 - ANOS 80. Depois de 1985: 1989 e 1990 (as séries brasileiras)



1988 - MASCARADOS DE PIRENÓPOLIS, expostos no Arco Madrid (Gal. 111) e na Galeria 111, Lisboa. Catálogo com texto de Manuel Castro Caldas (separata com tradução). Com a apresentação do livro "Os Desenhos do Circo de Brasília" texto de Paulo Herkenhoff ("Pomar visto do Brasil"). .
Manuel de Brito não aceitava compradores estrangeiros, como continuará a fazer, no ano seguinte com Paula Rego, alegando ter clientes interessados. Era um erro, de todos os pontos de vista, q irá justificar o afastamento da feira.

1990, 14 dez. - LOS INDIOS, Arco Madrid (Gal. 111), fevereiro (7 quadros que não estiveram à venda, cedidos pela galeria de Paris, enquanto outros 8 se encontravam no Rio de Janeiro), e LES INDIENS, Galerie Georges Lavrov, Paris, setembro. (10 quadros). Catálogos com o mesmo texto de Michel Waldberg.
Apresentação do livro "Pomar", texto de Mário Dionísio, Publ. Europa-América - é a versão portuguesa de "Pomar" com texto de Michel Waldberg, Éditions de la Différence.

As séries brasileiras estiveram na antologia “Pomar/Brasil” (org. FG: Rio, São Paulo, CAM) mas nenhuma obra podia ficar no mercado brasileiro. Tudo estava capturado pelo mercado nacional.





















Os Desenhos do Circo de Brasília, 1987, estudos para painéis de azulejo, q se seguiram às decorações murais para o Alto dos Moinhos, Metro de Lisboa, participaram em "Pomar/Brasil" e tiveram circulação no Brasil - galerias Paulo Figueiredo, Brasília, e Anna Maria Niemayer, no Rio, acompanhadas pelo referido volume com texto de Paulo Herkenhoff editado pela 111.




Entretanto, Manuel de Brito organiza duas mostras antológicas em Macau: "Pomar" 1989, Gal. do Leal Senado - catálogo com texto de Helmut Wohl; e "Júlio Pomar", com obras da sua colecção, em 1999, Centro de Arte Contemporânea com a Fundação Oriente; cat com tx de José Luís Porfírio.. É levada em 2000 à Galeria Nacional de Pequim

Outras exp em galerias: 1986 - Desenhos, Clube 50, Lisboa, "Páginas de álbum, estudos de bichos", e Gal de Arte de Vilamoura, a convite de Cruzeiro Seixas. 1987, Gal. Gilde, Guimarães.
1996, "Cinco figuras de convite", azulejo, Ratton

4. ANOS 90
Pomar não expõe na 111 na década de 1990.

Em galerias de Paris nos anos 1990-2001:
FABLES ET PORTRAITS, Galerie Gérald Piltzer, 1994, com a publicação de um livro, texto Claude-Michel Cluny.
L'ANNÉE DU COCHON OU LES MÉFAITS DU TABAC, Gal. Piltzer, 1996 (a série dedicada a Ulisses e outrostemas); com um deficiente Jornal da exposição com texto de José Cardoso Pires)
LES JOIES DE VIVRE, Galerie Gérald Piltzer, 1997 (passagem a grandes formatos durante uma grave situação de saude, um cancro; regresso ao tema do Xingu; publicado um álbum com ensaios de Marcelin Pleynet e António Lobo Antunes.
LA CHASSE AU SNARK, L'ENTRÉE DE FRIDA KHALO AU PARADIS, CONTES MORAUX, Galerie Gérald Piltzer, 1999, e Salander O'Reilly Gallerie, Nova Iorque, 2000; publicação de um álbum com texto de Marcelin Pleynet, ed Piltzer.
QUELQUES DESSINS, Galerie Flora J, 2001; com livro homónimo. (A exp entrou em itinerância em Portugal: "Alguns desenhos", Gal. Valbom 2003)
Nesses anos de voragem do mercado, e altos valores, Manuel de Brito recusa-se a comprar em França, o que incrementa a acção de intermediários, galerias Antiks, Cordeiros, Quadrado Azul, Fernando Santos, Valbom etc, e de vários dealers.

