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sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

2006, Picasso, «El Contemplador Activo», Centro Cultural de Cascais: "Voltar a viver"

Voltar a viver

01-12-2006

 

    As gravuras de um momento de crise na vida e na obra de Pablo Picasso, aos 85 anos 


 

 Pablo Picasso

«El Contemplador Activo»    

Centro Cultural de Cascais

«A Inspiração Trabalha e o Pintor Está de Mãos Cruzadas», 12 de Abril de 1967; cobre, ponta seca

 


Alguns preferem a inactividade de Duchamp. Com as suas sequelas, separou-se mais a arte e a artesania, dispensando qualquer qualificação ou habilidade técnica, o que «dessacralizava» a criação e prometia a democratização universal. No pólo contrário está a hiperactividade de Picasso, habilitada pelo que se chama saber fazer, talento, dom ou génio, que são atributos desigualmente distribuídos e de origem algo obscura.


A grande produção de obra gráfica pelo velho Picasso, que culmina nas «suites» 347 e 156, de 1968 e 69-71, ambas já mostradas em Cascais, não se explica por qualquer voragem mercantil, nem corresponde a uma última estabilização de processos. Na vertiginosa luta contra a morte que se avizinhava, ela procura ainda associar vitalidade e criatividade, num tempo em que o pintor, passados os 85 anos, se encontra já quase retirado do mundo. O período final, incompreendido nas exposições do Palácio dos Papas de Avignon (1970 e 73), é um dos cumes da obra de Picasso e enfrenta plenamente os caminhos contemporâneos que pareciam esquecê-lo - esse confronto está longe de se dar por encerrado.


Não é o caso de uma outra série de 60 gravuras em que Picasso trabalhou de Agosto a Dezembro de 1966 (com a junção de algumas peças posteriores), e que nunca decidiu editar, ultrapassada pelas «suites» referidas ou preterida por razões não ditas. Impressas postumamente nas oficinas de Pierre Crommelynk, o habitual gravador de Picasso que nelas trabalhara, seriam apenas lançadas no mercado no ano do centenário do nascimento, 1981, pela Galerie Louise Leiris.


Se a vida pessoal e a do seu tempo está sempre presente na obra de Picasso, sem que a mais profunda meditação sobre os problemas da pintura se distancie em busca de uma qualquer pureza ou autonomia, esta sequência de gravuras dá conta da mais grave das crises por que passou o pintor. O que continuou a referir-se como uma operação ao estômago (ainda no Dictionaire Picasso, de Pierre Daix, 1995), encobria um cancro na próstata. «Abriram-me como a um frango», brincava o pintor, enquanto reaprendia a viver diminuído na anterior equivalência pública entre potência sexual e artística. Interrompida a pintura por mais de um ano, Picasso recomeça a desenhar no cobre, com hesitações ou dificuldades visíveis. O tema o pintor e a modelo dá lugar crescente ao dos velhos e mulheres nuas, vendo-se o artista a si mesmo como espectador, enquanto o ateliê se torna sala de teatro; há falos que surgem como personagens, mas será só em séries seguintes («Rafael e a Fornarina», de 68, por exemplo) que a «excitação do fazer» segue com êxito os caminhos da sexualidade explícita. Esta é apenas uma produção de crise, quase sempre menor, embora iluminada por alguns súbitos fulgores.



sábado, 4 de março de 2006

2006, Costa Pinheiro, C C Cascais, " Uma 'ontologia' " (04 03)

 Uma «ontologia»

     As imagens e os mitos, a pátria e o universo 
 

Costa Pinheiro. Imagens de uma obra

Centro Cultural de Cascais

Expresso 04-03-06 
   
 
     foto: «Diálogo Universonauta - Pablo Picasso sobre os Problemas da Paz...», óleo, 1983/4
 
É de uma antologia que se trata, como indica o título «Imagens de uma Obra» (e esta percorre-se dos inícios em 1953, inéditos ou esquecidos, até ao presente), mas o apresentador, Bernardo Pinto de Almeida, nega-lhe a intenção retrospectiva ou mesmo antológica. Ao chamar-lhe uma «exposição ontológica», mais do que fazer um jogo de palavras, caracteriza-a como uma proposta de interpretação globalizante de toda a carreira de Costa Pinheiro através da identificação das motivações internas que a percorrem. As quatro etapas do itinerário seguido nas galerias do Centro de Cascais - «Identidade/Território», «Exílios», «Simbólica» e «Navegações» - são mais do que grandes temas («entre outros possíveis»), são sucessivos tópicos que, sem sujeição às regras da ordenação cronológica ou seriação das fases ou dos ciclos do pintor, desafiam sucessivamente a atenção do visitante e questionam o sentido profundo das temáticas que na sua obra se manifestam.

Os recentes «Navegadores» (1997-2000), incluídos no último tema, retomam um ciclo interrompido em 1966, sequencial ao grande sucesso dos «Reis» (rejeitando então o que poderia ser prolongado como formulário ou rotina), mas fazem parte da continuada meditação de Costa Pinheiro sobre as questões da identidade e do território, certamente estimulada pela situação de exílio, a qual acabou por se constituir ao longo da sua obra como projecto global duma história mítica de Portugal. No entanto, é também nesta secção que se mostram os modelos-esculturas da «Citymobil», com que trocou o espaço da tela pelos projectos de intervenção urbana, e a série do «Universonauta», que substituiu as viagens ao passado nacional pelas utopias universalistas do futuro, corriam os tempos contestatários de 67-74. Das caravelas às naves espaciais mudavam os sentidos da navegação.

Por outro lado, a dimensão simbólica que a pintura de Costa Pinheiro ambiciona formalizar é constitutiva de todos os seus temas ou fases. No início dos anos 60, a saída da abstracção faz-se através da «procura de uma série de signos de identidade» (como diz o autor do prefácio) que povoam as «paisagens», podem ser «personagens mitológicas» e logo se sumariam no álbum de gravuras Legenda Lusitana, de 1964. Motivos figurativos, emblemas, signos, constituem-se então como o alfabeto imagético de um universo poético pessoal que ora se enfrenta com os temas da história e do mito, ora dialoga com a figura de Pessoa (outro mito nacional), ora se revê nos auto-retratos na série «La Fenêtre de ma Tête», que em 1989 se substituiu na Gulbenkian à ideia, já então recusada, de retrospectiva.

Mas uma outra linguagem simbólica, essa abstracta e de vocação universal, tinha surgido associada ao referido Universonauta, a «Cosmolanguage». É ela que se retoma, como um alfabeto partilhado, no quadro em que esse alter-ego universalista do pintor dialoga com Picasso «sobre os problemas da paz e da sobrevivência terrestre» e é ela que se prolonga, fazendo conviver «poeiras cósmicas» com uma figuração sintética e elementar, na série «Elas e Eles», exposta em 2005. Deixando a mitografia nacional, que já passara pela fatalidade de D. Sebastião e Alcácer-Quibir (1987-89), Costa Pinheiro dedicava-se então a uma espécie de cosmogonia, onde a linguagem das relações amorosas se projecta à dimensão de uma possível ordem cósmica. Na arrumação «ontológica» que se propõe, a série aparece sobretudo no tema «Exílios», explorando a ideia de «exílio amoroso», mas, ao contrário do «exílio interior» que se manifestara nas janelas/retratos, já não se tratará aqui da expressão de perda de um lugar mas da abertura a uma comunidade e comunicabilidade universal.