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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

OS ÍNDIOS de Júlio Pomar, Amazónia, 1988-2006

 

 2017, Atelier-Museu, exp.


OS ÍNDIOS de Júlio Pomar, Amazónia, 1988/89 e 1997

“Em 1988, Pomar passou perto de dois meses no Alto Xingú, um território em Mato Grosso, na bacia do Amazonas, habitado pelos Txicão, os Kamaiuras, os Iawalapitis e outras tribos indígenas, num acampamento montado para a rodagem do filme de Ruy Guerra baseado no romance ‘Quarup’, de António Calado, a convite do produtor Roberto Fonseca. 

As pinturas que realizou constituíram o último grande ciclo que teve por origem um “espectáculo” a que o artista assistiu ao vivo, transferindo-o e reinterpretando-o do visto para o quadro, e aconteceu – excepto algumas pequenas tábuas de produção local – depois do seu regresso a Lisboa e a Paris. 

Deu origem a duas exposições diferentes que decorreram em 1990 em Madrid, na feira Arco, apresentada pela Galeria 111, e em Paris, na Galeria George Lavrov: ‘Os Índios’ e ‘Les Indiens’, com dois catálogos. As pinturas foram precedidas e sustentadas por um extenso corpo de desenhos de observação que também foi parcialmente exposto e deu origem, muito mais tarde, a um pequeno álbum editado pela Fundação Júlio Pomar em 2017: "Xingu".

     

lançamento no Bar Irreal

Segundo sublinha Hellmut Wohl no catálogo da exposição antológica ‘A comédia Humana’ (CCB, 2004), citando o artista, “durante este tempo que passou entre os índios, Pomar fez desenhos, mas não tocou nos pincéis: ‘Ver, ouvir, tocar, sentir, era apenas esse o meu programa. O que faria ou não faria, relativamente à pintura, isso viria depois… Enquanto lá estive, renunciei à pintura’ ” (in Alain Gheerbrant, Peinture et Amazonie, Ed. Différence, Paris, 1997, p. 22) 

De facto, os desenhos feitos no Xingu, sendo desenhos de observação, são já, em muitos casos, estudos para pinturas, apontando desde logo as figuras, os motivos e as situações que surgem depois nas telas do atelier. Noutro local Pomar referiu que era quase impossível desenhar frente aos Índios, porque as crianças o cercavam, observando-o e pedindo cadernos e lápis. Os desenhos foram quase sempre executados ao final do dia, de regresso à tenda, e mais do que apontamentos “do natural” (“sur le vif” – diante do motivo) são estudos repetidamente retomados que se tornam desenhos preparatórios, com a excepção de alguns muito pequenos blocos e figurações mais rápidas.

    

A observação de cariz etnográfico, identificando grupos étnicos, personagens e rituais, referidos nos títulos, ilustram e distinguem presenças físicas, pinturas corporais, lugares (a floresta, o terreiro, a maloca), plumagens e instrumentos (as flautas, os arcos, etc). Não é propriamente um programa documental mas a série constitui um retrato raro da Amazónia, em pintura e desenho, mesmo no Brasil.

Hellmut Wohl, loc. cit.: “Algumas palavras acerca dos títulos das pinturas que Pomar fez depois de regressar: Pajé Tocando Jakui [catálogo AMJP, p. 135, versão em serigrafia] representa um xamã (pajé) a tocar uma flauta (jakui) que nunca deve ser vista pelas mulheres; Kuarup II refere-se à celebração dos mortos; Jakui  II [cat.  p. 121] representa o tocar das flautas cerimoniais; Os Txicão [cat. p. 149] são uma das tribos indígenas do Xingu.”