Outras exposições em galerias:
1993 Tapeçarias recentes, Gal. Tapeçarias de Portalegre;
"Caracóis", azulejos, Ratton Cerâmicas, com álbum de poemas de Pedro Tamem


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

1984, a GALERIA 111 por MANUEL DE BRITO: 20 anos

 Manuel Brito nos 20 anos da Galeria 111

Um curioso texto encontrado em folhas soltas publicadas por ocasião de uma exposição comemorativa em 1984. Foi reeditado no volume "50 Anos 1964-2014", ed. 111 (este inclui um breve texto de JP sobre Manuel de Brito)
Como começou a galeria, a importância de Jorge de Brito - afirmada dez anos depois da sua queda como banqueiro (antes bancário) e coleccionador - ; o percurso profissional; os episódios maiores da transacção dos quadros do Grupo do Leão para Jorge de Brito, dos painéis madrilenos de Almada Negreiros descobertos por Ernesto de Sousa, dos cartões originais das tapeçarias de Vieira da Silva. É interessante a referência à colaboração parisiense com a Galerie Bellechasse, que expunha Júlio Pomar, e com as Editions de La Différence, de Joaquim Vital.





A compra do Grupo do Leão foi em 1969, os painéis do Almada vieram em 1972. A obra de VieIra da Silva foi o grande foco do Jorge de Brito, com a actuação internacional de Manuel de Brito e do arq. João Teixeira. Os dois chegavam a competir entre si no mesmo leilão: uma vez o MB foi dizer ao JB que um certo quadro lhe tinha escapado, mas ele já estava com o banqueiro, adquirido por João Teixeira. 
Jorge de Brito queria e conseguiu sustentar as cotações da Vieira, quando toda a abstracção lírica francesa, a segunda Escola de Paris, descia de importância (Bissière, Bazaine, etc). Depois foi a sua colecção que sustentou por muito tempo o Museu Arpad e Vieira, também graças à relação de confiança que tinha com José Sommer Ribeiro, e deste com o casal de pintores em Paris, já antes de transitar do Centro de Arte Moderna para o novo Museu. 

Este testemunho sobre Jorge de Brito é importante e raro. Percebe-se que MB, até há pouco tempo apenas livreiro, conseguiu circular depressa em meios internacionais, de que depois viria a distanciar-se e que passaria a ignorar. Nas décadas de 60/70, atrair, apoiar e representar os artistas portugueses que viviam no estrangeiro (Eduardo Luiz, Júlio Pomar, Jorge Martins, Costa Pinheiro, René Bertholo, Lourdes Castro, depois Paula Rego e Bartolomeu dos Santos) foi um objectivo firme de Manuel de Brito, apostado em trazer as suas obras para Portugal e para os coleccionadores de quem tinha a confiança, no contexto do boom do mercado iniciado em 1967, interrompido em 1974-75, depois relançado. Mais tarde passou a não acompanhar com interesse as exposições dos "seus" artistas no estrangeiro, recusando negociar com os respectivos galeristas, o que deixou o campo aberto para outras galerias e dealers passarem a intermediar as obras de modo por vezes especulativo. Entretanto, em participações da galeria 111 no Arco de Madrid, passou mesmo a recusar vender obras dos seus artistas a compradores estrangeiros, reservando-as para os seus clientes nacionais. O que viria a justificar a sua exclusão da feira.
Manuel Brito não comprava obras dos seus artistas no estrangeiro, não se associando às respectivas galerias, tal como não as comprava em leilões, considerando que tal seria visto como posição de defesa das respectivasa cotações (mas era essa defesa que seria legitimamente conveniente para sustentar o respectivo mercado.

