Carlos Carreiro reivindica-se do surrealismo, mas não segue o cansado formulário surrealista. O seu surrealismo quer-se antigo e intemporal, inato, diz. É o direito ao delírio, o jogo das aproximações insólitas: "Vou fazer 80 anos no próximo mês de Julho, ando a participar em exposições de pintura colectivas e individuais há 59 anos. E parece-me que sempre tive uma tendência para o Surrealismo, ou pelo menos para o delírio. O Surrealismo não tem tempo, nem moda, é uma expressão inata ao ser humano, que conseguiu apagar a fronteira entre o sonho e a realidade, o consciente e o inconsciente, é um exercício a jogar com o paradoxo das aproximações insólitas, que vão além do racional. O Surrealismo é um símbolo da união dos contrários e identidade dos opostos: os sonhos, o nonsense e o automatismo são ferramentas recorrentes."
terça-feira, 14 de abril de 2026
2026, Carlos Carreiro na galeria São Mamede
Chamou à exposição "A Festa do Costume", o que é uma auto-provocação, porque vemos os seus quadros sempre como se fosse pela primeira vez (e fez mais de 75 individuais, conta-as). Há sempre novas histórias, que não são histórias narrativas, mas conjunções de episódios, situações, imagens e objectos díspares dispostos em espaços complexos, que são paisagens impossíveis só viáveis na imprevisibilidade das telas. Há personagens, arquitecturas, máquinas, brinquedos - aqui os "paper toys" que talvez apareçam pela primeira vez - e pinta a cores como poucos, que por cá os "curadores" não gostam de cor. Aliás, vai uma grande diferença entre a imagem que a fotografia reproduz e o plano material da pintura, que é denso ou intenso, rico e não liso. Há também que fazer um baloiço permanente entre a configuração total de cada quadro e a acção em pormenor das figuras que se dispersam em movimento. E note-se como a luz é uma invenção constante e mutável ("A propósito da luz", "Pirilampos implicam com o Dr. Tibúrcio").
No catálogo o pintor diz como trabalha, a desvendar a magia da sua fábrica ou do seu ilusionismo: "Como processo de elaboração dos quadros, trabalho a bem dizer a partir da colagem. Eu sou como um parasita de imagens que guarda em albuns milhentas recolhas de fotos e gravuras que me interessam, para num exercício visionário posterior, construir outra realidade numa sucessão alucinante de imagens contraditórias."
E fala de si próprio e da sua pintura, para ajudar a ver, com sábia humildade de professor que também foi longamente (ESBAP): "Nesta exposição que apresento, trouxe quadros de 2015 a 2026, é a minha festa do costume. Preocupo-me sempre que o espaço de cada obra não se organize em função de uma lógica narrativa viável, haverá um jogo de simultaneidades de tempo e espaço, formulação de planos em ritmos alucinantes, os quadros não têm um centro único, mas vários pontos de fuga. A "Alice no país das maravilhas" ensinou-me a ver para além do espelho e a atravessar o espaço do quadro pelas portas que levam a realidades diferentes, não há respeito pelas hierarquias, nem pela convenção das proporções entre figuras e objectos."
Recolector de imagens encontradas, como se apresenta, faz citações eruditas (Picabia num título, outras são subtis), usa referências arquitectónicas e tecnológicas, comenta o presente e o futuro, junta o humor e o absurdo, com uma originalidade sistemática (mas não se trata de um sistema de produção). Estamos no plano da invenção transbordante, pouco mostrada, pouco vista. (Leia-se a versão ficcional escrita no mesmo texto do catálogo e percorram-se todas as pinturas na página da galeria São Mamede: https://www.saomamede.com/exposicao.php?id_exposicao=711 (sempre tinta acrílica sobre tela)
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