terça-feira, 21 de julho de 2026

2026, Isabel Sabino, "NADA", em Loures: uma conversa

 Isabel Sabino, "Do, don't", 2026, tríptico 81x270cm, técnica mista de tintas acrílicas sobre tela.



1. (dia 18)
Apetece dizer que é a exposição de uma jovem artista, embora se trate de uma professora catedrática aposentada da FBAUL, com uma já longa carreira que se pode considerar discreta, por se fazer fora das habituais e totalitárias escolhas institucionais.
Poderia falar de "imaturidade" no sentido que Witold Gombrowicz elogiava no seu romance "Ferdydurke", mas é mais fácil falar da frescura, agilidade e experiência/experimentação, ou vitalidade como que espontânea desta pintura nova com que a Isabel Sabino prossegue os seus caminhos. O contrário de uma obra estabilizada em processos, onde há invenção e surpresa tanto na maneira de fazer pintura como nas pistas descritivas e ficcionais que se oferecem.
A exposição intitula-se "Nada", o que inclui vários sentidos que se descobrem em andamento e em especial numa sala negra onde a luz é intermitente e os desenhos se apagam e se lêem numa escrita luminescente.
Há por aqui rios e mares de pintura por onde nadamos. Há paisagens, onde a natureza nos atrai pelos seus caminhos e que por vezes parece convulsiva, ameaçadora. De início não considerei que ao pintar o estado do mundo aqui se inclui também a reflexão sobre o seu fim anunciado, a representação da catástrofe possível.

Está até 4 de outubro em Loures, na Galeria Municipal Vieira da Silva, Parque da Cidade de Loures ou Parque Adão Barata (ver o cartaz abaixo)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

1995, A bienal de Veneza de Jean Clair, "Identidade e Alteridade": Corpo a corpo

"Corpo a corpo" 

O 2ºartigo sobre a 46ª Bienal de Veneza de 1995, a exposição central, 

IDENTITY AND ALTERIY - FIGURES OF THE BODY 1895/1995, comissariada por Jean Clair.


EXPRESSO/Revista 24 -06 - 95

Com a aproximação do fim da década, vão multiplicar-se os projectos retrospectivos sobre a arte do século XX. Mas, se o centenário da Bienal oferecia a Jean Clair a oportunidade de uma primeira revisão da história da modernidade, o polémico director do Museu Picasso não ficou subjugado pelas regras dos inventários de obras-primas.
«Identidade e alteridade — Imagens do Corpo, 1895-1995» não é nem pretende ser uma síntese de toda a arte do século, embora tenha conseguido reunir em Veneza, graças ao prestígio do seu autor, um acervo irrepetível de 600 obras vindas de todo o mundo, do MoMA de Nova Iorque ao Ermitage de Moscovo, a qual ficará como um incontornável ponto de referência.



domingo, 19 de julho de 2026

Marlene Dumas sobre Alice Neel, em 2010

 "Alice Doesn’t Live Here Anymore"

Marlene Dumas on Alice Neel

When Alice Neel started to become better known in America in the early 1970’s, I was an art student in South Africa. By that time, in my existential search for the human face and figure, I knew the work of Bacon and Hockney and looked at the photographs of Diana Arbus and the silk screens of Andy Warhol, but no-one showed me Alice Neel. However, when I did  finally stumble on a reproduction of her work somewhere, it immediately stuck. Strangely, when I got to Holland in the late 70’s, no one there knew about her either.

I never met Alice Neel in person. It was not because she was a woman or had a difficult life that I fell for her. It was not because of her witty writings that I was attracted to her work. I only discovered that to my surprise, much later on.

 

Andy Warhol 1970     / Marlene Dumas The Painter 1994: https://www.moma.org/collection/works/101473

sexta-feira, 17 de julho de 2026

2010, Bienal Portugalarte nº 2

Restauradores, ruinas, bienal Portugal Arte 2010 

2010, Lisboa, escultura pública, "Bienal Portugal Arte 2010"

Páginas de história (da arte)

A Bienal Portugalarte

Para memória futura e para "contextualizar" a inauguração de hoje (todos ao Pavilhão de Portugal às 19h!) recuperam-se documentos históricos de grande importância para a arte em Portugal (ou documentos artísticos de grande importância para a história de Portugal). Fotografias de 2009, do anúncio público da bienal de Lisboa e Grândola. Na Central Tejo.


