terça-feira, 19 de agosto de 2025
2009-2021, Augusto Alves da Silva, CRONOLOGIA (in progress)
domingo, 17 de agosto de 2025
1999-2009, 2025, Augusto Alves da Silva, Galeria Pedro Oliveira
Quatro exposições individuais do AUGUSTO ALVES DA SILVA na galeria Pedro Oliveira, de 1999 a 2009.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
2009 Augusto Alves da Silva, Serralves: "Sem Saída / Ensaio sobre o Optimismo"
"Sem Saída / Ensaio sobre o Optimismo" - "Dead End / An essay on optimism".
Com catálogo; comissários João Fernandes e Ricardo Nicolau.
Em Serralves, a antologia de Augusto Alves da Silva não é uma defensiva demonstração de existências, mas um teia de desafios (teia e não rede – é uma exposição sem rede) onde se põe o espectador à prova, sem concessões de facilidade, pondo-se também o autor e a sua obra sempre em questão.
Iberia, 2009 (pormenor de projecção aleatória de cerca de 5000 fotografias digitais)
Uma inicial selecção de (18?) fotografias entre as muitas que foi mostrando desde "ist" (1994) desliga-as do seu contexto serial e temático, retirando-lhes os títulos próprios, deslocando e isolando o que foi um elemento de um conjunto ou de um discurso preciso e referenciado. São agora peças soltas e descontextualizadas, mas também se propõe que sejam as partes de uma outra nova série aqui reunida sob um sóbrio título comum, "Síntese". Sem contiguidades de espaço, de tempo ou de projecto, sem legendas e/ou sentidos reconhecíveis, a nova série põe-se à prova como série, que só dificilmente pode ser vista como tal, e reforça uma orientação presente na recente exposição "Paisagens inúteis" (Chiado 8, 2006). O que tinha sido inquérito ou testemunho, documental ou referencial, com um sentido oferecido ao espectador, passa a ser um "abstracto" momento fotográfico, uma intrigante ou insólita suspensão do tempo, um acaso (uma visão sem sentido, talvez inútil, como dizia o título). E por aí essas vistas se reaproximam da tradição da imagem furtiva ("à la sauvette"), mas com um possível acréscimo de inquietação ou de ironia.
Mais exaustivo que os muitos escassos dados biográficos do catálogo (por opção do próprio ou ineficácia dos serviços documentais?) aí aparece documentada uma primeira individual no IST e outra na galeria Teoartis (se não erro) que não aparecem citadas no final e não apareciam já no catálogo da Ether em 1990, tal como não aparecia o envio à Bienal de Arte de Sintra onde se viu pela 1ª vez a Prova de Contacto, de 1987.
As duas opostas formas de visibilidade – o livro aberto e a possível série designada "Síntese" – não confortam o espectador na sua inércia: oferecem-lhe duas abordagens alternativas e complementares, deixando-o de certo modo desamparado entre elas.
Depois, os vídeos, as vídeo-instalações, as duas novas séries longamente sequenciais (de imagens projectadas, Iberia, ou fixas, Book) também põem à prova o seu interesse em ver, ou a sua disponiblidade, ou resistência.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
"Batalha de Sombras", Anos 50, 2009
(até 14 de Junho de 2009)
"O movimento fotoclubista, os seus concursos e as suas publicações são, com a ilustre excepção da já referida presença de Ernesto de Sousa na revista Plano Focal, apoiantes do Regime então vigente, devedores do pequeno comércio e, na prática, sem cultura fotográfica, ignorantes do seu passado e dos movimentos fotográficos estrangeiros." (p. 287)
Aí se começa pela "herança naturalista",
que é também, em geral, a fotografia da paisagem natural (duas provas de época de Frederico Pinheiro Chagas estiveram na Exposição Geral de Artes Plásticas de 1955 - é uma descoberta importante), seguindo-se para o núcleo surrealista, restrito a Fernando Lemos, cujas últimas duas fotografias, de exteriores urbanos, já podem ter a outra leitura "fotoformalista".
Elas abrem passagem, muito acertadamente, às "incursões abstractas e explorações formais da luz", em que Varela Pécurto acompanha sem atraso a vanguarda modernista que seguia a Nova Bauhaus norte-americana, e aí está também a "fotografia pura" de Eduardo Harrington Sena e Fernando Taborda, mais uma prova "abstraccionista" de António Paixão. O núcleo é uma das surpresas fortes da exposição: o modernismo é parte do suposto salonismo.
