o tempo de ver
5 Abril 1985
Expresso
RAROS percursos criativos testemunham uma tão grande coerência interna como o de Lourdes Castro, prosseguindo desde 1962 um trabalho com sombras, que foram primeiro impressas em serigrafia, depois pintadas na tela, recortadas cm plexiglás, bordadas em lençóis e agora são projectadas num écrã e dadas em espectáculo, tornadas movimentos e acção.
Poderá falar-se na utilização de um achado - se através deste chegarmos ao «ready-made» e daí a uma atitude dadá que está presente em Lourdes Castro, como esteve nos novos realistas dos anos 60 em que se afirmou, e como se reactualiza também de vários modos nestes anos 80. Não é no entanto a permanência de uma inspiração que importa sublinhar a propósito de Linha do Horizonte, estreado em Lisboa a abrir o programa de acções complementares da "Exposição-Diálogo", mas o efeito próprio dessa forma particular de performance que, como as suas homólogas, inscreve o corpo e a acção do artista num objecto efémero, que retoma uma prática infantil e uma arte oriental de teatro de sombras, além de aprofundar a direcção particular da criação visual de Lourdes Castro.
Poder-se-ia, inserindo o espectáculo na sequência já formada pelos de M. Kagel e Jan Fabre, interrogar qual é o lugar de Lourdes Castro (e Manuel Zimbro, co-autor) nesta amostragem de criações contemporâneas que fazem da inexistência de fronteiras entre géneros uma marca decisiva, e do excesso, da violência e das referências culturais a via de regresso a emoções originárias.
Esse lugar é, primeiro, o da radical diversidade actual dos produtos em circulação, negando de forma que se espera decisiva uma crença positivista da ultrapassagem dos efeitos ou do isolamento progressivo dos elementos. Nessa diversidade se inscreve tanto uma obra como a de Jan Fabre que explicitamente refere as que lhe servem de necessário fundamento, como a de Lourdes Castro onde são as imagens de um quotidiano familiar e não as de um universo cultural que constroem o discurso. Diria, aliás, que o colocar-se como presente e o não justificar-se como história se configura como manifestação de uma diferença particularmente sugestiva.
Depois, se a sombra é a marca de uma ausência, ela é evidência de um artifício que aqui em manifestar-se se basta: o seu movimento dá-se como ficção que nenhuma narração suporta. Esse artifício, produzido por recursos técnicos que o ecrã oculta, contido num plano puramente visual (onde alguma música apenas surge como «companhia", sem produção de outros sentidos), alimenta uma ficção que de simples gestos não-artísticos, banais, se serve para inspirar uma forma de estar. Presença, afinal, de quem vê - e é ainda através do ecrã, preservando a ausência fundadora do espectáculo, que Lourdes Castro responde à tradição dos aplausos finais,
Uma linha é horizonte, é corrimão ou cana de pesca, é parede, moldura, eixo onde se definem planos de luz e de cor. Ou uma figura, segundo uma duração regida por uma estrita economia do tempo de ver, e de fazer dessa visão um modo de presença que é disponibilidade para acolher uma intensificação de emoções, repete actos tão usuais corno subir uma escada, folhear um livro (de imagens), comer, dançar, dormir. entrar cm casa. etc. Actos mínimos, recolhidos e não representados - e ao contrário da tradição do happening não desmontados ou denunciados mas ilusoriamente preservados para um efémero momento repetível.
Conquista-se assim uma dignidade plena do ver (como noutros retornos ao suporte bidimensional do quadro), num percurso pela acção. Visão em acto, portanto já não marcada por qualquer fatal transgressão que praticas de crueldade antes encenaram. Apenas ver, sem mácula e sem medo.