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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

2026, Graça Morais em Algés (Palácio Anjos) e no Expresso: entrevista de João Pacheco , 31 07 26

 8 páginas merecidas.

Graça Morais não faz uma pintura amável, 'delicada', decorativa, fácil, lúdica ou bonitinha. Mas tem uma imensa multidão de admiradores e uma grande projecção mediática que não passa pela "crítica especializada". Muita da sua pintura é crua, invulgar, estranha mesmo, desafiadora, singular e mais idiossincrática que alinhada por estilos formais vulgarizados, é ancorada em realidades locais distantes, vindas de profundezas culturais de Trás-os-Montes sem ser folclórica, e sem deixar de ser uma produção culta com marcantes afinidades internacionais (anos 80, os 'genius loci' ou espírito do lugar, a transvanguarda, Clemente) .
As suas entrevistas ajudam a abrir caminhos para melhor se entenderem os seus temas e as suas figuras, por quem é distante das suas raízes, e também as suas preocupações face ao estado do mundo, que tem sido outra vertente de intervenção, mas para lá das descrições e interpretações tudo se joga na intensidade visível da pintura e dos seus materiais, na veemência sensorial dos retratos, humanos e animais, na força das imagens que estabelecem cumplicidades entre personagens e espectadores.

João Pacheco faz uma boa entrevista na presente edição da Revista (31 de Julho) e já tinha apresentado na Revista de 4 de Abril - "A beleza da natureza, o horror da guerra, a memória da mãe" - a antologia que se vê ainda no Palácio Anjos, ate 13 de setembro.
A chamada crítica vive de patrocinar casos menores e arreda-se, como acontece no Público, e os museus mais institucionais nunca lhe abriram as portas. Face à arte que "reflecte" sobre ideias de arte e repete as receitas secas de estilos colectivos com décadas de envelhecimento, o mundo da Graça Morais (mulher e pintora de figuras) é uma diferença violenta. Demasiado difícil? demasiado admirada? demasiado popular? demasiado grande?

Na semana seguinte o Celso Martins escreveu na Revista sobre a exp em Algés





2026. Alice Neel e Isabel Bishop.

 Isabel Bishop e Alice Neel.

Fazem-se grandes retrospectivas de obras individuais (e individualizadas), mas não se sabe nem se mostra nada do que faziam outros (outras) artistas na mesma época, com afinidades e distâncias. Cultiva-se uma historia de bolhas e de génios, de fenómenos e de excepções mediatizáveis (de "descobertas"), sem terem rectaguardas nem companhias, sem raizes ou confrontos com os movimentos activos no início ou no curso da respectiva carreira. Sem catálogos editados a tempo (é o caso de Serralves) a falta de informação de contexto é mais abissal.

A.N. data não indicada / abaixo 1974


2005, Madrid, Museo Thyssen, Die Brucke, expressionismos, "Uma ponte centenária". E Paula Modersohn-Becker

Uma ponte centenária

Die Brucke, centenário em Madrid

             Cem anos de Die Brücke comemorados em Madrid no Museu Thyssen

Expresso/ Actual de 09 Abril 2005

    O ano de 1905 é apontado como a data de começo do século XX, quando se procura localizar com algum acontecimento preciso uma dinâmica de viragem no terreno das artes plásticas. A tradição francesa toma como início da era das vanguardas o escândalo desencadeado na imprensa à volta da sala que reuniu as obras de Matisse, Marquet, Derain e Vlaminck, no Salão de Outono de Paris, em Outubro; alertado a tempo, o Presidente da República recusou-se a comparecer à inauguração, e a polémica em torno da «jaula das feras» («la cage aux fauves») deu origem, como sucedera com o impressionismo, à designação de uma nova estética.

