quarta-feira, 15 de abril de 2026

2026, Vasco Trancoso, "88", fotografias

 Vasco Trancoso é um fotógrafo amador. Editou um livro com o título "99" em 2019 e reincidiu agora, ou no final de 2025, com o livro "88" - trata-se sempre do número de fotografias incluídas: não haverá outro significado editorial nem qualquer mistério. Neste caso o formato ao baixo e a larga dimensão do livro prestam-se melhor à horizontalidade da imensa maioria das imagens. A impressão da Maiadouro é perfeita, o design gráfico é exacto, sem perdas nem efeitos.



Vasco Trancoso, médico reformado, assume-se como amador - esta é uma das grandes condições da arte fotográfica - e como 'street photographer', fotógrafo de rua, paradigma de tanta da melhor fotografia também profissional desde sempre. Interessado no quotidiano urbano e no encontro ocasional com as pessoas que o habitam: fotógrafo em movimento, que se adivinha incessante, cruza-se com quem se move pelas ruas, nas praias, nos parques, em alguns interiores públicos. Surpreende os seus próximos sem ser um voyeur, sem hostilidade trocista ou pose amável, sem ser descritivo e sempre atento à surpresa presente no que vê: ela está lá mas há quem descortiná-la.
As Caldas da Rainha, onde vive, e o seu território próximo, Foz do Arelho e Óbidos, são o palco da sua itinerância, com ocasionais descidas a Lisboa e Algarve. Não faz um "levantamento" documental nem persegue temas, situações ou tipos, e não organiza os volumes por assuntos ou tópicos. A livre disponibilidade de quem procura e encontra a singularidade dos "achados", os acasos surpreendidos, passa com felicidade do que é vivido como atenta circulação urbana para a sequenciação aleatória das imagens impressas.


Tem de falar-se da cor aberta e vibrante, luminosa, solar, sempre presente, mas também da sombra - até aos negros profundos - que invade e recorta milagrosamente muitas das imagens, ou mesmo a maioria, contando muitas vezes com a sombra projectada do próprio fotógrafo: o que seria um erro acidental é aqui uma assinatura, o auto-retrato secreto. Tem de falar-se da imensa profundidade de campo que domina a luz com a muito pequena abertura focal, assegurando a total nitidez dos primeiros planos cortantes e dos fundos distantes - a desfocagem é muito rara e é dominada. Mas também da complexidade rigorosa das composições em que o espaço da imagem se fragmenta por janelas, montras, espelhos, multiplicando-se em planos e perspectivas, em geometrias fugazes.

Como é próprio da melhor fotografia de rua, o insólito, o humor, o absurdo aparente são regras de trabalho, trabalho que é naturalmente diversão, vida pessoal e retrato humanista. O humor nunca é cáustico, é benigno e fraternal. Será então possível fazer pontes com alguns dos melhores fotógrafos de rua, como Martin Parr e Cristobal Hara, o meu preferido espanhol (há coincidências felizes), mas a originalidade plena do seu olhar e da sua produção editorial não merecem nenhuma dúvida.
Acrescente-se que Vasco Trancoso (n. 1944) se faz acompanhar nos livros por habilitados comentadores da sua obra, em úteis breves ensaios: tudo está certo. (Mais logo dia 16 V.T. apresenta "88" na galeria-livraria Narrativa, às 19h.) O livro (edição do autor) é um acontecimento, uma descoberta; percorrê-lo para escrever esta nota é um grande prazer.





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