Outras imagens de época aqui expostas permitirão pensar em extensões populistas do naturalismo (Franlkin Figueiredo e Varela Pécurto) - e estão já presentes Gérard Castello Lopes e Carlos Afonso Dias. A seguir, o núcleo final sublinha "a influência da 'fotografia humanista'" e abre para "outras derivações", com os autores já antes mais conhecidos (e mais alguns "inéditos" de Victor Palla em provas recentes - mas os inéditos póstumos, se são legítimos, precisam sempre de ser justificados); é o tempo que se segue à informação sobre "The Family of Man" (1954-55) e logo a seguir a William Klein e Robert Frank.
Entretanto, para futuras aproximações aos anos 40-50 (com abertura à tradição picturialista, agora praticamente ausente; com ou sem o incómodo Rosa Casaco...), é indispensável reunir Augusto Cabrita, Eduardo Gageiro e Francisco Keil do Amaral, mais Costa Martins, os quatro já presentes noutras colecções, e também Carlos Santos e Silva (o desconhecido colaborador na Afal, a revista da renovação fotográfica em Espanha, desde Almería), Victor Chagas dos Santos (o outro animador dos Salões da Cuf no Barreiro), Fernando Vicente, Manuel Correia, Mário Camilo, talvez Bernardino Cadete, David de Almeida Carvalho e outros mais ignorados ainda. E outros ainda, anónimos, exteriores à ambição da Arte Fotográfica ou para lá das suas fronteiras. Para conhecermos melhor a história e, em especial, para vermos mais imagens.
Inf.(O meu pai, Vitor Chagas dos Santos, abandonou os salões fotográficos no fim dos anos 60 por maiores exigencias a nível profissional, que lhe deixavam menos tempo disponível. Todos os seus negativos estavam no Fotoclube 6x6 cujas instalações arderam e só nos restam algumas das suas fotografias das exposições. Nós, a familia, lamentamos muito que a sua obra não tenha sido mais divulgada, mas algumas tentativas de compilação, inclusive vindas da parte de membros da antiga CUF, esbarraram na escassez de material disponível. Lembro-me de o meu pai falar no interesse da Agfa em ter no seu museu algumas das suas fotografias, nomeadamente Fúria, a mais famosa e premiada, mas desconheço se isso foi avante. O meu pai faleceu em 1991 aos 67 anos. Margarida Chagas França)
Anos 50 (2) as duas histórias (2009)
Fernando Lemos e
Victor Palla - com o ausente Costa Martins), ou nunca chegaram a mostrar ou publicar fotografias nos anos 50 (
Gérard Castello-Lopes,
Sena da Silva,
Carlos Afonso Dias e
Carlos Calvet) - o lugar que estes quatro autores então inéditos ocupam na história dos anos 50 foi construído - dado a conhecer ou inventado - a partir de 1982 pelas exposições da galeria Ether e por António Sena, também autor da única história da fotografia em Portugal.
Por outro lado, são hoje em geral ignorados os nomes que então se publicitavam com regularidade, em função das presenças frequentes nas exposições e nas revistas da especialidade:
Adelino Lyon de Castro,
Frederico Pinheiro Chagas,
Franklin Figueiredo,
João Martins,
António Paixão,
Varela Pécurto,
Eduardo Harrington Sena,
Fernando Taborda.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
2009, Serralves, Augustro Alves da Silva, Entrevista no Público, Sérgio B. Gomes
Augusto Alves da Silva e uma história da sobrevivência
PÚBLICO 28 de Outubro de 2009 por Sérgio B. Gomeshttps://www.publico.pt/2009/10/28/culturaipsilon/noticia/augusto-alves-da-silva-e-uma-historia-da-sobrevivencia-243945?fbclid=IwY2xjawSSY1xleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFEN095V2I3TVhWbjg0bWkzc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHmg1D7a5LF-apwJK_I73r7yBgMwKF1cHoiCXPRQDFjPu0LkPCtoWuiuch2HW_aem_GmYqqzjZghBYQdtZsfVWDg
0 Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, inaugurou há precisamente uma semana, uma das exposições do ano: "Sem Saída/Ensaio Sobre o Optimismo", de Augusto Alves da Silva (Lisboa, 1963), nome fundamental da fotografia portuguesa contemporânea. A mostra, comissariada por João Fernandes, reúne um assinalável corpo de trabalho realizado pelo artista desde meados dos anos 1980. Entre as obras apresentadas, que incluem também vídeos e livros de artista, destacam-se quer "Síntese", composta por imagens provenientes de séries anteriores, uniformizadas agora através de novas impressões, quer dois novos projectos, "Iberia", exercício sobre a paisagem composto por mais de cinco mil instantâneos, e "Book", que coloca questões relacionadas com o incessante consumo de imagens "supostamente eróticas". Neste caso, o processo iniciou-se com a publicação de um anúncio na Internet, através do qual o artista se propunha contratar para sessões fotográficas modelos não profissionais, com a condição de estas não terem experiência nos contextos da moda e da arte.