Poucos meses antes, precisamente a 7 de Junho, em Dresden, quatro jovens artistas – Ernst Ludwig Kirchner e Fritz Bleyl, arquitectos recém-diplomados, e Erich Heckel e Karl Schmidt-Rottluff, ainda estudantes – firmavam o «acordo fundacional do grupo de artistas Brücke» (Ponte), logo depois transformado em associação, com membros activos e sócios passivos que os apoiavam. À data, não eram mais do que quatro amigos determinados a vencer as recusas das galerias, mas o grupo iria rapidamente afirmar-se, já com os ecos do fauvismo impregnados pelas raízes culturais nórdicas, como o primeiro movimento expressionista alemão – em 1911 surgiria, em torno de Kandinsky e Franz Marc, o grupo Blaue Reiter (Cavaleiro Azul)


Cat. comis. Javier Arnaldo e Magdalena M. Moeller

O nome escolhido não identificava um programa, mas uma vontade de mudança: «Do que nos tínhamos de afastar estava claro; aonde iríamos parar, porém, era algo mais incerto», escreveu depois Karl Schmidt-Rottluff. Com uma muito provável influência do vitalismo filosófico de Nietzsche, para quem «a grandeza no ser humano é ser uma ponte, não uma meta».

O centenário de Die Brücke é assinalado em Madrid (até 15 de Maio) por uma exposição organizada pelo Museu Thyssen-Bornemisza e pela Fundação Caja Madrid, em colaboração estreita com o Brücke-Museum de Berlim, que será acolhida em Junho pelo Museu Nacional da Catalunha e em Outubro estará na capital alemã. Preparada desde 2001 com base no importante acervo de obras expressionistas do Thyssen, a mostra pôde contar com numerosos empréstimos do Museu Die Brücke e do Museu Nolde de Seebüll, na Silésia, tornando-se numa muito vasta apresentação das origens e do apogeu do movimento, de 1905 a 1913/14, ilustrados com 196 obras, que se distribuem pelos dois espaços das entidades organizadoras. 

terça-feira, 28 de julho de 2026

2026, Alice Neel, histórias americanas

 Quem foi Alice Neel? Como se faz a história contemporânea? Como procede a crítica? Quem expôs, referiu ou analisou a Alice Neel nas últimas décadas? Como se ignorou ALICE NEEL até ao séc. XXI?



1. Robert Hughes, um dos grandes críticos norte-americanos, 1997, no índice passa-se de Nauman, Bruce para Neagle, John.
2. "Art since 1945", 2000, de Nauman, Bruce para Neo-expressionism.
3. "Walker Evans & Company", Peter Galassi, MoMA 2000, de Wright Morris para Nicholas Nixon (e a Grande Depressão e o Retrato são tópicos do volume)
4. "The American Century, art & culture 1950-2000",
Lisa Phillips, Whitney Museum 1999.
"...raw depictions of human vulnerability and intensity" p. 46; "Pull My Daisy" p.68; "... they embraced subject matter and psychological content"... "Several older artists, among them Guston, Neel, Pearlstein, Twombly... N., who had been at work since the thirties, was valued for her frank and confrontational portraits of strong-willied characters depicted against blank groans. Both (Guston and Neel) used rough, somewhat crude and expressionist methods in their emotionally charged works -- the paint announced itself as material even in the service of subject matter. Both embraced the subjective and emotional and helped pave the way for the reintroduction of recognizable subject matter in painting." p. 260; rep. John Perrault 1972, Col. Whitney.
5. "Art in the Seventies",
Edward Lucie-Smith, 1980.
"Erotic Feminist", rep. John Perrault 1972. "Political Art- feminist", rep. Andy Warhol" 1970, Col. Whitney. Refere retrospectiva em 1975 no Georgia Museum of Art, Athens, Georgia.
6. "Modern Art Despite Modernism", Robert Storr, MoMA 2000. ignorada no capítulo "Depression Era Realism & the American Scene". De Nadelman, Elie para Noguchi, Isamu (e Jim Nutt, Guston "Postmodernism"...)
7. "Making Choices", Galassi, Storr, Anne Umland, MoMA 2000. Se Munkacsi,Martin a Nelson, George... <vê-se que o MoMA foi o museu + sectário: ver 3, 6 e 7>

COMO SE RECONSTROI A HISTÓRIA e a arte viva?
Ver menos

&

À procura da Alice Neel nas estantes. E só está num dos quatro livros.
1. Não está no primeiro, de 1995, que foi uma grande montra de um século de "Figuras do corpo" na edição da Bienal de Veneza comissariada por Jean Clair, no respectivo centenário. (ver artigo no comentário). O turning-point do "regresso do corpo" era Baselitz e Guston, numa opção mediatizada)…




