Com a documentação que agora é exposta na SNBA, em geral pela primeira vez, não é só o itinerário da Lourdes Castro que se percorre. A viragem de 1955-60, com a afirmação de uma nova geração que sucede à de 1945, fica visível nos catálogos e recortes de uma imprensa que então era atenta (do Diário da Manhã e do Panorama ao República). Contrariam-se ideias feitas sobre a rotina e o alheamento do meio nacional, e mostra-se a imediata notoriedade da LC e amigos, activos na revista Ver, de estudantes da ESBAL (ed. de abril 1955 não exposta), e da sua Galeria Pórtico, 1955-57.

Em 1955 participa na 9ª EGAP, certamente convidada por Julio Pomar, como René Bertholo. Depois de reprovada na Escola é capa do Século Ilustrado (abril 1957 - ver legenda no comentário abaixo: "Os jovens pintores sem benção"). Exposições na Pórtico e partida para Munique e Paris.
Em 1959 está na 5ª Bienal de São Paulo, em 61 na 1ª Bienal de Parisa e nos salões seguintes, com RB associado à Figuração Narrativa (Mythologies Quotidiennes no MAMVP em 64) - é um caso raro de integração imediata nas movimentações colectivas (parisienses) da década. As edições KWY, exposições de grupo e edições, de 58 a 63-64, asseguraram uma projecção rápida.
A dinâmica neo-realista tinha chegado ao fim, numa coincidência significativa com o aparecimento da Gulbenkian, instituída em 1956; a relação com a política mudava, deixando de recusar-se a colaboração com o SNI, designadamente nas bienais internacionais; os católicos do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, com Teotónio Pereira, José Escada e outros, desde 1953, traziam outras orientações (expõe no Centro Nacional de Cultura em 55, com Escada) ; o mercado alarga-se com novas galerias, em especial a Diário de Notícias, desde 1957, dirigida por Faria de Carvalho.
"A REBELDE DA PINTURA. LURDES CASTRO É UMA PINTORA REBELDE. EXPÔS, RECENTEMENTE, EM LISBOA, COM UM GRUPO DE JOVENS ARTISTAS, UMA SÉRIE DE ÓLEOS, QUE CAUSOU ALVOROÇO PELA SUA ARROJADA CONCEPÇÃO. NA IMAGEM, LURDES CASTRO PREPARANDO TINTAS NO «ATELIER""
Nas páginas interiores: "Os jovens pintores sem benção"
1970 (22 IV), France-Soir, recepção no palácio do Eliseu ao tempo de Georges Pompidou: a chegada de Lourdes Castro e René Bertholo, em "estilo hippy".
Numa outra edição de data incerta, France-Soir ou Figaro (1970 ou 1972, "12 anos d'art contemporain en France" no Grand Palais?), apareceram os dois numa larga primeira página, anónimos e representando os jovens artistas da década. A época pós-Maio'68 era de grande confrontação política no meio artístico, com boicote de salões anuais, mas não alinham na radicalização dos discursos. Eram presenças habituais e notórias nos acontecimentos públicos, muito à distância dos retiros posteriores na Madeira e no Algarve.
Em 1970 RB expõe os primeiros "modelos reduzidos" e LC os lençóis bordados - os tempos eram contrários à pintura, até ao fim da década..

Julgo que a referência que abaixo se faz ao Grand Magic Circus de Jerome Savary está errada, mesmo se L.C. aparece referida no folheto-cartaz (?) do espectáculo de 1971: "Lourdes Castro des ombres magiques". Ela aparece incluída entre os "membros" do Magic Circus, e são numerosos, mas qual foi a sua participação efectiva? Foi dela um dos 29 sketches? Os panos bordados com personagens do espectáculo foram mostrados, ou só as respectivas silhuetas-sombras?Eu assisti, levado pelo meu pai à Cidade Internacional, mas não me lembro e não encontro informações.
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