Neste conjunto de imagens, Augusto Alves da Silva confronta o espectador com situações na fronteira entre o erotismo e a pornografia - embora não exista uma única fotografia em que o rosto e a nudez surjam associados e a modelo, que recebe parte do dinheiro de uma futura venda, tenha tido sempre a última palavra. Entre o vagabundo que realiza um gesto obsceno diante de um "stand" de Ferraris e um homem com uma espingarda junto a uma piscina, entre o aterrar dos aviões para a Cimeira das Lajes e umas unhas pintadas de vermelho, entre o desejo e o comentário político, entre a natureza e a arte, esta é uma exposição contra a hipocrisia.
sábado, 11 de julho de 2009
2009, Fazal Sheikh (e Martin Parr) em Bamako
Fazal Sheikh é um dos fotógrafos presentes no programa das representações individuais dos Encontros de Bamako, que hoje inicia a sua semana de inauguração para profissionais (e onde eu gostava de estar). Martin Parr comparece com Luxury em resultado de uma primeira parceria de Arles com Bamako. É uma mostra sobre a ostentação da riqueza, à roda do mundo e tb nos novos meios emergentes em Moscovo, Pequim ou Dubai:
Martin Parr / Magnum Photos: Glyndebourne, Inglaterra, 2008.
Nascido em 1965 em Nova Iorque (de ascendência keniana e indiana), mas sediado também em Zurique e no Kénia, Fazal Sheikh é um "artista-activista" (e é assim que o seu site o apresenta) que tem trabalhado longamente com as populações deslocadas em África, mas também no Paquistão e na Índia, no Brasil ("Simpatia", um projecto em curso), Cuba , etc.
"Fazal Sheikh is an artist-activist who uses photography to create a
sustained portrait of different communities around the world,
addressing their beliefs and traditions, as well as their political and
economic problems. By establishing a context of respect and
understanding, his photographs demand we learn more about the people in
them and about the circumstances in which they live"
Em Bamako mostra duas das suas séries mais importantes: A Sense of Commun Ground (Scalo, 1996) – que foi brevemente mostrada nos Encontros de Coimbra de 1996 (na Galeria-Bar de Santa Clara) – e A Camel for the Sun (IHRS – International Human Rights Series , 2001) / Un Chameau por le Fils, Actes Sud 2005 (Um camelo para o filho), dedicada aos refugiados somalis que vivem desde há 16 anos no Kénia e em especial nos campos de Ifo, Dagahaley, and Hagadera – cerca de 120 mil e 80% são mulheres e crianças. É uma exposição com uma grande circulação, por exemplo, em 2005, no Martin-Gropius-Bau, Berlin; 2004, The United Nations, New York City; Henri Cartier-Bresson Foundation, Paris (Prémio HCB em 200); Museum of Contemporary Art, Moscow; Museum Ludwig, Cologne; 2003, Tate Modern (nós por cá é mais arte como diria o outro).
"A Sense of Common Ground" is the culmination of three year's documentation of the African refugee camps of Kenya, Tanzania and Malawi. In chronicling these camps, Sheikh captures the aftermath of conflicts throughout African countries including the Sudan, Ethiopia, Somalia, Mozambique and Rwanda."
"As part of the ideology behind the International Human Rights Series and in order to bring the issues contained within A Camel for the Son to an international audience, it may be read in its entirety on-line in both English and Somali. For more information about this project and other projects visit http://www.fazalsheikh.org
Retrospectiva em Madrid em 2009: Mapfre
e agora em San Diego: beloved-daughters-at-museum-of-photographic-arts-in-san-diego
sexta-feira, 3 de julho de 2009
José Cabral. URBAN ANGELS. 2009 ("Human condition")
Human condition
Photography in Mozambique was a great collective adventure for about two decades. It was defined by a few books, which, as a rule, were an extension of exhibits and gestures of international cooperation (Moçambique, A Terra e os Homens, 1983; Karingana ua Karingana, 1990; Maputo - Desenrascar a vida, 1997; Iluminando Vidas, 2002). When Europe discovered photography made by Africans, a few years back, Mozambique was in the front line (Africa, Africa, Copenhagen, 1993; Revue Noire, n. º 15, Paris, 1994). With life slowly turning normal in Mozambique (after the revolution and the civil war, after the election of 1994 or 1999…), the chapter of mobilization and propaganda that had called for photography headed to its natural demise and the routes forcibly turned personal. There had been nototious exceptions, such as José Henriques da Silva with Pescadores Macua (Lisbon, 1983 and 1998) and Moira Forjaz with Muitipi, Ilha de Moçambique (Lisbon, 1983).
