quinta-feira, 2 de julho de 2026

2026, CACE COMO? CACE O QUÊ? sobre a "colecção do estado " e o armazém de Alcabideche

 CACE COMO?

O “Curador” da Colecção de Arte Contemporânea do Estado é uma entidade ou estrutura unipessoal integrada na Museus e Monumentos de Portugal EPE, e esta tem por competência gerir todos os museus do Estado, as aquisições aprovadas para todos esses museus por uma comissão de directores, bem como a circulação nacional e internacional de obras públicas e particulares. O Curador depende da ministra da Cultura que o/a nomeia (depois de ter sido primeiro “curador” o David Santos, a actual “curadora” nomeada em Conselho de Ministros veio a ser confirmada por um concurso à maneira) e a ministra aprova (assinando de cruz) as aquisições de obras de arte a adquirir pelo ou para a CACE.
O Curador (agora curadora) que está estabelecido nos Estatutos da MMP EPE nomeia uma comissão de aquisições que faz as suas compras anuais para a agora chamada CACE. As compras de 2025 mereceram fundadas dúvidas e reclamou-se um inquérito.

Entretanto, a Curadora decidiu e a ministra aprovou que o armazém onde se guardam as obras adquiridas e outras que vêm da antiga Colecção SEC , sita em Alcabideche (era Rua das Fisgas, agora promovida a Alameda das Fisgas, Alcoitão), deve projectar-se à condição de centro de arte. Foi o Art Centre da Fundação Ellipse do falido e falecido João Rendeiro. Não é Museu mas um edifício de reservas visitáveis por marcação onde o “público” poderá conhecer os respectivos bastidores.
A Curadora Sandra Vieira Jürgens é uma figura de grande ambição pessoal que tomou conta da antiga Colecção da SEC ampliada por um programa de apoio aos artistas e compras de obras contemporâneas que vem de 2019.

O protagonismo (a respeitabilidade) dos museus do estado, o seu papel próprio e os seus programas de compras (aliás sem verbas atribuídas) foram substituídos pela arbitrariedade e incompetência da Curadora. E pela insegurança da ministra.

Carlos Botelho, Os filhos do artista. Compra da Comissão de Aquisições do MMP.EPE




Fernando Lanhas, uma obra adquirida pelo Museu do Chiado em 1974 e obras em depósito 


Maria Beatriz, doação de 2025 ao Museu do Chiado





CACE QUÊ?
Devemos ver a actual colecção de arte contemporânea do estado e a sua curadoria unipessoal como uma perversão da política para os museus. Uma aberração da autoria de maus políticos ignorantes.
Foi Colecção SEC quando se comprou nos anos 70 para o então futuro museu de Arte Moderna do Porto que veio a ser de Serralves e de Arte Contemporânea, devolvendo várias aquisições. Ao tempo de Fernando PERNES e Fernando Calhau. Depois houve compras ocasionais feitas pela Direcção Geral das Artes e o efémero Instituto de Arte Contemporânea . Desde 2019 o governo de António Costa instado por artistas amigos criou um programa de apoio aos artistas e de compras de obras sem destino. E sem critério museológico e patrimonial. Algumas compras de 2025 foram escandalosas e suspeitas. Pediu-se inquéritos.

Assim estamos desde 2019 com posteriores decisões absurdas que a ministra Dalila Rodrigues tentou contrariar criando um Fundo comum (o  Fundo para a Aquisição de Bens Culturais ) para as compras dos museus e de arte contemporânea (sendo esta uma distinção problemática.). (Portaria n.º 230/2025/1, de 22  de maio Publicação:Diário da República n.º 98/2025, Série I de 2025-05-22). Dotou-o com um milhão de euros. Depois foi esquecido. (1)

Deve ver-se que o único museu nacional de arte moderna e contemporânea foi criado em 1911 pela República e depois recriado em 1994 como Museu do Chiado (após o incêndio e por ocasião da Capital Cultural Lisboa 94). Serralves e o chamado MAC-CCB, que aloja em especial a Colecção Berardo e mais algumas obras que lhe foram atribuídas por poderes públicos, além da colecção particular do advogado activo na zona franca da Madeira (Teixeira de Freitas), que me dizem ir vendendo o que tem nas reservas do CCB (foi um erro pôr o estado a pagar as despesas do depósito). Note-se que o "Plano estratégico" do CCB nem menciona o MAC-CCB: https://www.ccb.pt/wpPlanoestrategicoCCB_2026-2030.pdf
São museus que dependem de fundações, uma com parceiros privados, e fundos públicos, outra paga pelo estado e sendo um complexo urbano em que o centro de exposições coexiste com o centro de espectáculos e um centro de serviços e negócios, o Centro de Congressos e Reuniões.

Percorra-se então o museu do Chiado, que agora expõe parte da sua coleção: encontram-se obras adquiridas pelo Estado com destino ao Museu, em muito diversas datas e desde o início - as últimas são três pinturas de Carlos Botelho que os herdeiro aceitarem vender pelo preço de uma só, em desfesa da obra do pintor e do museu que o expõe;
encontram-se inúmeras doações de artistas, de famílias e herdeiros, e de particulares que gostam deste museu e confiam nas suas direcções (aponto a grande doação recente de Alberto Caetano, e de algumas obras q foram do acervo de Júlio Pomar, e também eu ofereci algumas coisas) - essa é uma das regras e das práticas da formação das colecções públicas - mesmo em Portugal onde a tradição das doações são é grande;
encontram-se muitas obras de particulares em depósito, de maior ou menor duração, com ou sem promessa de doação - obras escolhidas que enriquecem a exposição da colecção e o percurso histórico que lhe compete mostrar;
encontram-se obras que se identificam como depósitos da chamada colecção do Estado: o grande quadro de Menez por exemplo.
Um museu é assim e a formação de colecções públicas faz-se assim, de vários modos e de vontades ou dedicações diversas. CACE é todo o contrário, reduz-se a aquisições ocasionais e arbitrárias, destinadas a contar nas reservas "visitáveis", diz-se.
Um Centro em Alcabideche onde se diz reunirem-se as obras que pertencem ao estado é um disparate absurdo. Mostrar os “bastidores” da colecção só podia sair da pobre cabeça ambiciosa de uma “Curadora” alheia à formação, à orgânica e à disciplina dos museus, a Sandra Vieira Jürgens de seu nome.
Pretender que a circulação internacional da arte contemporânea portuguesa teria como base a tal CACE é um atestado de ignorância e mais uma vez é a desqualificação dos museus que deveriam organizar as respectivas digressões, e estabelecer parcerias com os seus congéneres.
O buraco negro da ex-Fundação Ellipse, um fundo de investimento arte do BPP de Rendeiro

As críticas ao projecto de Alcabideche anunciado em dezembro de 2025 foram muitas e qualificadas. A ministra deixa correr.

(1) Dalila Rodrigues comentou o meu texto do facebook:
"A Museus e Monumentos de Portugal, uma Entidade Pública Empresarial, nunca deveria ter sido criada. Privatizar a gestão dos Patrimónios e da arte contemporânea é uma aberração. Ao enquadramento jurídico-administrativo acrescem poderes pessoais e interesses instalados."

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