CARLOS CARREIRO
Árvore
In "Três artistas no Porto", com Fátima Mendonça e Pedro Cabrita Reis
Exoresso 27-11-99
Carlos Carreiro dá agora às suas pinturas um título geral, «Dos Truques do Adamastor à Vingança dos Perus», que as situa de imediato no seu terreno habitual da celebração do imaginário, onde impera a fantasia, o humor e também algum comentário corrosivo.
Com as novas obras, que, entre outras motivações pessoais, terão tido algum ponto de partida concertado com o calendário comemorativo dos Descobrimentos – lá estão, na tela maior que é referida na primeira metade do título geral, as caravelas e bandeiras pátrias, uma torre de Belém de barbatanas a tentar andar em direcções opostas, um Adamastor marionetista (seria imperdoável que este exemplo excepcional de «pintura de historia» no presente não tivesse destino institucional,... mas não podemos ter ilusões sobre os museus que temos <acertei ou ouviuram-me: a Assembleia da República comprou e expôs o quadro>) –, assiste-se a mais uma inflexão fortemente afirmativa do trajecto de pintor, prosseguido como um percurso original e solitário, marginal, se se usar o termo com sentido positivo face a valores correntes e dominantes.
A sua figuração luxuriante e minuciosa constrói-se como uma agregação interminável de personagens (históricos ou actuais, humanos ou animais) e de objectos (de consumo, máquinas e plantas, reais ou de fantasia – sem esquecer as metamorfoses entre personagens e objectos), em situações e lugares imbrincados num contexto narrativo absurdo e sem leituras unívocas. Em vários quadros, a acumulação de figuras e histórias organiza-se seguindo uma pista de flipper que pode transformar-se em estrada, filme ou intestino, numa sequência vertiginosa de invenções e citações (de estilos e de imagens, populares e eruditas), distribuída num espaço indefinível e labiríntico, ao mesmo tempo exterior e interior, de paisagem sonhada ou cartografia alucinada. Com barcos-vagens, carros-lulas, químicos e alquimistas, personagens de animação e BD, tigres gulosos, células invasoras, universos subterrâneos, flores e borboletas.
Carlos Carreiro, «Férias da Pompadour no Mar Vermelho com Tigre Guloso», 1998
Reciclando com uma nova inventividade toda a obra anterior, a renovação de Carreiro passa agora pelo abandono da coloração fria da sua fase anterior, quase uniformemente azul com incrustações de objectos de cores «pop», na explosão de uma policromia com intensidades mais quentes, percorrida por estranhas constelações de pontos de luz.
Talvez não seja impossível comparar a sua pintura à de Clovis Trouille, pintor maldito que os surrealistas anexaram em 1930 e é agora objecto de retrospectiva em Paris. Também inclassificável, Trouille associou a veia libertária a uma pintura de aparência académica, falsamente «naïf», em cenas eróticas de sentido anticlerical e antimilitarista; Carreiro serve-se livremente de todas as convenções antigas e modernas, passa do «kitsch» à ficção científica, e pratica o humor e a poesia com uma soberana ironia.
Carlos Carreiro
Sala Maior, Porto
22-10-2005
O discurso crítico que C.C. vai fazendo em pintura tem novos episódios. Com submarinos de brincar e o Padrão dos Descobrimentos outra vez de estafe em «jardim de sportinguista» (na foto), ou o santo-infante dos Painéis pintado no foguetão que nos leva ao futuro. Vêm duma série anterior, que celebrou os feitos de 500, emblemas de navegadores (Vasco da Gama de bóia) e aparecem agora arquitecturas português suave em paisagens de fantasia e os interiores burgueses de contemporâneos ocupados em pequenos romances e lazeres. O retrato feito em «Portugal, Obviamente!» não é amável nem fica pela superfície do anedótico, e as peças recortadas (sobre Amadeo e Nuno Gonçalves) apontam uma curiosa linha de experiência. A figuração crítica de Carreiro é um efabular imaginativo que se serve do «kitsch» e do pseudo-«naïf» para espelhar mitos fundadores e devaneios do presente, lembrando, em versão «soft», o caso singular de Clovis Trouille. Rui Reininho, no catálogo, subscreve o desafio que o pintor faz aos costumes da arte. (Até 8 Nov.)
&
um antigo blog (obras desde 1970 até 2010):
https://carloscarreiropintor.blogspot.com/
uma evocação ou homenagem: "Investir nos Quatro Vintes" 100x100cm, 1975
Pintura de história: Encontro de Astrólogos
• CARLOS CARREIRO
Módulo (A. Boavista, 854 - Porto)
Uma exuberante figuração, uma imagética que remete para o pop, o kitsch, o naif, prossegue o inventário de mitologias da cultura e do quotidiano. (Até 6 de Janeiro, de segunda a sábado, 16-20h, e sextas à noite).
• Carlos Carreiro na Módulo
DN 10 - Dez
Carlos Carreiro inaugura hoje, pelas 21 e 30, uma exposição de pintura na Galeria Módulo do Porto (Av. da Boavista, 854), integrada no ciclo «Europa-América: Artistas de Hoje». Nascido em Ponta Delgada, Carlos Carreiro reside há vários nos no Porto, onde é professor na ESBAP. Praticando uma figuração próxima do ‹kitch», carregada de ironia e utilizando uma cor industrial, os seus quadros procedem a um inventário de mitologias com referências a um imaginário onírico e cultural.




Sem comentários:
Enviar um comentário