1. Bienal de Veneza de 1995 exposição do Centenário comissariada por Jean Clair e um imenso catálogo:" Identidade e Alteridade - Figuras do corpo 1895-1995". O auto-retrato e o corpo nu (sexuado, doente, morto) são tópicos destacados, incluindo os capítulos "O regresso do corpo 1962-1985" e "O corpo real e virtual 1985-1995". O "turning Point", em 1962-1973, é marcado por Baselitz e Guston, a que segue "Human Clay, o barro humano, na exp organizada por Kitaj em 1976 incluiu Arikha, Freud, o próprio Kitaj, António Lopez, e aparece também Chuck Close (mas não há pops e hiper-realistas). Clemente está adiante, é o único dos "regressos à pintura" dos anos 80. O subcapítulo "Arts amandi" conta com Georgia O'Keeffe. O nigeriano Ousmane Sow é a única presença de um artista do Terceiro Mundo. A fotografia feita por mulheres aparece com bastante força: Diane Arbus, Nancy Burson, etc, num capítulo "real-virtual" confuso, com a sul-africana Jane Alexander, que dominava o topo do Palácio Grassi, e Mona Hatoum. Estão Marlene Dumas e Maria Lassnig de passagem, e antes os rostos de Helene Schjerfbeck (Finlândia, 1862-1946), mais Chantal Wiki (auto-retratos obsessivos - Zurique n.1963), mas não se marca qualquer entendimento de mudança com as obras de algumas mulheres que são decisivas, ignoradas ou não: é que Paula Modersohn-Becker, Frida Kahlo e Alice Neel não comparecem na exp. de Veneza. As mulheres presentes fazem só parte da cronologia, não sustentam um foco próprio; J.C. não quis compilar um hit-parade mas fazer a crítica do sistema das vanguardas e de algumas ideias feitas, segundo escreve. Depois de ter sido um crítico vanguardista (Art d'Aujourd'hui), foi autor de grandes exposições, incluindo Duchamp a abrir o Pompidou, tornou-se conservador e reaccionário, às vezes um idiossincrático insuportável.
Nenhuma descrição de foto disponível.


  • terça-feira, 21 de julho de 2026

    2026, Isabel Sabino, "NADA", em Loures: uma conversa

     Isabel Sabino, "Do, don't", 2026, tríptico 81x270cm, técnica mista de tintas acrílicas sobre tela.



    1. (dia 18)
    Apetece dizer que é a exposição de uma jovem artista, embora se trate de uma professora catedrática aposentada da FBAUL, com uma já longa carreira que se pode considerar discreta, por se fazer fora das habituais e totalitárias escolhas institucionais.
    Poderia falar de "imaturidade" no sentido que Witold Gombrowicz elogiava no seu romance "Ferdydurke", mas é mais fácil falar da frescura, agilidade e experiência/experimentação, ou vitalidade como que espontânea desta pintura nova com que a Isabel Sabino prossegue os seus caminhos. O contrário de uma obra estabilizada em processos, onde há invenção e surpresa tanto na maneira de fazer pintura como nas pistas descritivas e ficcionais que se oferecem.
    A exposição intitula-se "Nada", o que inclui vários sentidos que se descobrem em andamento e em especial numa sala negra onde a luz é intermitente e os desenhos se apagam e se lêem numa escrita luminescente.
    Há por aqui rios e mares de pintura por onde nadamos. Há paisagens, onde a natureza nos atrai pelos seus caminhos e que por vezes parece convulsiva, ameaçadora. De início não considerei que ao pintar o estado do mundo aqui se inclui também a reflexão sobre o seu fim anunciado, a representação da catástrofe possível.

    Está até 4 de outubro em Loures, na Galeria Municipal Vieira da Silva, Parque da Cidade de Loures ou Parque Adão Barata (ver o cartaz abaixo)

    quinta-feira, 2 de julho de 2026

    2026, CACE COMO? CACE O QUÊ? sobre a "colecção do estado " e o armazém de Alcabideche

     CACE COMO?

