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quarta-feira, 18 de março de 2026

2026, José Miguel Gervásio, Montemor-o-Novo

 José Miguel Gervásio em Montemor-o-Novo (até 27 março)

Galeria Municipal: "EU VI, MAS NÃO CREIO QUE TENHA SIDO EXACTAMENTE ASSIM"



"Retratos Falantes", 2025, 73x54cm, série PRF; e "Quadro-âncora (Yo Lo Vi)", 2026, 116x100cm, série Joyciana. Óleos sobre tela.

Eu vi (Yo lo vi) refere Goya e os "Desastres de Guerra"; é uma dupla pista que indica os acidentes do mundo sobre que a pintura se ocupa (sem agenda de actualidades) e a relação desta pintura com o visto, mesmo se a imaginação, a fantasia e outras informações ou referências artísticas venham perturbar ou enriquecer a transcrição do que se viu. Existiram modelos vivos, encenações fotografadas e objectos físicos fabricados.
Vemos figuras-personagens, retratos e auto-retratos, e em muitos casos mascarados; vemos construções de cartão que são esculturas arquitectónicas -- noutras ocasiões foram também expostas; vemos as máscaras que ocultam rostos e outras que são elas mesmas esculturas pintadas e também são personagens (o menino de cabeça mole, que com coroa é privadamente chamado Rei Balduíno). Figuras e construções (modelos) circulam entre vários quadros. Vemos muitas paisagens, onde figuras e objectos se inscrevem desproporcionados, como em palcos de um teatro imaginado mas não narrativo (ou onde a narração permanece enigmática e resiste à “leitura”). Podem ser paisagens/fundos "realistas" e podem deixar adivinhar aproximações a (o estudo de) Cézanne (Montagne Sainte Victoire) ou a Hodler, entre água e céus róseos, simbolistas, O pintor aceita estas hipóteses de interpretação - é um pintor erudito e não só informado, além de virtuoso; falamos igualmente de Vallotton entre outros. Há também paisagens mesmo, só paisagem, em pequenos formatos, onde a condição dos volumes e a matéria da cor importam mais que a possível notação descritiva.
Anotamos os títulos que se repetem, são títulos comuns: "Retratos Falantes", podem ser figuras e máscaras; "Paisagens com Objectos Flutuantes", e também com figuras em acção, personagens; além dos "Quadro-âncora (Yo lo vi)" de maior formato, que dominam a montagem da exposição e sugerem talvez uma série em curso.
A montagem, como em exposições anteriores («Joyciana: Mollies, Pollies & Dollies (Exposição-Linguagem)» no Museu de Évora) em 2021 - e algumas obras de agora já aí se mostraram , 2021-26) é acumulada, continuada em telas de dimensões variadas, sem compartimentarão de géneros nem seriação cronológica, disposição contrária ao gosto pelo design de interiores que marca as apresentações habituais. "A montagem dá continuidade ao trabalho de atelier", escreveu.
Também não existe um "curador" que se interponha entre artista e público, e não faz falta: as paredes de pintura são assim mais poderosas. Há q passar da descrição à interpretação seguindo as pistas propostas pelo autor num texto do breve catálogo.
&

José Miguel Gervásio, 
05 12 2021

pormenor ou parte de quadro. 



Figuras que podemos reconhecer noutras pinturas, personagens identificáveis, às vezes nomeadas, "modelos" que participaram com brio em encenações ficcionais sem tradução conhecida (os títulos não explicam, desafiam), num jogo de cumplicidades; corpos intrigantes com que dialoga o observador, teatro visionário e pictural, visões. 

O que acontece ali no ecrã da tela? A representação realista desrealiza-se para o lado da invenção, do imaginário, como um sobre-realismo não surrealista, embora referindo-o, tal como se refere a nova objectividade, a metafísica e outras  figurações, clássicas e modernas, ingénuas e eruditas, para que se procurarão as chaves possíveis, as perguntas certas, sem resposta. 

A figura na paisagem, mas paisagem abstracta <ou não, vista como real ou pintadas por outros, assim igualmente vistas>, matéria colorida, habitada por objectos e construções volumétricas não referenciais (abstractos <casas-máscara>) que são outra das práticas do pintor-escultor, às vezes expostas. 

Formas invasoras, talvez ameaçadoras, que afirmam a possibilidade da criação de ilusões. Às vezes monstros. O que vemos? O que é o visível? Como representar com humor a inquietação? Como pensar as imagens sem literatura, cenas de fantasia, ficções não literárias?