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terça-feira, 28 de abril de 2026

DO ARQUIVO: 1990, "O conceito de desenho", Sol LeWitt no Belém Clube-Museu de Fernando Gonçalves. E em 1993 o Zutzu com Pedro Cabrita Reis

"O conceito de desenho"

expresso 30 01 1990

Um painel de Sol LeWitt no Belém Clube-Museu de Fernando Gonçalves (ex São Jerónimo - depois Zutzu...) com intervenção de Luís Serpa na compra e instalação de obras de arte, e arquitectura de interiores de Manuel Graça Dias.

        foto Luiz Carvalho / Expresso


Em 1985, a «Exposição-Diálogo» trouxe ao Centro de Arte Moderna duas obras de Sol LeWitt <1928-2007: https://en.wikipedia.org/wiki/Sol_LeWitt > Eram grandes estruturas modulares que desenhavam no ar uma sequência de cubos brancos. Vinham dos Museus de Estocolmo e de Berlim.

Agora, uma outra peça de Sol LeWitt foi instalada em Lisboa. Para ficar. Está no Belém Clube-Museu e ocupa toda uma parede do respectivo restaurante. E um «desenho de parede» (a designação é a atribuída pelo autor, embora também se pudesse chamar-lhe pintura mural), dominado pelo volume geométrico de uma pirâmide cujas faces se definem por planos de cores diferentes: uma tensão paradoxal ou um movimento de vai-e-vem é estabelecido entre a afirmação do carácter plano da parede acentuado pela porosidade do gesso, que absorve uniformemente as cores e a representação do volume da pirâmide. Trata-se, tal como no caso das peças mostradas em 1985, de uma obra bem representativa da produção de Sol LeWitt.

Americano nascido em 1928 e instalado em Nova York, começou a expor nos anos 60 associado aos minimalistas como Carl Andre, Donald Judd e Robert Morris, mas o seu trabalho com as formas e estruturas primárias rapidamente se diferencia numa direcção declaradamente conceptual: mais do que os espaços de percepção interessam-lhe as noções de organização e permutação, as formas mentais, e a interrogação sobre a natureza da criação artística.

A repetição e a variação sistemática, por um lado, a acentuação do momento da deci.são e do projecto, por outro, são vectores essenciais para Sol LeWitt, para quem os anos de trabalho como desenhador no atelier do arquitecto I. M. Pei parecem ter exercido uma forte influência. Dirá LeWitt que o essencial é «inventar um sistema para tomar decisões», que «todos os planos e decisões têm de ser realizados de antemão e que a execução é uma questão mecânica. A ideia transforma-se numa máquina que produz arte» ("Paragraphs on Conceptual Art", 1967). A obra de arte não é apenas o resultado final, mas também o processo da sua concepção. Por isso, as suas obras, designadamente os desenhos murais, podem ser executados por assistentes e são acompanhados por diagramas e por certificados de autoria - e é nestes que se inscreve a assinatura do artista.

A predominância do processo de criação sobre o objecto plástico não impede, contudo, que aos «wall drawings» mais recentes se reconheça a forte presença física e visual.

As questões da cor e da forma, e também a relação específica dos desenhos murais com o espaço concreto em que se inserem, ganham uma nova importância. Se as preocupações conceptuais permanecem (em especial a sua natureza serial e o método de criação, que segue um sistema de dados precisos), o efeito decorativo, nomeadamente no caso da obra do Clube-Museu, não pode ser negado.

Sol LeWitt assinala numa entrevista recente que «o emprego da cor conduziu a algumas transformações e a uma espécie de relachamento em relação ao sistema anterior, mais rígido» (Artpress, Fev. 1987). Por outro lado, curiosamente, adianta que se considera a si próprio «um artista no sentido tradicional do termo, como o era há 15 anos» e acrescenta: «Há poucas diferenças entre as ideias artísticas de hoje e as do pintor pré-histórico».


