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terça-feira, 21 de julho de 2026

2026, Isabel Sabino, "NADA", em Loures: uma conversa

 Isabel Sabino, "Do, don't", 2026, tríptico 81x270cm, técnica mista de tintas acrílicas sobre tela.



1. (dia 18)
Apetece dizer que é a exposição de uma jovem artista, embora se trate de uma professora catedrática aposentada da FBAUL, com uma já longa carreira que se pode considerar discreta, por se fazer fora das habituais e totalitárias escolhas institucionais.
Poderia falar de "imaturidade" no sentido que Witold Gombrowicz elogiava no seu romance "Ferdydurke", mas é mais fácil falar da frescura, agilidade e experiência/experimentação, ou vitalidade como que espontânea desta pintura nova com que a Isabel Sabino prossegue os seus caminhos. O contrário de uma obra estabilizada em processos, onde há invenção e surpresa tanto na maneira de fazer pintura como nas pistas descritivas e ficcionais que se oferecem.
A exposição intitula-se "Nada", o que inclui vários sentidos que se descobrem em andamento e em especial numa sala negra onde a luz é intermitente e os desenhos se apagam e se lêem numa escrita luminescente.
Há por aqui rios e mares de pintura por onde nadamos. Há paisagens, onde a natureza nos atrai pelos seus caminhos e que por vezes parece convulsiva, ameaçadora. De início não considerei que ao pintar o estado do mundo aqui se inclui também a reflexão sobre o seu fim anunciado, a representação da catástrofe possível.

Está até 4 de outubro em Loures, na Galeria Municipal Vieira da Silva, Parque da Cidade de Loures ou Parque Adão Barata (ver o cartaz abaixo)

NA SALA NEGRA:

"this is an age of insolence", em cima
"Who are we? where do we come from? Where are we going? ...awaits us?", em baixo


texto luminescente na mesma folha

2. (dia 19)
"Nada" (ou tudo?): 
'Olha', 2026 152x200cm ('Reset_it', 2026, díptico 152x220cm; 'Stop it', 2025, 150x100cm; 'Miss_x', 2022, 152x110cm.) São títulos secretos. Nademos.



A água está sempre presente nestas pinturas, que são paisagens ficcionadas (sonhadas, imaginadas - irrealistas, se se quiser, "abstractas" sem serem não-objectivas: adivinham-se devagar). Nelas se inscrevem personagens e acções, em espaços que se desdobram em mares e céus, caminhos, praias, rios, icebergues, chão e abismos, que não se tratará de interpretar mas de percorrer: não são puzzles nem mapas, são histórias. Há carros, barcos e aviões, carrocéis, pessoas, pássaros e peixes, até uma ilha de pinguins e caezinhos e coelhos de peluche. Há também palavras, por vezes. Um mundo sem ordem certa, que ora atrai e seduz como proposta de felicidade. ora assusta e ameaça um qualquer caos.
Com o título "Nada" I.S. oferece várias pistas. Nada é nome, substantivo, o nada; é verbo, de nadar, e é advérbio: não é nada, não sei nada. Numa sala negra dos desenhos luminescentes conta-se uma história de crianças que aprendiam a nadar, em Gaza. E numa pagina escrita do catálogo a pintora acrescenta como coincidência apenas sugerida o nome de uma poetisa palestiniana falecida, Hiba Abu Nada. Há por aqui uma difícil actualidade representada, discreta, para lá do mundo dos sonhos.

Reset_it,. 2026



3. (dia 20)
julgo que a pintura deve ser interrogada, quando tem força para isso, quando ela é em si mesmo interrogação mais do que exibição de fórmulas, processos, virtuosismos ou artifícios aprendidos. (mas a professora é a I.S.) 
ainda estou a pensar se este título, Nada, não é auto-irónico, tratando-se de uma pintura muito "rica" e mesmo exuberante, sem ser luxuosa e mundana, pelo contrário, é desafiante e arriscada e sempre inesperada (não há aqui um estilo estabilizado, um virtuosismo adquirido, apesar das dominantes cores rosa em muitas telas e nos espaços de itinerários propostos ao olhar). "Ricas" de matérias (até à colagem de pequenas telas pintadas com figuras ou só fitas (?) coloridas), de modelações das superfícies e sugestões de perspectivas, de figuras e espaços que elas habitam ou que percorrem; de brechas, relevos recordados, planos all-over, e matérias cromáticas acrílicas. Há, ou parece haver, também o "jogo" ou o questionamento entre as referências políticas explícitas da série dos desenhos da caixa negra, com Gaza e a Palestina, sem oportunismo ideológico, e as paisagens ficcionadas, eventualmente vistas como amáveis: na exposição confrontam-se as telas de vistas sedutoras e os espaços brutos ou rudes, mais enigmáticos. O tudo que lá está, invocado nos desenhos ou vivido na observação imaginária dos mundos da pintura, mundo caótico e ameaçado, deve passar a ser um Nada quando convertido em pintura de exposição, como exercício de lucidez criativa, suspenso como auto-observação critica, interrogação íntima.

