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sábado, 7 de junho de 2003

Manuel Zimbro, 1944-2003

 07-06-2003

Expresso

Manuel Zimbro, artista e divulgador do budismo zen, morreu no Funchal em 22 de Maio, vítima de cancro. Nascido em Lisboa em 1944, frequentara a Escola António Arroio e instalou-se em Paris no final dos anos 60. Na década seguinte começou a colaborar nos espectáculos de teatro de sombras de Lourdes Castro, criando novos dispositivos de iluminação e assumindo a co-autoria das obras As Cinco Estações, 1976-80, e Linha de Horizonte, 1981-85. Tendo passado a partilhar a vida da artista, foi também autor de diversos textos publicados nos seus catálogos, nomeadamente quando da sua retrospectiva, na Gulbenkian (Além da Sombra, em 1992) e da recente exposição no Museu de Serralves (Sombras à Volta de um Centro, 2003).

A respeito da sua actividade como artista, Manuel Zimbro afirmava a prioridade da arte de viver e recusava a ideia de seguir uma carreira, tendo-se limitado a raras aparições públicas. Em 1994 expôs «Torrões de Terra», minuciosas micropaisagens pintadas a guache, na livraria Assírio & Alvim, e em 1997-98, na Galeria Porta 33 do Funchal e no mesmo local em Lisboa, apresentou «História Secreta da Aviação», desenhos e objectos escultóricos em madeira realizados a partir da observação de sementes. Os dois projectos foram editados em livro com textos da sua autoria. Recentemente traduzira o livro Folhas Caem, um Novo Rebento, de Hôgen Yamahata (Assírio & Alvim), e coordenara com Nuno Faria a edição do volume colectivo Desenho, da iniciativa da Fundação Carmona e Costa.

sábado, 15 de agosto de 1992

1992, Lourdes Castro, Fundação Gulbenkian, duas notas

 LOURDES CASTRO

Fundação Gulbenkian "Além da Sombra" 

e Ratton Cerâmica

15 08 92


L.C. foi, nos anos 50-60, um dos protagonistas de um processo complexo de aproximação da criação artística portuguesa da actualidade internacional, assente num largo movimento de emigração que a instituição da Fundação Gulbenkian e a conjuntura político-colonial favoreceram. Foi igualmente um dos raros participantes directos, em Paris, na definição de uma nova conjuntura artística, estruturada em sucessivas vagas em torno dos conceitos de Novo Realismo, arte Pop, Nova Iconografia, Nova Figuração. A sua obra, aqui mostrada numa dimensão antológica (mas não retrospectiva, desde logo porque não se expõem as obras que no final dos anos 50 permitiam situar L.C. entre os cultores da abstracção lírica ou do «neo-impressionismo»), foi regularmente exibida em Portugal (individuais em 1964, 1970, 1979; larga presença em 1985 na exp. «Diálogo») e desde cedo seleccionada para representar o país no exterior.

Agora é todo um itinerário coerentemente desenvolvido em torno da exploração visual e objectual de um mesmo «achado» ou obsessão temática que na Gulbenkian se dá a ver: a sombra projectada (contorno ou silhueta) de uma forma como processo de apropriação do real, primeiro, e como sistema de representação, depois. Os trabalhos de assemblage que abrem a exposição (aproximáveis de obras de Louise Nevelson, Spoerri e em geral do clima neodadaista que marcou o início dos anos 60) funcionam aqui como directa indicação de um contexto mais vasto em que as impressões de Klein, as moldagens e compressões de César, as acumulações de Arman, ou as «combine paintings» de Rauschenberg, restabeleciam a escolha e a apropriação como atitude decisiva.

Passando da impressão serigráfica da sombra de objectos à fixação dos contornos projectados de pessoas, jogando com a marca da presença e o vazio da ausência manifesta, L.C. estabelecia as bases de um sistema figurativo que se continuou numa sucessiva descoberta de suportes, processos e aplicações: da tela trabalhada em superfícies lisas para o plexiglas (e do suporte bidimensional à multiplicação dos planos), seguindo depois um itinerário de crescente desmaterialização nos lençóis bordados (a partir de 68) e no teatro de sombras (1973), até um mais recente retorno à produção de objectos no campo das artes aplicadas (azulejo e tapeçaria), assente em novas pesquisas sobre o uso dos materiais.


22 08 92

O facto das antologias e retrospectivas da Gulbenkian não serem acompanhadas por quaisquer panoramas internacionais que aproximem os espectadores do conhecimento da produção internacional contemporânea, distinguindo inovações, mimetismos ou situações retardatárias, tem óbvias consequências em termos de isolamento cultural. É particularmente significativo que a obra de L.C., emigrada em 1957, não possa ainda ser inserida pelo espectador comum no contexto externo de que fez parte, sabendo-se como a artista foi um dos protagonistas de um dos mais fecundos processos nacionais de actualização criativa. Essa inexistência de circulação informativa, que traduz a irremediável marginalidade portuguesa, não é, por outro lado, alheia à evidente dificuldade de afirmação internacional dos artistas nacionais (com a excepção de dois ou três casos, que, alias, adoptaram outras nacionalidades), até porque os mecanismos de troca e co-produção têm uma eficácia notória neste sector. Importaria poder situar L.C. no contexto do Novo Realismo francês e observar como o seu trabalho com as sombras nasce das práticas de apropriação que caracterizaram as propostas neodadaístas de inícios de 60 (das acumulações de Arman às bandas desenhadas de Lichenstein); depois, com os trabalhos em plexiglas, a sua evolução para um sistema de representação aproxima-a de uma «nova» figuração gráfica e elegante, a que o jogo formal do desdobramento dos planos e das transparências mantém um cunho inventivo.