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Sobre a 111, as fontes principais são o catálogo da exposição "Anos 60", de 1984, texto de Gonçalo Pena, e o livro de Adelaide Duarte, "Da Colecção ao Museu", 2016, capítulo "MB, a colecção de um Marchand e galerista", um estudo de caso.



domingo, 11 de janeiro de 2026

JULIO POMAR e a GALERIA 111: (2) 1982 e 1985

 2. JP e a 111, 1982 e 1985

1982, nov. - Exp de pintura e desenho <OS TIGRES> . Desdobrável com desenho de Menez e texto do artista traduzido por Maria Velho da Costa (in Parte Escrita III). Pinturas, 1979-82; 13 desenhos de tigres e 5 desenhos de touros para o livro "Tauromagia" de Alberto de Lacerda, ed. Contexto; azulejos, 3 painéis ed. Hypnos, Paris - Joaquim Vital.
A série Tigres foi partilhada pelas galerias Bellechasse e 111.
Depois da exp. de 1973 na 111 e até 1985, JP teve mostras individuais na Galerie de la Différence, Bruxelas, <L'ESPACE D'ÉROS> fev. 1978, onde apresenta as primeiras colagens da chamada "fase erótica", que se verão na Retrospectiva de 1978 em Lisboa, Porto e Bruxelas;
THEÂTRE DU CORPS na Galerie de Bellechasse, Paris, mai 1979;
Painting and drawing, na Galleri Glemminge, Glemmingebro, Suécia, 1980;
LES TIGRES - Peintures Récentes, de novo na Gal. Bellechasse, nov. 1981.
PORTRAITS, drawings (retratos a lápis dos anos 70) na mesma Galleri Glemminge, 1982.
ELLIPSES Peintures Récentes, Gal. Bellechasse, 1984.



Em dez 1979, na 111, lançamento do livro "O Burro em pé" de José Cardoso Pires, ed. Moraes, e exp. das colagens da colecção do escritor.
Em dez. 1981, lançamento do livro "Com Júlio Pomar" de Helena Vaz da Silva, ed. António Ramos.
1985 dez., na 111: RAPTOS DE EUROPA E 7 HISTÓRIAS PORTUGUESAS, sem catálogo com o lançamento do livro "Mensagem" de Fernando Pessoa, com um estudo de Mário Dionísio, "O avesso dos Mitos", e também de "O livro dos Quatro Corvos", tradução portuguesa das Editions de La Différence, "Le Livre des Quatre Corbeaux", com texto de Claude-Michel Cluny.

É o início das obras de temas mitológicos, pintura de história(s), já presentes em algumas Elipses de 1983-84; os temas literários, vindos em desenhos e azulejos da decoração mural do Metro de Lisboa, Alto dos Moinhos, 1982-84 (exp. no CAM) seguem da "Mensagem" para a série dedicada a Edgar Poe e os seus tradutores (The Raven, O Corvo). Os quadros realizados a pretexto de ilustrações para o livro da ed. La Différence, por sugestão e encomenda de Joaquim Vital, nunca serão expostos em conjunto e dispersam-se passando da propriedade do editor para a de Manuel de Brito. Foram em parte mostrados na Bienal de São Paulo de 1985, na antologia itinerante de 1986-87, Brasil e Lisboa, e no Palais de Tokyo, Paris, "4 peintres Portugais à Paris" (Dacosta, Pomar, Cargaleiro, Jorge Martins.
Nas fotos: desenho de Menez, "Presentes de D. Manuel ao Papa", 1985









sábado, 10 de janeiro de 2026

JÚLIO POMAR, 1989 - 2025, a Colecção Manuel de Brito e quatro exposições monográficas

 A Colecção Manuel de Brito foi apresentada pela primeira vez em 1994 no Museu do Chiado, na programação de Lisboa Capital Cultural. A exp. teve o subtítulo "Imagens da arte portuguesa do século XX" e foi comissariado pelo próprio e Raquel Henriques da Silva. Um última secção do catálogo, "Escolhas electivas" incluiu Júlio Pomar (12 pinturas) entre Dacosta, Menez, Eduardo Luiz, Paula Rego e Graça Morais. Foi depois apresentada em Macau, na Galeria do Forum 1995; no MASP em São Paulo e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro,