Sim, que há ironia no título também há, sim e, além dos diferentes sentidos já referidos noutra altura, uma história pessoal. Aqui não é para mim um bom espaço para pensar/escrever, mas talvez baste dizer agora que em pintura, isto é, no exercício da pintura, por caberem muitas dimensões do visto, sentido, vivido, conhecido, esquecido e desconhecido, encontro talvez liberdade rara para, a par de fantasmas ou informação que possa aparecer ali, não levar demasiado a sério o que vai acontecendo. Niilista, desprendida, e outras vezes nada disso, pelo contrário. Sei lá. São pedrinhas no caminho de quem não consegue ficar quieta.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

2026, CACE COMO? CACE O QUÊ? sobre a "colecção do estado " e o armazém de Alcabideche

 CACE COMO?

O “Curador” da Colecção de Arte Contemporânea do Estado é uma entidade ou estrutura unipessoal integrada na Museus e Monumentos de Portugal EPE, e esta tem por competência gerir todos os museus do Estado, as aquisições aprovadas para todos esses museus por uma comissão de directores, bem como a circulação nacional e internacional de obras públicas e particulares. O Curador depende da ministra da Cultura que o/a nomeia (depois de ter sido primeiro “curador” o David Santos, a actual “curadora” nomeada em Conselho de Ministros veio a ser confirmada por um concurso à maneira) e a ministra aprova (assinando de cruz) as aquisições de obras de arte a adquirir pelo ou para a CACE.
O Curador (agora curadora) que está estabelecido nos Estatutos da MMP EPE nomeia uma comissão de aquisições que faz as suas compras anuais para a agora chamada CACE. As compras de 2025 mereceram fundadas dúvidas e reclamou-se um inquérito.

Entretanto, a Curadora decidiu e a ministra aprovou que o armazém onde se guardam as obras adquiridas e outras que vêm da antiga Colecção SEC , sita em Alcabideche (era Rua das Fisgas, agora promovida a Alameda das Fisgas, Alcoitão), deve projectar-se à condição de centro de arte. Foi o Art Centre da Fundação Ellipse do falido e falecido João Rendeiro. Não é Museu mas um edifício de reservas visitáveis por marcação onde o “público” poderá conhecer os respectivos bastidores.
A Curadora Sandra Vieira Jürgens é uma figura de grande ambição pessoal que tomou conta da antiga Colecção da SEC ampliada por um programa de apoio aos artistas e compras de obras contemporâneas que vem de 2019.

O protagonismo (a respeitabilidade) dos museus do estado, o seu papel próprio e os seus programas de compras (aliás sem verbas atribuídas) foram substituídos pela arbitrariedade e incompetência da Curadora. E pela insegurança da ministra.

Carlos Botelho, Os filhos do artista. Compra da Comissão de Aquisições do MMP.EPE

terça-feira, 16 de junho de 2026

2026, "Colecção do Estado": questão de preços, competência e idoneidade: "Como paga o Estado?"

Como paga o Estado? A quem?

O que se passou com os 40 mil euros pagos por uma importante pintura da Maria José Aguiar, a melhor compra da chamada “colecção do estado” em 2025, deve ser esclarecido. Deve saber-se quem vendeu e de que modo se comprou, mesmo que eu não concorde com essa suposta “Colecção do Estado” , uma espécie de saco roto (das esmolas?), nem respeite a comissão de compras.

Festa das Cruzes, 1974, de Maria José Aguiar

sexta-feira, 12 de junho de 2026

1996, 2026, HOCKNEY em Nova Iorque: "Snails Space" (e Arikha e Ross Bleckner)

 Hockney (duas exposições em NY) mais as flores de Arikha – 1996




Nova York 1996. Por ocasião de Picasso e o retrato, no MoMA, Hockney, numa coincidência feliz, e também Arikha e Ross Bleckner


EXPRESSO/Revista de 10-08-96, pp. 72-76

"Flores de Nova Iorque"

"Três exposições voltam à pintura de flores: Hockney, Arikha e Ross Bleckner. As emoções continuam a habitar o território da arte"


Os girassóis de David Hockney são uma homenagem a Van Gogh e fazem parte de uma série de naturezas mortas de 1995. As figuras humanas, que foram, por muito tempo, o motivo mais constante da sua pintura, desapareceram das últimas obras, mostradas em Maio-Junho em duas exposições simultâneas em diferentes andares do mesmo edifício da rua 57, nas galerias Andre Emmerich e Robert Miller.