E ainda há vestígios mediáticos da Bienal:


https://vernissage.tv/2010/07/23/portugal-arte-10-international-survey-of-contemporary-art-in-lisbon-portugal/



quarta-feira, 15 de julho de 2026

2025, AS COMPRAS “DO ESTADO” DESDE 1976. (4) A COLECÇÃO SEC DESTINADA A SERRALVES -- E DEPOIS DE 2019

AS COMPRAS “DO ESTADO” DESDE 1976: NEM SEMPRE SE DESRESPEITARAM OS MUSEUS COMO AGORA (4)
As aquisições programadas de obras de artistas nacionais (para além das compras do antigo MNAC até c.1987, de compras para sedes de embaixadas e outros destinos estatais) foram iniciadas por David Mourão-Ferreira, então secretário de Estado da Cultura (1976-Janeiro de 1978, e 1979), sendo Fernando Calhau, funcionário da Divisão de Artes Plásticas da Direçcão-Geral da Acção Cultural (DGAC), o seu primeiro responsável.
Nos anos 70 e 80, "o compromisso entre a ação do Estado e a Coleção teve maior continuidade" (cit. A. Carita, abaixo), através de Fernando Calhau e Fernando Pernes, no quadro do projecto do Museu de Arte Moderna no Porto, que viria a ser Serralves. E em 1985, a SEC apresentou a sua colecção destinando-a expressamente ao MAM do Porto.
Em 1995, o previsto MAM surge designado como Museu Nacional de Arte Contemporânea, fixado o limiar dos anos 60 como programa de acção, em articulação com a periodização prevista para o Museu do Chiado, instalado em 1994, após o fecho do MNAC em 1987.
V. Todolí fixa, em 1997, um novo programa cronológico para a colecção de Serralves, que passa a ter por limiar o final da década de 60, de acordo com uma suposta «mudança de paradigma» que será exemplificada na exposição inaugural «Circa 1968». Através de novo protocolo com o MC, Serralves abdica das obras que lhe tinham sido antes atribuídas e não se enquadram nesse período, a favor dos Museus Soares dos Reis e do Chiado, mas a partilha com este foi um processo tempestuoso. Entretanto um conjunto de obras foi entregue em depósito à Câmara de Aveiro, num episódio mal esclarecido.


2015, Colecção SEC, artigos de Vanessa Rato no PÚBLICO

 Uma viagem ao acidentado mundo da Colecção SEC

Vanessa Rato 

PÚBLICO, 25/07/2015 - 07:58


NÃO PEDI AUTORIZAÇÃO À VANESSA RATO E AO PÚBLICO PARA TRANCREVER OS ARTIGOS, MAS SÂO TEXTOS ESSENCIAIS PARA A HISTÓRIA DA COLECÇÃO SEC/MC. À DATA AINDA SE INVESTIGAVA


Muitas peças estão por localizar. Outras têm entradas como a misteriosa “Gaveta Lis” que ninguém na tutela parece conhecer. Poucos parecem conhecer também a própria Colecção SEC. O PÚBLICO foi consultar o “dossier verde” onde se elencam as suas obras. Uma viagem cheia de acidentes de percurso.


    • Mais


Foto: Parte da Colecção SEC está agora em exposição na nova ala do Museu do Chiado (foto Daniel Rocha) 


Uma exposição e um catálogos esquecidos de há 40 anos

A COLECÇÂO SEC EM 1985


É um volumoso dossier de capas verdes – talvez mais de 20 centímetros de altura. Lá dentro, centenas e centenas de páginas com entradas de obras de arte. Número de registo, nome do autor, título da obra, técnica e suporte, data de realização, valor de aquisição e actual localização – quando conhecida.

Ao longo das últimas duas semanas a Colecção da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) tem estado ao centro de acesa polémica. Foi a partir da demissão do director do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado e da "disputa gestionária" travada entre esta instituição e o Museu de Serralves.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

1995, MENEZ, "Nome: Menez"

Nome Menez 

Expresso, 15-04-95 

 

Três quadros agora expostos na sede da CGD, e pertencentes à respectiva colecção, dão a ver a pintura de Menez mais e melhor do que podem as palavras, e são já um espaço de memória, no momento da sua morte.

