

É, sem dúvida, um grande fotógrafo, com uma prática diversificada, em cenas de acção e guerra, na observação de nativos e retratos, lugares e cenas de trabalho, com um notável sentido da composição e enquadramento no espaço natural, com um forte interesse sociológico que parece respeitador dos seus modelos, e um gosto pelo auto-retrato que também o identifica como fotógrafo consciente da sua arte.
Um grande fotógrafo de ou em Angola, fotógrafo militar e colonial, antes de Elmano Cunha e Costa (1935-1939). Foi editor de séries de postais, revistas e livros, mas que pouco expôs em vida, em mostras colectivas relacionadas com a 1ª Guerra, em Londres, Paris e Lisboa (ainda não identificadas) e certamente nunca numa exposição individual.
Curadoria: Carlos Pedro Reigadas. Impressões de Roberto Santandreu (colaboração da Galeria Arte Periférica)
"Actual rei do Congo" - 1914
O Pedro Reigadas dá a conhecer um grande fotógrafo no Museu Militar: “José Veloso de Castro. A Revelação de um Artista” até 31 de dezembro.
Houve
tempos, já democráticos (ou tempos anteriores...), em que a
investigação sobre relações ultramarinas e coloniais (não é o mesmo) se
processava sem que o "primitivismo" ideológico (ou primarismo, o que não
é o mesmo) tingisse a exploração e a exposição dos respectivos
resultados. A informação internacional, designadamente francesa, podia
sustentar referências e conhecimentos. Recuou-se... a partir da FCT e
dos institutos universitários. Acabámos ao nível do Bloco, tal como
aconteceu com a exp. ainda presente no Museu de Etnologia, "Desconstruir
o colonialismo...", com direcção de Isabel Castro Henriques, autora importante num penoso
fim de carreira.
Escreve-se logo a abrir o texto de apresentação:
"A colonização e os fascismos, e o desenvolvimento da cultura e do
consumo de massas no seio do mal-estar da Europa, impulsionaram o
fascínio e a fetichização em torno de culturas que foram consideradas
«remotas», «primordiais», «primitivas», «ingénuas», «arcaicas»,
«selvagens», «primevas», entre outras designações."
Há por aí uma grande amálgama de tempos e factores (colonização, fascismos, cultura e consumo de massas, mal estar da Europa - e acontece que "fascínio" e "fetichização em torno" são pistas inseguras de análise.
Desconsiderar
o iluminismo e as ciências antropológicas, no seu crescimento
sucessivo; a dinâmica complexa das explorações, aventuras e ocupações de
terreno, e das deportações, emigrações e colonatos; em Portugal, o
republicanismo e o progressismo colonialistas à volta da Seara Nova,
mesmo que ainda talvez acriticamente racistas; bem como as contradições
internas do colonialismo e entre políticos de Lisboa e colonos, são
tropelias chocantes que têm aqui curso académico, escolar e
museográfico.
É
certo que a específica perspectiva de trabalho é a valorização
artística do "primitivo", o "primitivismo" moderno, que alimenta uma sequência
de rupturas (o cubismo, o expressionismo, o dadaísmo, a antropofagia brasileira,
etc), mas isso não justifica que se misturem e se recortem e censurem
realidades históricas de contexto.
Não
quis ir a Guimarães, à exposição, para não conflituar com duas
comissárias que me são simpáticas (já tinha ido a Braga ver uma muito
irregular exposição universitária sobre a Lunda e o Museu do Dundo, que
teve outra origem e ficou bem sem catálogo...), mas digo agora que o
catálogo, que finalmente folheei e logo fui comprar pelo discurso visual (textos sintéticos,
graficamente atraente, impr. Maiadouro, 38€, 408 pags, tiragem não
indicada), é um repositório muito vasto de imagens (ilustrações, capas e
cromos) relativas à exploração ultramarina e colonial que vale a pena
percorrer, com o devido alerta quanto à cegueira académica e aos desvios
facciosos.
"Problemas do primitivismo - a partir de Portugal",
Mariana Pinto dos Santos e Marta Mestre (editoras), ed. Centro
Internacional de Artes José de Guimarães / A Oficina CIPRL e Documenta.
Nov. 2024.
