segunda-feira, 13 de julho de 2026

1995, MENEZ, "Nome: Menez"

Nome Menez 

Expresso, 15-04-95 

 

Três quadros agora expostos na sede da CGD, e pertencentes à respectiva colecção, dão a ver a pintura de Menez mais e melhor do que podem as palavras, e são já um espaço de memória, no momento da sua morte.

«As suas imagens são uma encantação do desconhecido e têm em si suspenso o reflexo duma profundidade inomeada e oculta», escrevia Sophia de Mello Breyner, apresentando-lhe em 1954 a primeira exposição. Ou, Maria Velho da Costa, no catálogo de uma exposição na Quadrum, em 1977: «Quanto da visão é a sabedoria do véu. Vivacíssimo o olhar sob lágrimas reconhece a primeira claridade, ao tempo em que as coisas não haviam perdido pela evidência o seu destino de presença plena, a decifrar dos nomes». E ainda, segundo Júlio Pomar, em 1980: «O mundo em que Menez consente em mostrar-se — ou que ela re-encontra e nos propõe — ergue-se e define-se fora dos hábitos que obrigam as coisas a escolherem-se um nome».






Naqueles três quadros recentes, que são uma síntese possível da última década da sua obra, até à mais recente exposição de 1994, o véu parece abrir-se a outra claridade em que os nomes se tornam possíveis, mas «a pintura é (ainda) o meio de transmitir a visão que não se deixa apreender», como escreveu Fernando Gil em 1990. Olhando-os na sua sequência temporal, assiste-se  a uma desocultação crescente da mancha de cor como paisagem ou cena de interior (o atelier) e as linhas recortam com nitidez a figura num cenário em que diferentes tempos se encontram.  

Nessa definição aparentemente apaziguada de cenários e narrativas é afinal da mesma «encantação do desconhecido» que se trata, quando a pintora interroga os espaços labirínticos do lugar do seu trabalho («pintura da pintura», de novo F. Gil) ou quando se revê a si própria entre a imobilidade fragmentada das estátuas, já enfrentando a morte numa última pintura secreta, apesar das aparências. 


Como processo de aprofundamento da pintura e da liberdade de pintar se viveu assim uma das mais exaltantes aventuras de uma década em que os interditos caíam. Tornou-se então possível ver que o palco da tela se abria ao campo do vivido e que se desvendassem os temas e se revisitassem os modelos antigos da pintura, em séries como a «Descida da Cruz», «S. Jorge e o Dragão», as naturezas mortas e as alegorias das Três Idades, até aos cenários de catástrofe que explicitamente referem o Terramoto de 1755, motivado pelos projectos para os azulejos da estação de Metro do Marquês, a inaugurar em breve. Numa entrevista dada ao EXPRESSO, Menez diria: «Já desde 1973 que fiz algumas coisas figurativas, coisas pequeninas... Mas em grande tinha medo de não saber fazer. (1990, Inês Pedrosa/Alexandre Pomar>»

 

Menez (Maria Inês Ribeiro da Fonseca, então Menez Leitão) expôs pela primeira vez em 1954, na Galeria de Março, a convite de José-Augusto França, a quem Ruben A. a apresentara. Nascera em Lisboa a 6 de Setembro de 1926, mas vivera até aos 24 anos em Buenos Aires, Estocolmo, Paris, Suíça, Roma e Washington, acompanhando as deambulações diplomáticas da família. Se o desenho fazia parte dos afazeres de uma menina prendada que nunca foi à escola («tive umas vagas lições de pintura»), é como autodidacta que descobre e se dedica à pintura. 


Perante as primeiras obras («Menez começou a pintar na altura em que certa arte, por se interditar a descrição, punha no seu index as relações — de sujeito a objecto — entre o chamado mundo exterior e o quadro», J. Pomar, 1980), falou a crítica de uma «abstracção» neo-impressionista, pela sugestão de um espaço paisagístico ordenado pela luz. A fórmula teria curso prolongado, ocultando outros sentidos que se iriam revelando e escondendo na sua pintura, como interrogação, angústia e exorcismo. 


Bolseira em Londres nos anos 60, antes e depois de um segundo prémio na exposição Gulbenkian de 1961, Menez foi entretanto apresentando sucessivas exposições individuais, com demorados intervalos, numa presença íntima e discreta que se revelaria sempre incómoda para os discursos críticos dominantes, mais admirada por pintores ou poetas e, naturalmente, também pelos coleccionadores. A sua «ruptura» dos anos 60, bem patente na irrupção de figuras que tiveram o nome de Princesa Brambila e Henrique VIII, não era a que constava dos breviários em uso. «Não percebo muito a abordagem que eles (os críticos) fazem da arte; eles dizem coisas sobre a pintura como se ela  fosse uma coisa completamente desligada de tudo o que é importante na vida», diria por sua vez a pintora (1990). 

Mais regularmente mostrada na década de 80, em sucessivas exposições na Galeria 111, a sua obra pôde ser vista por inteiro em 1990 na retrospectiva que a Fundação Gulbenkian lhe dedicou (Menez diria que «é a única maneira de se conhecer um pintor»), revelando a coerência interna do trabalho feito desde 1954, até uma última série de peças inéditas. O Prémio Pessoa foi-lhe atribuido nesse ano. 



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