«As suas imagens são uma encantação do desconhecido e têm em si suspenso o reflexo duma profundidade inomeada e oculta», escrevia Sophia de Mello Breyner, apresentando-lhe em 1954 a primeira exposição. Ou, Maria Velho da Costa, no catálogo de uma exposição na Quadrum, em 1977: «Quanto da visão é a sabedoria do véu. Vivacíssimo o olhar sob lágrimas reconhece a primeira claridade, ao tempo em que as coisas não haviam perdido pela evidência o seu destino de presença plena, a decifrar dos nomes». E ainda, segundo Júlio Pomar, em 1980: «O mundo em que Menez consente em mostrar-se — ou que ela re-encontra e nos propõe — ergue-se e define-se fora dos hábitos que obrigam as coisas a escolherem-se um nome».





1999 na 111, 2009 em Algés: MENEZ

 Menez no Museu

PALÁCIO ANJOS, ALGÉS, 2009 

ver a menez

foto *L: Menez no Centro de Arte Colecção Manuel de Brito, Palácio Anjos, Algés

Quando os museus oficiais são privatizados pelos respectivos directores (Chiado), ou quando se despejam ao sabor de insondáveis devaneios (Gulbenkian), crescem as responsabilidades de outro tipo de instituições, menos centrais e, afinal, mais sujeitas ao escrutínio público. É o caso  do Centro de Arte de Algés que acolhe a Colecção Manuel de Brito – o único panorama (mesmo parcial) do século XX que é agora visitável em Lisboa (que os estudantes estudem artes através de cromos assegurará sem sobressalto a descendência  das actuais e invisuais autoridades). 

 Mostram-se as primeiras décadas de 1900 através de um acervo de variável importância, de bastante irregularidade mesmo, quanto à representatividade de obras e autores, mas a uma colecção pessoal tem de se começar por agradecer que exista e se exponha. As insuficiências são também as dos próprios artistas, que, muitos deles, não  encontraram condições nem ânimo para ultrapassarem as atávicas dificuldades. O panorama é diversificado e este não é o melhor período da colecção.

Duas obras que antes (em 1994, no Museu do Chiado) não se mostraram, testemunhando a cumplicidade inicial, no Porto, entre António Quadros (A Galinha Pedrez) e Eduardo Luiz (S./T., ambas certamente de 1959) são surpresas com interesse – a tela de Charrua, terceira na parede, deveria procurar outras companhias (apesar dos azuis).

Mas a mostra dedicada a Menez é agora o que mais importa, começando a ilustrar o que foram as "escolhas electivas" do galerista, tal como se designaram os núcleos autorais mais extensos na apresentação da colecção em 1994, por ocasião de Lisboa capital cultural. E começa por surpreender a quantidade das obras reunidas, de pintura sempre, sobre tela e papel, e num caso de moderna tapeçaria: 13 telas numa sala e 24 papéis e obras diversas noutra sala,  mais algumas peças em vitrine com catálogos e livros.

1990, MENEZ entrevista

 MENEZ: a entrevista em 1990

MENEZ: antes das palavras


Como fala um pintor daquilo que pinta, se detesta o marketing das teorias e das poses, se recusa o cerco dos nomes e a aparência mais fácil das coisas? Menez acaba de ser distinguida com o Prémio Pessoa 90 e a sua pintura oferece-se numa admirável retrospectiva apresentada na Gulbenkian.


Entrevista de Inês Pedrosa e Alexandre Pomar, Expresso Revista de 22 de dezembro de 1990.

IMG_1205

QUASE todos os quadros dela se chamam «Sem Título», porque não se podem chamar. Ela não quer dar-lhes nomes, compreendê-los, cercá-los. Ama demasiado a pintura, teme tranquilamente as palavras. Não quer dizer nada que assuste os segredos da vida.


domingo, 12 de julho de 2026

MNAC, 1938, uma nova sala para os modernistas

 


data desconhecida

1938































1990 / 12 julho 1994, Inauguração do Museu do Chiado, ex-MNAC

Salvo pelo fogo, 12 julho 1994 (inauguração do novo museu de Jean-Michel Wilmotte)

O próximo MNAC, 3 jan 1990 (com hesitações quanto ao mapa cronológico e pressões de Serralves)


e mais história desde 1987 a 1994 (encerramento compulsivo, mudança de governos, e os protagonistas)


e lá mais abaixo, já em 1995, memória do projecto Alcântara


--------------


"Salvo pelo fogo"


12 Julho 1994 - EXPRESSO Revista pp 24 a 27


O  MUSEU ESTAVA ENCERRADO À DATA DO INCÊNDIO E RENASCEU DAS CHAMAS  QUE NÃO O ATINGIRAM COM UM MAGNÍFICO PROJECTO OFERECIDO PELA FRANÇA 



 

SE NÃO fosse o incêndio do Chiado, se não fosse a Capital Cultural, que teria acontecido ao velho Museu Nacional de Arte Contemporânea, agora rebaptizado Museu do Chiado? 