Retomo na íntegra o parágrafo inicial: "Pode considerar-se que aquilo que ficou conhecido como «primitivismo» tem uma longa história <estendendo para trás o conceito com o anacronismo necessário>,
mas foi no fim do século XIX e princípio do século XX que se expressou
de forma inequívoca. A colonização e os fascismos, e o desenvolvimento
da cultura e do consumo de massas no seio do mal-estar da Europa,
impulsionaram o fascínio e a fetichização em torno de culturas que foram
consideradas «remotas», «primordiais», «primitivas», «ingénuas»,
«arcaicas», «selvagens», «primevas», entre outras designações. A
apreciação e valorização por artistas, intelectuais e marchands de
objectos vindos de territórios não europeus, na maioria colonizados, mas
também vindos de contextos locais, como a arte popular, a par do
desenvolvimento exponencial das técnicas de reprodução de imagens,
fizeram irradiar a estética primitivista na cultura visual da
modernidade no Ocidente." <aliás, fizeram a modernidade anti-académica do séc XX>
Por
exemplo, há pequenos reparos que apontam ocultações, censuras: chateia-me que a
propósito de Cruzeiro Seixas, que viveu em Angola entre 1954 e 1964, que
"participou activamente no espaço cultural luandense" e nomeadamente
colaborou com o "Museu de Angola", não se refira o patrocínio e o apoio
público do industrial e coleccionador-patrono Manuel Vinhas ("A Cuca é
da UPA, a Nocal é de Portugal", dizia-se). Eram conhecidas e estão
editadas as suas críticas mais ou menos explícitas da política colonial,
de exigências desenvolvimentistas (pp. 300-305 capítulo "Mar
Português", texto de Marta Mestre 303). Mecenas de Luís Pacheco e tantos
outros, os seus discursos, as duas exposições de arte moderna que
patrocinou em Luanda, o livro final "Profissão Exilado" mereciam
presença.
Outro
exemplo: nas páginas dedicadas a José de Guimarães (artesanato
coleccionado, fotografias, pintura), referem-se "os anos que viveu em
Angola" mas omite-se que estava em Angola como militar, engenheiro
militar, durante a guerra colonial (pps. 148-153, capítulo "Ingénuo"; e
286-287, "no contexto da guerra colonial” - não é uma acusação). Já Cruzeiro Seixas viera
embora no início da guerra... J.G. é um caso significativo de duplo
profissional, sempre militar de carreira (de nome José Maria Fernandes
Marques) e artista independente, que frequentou meios da Oposição e veio
a trabalhar na NATO na Bélgica (nada contra a NATO...), o que permitiu
reforçar a sua circulação internacional. Reformou-se como coronel.
FOTO: O Salazar maconde revisto por Pancho Guedes; e na mesma vitrine o cipaio (policia nativo), interrogatório na esquadra (cena de polícia) e vários animais. Foto Mário Bastos/CML. (ver pags 150-159 do catálogo "As Áfricas e Pancho Guedes". Fotos José Manuel Costa Alves.) Aqui págs 162-163 cat. Problemas... )
A versatilidade da orgulhosa população
maconde, que resistiu à invasão alemã da 1ª Guerra, encabeçou a
resistência anti-colonial e em parte se instalou perto de Maputo,
sustentando o regime e mantendo tradições iniciáticas, tem como
especialidade própria a prática da escultura, em aldeias de artesãos que
cumprem encomendas, antes ao gosto colonial e depois ao gosto moderno.
De CASTRO SOROMENHO - A MARAVILHOSA VIAGEM DOS EXPLORADORES PORTUGUESES Lisboa. 1946-8, Empresa Nacional de Publicidade.
E
também o fotógrafo Elmano da Cunha e Costa, advogado, autor de um
metódico levantamento de tipos e costumes em Angola, protegido e
colaborador de Henrique Galvão, expositor no SNI e hostilizado por
Salazar.
E o antropólogo Carlos Estermann, (1889–1976), missionário espiritano que esteve 50 anos baseado no Sul de Angola (1926–1976), com uma grande produção científica
E a
Exposição Angola 1938 que recebeu e intimidou Carmona à chegada a
Luanda, imposta e produzida exclusivamente por forças locais. E o sempre
ignorado Plano de Fomento então aprovado à força mas que ficou
incumprido no tempo da 2ª Guerra.
Tudo foi mais rico e complexo do que querem fazer parecer.
Nas fotos: Tudo* o que eu não li (às vezes consultei) - e uma oportunidade para pôr ordem nas estantes. (*Aliás, é só uma parte)
duas notas bibligráficas que aqui se sinalizam:
MANUEL RODRIGUES VAZ, "Pintura colonial e Salões de Arte em Luanda. Do naturalismo paradisíaco à modernidade", Conferência na Universidade Nova, em Lisboa, a 17 de Maio de 2017.:
http://novaserie.revista.triplov.com/numero_65/manuel_rodrigues_vaz/index.html
Pintores viajantes
À descoberta do Brasil no século XIX
20-05-2006, Expresso
FOTOS COLECÇÃO BRASILIANA / FUNDAÇÃO ESTUDAR
Panorama do Rio de Janeiro, da autoria do diplomata belga Benjamin Mary, de c. 1835 (30 x 312 cm, pormenor)
O Brasil colonial queria-se um segredo bem guardado. Foi sob o domínio holandês (1630-54) que os pintores Frans Post e Albert Eckhout deram a conhecer à Europa as paisagens do Nordeste e, o segundo, a flora e a população, acompanhando as expedições científicas do governador-capitão Johan Maurits van Nassau. Um quadro de Post (Olinda) expõe-se na Colecção Rau.