No início dos anos 90, a abstracção passou a dominar a pintura de Hockney, aplicada numa exploração de formas e ilusões espaciais que partiu da observação da paisagem e do mar para prescindir depois de toda a aparência representativa, seguindo uma nova direcção mais especulativa, sem, no entanto, nunca se afastar da comunicabilidade directa e lúdica. Como que a compensar essa deriva pelos caminhos do imaginário, estimulada pela experiência do desenho cénico para óperas, o pintor regressa agora ao real através da observação dos objectos mais próximos e simples, naturezas mortas em que os motivos (girassóis ou antúrios, três pães num prato, algumas maçãs sobre uma toalha, duas alcachofras, uma truta sobre uma mesa azul, etc) são vistos num enquadramento cerrado, em pinceladas muito rápidas de cores quase puras.


Flores


1995, 2026, HOCKNEY: That's the Way I See it ("A mão e a máquina")

 David Hockney 1993, em livro

That's the Way I See it (1993 Thames & Hudson, Londres)
(Así lo Veo Yo, Ediciones Siruela, Madrid / C'est Ainsi que Je le Vois, Éditions Plume, Paris)

Hockney em 1995, a propósito do livro That's the Way I See it (de 1993 Thames & Hudson): "A mão e a máquina", Os últimos 20 anos da obra de Hockney mostrados e contados pelo próprio pintor: do corpo-a-corpo com Picasso e dos cenários para óperas até às pesquisas de fotografia e das novas tecnologias. Com 'regresso à pintura'


Antes, a Gulbenkian e Sommer Ribeiro tinham exposto Desenhos de David Hochney em 1977 (há catálogo), com grande escândalo de Azeredo Perdigão por causa de dois homens deitados na mesma cama, escândalo que o presidente traria à superfície muito mais tarde;
em 1985 mostraram David Hochney – Fotógrafo (catálogo),
e pouco antes em 1984 Rake's Progress, juntamente com as gravuras de Hogarth. Foi aí que assisti à mais extraordinária cena do presidente, diante do embaixador inglês e outros dignatários, num ataque descabelado a DH – "arte é arte, isto (Hogarth) é arte e aquilo não é nada", irado quando alguém ousou apontar a evolução das artes ou dos gostos. "O belo é o belo, e o belo não se discute", gritava ele frente ao representante de sua magestade, tudo por causa dos tais dois homens muitos anos antes, sem que disso se tivesse falado na ocasião, ao que julgo. A inauguração tinha pouca gente, mas a cena foi uma vergonha. Eram "bons tempos", apesar de tudo, e comparando com o que veio depois. 
Além de peças soltas, nunca mais se viu Hockney por cá, que é persona non grata para muita gente, desde que ousou fazer perguntas sobre uns ladrilhos comprados muito caros, de um tal Carl André. Chamava-se qualquer coisa como "Não há alegria na Tate" o artigo que então publicou.



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Expresso Revista de 29-04-95, pp. 102-105

a propósito do livro That's the Way I See it (1993 Thames & Hudson, Londres)
(Así lo Veo Yo, Ediciones Siruela, Madrid / C'est Ainsi que Je le Vois, Éditions Plume, Paris)

"A mão e a máquina"

Os últimos 20 anos da obra de Hockney mostrados e contados pelo próprio pintor: do corpo-a-corpo com Picasso e dos cenários para óperas até às pesquisas de fotografia e das novas tecnologias. Com regresso à pintura"

David10

1999 em Paris, HOCKNEY

Em Lisboa foi exposto três vezes (1977, 1984 e 1985). Fui ver o David Hockney a Paris em 1999, a Londres em 2012 e a Rouen em 2024, mas não o quis ver na Louis Vuitton e até estava em Paris. 

Aconquistadoespaco


Em 1999 eram 3 exposições 3, no Centro Pompidou, no Museu Picasso e na Maison Européenee de Photographie. Ele tinha então 61 anos e estava em plena forma. 


Em Lisboa teve 3 exposições na Gulbenkian, ao tempo de Sommer Ribeiro: 1977, desenhos; 1984, The Rake's Progress, gravuras, com Hogarth; 1985, polaroids.


Fui vê-lo a Londres em 2012 e a Rouen em 2024. Em 2025 estava em Paris mas evitei o gigantismo da exp. da Louis Vuitton/Frank Gehry (400 obras…), e a opção de privilegiar os últimos 25 anos, que não são os melhores da carreira. E não gosto do edifício que representa o mercado do luxo e do turismo de massas. 


HOCKNEY  2012

Rouen 2014
E O GRANDE LIVRO:

Captura de ecrã 2025-06-10  às 14.04.49

No site oficial: https://www.thedavidhockneyfoundation.org/chronology