É o primeiro edifício, mesmo ao lado das obras de Alvaro Siza, a marcar o novo Chiado. Renasceu das cinzas que não chegaram a atingi-lo na noite de 25 de Agosto de 1988 e vai ser inaugurado no próximo dia 12, para ficar como uma das memórias de Lisboa 94, tal como as obras do Museu de Arte Antiga e do Coliseu, ou o «lifting» da Sétima Colina. 

No mesmo local, aparentemente quase inalterado, da Rua Serpa Pinto, situa-se agora uma excepcional obra de arquitectura, que constitui - para além da revalorização do antigo recheio do Museu, balizado por um século, de 1850 a 1950, e da prometida actividade futura da galeria de exposições temporárias, que abrirá com os calotipos do pioneiro Frederick William Flower, apresentado pelo Arquivo Nacional de Fotografia - uma intervenção exemplar no centro histórico da cidade. 


1988 e 1989, do MNAC ao Museu do Chiado em 1994. e 2010

 Antes do Museu do Chiado, 1988 e 89

BLOG 2010


A comemoração do centenário do decreto fundador do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), de 26 de Maio de 1910 (que também criou legalmente o Museu Nacional de Arte Antiga, com a mesma determinação republicana), proporcionou hoje a oportunidade de um útil exercício de rememoração pública por parte dos principais implicados na inauguração do Museu do Chiado, a 12 de Julho de 1994, que àquele sucedeu no mesmo espaço, muito renovado, após o respectivo encerramento compulsivo em Outubro de 1987 e, depois, a retirada da colecção por ocasião do incêndio de 1988.




As memórias foram as de Raquel Henriques da Silva, 1ª directora do Museu do Chiado, que apresentou as linhas gerais de uma interessante tese sobre o poder dos artistas (vivos) no princípio do séc. XX, dos naturalistas e do Grupo do Leão, que fazem a SNBA e o MNAA; 

de Simonetta Luz Afonso, 1ª presidente do Instituto Português de Museus e também comissária de Lisboa Capital Cultural em 1994, depois de idênticas funções na Europália'91 (um trânsito de 91 a 94, ...os supostos ou alegados "anos de ouro" de Santana Lopes, com muitas polémicas políticas e de que datam quase todos os novos equipamentos culturais lisboetas); 

e António Lamas, presidente do Instituto Português do Património Cultural, que encerrou o MNAC e iniciou o processo que conduziu ao novo Museu do Chiado (por sinal, também ia encerrando o Museu de Arte Popular, o que é outra história). 

Por último, também do arquitecto João Herdade, do IPM/IMC, que acompanhou a construção do projecto de Jean-Michel Wilmotte, parte decisiva em todo o episódio.


sábado, 4 de julho de 2026

2002, David Golbatt no CCB: "Documentário crítico"

"Documentário crítico" 

 

A sociedade da África do Sul fotografada por David Goldblatt 

 

David Goldblatt "FIFTY-ONE YEARS"

CCB, até 5 de Janeiro

 

Expresso 23/11/2002





https://www.macba.cat

 

        (Em 2008, Intersections Intersected, Fundação de Serralves)


Na grande exposição sobre a fotografia em África que Okwui Enwezor comissariou em 1996 para o Museu Guggenheim («In/sight: African Photographers, 1940 to the Present») apareciam em lugar de destaque a revista «Drum» e os fotógrafos que, a partir dos anos 50, deram testemunho do aparecimento de uma nova cultura sul-africana cada vez mais distanciada das raízes tribais e também do seu crescente confronto com o horror do regime do «apartheid».


Jürgen Schadeberg, emigrante alemão, foi o primeiro animador fotográfico desse magazine dirigido à população negra, que ao longo das décadas de 50 e 60 se tornou uma publicação quase-continental, com edições na Nigéria, Gana e depois Estados Unidos e Índia. Pioneiros como Eli Weinberg (nascido na Letónia), o lituano Leon Levson e Ernest Cole, seguidos por jovens foto-repórteres negros como Bob Gosani ou Peter Magubane, acompanharam as transformações do quotidiano popular, a emergência dos primeiros líderes e a repressão imposta pelas leis segregacionistas, em carreiras marcadas por longas prisões e exílios forçados. Nos anos das lutas decisivas, fotografar as zonas de «agitação» era um acto criminoso que podia ser punido com penas até dez anos.