A reconquista significou o regresso do «black-out», até a família real chegar de Lisboa, em 1808, fugindo às tropas de Napoleão. Nesse ano abriram-se os portos aos estrangeiros e revogou-se a proibição das manufacturas. Vieram depois as missões diplomáticas, comerciais e também artísticas e científicas, ficando na história a Missão Francesa de 1816, já com pintores que eram exilados bonapartistas. Com a proclamação do Reino Unido e da independência (1822), a difusão das imagens da corte, da capital e da vastidão do Brasil tornava-se parte do processo de afirmação da sua identidade nacional.
A nova política iconográfica, em que se associavam sem fronteiras reconhecíveis a descrição topográfica e a arte da paisagem, a exploração naturalista e a atracção pelo exótico, era favorecida pela chegada de mais pintores viajantes, pela curiosidade científica do século XIX e o gosto romântico pelo pitoresco ou o sublime dos lugares distantes, além de poder contar com o êxito da litografia, que atingira níveis de produção industrial antes da descoberta da fotografia. São as fascinantes imagens desse novo mundo que chegaram ao Palácio da Ajuda (e já antes estiveram no Museu Soares dos Reis), no regresso do ano do Brasil em França.
«Natureza-morta com Flores», de Agostinho José da Motta, 1873
No Museu da Vida Romântica de Paris exibiram-se com um catálogo que por cá não se editou, sob o título «Os Pintores Viajantes Românticos no Brasil (1820-1870)». Quase tudo o que se expõe, aliás, tem origem na Colecção Brasiliana dum grande antiquário parisiense, Jacques Kugel, que foi casado com a poetisa Merícia de Lemos e durante a II Guerra viveu em Portugal. É um acervo de excepcional qualidade, até há pouco tempo desconhecido, agora pertencente à Fundação Estudar e confiado à Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Abrem a mostra os retratos da família real, reunidos a outros do Palácio de Queluz, e estampas da sagração de Pedro I e da aclamação de Pedro II, da autoria de Jean-Baptiste Debret (parente e seguidor modesto de David, professor de influência neoclássica no Brasil). Destacam-se a Marquesa de Belas por Nicolas-Antoine Toney, outro pintor da Missão Francesa, e a imperatriz Tereza Cristina por F.-A. Biard, já de 1858.
Mais surpreendente é a secção «O Registo dos Viajantes», aberta pelo panorama do Rio de Janeiro de Benjamin Mary, onde os estudos da vegetação em primeiro plano se sobrepõem à paisagem desenhada ao longo de mais de três metros. Seguem-se as vistas desenhadas por Karl von Planitz (c. 1840) num preto e branco muito fotográfico, em aguada de tinta da China, enquanto as gravuras a água-tinta aguarelada dum álbum de Johann Jacob Steinmann, editado em Basileia em 1839, antecipam em absoluto o bilhete postal colorido. Depois de mais panoramas de Henry Chamberlain, tenente da marinha britânica e artista amador, as gravuras em água-forte e buril feitas a partir dos desenhos do alemão Thomas Ender, ou as litografias do livro de viagem de Johann Moritz Rugendas (seguidor de Humbolt, desenhador documentalista romântico) são outros exemplos maiores da arte da descrição de lugares, enquanto as cópias das aguarelas do arquitecto militar português Joaquim Cândido Guillobel fazem o registo de tipos urbanos brasileiros, em especial de figuras de escravos.
O último núcleo é dedicado à pintura da paisagem, que já se antecipava num soberbo nascer do sol sobre a baía do Rio pintado pelo italiano Alessandro Ciccarelli (1844) em fulgurantes tons de laranja e ouro. O anterior registo «parafotográfico» dos álbuns de gravuras dá lugar às mais amplas visões embelezadas pela imaginação e o gosto românticos, nomeadamente na representação de negros e índios. É o caso da importante tela de François-Auguste Biard, Índios da Amazónia Adorando o Deus-Sol (c. 1860), que supostamente os surpreende numa floresta densa e misteriosa. Biard viajara pelo Egipto, Síria e Lapónia, possuindo o Louvre uma sublime aurora boreal em Magdalena Bay, exposta no Salon de 1941, à altura de um Friedrich ou dos grandes paisagistas norte-americanos da Escola de Hudson.
Outros viajantes, como o inglês Charles Landseer, o italiano Nicolau Facchinetti, multiplicam as vistas do interior do Brasil, e dois brasileiros têm presenças importantes: vejam-se a Grande Cascata da Tijuca, de Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), já formado na Academia Imperial de influência francesa (que aprofundou em Paris, onde conheceu e retratou Garrett); e duas luxuriantes naturezas-mortas de Agostinho José da Motta (1824-1878), que actualizam em vernáculo o exemplo barroco de Albert Eckhout.
«Artistas Viajantes e o Brasil no Século XIX»
Galeria de Pintura do Rei D. Luís, Palácio da Ajuda, até 16 de Julho