quinta-feira, 11 de junho de 2009
2009, Ricardo Rangel 1924-2009
Foto *L / Luisa Cortesão (Maputo 11 Setembro de 2007)http://www.flickr.com/photos/luisa/1361550741/
Era um nome maior da fotografia em português e também da fotografia portuguesa que se fazia em Moçambique, antes da independência. Fotógrafo moçambicano antes e depois, mestiço de muitas origens, grega por parte do pai.
da série O Pão Nosso de cada Noite, anos 60/70
Foi o primeiro fotojornalista "de cor" na imprensa branca - desde o «Notícias da Tarde», em 1952, depois, no Notícias, 1956; A Tribuna, 1960-64; Diário de Moçambique, Beira; Notícias da Beira, 66-67; e Tempo (co-fundador em 1970); fotógrafo-chefe no Notícias em 1977; director do semanário Domingo, 1981, etc. Foi também o pilar da criação em 1983 do Centro de Formação Fotográfica em Maputo (de Documentação e Formação - a partir de 2001), que continuava a dirigir - tinha 84 anos.
A França concedera-lhe o grau de Oficial das Artes e Letras em 2008 e era doutor "honoris causa" pela U. Eduardo Mondlane (Outubro de 2009) - ver: http://www.jornalnoticias.co.mz/.
Em 2005 - http://arquivo.maputo.co.mz ** - publicou O Pão Nosso de Cada Noite, a sua mais famosa série de fotografas (as mulheres e os bares da Rua Araújo, imagens furtivas dos anos 60-70), num álbum que veio imprimir em Santo Tirso, mas sem distribuição em Portugal - onde tinha exposto em 1998 (no Arquivo Fotográfico de Lisboa - ver aqui ).
O Centre Culturel Franco-Mozambicain e Editions Findakly (Paris) editou uma 1ª monografia em 1994: Ricardo Rangel Fotógrafo de Moçambique / Photographe du Mozambique(bilingue), com textos de Zé Craveirinha ("Carta para o Ricardo sobre as suas fotografias") e Mia Couto ("Os deuses espreitaram por seus olhos"), e uma curta biografia. Fotografias de Moçambique, 1953-1993. 120 pp.
Ricardo Rangel, Pão Nosso de Cada Noite / Our Nightly Bread (bilingue), textos de Calane da Silva ("Pão de neon na rua da vida"), José Luís Cabaço ("Ao Ricardo Rangel pelois seus 80 anos"), Luís Bernado Honwana ("Ricardo Rangel e o aparecimento do fotojornalismo em Moçambique"), Nelson Saúte (Carta a Ricardo Rangel) e dois poemas de José Craveirinha ("Felismina") e Rui Nogar ("Xicuembo"). Ed. Marimbique (impresso na Norprint, Santo Tirso - 1000 ex.), 2004.
disponível em http://www.p4photography.com
Ricardo Rangel Fotógrafo / Photographer (bilingue), texto de Calane da Silva, Col. Les Carnets de la Création, Éditions de l'Oeil, Montreuil (com a colaboração da Embaixada de França em Moçambique), 2004. 24 pp. (apenas com fotografias de crianças)
e também:
disponível em http://www.p4photography.com/photography_books
Iluminando Vidas - Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, ed. Bruno Z’Graggen e Grant Lee Neuenburg - Christoph Merian Verlag, Basel 2002. 168 pp.
textos de Allan Porter (Perspectiva de Moçambique), Simon Njami (Saudade), António Sopa (O Fotojornalismo em Moçambique), Calane da Silva (Homenagem a R. Rangel).
Fotografias de Ricardo Rangel e também Rui Assubuji, José Cabral, Luis Basto, Joel Chiziane, Naita Ussene, Sérgio Santimano, Ricardo Rangel, João Costa [Funcho], Alfredo Paco, Alfredo Mueche, Martinho Fernando, Ferhat Vali Momade, Albino Mahumana, Alexandre Tenias
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Ricardo Rangel lançou Pão Nosso de Cada Noite
O historiador e professor universitário moçambicano António Sopa considerou que o livro de fotografia "Pão Nosso de Cada Noite" do ícone da fotografia moçambicana e um dos célebres fotógrafos africanos Ricardo Rangel é a apresentação de uma realidade vivida por um grupo de mulheres no tempo colonial, obrigadas, pelos infortúnios da vida, a venderem o seu corpo para sobreviverem.