Já em 1989 MB apresentara uma mostra antológica de Júlio Pomar na Galeria do Leal Senado em Macau com um texto crítico de Helmut Wohl no catálogo. (eram 8 pinturas da colecção MB, 2 indicadas como de Arlete Alves da Silva, e outras proveniências)
Nova exp em Macau aconteceu em 2000, no Centro de Arte Contemporânea de Macau com apoio da Fundação Oriente. Catálogo com texto de José Luís Porfírio, "Mudança e estrutura . J.P. em 26 exemplos 1948-1998" (com 26 obras da colecção de Manuel de Brito). Foi seguidamente apresentada na Galeria Nacional de Pequim, em 2001

Mais tarde Júlio Pomar no Centro de Arte Manuel de Brito, Palácio Anjos, Algés, 2009. Texto de Celso Martins, "JP e o princípio da adequação" (30 pinturas)

A colecção foi depois parcialmente dividida com o filho mais velho de M de B, de nome Manuel Brito, que apresentou a sua colecção em 2024 sob o título "O nome igual nos dois? Um receituário para a Liberdade na coleção de Manuel Brito", na Galerias da Casa Comum (Reitoria) da Universidade do Porto. Com 8 pinturas de Júlio Pomar. O título veio de uma obra de circunstância, oferta do artista por ocasião de uma homenagem.

Em 2026, desdee 10 jan. no actual Centro de Arte Manuel de Brito, Campo Grande, antigas instalações da Galeria 111. até 12.06



JÚLIO POMAR e a GALERIA 111 (1), desde 1967

 1. JP e a 111: 1967 e 1973

Exposição Desenhos para "Pantagruel", de Rabelais, em 30 maio de 1967 - dizia que foi a 1ª vez que um editor devolveu os originais publicados; o hábito, tb nos periódicos, era ficarem por lá, perderem-se. Foram devolvidos num álbum organizado por Alice Jorge e adquiridos por Manuel Vinhas. Edição Prelo, do amigo Rui de Moura.
O livro fora uma iniciativa do artista, que convidou como tradutor Jorge Reis (exilado em Paris, inconfundível locutor das Actualidades Francesas e autor do premiado romance "Matai-vos uns aos outros", 1961, Prelo) e acompanhou o design gráfico de Alice Jorge. Dispersaram-se os desenhos muito mais tarde, e encontram-se alguns no acervo do Atelier-Museu e no espólio dos herdeiros.
Fotos com Manuel Vinhas, Mário Dionísio e José Sommer Ribeiro (©ccângelo Gonçalves)

"Pomar 69/73" A seguir, exp de dezembro 1973, catálogo com texto ensaístico do autor (no III volume da "Parte Escrita", ed. Atelier-Museu). Em 1969 iniciara-se uma colaboração regular com Manuel de Brito.
A segunda exposição na 111, aconteceu dez anos depois da instalação do pintor em Paris, e reuniu obras dos anteriores cinco anos, com séries dos Banhos Turcos d'après Ingres e retratos, 46 pinturas e 12 desenhos; catálogo com um longo texto do artista. Seguiam-se já às séries dedicadas ao Rugby e a Maio de 68, adquiridas quase totalmente por Jorge de Brito, que foram vistas pela 1ª vez em 1986 numa mostra antológica da Gulbenkian (Brasil e Lisboa).
Manuel de Brito comprava então no estrangeiro muitas obras para Jorge de Brito, nomeadamente em leilões e com o foco em Vieira da Silva, às vezes mesmo em concorrência directa com o arq. João Teixeira, fazendo subir preços e cotações. (ver "20 Anos" de MB, 1984, in "50 Anos 1964-2014"
As obras das novas séries de Pomar eram compradas quase na totalidade, antes de serem expostas, por Jorge de Brito, Manuel Vinhas e Augusto Vieira de Abreu. Em 1973 Jorge de Brito adquiriu um grande número de pinturas e as outras são disputadas por colecções particulares.
Manuel Brito ia vendendo directamente os quadros recentes aos coleccionadores-admiradores e adiando a 1º individual, desejada por Pomar, depois de fazer em 1964 (Tauromachies) e 1965 (Les Courses) duas exposições na Galerie Lacloche, na Place Vandôme, que surgira por intermediação de Manuel Vinhas e entretanto passara a dedicar-se a múltiplos ± Pop e mobiliário de artista (ver Pomar, Alexandre, 2023).
Foi a 1ª individual de pintura em Lisboa depois da de 1966 na SNBA, a então Galeria de Arte Moderna, montada com os quadros de Paris, em geral já de colecções privadas. Era o início do boom do mercado.