Pajé Tocando Jakui, 1988

O tema dos índios iria regressar com novas pinturas em 1997, desencadeadas pelo projecto de uma exposição da série de 1988-89 em Biarritz (Festival Cinemas e Culturas da América Latina). Surgem aí as grandes telas dos “Banhos das Crianças no rio Tuatuari”, um assunto ausente da primeira série mas que estava presente em alguns desenhos esquecidos pelo pintor. A referência a Cézanne foi reconhecida por Pomar e é apontada por Hellmut Wohl: “É impossível não se pensar nestes três quadros de Pomar como uma resposta às Grandes Baigneuses de Cézanne, de 1899-1906, que está no Philadelphia Museum of Art. 

Manuel Castro Caldas - ao escrever sobre os Mascarados de Pirenópolis, uma primeira série "documental" brasileira - fez notar que as obras tardias de Cézanne foram uma das fontes de inspiração da última maneira (do estilo tardio, segundo H.W.) de Pomar, para a construção da forma e do espaço através da cor. La Baignade II [cat. AMJP p. 104-105], pela cor escura das figuras e o aplanamento das formas dos banhistas em primeiro plano, sugere também a influência de Gauguin.”

O Banho das Crianças no Tuatuari I, 1997

As telas de 1997 (La Baignade des enfants dans le Tuatuari I e II e La grande baignade) foram também expostas nesse ano em Paris numa mostra na Galerie Gerald Piltzer que se intitulou “Les Joies de Vivre”, acompanhada por um álbum com textos de Marcelin Pleynet e António Lobo Antunes. Não é irrelevante o título escolhido e que a passagem aos muito grandes formatos, dois trípticos e um políptico no caso dos Índios, tenha ocorrido por altura de uma operação e da quimioterapia…

Em 1999, uma primeira Mãe Índia - Via Láctea - surgiu numa pintura realizada para uma exposição de vários artistas convidados a comemoraer o Achamento do Brasil

Outros Índios, esses pintados a pastel, apareceram numa individual em 2002 na Galeria 111 (“Os três Efes, 1996-2002 – fábulas, farsas e fintas”).

E há de novo Mães Índias, Mères Indiennes, Meridiennes, em nove versões apresentadas na Gal. Patrice Trigano em 2006 e numa série de litografias, editadas num álbum com texto de 

Na exposição do Atelier-Museu mostraram-se apenas as quatro pinturas acima referidas e numerosos desenhos, optando-se pela inclusão de obras de três jovens artistas.

Os Índios tinham-se sucedido a uma outra série brasileira que resultou da visita, em 1987, a Pirenópolis, no Estado de Goiás, para assistir às festas do Divino Espírito Santo, cujas Cavalhadas vieram a ser o tema da série de quadros ‘Mascarados de Pirenópolis’ (expostos na Arco e em Lisboa pela 111, catálogos com texto de Manuel Castro Caldas). Tratara-se igualmente de um convite de amigos brasileiros, por ocasião da instalação de uma decoração mural em azulejo com motivos circenses e festivos realizada para o Grã Circo-Lar de Brasília, na Esplanada dos Ministérios, ao tempo do governador José Aparecido de Oliveira (os painéis foram muito mais tarde, em 2009, refeitos e reinstalados no exterior da Biblioteca Nacional na Praça da Língua Portuguesa, com 130 metros quadrados de azulejos e 26 figuras desenhadas a azul sobre fundo branco). 

Revendo a cronologia deste tempo de obras e viagens brasileiras acrescente-se que ele se iniciara em 1986 com a circulação de uma mostra antológica organizada pelo Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian (Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro, e já em 1987 Lisboa). Em 1988 os desenho para o Grã Circo Lar foram mostrados em galerias brasilerias (Ana Maria Niemayer e Paulo Figueiredo), com a edição do livro “Os desenhos do Circo de Brasília”, com um texto de Paulo Herkenhoff, edição Galeria 111. A seguir, em 1990, a exposição ‘Pomar / Brasil’ reuniu essas três séries de trabalhos e foi levada ao Rio de Janeiro e São Paulo e mostrada também em Lisboa.