Já instalada no Clube-Museu está igualmente uma série de fotografias de Clegg & Guttman, dois jovens artistas também de Nova York que utilizam a fotografia numa direcção dita neo-conceptual: são retratos de americanos, visivelmente pertencentes a «alta sociedade», em fotografias de encomenda rejeitadas pelos clientes. A sua colocação no corredor de entrada no Clube, como se de membros fundadores se tratasse, exerce um óbvio efeito. Posteriormente serão instaladas outras outras já projectadas de Joseph Kosuth, Gerhard Merz, Matt Mullican e Juan Muñoz, artistas que já expuseram em Portugal, nas galerias Cómicos/Luis Serpa e Atlântica.

Entre as designações de Clube e de Museu estabelece-se, no entanto, uma efectiva contradição: a primeira impõe o local como um local reservado aos sócios. A privacidade do Museu alarga-se, naturalmente, à programação de vídeo já em exibição (embora esta, em geral seja também apresentada noutros locais pelo NCI Núcleo de Cineastas Independentes). Entretanto, particular expectativa precede a estreia, 3ª feira, do «foto romance» A Corps Perdu, de Paulo Nozolino e Vasques Montalban.



Que é feito da pintura de Sol Lewitt? Resistiu aos infortúnios do espaço? Quem possui o certificado de autoria assinado pelo artista?

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Cabrita Reis no Restaurante Zutzu, 1993

expresso 03-27-93


Pedro Cabrita Reis tem desde o passado sábado uma obra instalada num espaço exterior de Lisboa. A encomenda é do Restaurante Zutzu, inaugurado em Janeiro sobre o mercado da Rua de São Bento (R. Nova da Piedade 99), e "as alquimias da cozinha" estiveram, naturalmente, na base da sua concepção: é um grande painel rectangular e vertical com cinco por três metros, cuja superfície plana, em cobre, é animada por autênticos tachos de diferentes dimensões, formas paralelipipédicas e tubagens, sempre igualmente em cobre, ou também de borracha preta no caso de alguns tubos que estabelecem ligações entre os objectos. 

A obra (de "arte pública", para usar uma terminologia em voga, mas pouco precisa) eleva-se a partir da porta do restaurante - que foi desenhada, tal como o seu interior, mobiliário e serviço de louças, pelos arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira - até se destacar sobre o início do telhado. Dotada de alguns pontos de luz própria, esta escultura de parede, monumental, ganha assim uma presença diversa de dia e de noite. 

Instalado no local no primeiro dia de primavera, o trabalho de Cabrita Reis será substituído no início do Outono por outra obra da autoria de Julião Sarmento, de acordo com o projecto do proprietário do restaurante, Fernando Gonçalves, que esteve anteriormente ligado ao São Jerónimo e ao Belém Clube-Museu: a rotação das peças deverá seguir o seu curso bi-anual e todas elas serão realizadas com vista à posterior desmontagem e reutilização noutros locais. "O destino das obras não será uma garagem", garante Fernando Gonçalves, cujas intervenções mecenáticas se têm alargado ao patrocínio de exposições. 

Quanto à peça, pode dizer-se que cumpre eficazmente a função de criar um acontecimento sobre uma fachada de certa pobreza arquitectónica, não se limitando a constituir um simples elemento decorativo. É um objecto de forte visibilidade, que interrompe a parede sem excessiva agressividade, e cujos elementos referem sem complexos a actividade que se desenvolve no interior, ao mesmo tempo que prolongam o vocabulário metafórico de Cabrita Reis, depois de outras obras onde explorou as ideia da casa ou o interior doméstico, a água e a sua circulação, ou o hospital e a presença da morte. 

Sobre o restaurante, acrescentar-se-á que não se tem dedicado apenas a cuidar do cenário, e que as incursões feitas se revelaram igualmente satisfatórias. Mas essa é matéria para outro especialista.