David Goldblatt, participante na mesma exposição em Nova Iorque (ao lado do moçambicano Ricardo Rangel), produziu a partir das mesmas datas uma obra documental de características diferentes, distanciada da linha da frente das lutas políticas e da actualidade jornalística, com a reserva de um olhar independente mas empenhado, que se tornou profundamente influente na compreensão das tensões que atravessaram e atravessam a sociedade sul-africana.

 

A magnífica retrospectiva de 51 anos de trabalho que faz escala no CCB, no âmbito de uma itinerância iniciada em 2001 na AXA Gallery de Nova Iorque que se prolongará pelo menos até 2004, na Cidade do Cabo, com organização do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, é apresentada por Corinne Diserens e pelo mesmo Okwui Enwezor, o nigeriano que foi entretanto director da última Documenta de Kassel. Selecção extensa de uma obra mais marcadamente pessoal que militante, apesar do seu intrínseco significado político, a mostra é um poderoso testemunho sobre a sociedade sul-africana e a sua transformação ao longo das últimas décadas, construído graças a uma prática do documentário fotográfico entendido como aprofundada exploração crítica das realidades sociais e das suas contradições profundas. Mas a exposição e o seu circuito são igualmente uma prova de como a grande tradição documental da fotografia, que por algum tempo se quis declarar extinta, tem vindo a ganhar um espaço crescente nos meios da arte contemporânea.


Filho de emigrantes judeus lituanos fugidos às perseguições do final do século XIX, Goldblatt nasceu em 1930, nos arredores mineiros de Joanesburgo. Interessado pela fotografia desde muito cedo (as primeiras imagens vêm desde 1948, numa prática de rua aprendida com a «Life» e a «Picture Post»), tornou-se fotógrafo «freelance» em 1963, após ter vendido o pequeno comércio de roupas do pai, e trabalhou para a empresa mineira Anglo American Corporation e para magazines empresariais, que se vêem também no CCB. Faz falta, porém, uma cronologia que situe o visitante no contexto histórico que vai da imposição das primeiras leis do «apartheid», em 1948, às eleições democráticas de 1994, passando pela instauração dos passes para os negros em 1951 e pela criação das regiões «independentes» («homelands» ou bantustões) a partir de 1958, impondo as grandes deslocações da população não branca que Goldblatt acompanhou em algumas das suas séries.


 A um primeiro livro publicado em 1973 em colaboração com a escritora Nadine Gordimer, dedicado às terríveis condições de trabalho nas minas de ouro (On the Mines), seguiu-se em 1975 a edição de um ensaio fotográfico longamente trabalhado sobre a população branca de origem holandesa instalada desde meados do século XVII na África do Sul (Some Afrikaners Photographed). Com esse projecto, que assegurou a notoriedade internacional de Goldblatt a partir da sua exposição na Photographer's Gallery de Londres e da entrada nas colecções do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, define-se a direcção principal de um trabalho concentrado «sobre a existência das pessoas vulgares e sobre os pequenos pormenores da vida quotidiana que desvendam tão bem a estrutura interna da injustiça e a essência daqueles que a impõem ou a combatem», como escreveu Lesley Lawson na excelente monografia publicada em 2001 na colecção «55» da Phaidon Press. Era também de uma reflexão autobiográfica que se tratava nesse trabalho, a partir da sua particular condição de branco hostilizado pelo anti-semitismo dos Afrikanders, orientada para a atenção minuciosa sobre os discretos sinais contraditórios inscritos nos retratos, nas situações e nos cenários aparentemente mais banais.


Depois dos inquéritos humanos que realizou nos subúrbios de Joanesburgo, que na mostra se organizam em vários capítulos locais («Intersecções»), Goldblatt dedicou-se a um inventário exaustivo da paisagem construída do país, interpretando a história recente através da arquitectura e dos seus símbolos (South Africa: The Stucture of Things Then), e os últimos trabalhos, que utilizam já a cor tratada digitalmente, acompanham as dificuldades sociais explosivas que marcam a actualidade sul-africana.