Pode assinalar-se ainda que os Mascarados brasileiros tiveram uma sequela na série “Festas do Divino Espírito Santo, na Ilha Terceira”, realizada em 1991-93 e exposta em 1994 na Culturgest – CGD (“O Paraíso e outras histórias”) e em 1996 no Instituto Açoriano de Cultura, Angra do Heroismo.

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A seguir ao ciclo dos Tigres (1979-1982) a obra de Pomar orientara-se para os temas literários – e depois mitológicos – que constituiriam o centro do seu trabalho nas décadas seguintes, em especial a partir do ciclo de desenhos para o Metropolitano de Lisboa dedicados a Camões, Bocage, Pessoa e Almada (1983), que se prolongou na série sobre ‘The Raven’ / ‘O Corvo’ de Edgar Allen Poe e os seus tradutores, Baudelaire, Mallarmé e Pessoa (Le Livre des Quatre Corbeaux, Ed. Différence), 1983-1985, depois as variações sobre Adão e Eva, Ulisses, Hércules, etc.

Mascarados e Índios descentraram o artista, naqueles anos 1987-90, e depois 1997, dos temas da literatura e da imaginação (que incluía também os retratos de escritores) para a observação e a recriação do espectáculo visual directamente visto, o mundo visível e real, que constituíra quase desde o início a base, o assento, do seu ‘realismo’, da sua figuração gestual e/ou da sua particular des-figuração, quando na passagem dos anos 1950 aos 60 se desligou da alegoria neo-realista. Citem-se as antigas cenas de trabalho, as tauromaquia, os metros e as corridas de cavalos, o catch (a que se seguiu o rugby, este já com origem na apropriação de fotografias), com cuja gestualidade livre Pomar de certo modo se reencontrou ao tempo do seu “estilo tardio”. 



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

2017, CAM, Penelope Curtis (foto)

 

Diretora do Museu Calouste Gulbenkian (set. 2015 – ago. 2020); Diretora da Tate Britain (2010 – 2015)

FG https://gulbenkian.pt/historia-das-exposicoes/entities/19744/

Assume, desde 2015, o cargo de diretora do Museu Calouste Gulbenkian, dando expressão ao modelo que funde, pela primeira vez, as duas coleções e os dois museus: Coleção do Fundador e Coleção Moderna. Nesse contexto, e além da programação do Museu e da gestão de um novo regime de aquisições, assinou algumas exposições, nomeadamente: «Linhas do Tempo: 1896, 1956, 2016. As Coleções Gulbenkian. Caminhos Contemporâneos» (2016); «Portugal em Flagrante», com a equipa de curadoria da Coleção Moderna do Museu (2016-2017); «Escultura em Filme / Sculpture on Screen: The Very Impress of the Object» (2017).
Assumiu o cargo de diretora na Tate Britain em abril de 2010, onde coordenou várias exposições, tendo sido responsável pela abertura da nova Tate Britain, em 2013, e pela reorganização das galerias. Foi presidente do júri do Prémio Turner. Antes de assumir a direção da Tate Britain, foi diretora do Henry Moore Institute, em Leeds, a partir de 1999. Nesse período, além de ter aprofundado o conhecimento sobre as coleções, com a promoção da investigação e de novas publicações, motivou a aquisição de obras de artistas como Rodin, Epstein e Calder. Foi curadora de exposições na Tate Liverpool, aquando da sua abertura em 1988.
Assinou a curadoria ou cocuradoria de exposições maiores, como: «Barbara Hepworth: A Retrospective» (1994), na Tate Liverpool; «Sculpture in Painting» (2010), no Henry Moore Institute; «Modern British Sculpture» (2011), na Royal Academy of Arts.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

2017, Exclusões na Arco Lisboa de 3 galerias de 1º plano: 111, Barbado e Underdogs. Martin Parr...