domingo, 15 de setembro de 2024

Ana Mata, 2024, Galeria 111

 Ana Mata na 111, Audácia

sábado, 14 de janeiro de 2023

Fátima Mendonça, 2023, Galeria 111

Fátima Mendonça, "Diário - Dias Incertos", na Galeria 111 desde dia 14 janeiro

Pode ver-se como um vocabulário, construído a partir de temas e figuras que foram surgindo ao longo da obra da Fátima, mas também apontando novas ideias, comentando factos que estavam entretanto a acontecer. Um vocabulário que seria acessível a todas as mãos, como que espontâneo, se não fosse ele pessoalíssimo, mas que assim mesmo é exemplo de uma possibilidade oferecida a todos, pelo menos a quem for capaz de abertamente falar de si, de desenhar-se, de expor-se e de observar à sua volta. Um vocabulário íntimo.
Essa abertura ao que é intimo, directamente íntimo (sem censura?) é aqui essencial e é rara: a produção de arte recobre-se em geral com citações, discursos à margem, estilos comuns, informações aprendidas e evidenciadas, “teorias”. Aqui a arte e a vida reúnem-se sem véus e dispensam doutrinas, mas não é impossível procurá-las.
De um diário se trata, como diz logo o título, surgido em tempo de pandemia e reclusão, "dias incertos" pois, divulgado à medida que os dias passavam, usando o Facebook como pista livre de comunicação e exposição, sem que desenho a desenho houvesse à partida um projecto de apresentação pública, que é habitualmente, no caso da Fátima, construído à volta de um programa, ou tema central, de uma ideia ou configuração visual a explorar. Os desenhos (pinturas sobre papel em pastel seco e pastel de óleo) foram uma necessidade, foram uma oferta livre (libertária) de comunicação interpessoal, e encontraram uma procura que os faz apresentar agora reunidos, com sucesso.
É um diário aleatório, nos assuntos referidos, ora retomados ora inéditos, e também na sua expressão gráfica, umas vezes em desenho linear e figura recortada, outras vezes com a folha preenchida, carregada, insistentemente percorrida, com fúria, com zanga?, quando o assunto é mais dramático, como tensão pessoal ou cena de guerra.
Um puzzle, ideia que a montagem irregularmente bem distribuída contempla. Os desenhos não constroem uma figura unificável nem se arrumam numa história a descobrir. São um retrato, feito de retratos e auto-retratos múltiplos que se reconhecerão ou não, em lágrimas, no corpo exposto, menina e mulher, como casa, irmãs, espelho, pesadelo ou ficção, etc (em pistas a descobrir). Aliás todos estes desenhos, de animais, árvores, flores, cenas várias, são auto-retratos ou assim podem ser vistos.



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Por vezes a arte não é um exercício só formal, uma prática escolar, uma habilidade ou amabilidade ociosa, uma diversão ou uma facilidade, uma intenção ou a ocupação de uma parede, como quase tudo que vamos vendo à nossa volta, e às vezes acontece que uma obra exposta reage (comenta, acusa, intervém), age no presente, por exemplo sobre o que é a guerra actual a que assistimos com a confortável distância do lá fora, lá longe, como aliás sempre nos aconteceu, irremediavelmente periféricos.
Será uma imagem decorativa ou será incómoda? Será só uma peça de colecção, ou de museu? Como podemos conviver com ela, se nos interpela, incomoda e desafia? E é agora o contexto, as outras imagens expostas, as obras que as acompanham, de facto como um diário nascido no tempo da pandemia, antes de ser um projecto de exposição, que lhe asseguram a urgente necessidade de comunicar.
Ainda é possível representar a História? Pintura de história? Pintura de Guerra? Acontece que esta é uma representação sentida, pessoal, e é íntima também, verdadeira, e não apenas a oportuna apropriação de uma imagem mediática, então mais vista que criada. Há afinal quem desenhe, ou pinte, aqui a pastel de óleo e pastel seco, com uma qualidade material que se sente, mais do que só se observa, e com uma intensidade emocional que se faz partilhar; e a íntima verdade que aqui assim se reconhece importa-nos.