António Sopa, que fez esta apreciação momentos antes do lançamento do livro, na passada terça-feira, em Maputo, sustentou que, Ricardo Rangel, com o seu trabalho, de uma qualidade inquestionável e com uma carga artística impressionante, aproximou o considerado mundo marginal e: "tenta, através da sua arte, humanizar esse ambiente", disse o historiador.
Num ambiente preenchido pela presença de diversas personalidades nacionais e internacionais, entre elas, académicos, políticos, fotógrafos, escritores, intelectuais, amantes e algumas figuras do "jet set" das artes moçambicanas, no seu discurso, o embaixador da Suécia, Adrian Hodom, caracterizou Ricardo Rangel como um poeta que escreve a sua poesia com a máquina fotográfica.
Mais adiante, Hodom referiu que a presente obra retrata a Rua Araújo, famosa pela sua vida nocturna, dando-nos a imagem desse lugar de encontros, de ilusões e desenganos, que Rangel tão bem fixou com a sua objectiva.
"Devo confessar que esta obra e a decisão do nosso apoio a ela, me deixou um tanto embaraçado. Ela associa a dor e a euforia, o boémio e a denúncia do mal-estar social. A prostituição como pano de fundo, "pão nosso de cada noite".
Devemos apoiar tal projecto?, claro que sim porque é arte", declarou o embaixador, sustentando que, o grande poeta José Craveirinha, no poema que abre o livro, diz de uma das personagens, o seguinte: "vais evoluindo, Felismina, de mamana mal vestida / em bem despida artista de "streap-tease", ou seja, "a poesia, no caso de José Craveirinha, é a força da palavra, e em Rangel, da imagem".
Porém, no seu delicado e afável estilo, RR, segundo Calane da Silva, disse que, ao fazer aquele conjunto de imagens a sua intenção não era publicar em livro, mas sim registar documentos de uma realidade social que ali acontecia. Contudo, mais tarde, foi seu desejo e dos poetas Rui Nogar e José Craveirinha verem esse material retratado em livro.
"Estava interessado e gostava de conhecer mais a realidade que ali se vivia, é por isso que fotografava. Estas imagens são documentos que podem significar muito para os que queiram estudar o nosso passado. Uma fotografia pode suscitar interesse para pesquisa de várias matérias e em várias áreas.
Para saber, por exemplo, como é que as pessoas se vestiam, os modelos de transporte, são fontes de história", disse Rangel, enfatizando que, 30 por cento das imagens ora publicadas tinha-as em negativos, tendo feito um trabalho de fundo para descobrir o que havia neles.
Como um conjunto, o livro de fotografias, de acordo com Nelson Saúte, escritor e dirigente da Marimbique, editora que chancelou os mil exemplares, tem força de algo inédito no panorama da fotografia e edição fotográfica em Moçambique. Mais ainda, segundo suas palavras, a edição daquele livro foi um desafio estimulante, porque com o mesmo quiseram provar que é possível produzirem materiais com aquela dimensão.
Mas também "esta é uma homenagem ao mestre Ricardo Rangel, que partiu duma aposta feita quando completou 80 anos o ano passado", frisou, acrescentando que, eventualmente, "Pão Nosso de Cada Noite" não seja o livro da vida do ícone, mas que não deixava de ser marcante.
"O pão de néon na rua da vida é-nos dado e revelado por um artista, um poeta do foto-jornalismo, um homem que retratou este pais com o qual se confunde na moçambicana cidadania conquistada a ferro e fogo, a pulso e lágrimas empunhando na sua arma em disparos "clic's" de comunicação", assim expressou Calane da Silva, numa das passagens do texto que apresentou em louvor ao trabalho desenvolvido por Rangel.
Calane da Silva, diz igualmente, numa das passagens do seu texto que, Rangel é, em auto-retrato vivo e actuante, um eterno jovem rebelde inconformado com a injustiça, as assimetrias sociais e com a mediocridade profissional e amante incondicional da liberdade.
Por: Francisco Manjate
Fonte: Jornal Notícias – 17.02.05
VER: exposições e publicações : http://216.197.120.164/artistbibliog.cfm?id=8950

