    O “Curador” da Colecção de Arte Contemporânea do Estado é uma entidade ou estrutura unipessoal integrada na Museus e Monumentos de Portugal EPE, e esta tem por competência gerir todos os museus do Estado, as aquisições aprovadas para todos esses museus por uma comissão de directores, bem como a circulação nacional e internacional de obras públicas e particulares. O Curador depende da ministra da Cultura que o/a nomeia (depois de ter sido primeiro “curador” o David Santos, a actual “curadora” nomeada em Conselho de Ministros veio a ser confirmada por um concurso à maneira) e a ministra aprova (assinando de cruz) as aquisições de obras de arte a adquirir pelo ou para a CACE.
    O Curador (agora curadora) que está estabelecido nos Estatutos da MMP EPE nomeia uma comissão de aquisições que faz as suas compras anuais para a agora chamada CACE. As compras de 2025 mereceram fundadas dúvidas e reclamou-se um inquérito.

    Entretanto, a Curadora decidiu e a ministra aprovou que o armazém onde se guardam as obras adquiridas e outras que vêm da antiga Colecção SEC , sita em Alcabideche (era Rua das Fisgas, agora promovida a Alameda das Fisgas, Alcoitão), deve projectar-se à condição de centro de arte. Foi o Art Centre da Fundação Ellipse do falido e falecido João Rendeiro. Não é Museu mas um edifício de reservas visitáveis por marcação onde o “público” poderá conhecer os respectivos bastidores.
    A Curadora Sandra Vieira Jürgens é uma figura de grande ambição pessoal que tomou conta da antiga Colecção da SEC ampliada por um programa de apoio aos artistas e compras de obras contemporâneas que vem de 2019.

    O protagonismo (a respeitabilidade) dos museus do estado, o seu papel próprio e os seus programas de compras (aliás sem verbas atribuídas) foram substituídos pela arbitrariedade e incompetência da Curadora. E pela insegurança da ministra.

    Carlos Botelho, Os filhos do artista. Compra da Comissão de Aquisições do MMP.EPE

    terça-feira, 16 de junho de 2026

    2026, "Colecção do Estado": questão de preços, competência e idoneidade: "Como paga o Estado?"

    Como paga o Estado? A quem?

    O que se passou com os 40 mil euros pagos por uma importante pintura da Maria José Aguiar, a melhor compra da chamada “colecção do estado” em 2025, deve ser esclarecido. Deve saber-se quem vendeu e de que modo se comprou, mesmo que eu não concorde com essa suposta “Colecção do Estado” , uma espécie de saco roto (das esmolas?), nem respeite a comissão de compras.

    Festa das Cruzes, 1974, de Maria José Aguiar

    sexta-feira, 12 de junho de 2026

    1996, 2026, HOCKNEY em Nova Iorque: "Snails Space" (e Arikha e Ross Bleckner)

     Hockney (duas exposições em NY) mais as flores de Arikha – 1996




    Nova York 1996. Por ocasião de Picasso e o retrato, no MoMA, Hockney, numa coincidência feliz, e também Arikha e Ross Bleckner


    EXPRESSO/Revista de 10-08-96, pp. 72-76

    "Flores de Nova Iorque"

    "Três exposições voltam à pintura de flores: Hockney, Arikha e Ross Bleckner. As emoções continuam a habitar o território da arte"


    Os girassóis de David Hockney são uma homenagem a Van Gogh e fazem parte de uma série de naturezas mortas de 1995. As figuras humanas, que foram, por muito tempo, o motivo mais constante da sua pintura, desapareceram das últimas obras, mostradas em Maio-Junho em duas exposições simultâneas em diferentes andares do mesmo edifício da rua 57, nas galerias Andre Emmerich e Robert Miller.

    No início dos anos 90, a abstracção passou a dominar a pintura de Hockney, aplicada numa exploração de formas e ilusões espaciais que partiu da observação da paisagem e do mar para prescindir depois de toda a aparência representativa, seguindo uma nova direcção mais especulativa, sem, no entanto, nunca se afastar da comunicabilidade directa e lúdica. Como que a compensar essa deriva pelos caminhos do imaginário, estimulada pela experiência do desenho cénico para óperas, o pintor regressa agora ao real através da observação dos objectos mais próximos e simples, naturezas mortas em que os motivos (girassóis ou antúrios, três pães num prato, algumas maçãs sobre uma toalha, duas alcachofras, uma truta sobre uma mesa azul, etc) são vistos num enquadramento cerrado, em pinceladas muito rápidas de cores quase puras.


    Flores