A propósito de Martin Parr, apresentado em Lisboa pela galeria de João Barbado em 2015, lembro-me de um escandaloso incidente que impediu a sua presença com obras inéditas no Arco Lisboa de 2017, e contribuiu para o posterior encerramento da Barbado Gallery, que então mantinha uma relação directa ou privilegiada com a agência Magnum. Ficou a dever-se o ataque infame à Cristina Guerra, então à cabeça da máfia galerística em Portugal.

02/19/2017, blog typepad agora wordpress

As representações das três grandes galerias afastadas da Arco Lisboa estariam sem margem para dúvidas entre as mais fortes da Feira.

Segundo o regulamento, cada galeria tem de ter um artista em destaque, para além da eventual apresentação colectiva de outros nomes. Ora a Barbado Gallery preparava a apresentação de MARTIN PARR, um dos nomes mais famosos e mediáticos do panorama mundial da fotografia, que também ocupa hoje um lugar de grande peso na orientação da Magnum e no universos dos photobooks. Seriam apresentadas fotografias de Espanha e um outro conjunto inédito realizado em Portugal. Foi atribuído ao projecto uma pontuação muito baixa, por razões que não custa entender.

Para João Barbado que cumpriu dois anos de actividade, trata-se de «um rude golpe do ponto de vista comercial» devido à visibilidade da feira, e também em termos de relacionamento internacional. O qual, aliás, não lhe tem faltado, como demonstram os artistas da sua programação: para estar na Arco Lisboa, abdicou da Photo London 2017, onde teria lugar assegurado.

Quanto à 111 teria em destaque no seu stand da Cordoaria PEDRO A.H. PAIXÃO ( Pedro AH Paixao ), um artista exposto na galeria em Setembro de 2015 com grande sucesso da crítica e não só:  http://111.pt/ É  reconhecidamente um artista com uma obra muito original, com que a 111 renovou significativamente a sua actividade. É por ser uma galeria de 1º plano nacional e por apresentar na feira um projecto ganhador que a concorrência (aliás, Cristina Guerra) a excluiu: http://www.pedroahpaixao O afastamento da 111 tem já um historial anterior de hostilizações que deu lugar ao corte de relações pessoais.

Screen Shot 2017-02-19 at 18.05.55Pedro A.H.Paixão

Em terceiro lugar, ou 1º, a ordem é arbitrária, a Underdogs, que é orientada por Alexandre Farto – aka Vhils, e possui <ao tempo> dois espaços em Lisboa, concorreu com a apresentação destacada de dois artistas: PEDRO MATOS (Pedro Matos na Underdogs), um artista cujo trabalho se afasta notoriamente dos modelos correntes da arte pública, numa direcção mais reflexiva, com um percurso internacional que tem passado por São Francisco, Londres, Los Angeles ou Milão – http://www.pedromatos.org/  – anterior exp. individual  Less Than Objects na Galeria Presença, Porto, e Underdogs Gallery, Lisboa.

Screen Shot 2017-02-19 at 18.07.01Less Than Objects na Galeria Presença, Porto

E também o alemão CLEMENS BEHR , "a German graphic designer and artist with a background in graffiti, who makes use of inexpensive, discarded materials to create complex, ephemeral architectural structures based on geometric forms that reflect elements from the surrounding environment." – http://www.under-dogs.net/artists/clemens-behr/. O respectivo site permite conhecer uma obra inventiva e de grande impacto : http://www.clemensbehr.com/.

Screen Shot 2017-02-19 at 18.08.18Good news first please", Solo show for the opening of Galerie Nathalie Halgand in Vienna.

A exclusão não foi uma surpresa, porque o mesmo ocorrera em 2016, mas para um dos responsáveis pela galeria-agência é uma decisão que vai ao arrepio de uma anunciada intenção de reunir na feira práticas e artistas inovadores. Note-se que Vhils esteve presente em 2016 na feira Arco de Madrid e na The Armory Show de NY representado pela galeria Vera Cortês. A oposição à chamada «street art», que está na origem da Underdogs, não é a raiz da exclusão.