Os aviões, com pás giratórias de helicópteros, investem sobre a paisagem, sobrevoam-na e incendeiam-se, são ameaça e ameaçados, cenário de batalha, há explosões, fogo e fumo por toda a parte, um céu opaco, os foguetes descem a tracejado e uma casa arde. É a casa que vemos noutros desenhos, protecção ou prisão. Há outros desenhos que trazem imagens de terror e morte,  rostos escondidos entre as mãos e caveiras. Mas logo aparecem flores, animais domésticos, paisagens amenas. A vida é diversa.

 

 

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“Diário - dias incertos”, até 25 Fev.


2017

sábado, 10 de novembro de 2018

João Francisco na 111, "Mille-Fleurs", 2018

Em torno das tapeçarias mille fleurs, caracterizadas pelo fundo preenchido por vegetação, produzidas no norte da França e na Flandres entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento...

E cenas de naufrágios e refugiados, que têm a ver com notícias e imagens de travessias do Mediterrâneo - e o pintor inclui-se como retrato nessas cenas

Parte de um mail pessoal do João Francisco, e depois a folha de sala


Da natureza-morta à Pintura de história 

Dez anos depois da 1ª exposição, já na 111, o João Francisco conserva algumas características centrais do seu trabalho: a natureza-morta, pintura e desenho de observação diante de modelos (são paisagens) que constrói, a partir de uma prática de recolector - coleccionador. E essa prática da natureza-morta é também comentário ou releitura da história da arte, com extensão às referências literárias. É uma produção erudita mas que se vê (também) como prática brincada, às vezes próxima da banda desenhada pelo grafismo das formas e perspectivas. 

Aos actuais desastres e naufrágios mediterrânicos podem associar-se as anteriores paisagens marítimas do João Francisco que já eram trágico-marítimas ("Atlântida" e "Tempestade em Trouville - para E. Boudin", ambos de 2008) e também, de outro modo, as Ondas e Objectos flutuantes de uma exposição de 2014, e ainda a instalação "Sem título - trazido pelo mar para Joseph Cornell", de 2005/2012. Tudo se prolonga e reactualiza com novas referências e circunstâncias. Entretanto - mutação muito significativa, que deixa abertos novos passos -, a observação pode ser também imaginação, a natureza-morta acolhe o retrato do natural, usando o espelho e já não a imagem prévia.

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Transcrevo um mail do João Francisco sobre a exposição "Mille-fleurs" que hoje (10 de Novembro) chega ao fim.