Com a passagem aos lençóis e ao teatro, as sombras recuperam o seu sentido de desconstrução e desmaterialização, como vestígio e como acção, radicalizando o itinerário global de L.C. A tela iluminada que à entrada da exp. confronta os visitantes com as suas proprias sombras não é um efeito cenográfico, mas um outro marco desse percurso.


Exp, do CAM programação Sommer Rbeiro, Lourdes Castro e Manuel Zimbro


20 julho - 6 setembro

sexta-feira, 5 de abril de 1985

1985 Lourdes Castro, Linha do Horizonte, Exposição-Diálogo "O tempo de ver" (05 04)

 o tempo de ver 

 5 Abril 1985 

Expresso


RAROS percursos criativos testemunham uma tão grande coerência interna como o de Lourdes Castro, prosseguindo desde 1962 um trabalho com sombras, que foram primeiro impressas em serigrafia, depois pintadas na tela, recortadas cm plexiglás, bordadas em lençóis e agora são projectadas num écrã e dadas em espectáculo, tornadas movimentos e acção. 

Poderá falar-se na utilização de um achado - se através deste chegarmos ao «ready-made» e daí a uma atitude dadá que está presente em Lourdes Castro, como esteve nos novos realistas dos anos 60 em que se afirmou, e como se reactualiza também de vários modos nestes anos 80. Não é no entanto a permanência de uma inspiração que importa sublinhar a propósito de Linha do Horizonte, estreado em Lisboa a abrir o programa de acções complementares da "Exposição-Diálogo", mas o efeito próprio dessa forma particular de performance que, como as suas homólogas, inscreve o corpo e a acção do artista num objecto efémero, que retoma uma prática infantil e uma arte oriental de teatro de sombras, além de aprofundar a direcção particular da criação visual de Lourdes Castro. 


Poder-se-ia, inserindo o espectáculo na sequência já formada pelos de M. Kagel e Jan Fabre, interrogar qual é o lugar de Lourdes Castro (e Manuel Zimbro, co-autor) nesta amostragem de criações contemporâneas que fazem da inexistência de fronteiras entre géneros uma marca decisiva, e do excesso, da violência e das referências culturais a via de regresso a emoções originárias. 

Esse lugar é, primeiro, o da radical diversidade actual dos produtos em circulação, negando de forma que se espera decisiva uma crença positivista da ultrapassagem dos efeitos ou do isolamento progressivo dos elementos. Nessa diversidade se inscreve tanto uma obra como a de Jan Fabre que explicitamente refere as que lhe servem de necessário fundamento, como a de Lourdes Castro onde são as imagens de um quotidiano familiar e não as de um universo cultural que constroem o discurso. Diria, aliás, que o colocar-se como presente e o não justificar-se como história se configura como manifestação de uma diferença particularmente sugestiva.

Depois, se a sombra é a marca de uma ausência, ela é evidência de um artifício que aqui em manifestar-se se basta: o seu movimento dá-se como ficção que nenhuma narração suporta. Esse artifício, produzido por recursos técnicos que o ecrã oculta, contido num plano puramente visual (onde alguma música apenas surge como «companhia", sem produção de outros sentidos), alimenta uma ficção que de simples gestos não-artísticos, banais, se serve para inspirar uma forma de estar. Presença, afinal, de quem vê - e é ainda através do ecrã, preservando a ausência fundadora do espectáculo, que Lourdes Castro responde à tradição dos aplausos finais,

 

Uma linha é horizonte, é corrimão ou cana de pesca, é parede, moldura, eixo onde se definem planos de luz e de cor. Ou uma figura, segundo uma duração regida por uma estrita economia do tempo de ver, e de fazer dessa visão um modo de presença que é disponibilidade para acolher uma intensificação de emoções, repete actos tão usuais corno subir uma escada, folhear um livro (de imagens), comer, dançar, dormir. entrar cm casa. etc. Actos mínimos, recolhidos e não representados - e ao contrário da tradição do happening não desmontados ou denunciados mas ilusoriamente preservados para um efémero momento repetível. 

Conquista-se assim uma dignidade plena do ver (como noutros retornos ao suporte bidimensional do quadro), num percurso pela acção. Visão em acto, portanto já não marcada por qualquer fatal transgressão que praticas de crueldade antes encenaram. Apenas ver, sem mácula e sem medo.