"Eu não sei se posso dizer que o tema dos refugiados e dos naufrágios seja o principal ou o único da exposição [ não, não é o único, talvez não seja o principal, mas é aquele que mais intensamente atinge o observador, logo no espaço inicial da exposição, quando se começa a identificar a presença dos migrantes e dos mortos do Mediterrâneo; não é rápida essa identificação, ela é elidida pelo autor e talvez a evitemos, porque a arte não trata dessas coisas... Só mais tarde, ao tentar escrever sobre a exposição, o assunto se me tornou evidente, irrecusável.] O ponto de partida foram de facto as tapeçarias mille-fleurs, que realmente admiro e que me intrigam. A vontade de fazer algo a partir delas era já antiga. E o painel grande com as flores e os animais mortos foi o que inicialmente surgiu dessa referência (e que nesse sentido talvez se possa dizer que a ela mais esteja preso).
As outras pinturas da exposição surgiram autónomas a esta peça maior mas mantendo, para mim, esta procedência:
- por um lado na série mille-fleurs (as colagens sobre os desenhos de bordados reutilizados) onde se joga com a ideia de "cartão", ou seja, de algo que está a meio caminho entre a ideia e um outro objecto final a realizar, e onde sigo mais ou menos o aparato das tapeçarias referidas: um motivo central rodeado de elementos pequenos, mais ou menos parecidos, no que vejo também uma ironia com a repetição tão cara ao minimalismo. Interessou-me explorar a relação entre o que eu pintei e os elementos já existentes nas páginas encontradas, essa conversa entre o novo e o antigo, a passagem do tempo também, no fundo. Tudo isto tendo em conta a ironia e o anacronismo que consiste em falar hoje de uma forma de arte completamente morta e especifica como é a da tapeçaria. (que acresce também ao facto de ser já eu um pintor de "naturezas mortas" , um género "menor");
- e por outro nas pinturas a acrílico mais pequenas ("as paisagens"), que exploram temas que poderiam também ser motivos para tapeçarias (substituindo-se às cenas épicas de batalhas, mitologias, paisagens mais ou menos exóticas).
Tendo dito isto, o tema dos refugiados e dos naufrágios tornou-se bastante importante, aparecendo várias vezes, bem como pela primeira vez a inclusão de corpos, ou fragmentos deles (quase sempre o meu) , que interagem com os objectos estáticos da natureza morta, ou que parecem fazer um comentário à "acção".

É também como diz, senti que era um assunto delicado e melindroso, em relação ao qual tive muitas dúvidas durante o processo - se devia ou podia ser explorado - , e que achei melhor não nomear (embora o tenha feito indirectamente nos títulos: " o náufrago", "figura a observar um naufrágio", "no mediterrâneo", "sob as ondas").
Agrada-me também, como lhe disse, esse desafio de deixar, dando algumas pistas, que o espectador entre no jogo, em vez de explicar e dissecar por completo as imagens (prefiro que elas interpelem o espectador, que criem um diálogo). Interessa-me no fundo que as imagens vivam por si e sejam eficazes, e que não sejam meras ilustrações de uma ideia inicial ou literária. E daí as pinturas evocarem o drama dos naufrágios sem reproduzirem ou partirem das imagens deles com que somos regularmente confrontados (a construção no atelier destas amálgamas de corpos e ondas, em substituição dos reais, acaba por não me parecer menos trágica e inquietante). São no fundo coisas muito fora de moda e nada contemporâneas: símbolos, alegorias. Um pouco como as estátuas dos "duplos" do antigo Egipto.
Mais do que o drama específico no Mediterrâneo talvez seja a morte, e o tempo, um dos fios condutores da exposição. Ela aparece em algumas das paisagens (as paisagens onde surgem caveiras aludem às fantásticas imagens, maioritariamente medievais/renascentistas, do juízo final, onde o inferno é mostrado muitas vezes como um monstro de enorme boca aberta por onde entram as pobres almas condenadas....); no "Lázaro", que estando morto volta à vida; nas velas, acesas ou apagadas; nas flores, frescas ou murchas, reais ou artificiais; no Mársias, esfolado vivo como castigo; no próprio painel "mille-fleurs", no diálogo entre os animais mortos e as flores aparentemente vivas (ainda, mas isso é um jogo antigo da pintura de naturezas-mortas....).
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Sem título - mille-fleurs (1. pinceladas numa paisagem/ 2. Lázaro / 3. as pinceladas flutuantes / 4. debaixo das ondas), 2018

E leia-se a "folha de sala" escrita pelo João Francisco:

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O assunto que talvez possa agregar o conjunto de pinturas recentes que aqui se apresentam é o da paisagem. Apesar de serem assumidamente naturezas-mortas, na medida em que consistem em objectos reais, dispostos e observados, estas imagens olham para o exterior, lá para fora. Falam de montanhas e desertos, do mar e de florestas, de ruínas, de jardins. Olham também através deles para o interior (não serão as paisagens aí ainda mais perigosas e sombrias?).
O título da exposição e muitas das peças apresentadas partem de um tema que importa explicar: mille-fleurs ou mil flores. É o termo utilizado para agrupar um conjunto de tapeçarias produzidas no norte da França e na Flandres sensivelmente entre o final da Idade Média e o início do Renascimento. O que as torna num grupo específico é o uso que fazem, de forma repetitiva e obsessiva, da representação de flores e plantas que, rodeando por completo os elementos em destaque (que podem ir de damas com unicórnios a caçadores, personagens galantes ou mitológicas), criam um espaço mais mítico que natural, mais caracterizado por uma exuberância decorativa que pela sugestão de uma paisagem real onde as figuras se inserem. Estas representações de flora, a que muitas vezes é também adicionada a presença de pequenos animais, são no entanto extremamente fiéis: são reconhecíveis com facilidade as espécies de planta selvagens e de cultivo doméstico, o que anuncia a cultura humanista e científica do Renascimento.

Realizado ao longo de vários meses o vasto conjunto de pequenas pinturas mille-fleurs pode ser entendido simultaneamente como memória desse tempo que passa, e como retrato de um espaço específico, de um jardim, registando e mostrando o que lá cresceu e morreu. Assimilando a estrutura formal das referidas tapeçarias em que as plantas se encadeiam de forma regular criando como que uma grelha, esta peça é uma afirmação do fascínio que a natureza, por mais remota ou doméstica, real ou mítica que seja, continua a realizar.
A descoberta fortuita de um conjunto numeroso de esquissos utilizados para bordar despoletou outro conjunto de peças: nessa memória ou fantasma dos desenhos que foram passados para um outro suporte têxtil, reconheci a dos “cartões” das tapeçarias, modelos em tamanho real do que iria ser tecido e que, devido à constante e violenta utilização, raramente sobreviveram (e de que os cartões para os Actos dos apóstolos de Rafael são uma notável excepção). Criando um fundo relativamente homogéneo a colagem destes desenhos, todos referentes com graus diversos de realismo e estilização a plantas, permitiu a construção de um campo onde a pintura acontece. É neste jogo entre o que se oculta e o que permanece visível que estas páginas encontram sentido.
Falando das paisagens em si talvez as vejamos como pessimistas e escuras. Por vezes inquietantes e inóspitas. Possivelmente também irónicas ou ridículas. Talvez tenham de ser assim. Fazendo minhas as palavras de Bernard: (...) e saí para a rua sozinho, de impermeável vestido, e as montanhas eternas fizeram-me sentir enjoado e nada sublime (Virginia Woolf, As Ondas)."

Se o João Francisco fosse um candidato a artista minimal-conceptual diria, ele ou algum curador por ele, que "reflecte sobre"... Mas ele não diz, nem sugere, pelo contrário, entrega-nos à nossa eventual vontade de atenção / interpretação ou à nossa cegueira. Quem pensará que uma obra de arte aborda (trata de..., tem por tema) assuntos sérios, e não é só a apropriação indiferente de uma imagem mediática ou um 'mero' exercício auto-referencial, dedicado à ideia de arte e à tradição da sucessão de formas (novas?), referido à 'soberania' da arte e ao 'Mundo da Arte' (como se lê com maíuscula e aparente convicção à entrada do ex-CAM, actual Museu Gulbenkian - "Anos 2000", dizem eles).

O João Francisco não explica sobre (o) que 'reflecte'; pelo contrário, vai apontando para outras pistas, que teremos de seguir antes e depois de descobrirmos o assunto mais forte das suas obras recentes.
Ele não refere os retratos e auto-retratos que lá estão; não sinaliza as 'vanitas' (variedade de naturezas-mortas que nos confrontam com a morte); não fala de pintura de história, que já não se povoa de mitologias e realezas mas se enfrenta ao quotidiano, à política, à história em que vivemos.
Alguém terá já tratado em pintura os dramas dos migrantes e refugiados africanos que se afundam no Mediterrâneo? É o que faz o João Francisco. E é muito forte.

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IMG_9366 Sem título - nas ondas / um náufrago / a torrente, 2008


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"Sem título - Tempestade em Trouville - para E. Boudin", 2008, óleo sobre tela, 160 x 180 cm.
Joao mar