Mais do que "esfregonismo" enquanto estilo, como Cabrita propõe no Público, porque usa a esfregona para espalhar tintas, em vez do pincel, como outros a vassoura, ou a lata furada, ou o pote entornado, eu falo de facilitismo, uma espécie talvez inovadora de espontaneísmo sem metafísica, notoriamente desinibida, franca, porque se trata de experimentar e propor uma prática acessível a todas as mãos (mas não a todas as bolsas), contando com grandes suportes de madeira ou tela - ou extensas e acumuladas estruturas metálicas para o que se poderá dizer escultura: há no interior espelhos que multiplicam imagens pouco distintas, ampliando caleidoscópios de brincar. Uma grande produção, portanto.
coisas várias, artes (plásticas, fotográficas e comestíveis), escritos, promoções e embirrações
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
2026, Cabrita Reis no MAAT
terça-feira, 28 de abril de 2026
DO ARQUIVO: 1990, "O conceito de desenho", Sol LeWitt no Belém Clube-Museu de Fernando Gonçalves. E em 1993 o Zutzu com Pedro Cabrita Reis
"O conceito de desenho"
expresso 30 01 1990
Em 1985, a «Exposição-Diálogo» trouxe ao Centro de Arte Moderna duas obras de Sol LeWitt <1928-2007: https://en.wikipedia.org/wiki/Sol_LeWitt > Eram grandes estruturas modulares que desenhavam no ar uma sequência de cubos brancos. Vinham dos Museus de Estocolmo e de Berlim.
Agora, uma outra peça de Sol LeWitt foi instalada em Lisboa. Para ficar. Está no Belém Clube-Museu e ocupa toda uma parede do respectivo restaurante. E um «desenho de parede» (a designação é a atribuída pelo autor, embora também se pudesse chamar-lhe pintura mural), dominado pelo volume geométrico de uma pirâmide cujas faces se definem por planos de cores diferentes: uma tensão paradoxal ou um movimento de vai-e-vem é estabelecido entre a afirmação do carácter plano da parede acentuado pela porosidade do gesso, que absorve uniformemente as cores e a representação do volume da pirâmide. Trata-se, tal como no caso das peças mostradas em 1985, de uma obra bem representativa da produção de Sol LeWitt.
sábado, 21 de junho de 2003
2003, Bienal de Veneza, os Giardini, Pedro cabrita Reis
"Bazar veneziano"
EXPRESSO/Actual de 21-Junho-2003 (pág. 36-37)
Bienal gigantesca expõe débil panorama internacional <onde Bruno Gironcoli era a única surpresa relevante>
Foto PCR Studio / Tânia Simões. <A obra veio de Veneza para se arruinar ao longo de anos no Pátio da Inquisição em Coimbra, à porta do chamado CAV - ainda haverá restos? nunca + lá fui...>
As bandeiras do arco-iris pacifista que pendem de muitas janelas de uma cidade assaltada pelas exposições da Bienal, como metásteses que invadem igrejas e palácios ao longo dos canais, são o testemunho mais directo da conjuntura internacional (e também da contestação a Berlusconi); o efeito é bonito mesmo se o argumento é atacável. Entretanto, o título escolhido para a 50ª edição da Exposição Internacional de Arte, «Sonhos e Conflitos» - seguido por um complemento mais obscuro, «A Ditadura do Espectador» -, aponta para uma polarização da criação contemporânea nas direcções alternativas do «sonho estético», mais ou menos separado do mundo, e o «documento do conflito», segundo a lógica rudemente esquemática de Francesco Bonami, um italiano sediado na América nomeado comissário-director.
A fórmula dos pavilhões dos países é uma herança oitocentista das exposições universais e das escolas nacionais (a Bienal festejou o centenário em 1995, mas os anos de guerra atrasaram a chegada à edição nº 50). Criticada por alguns, porque as nacionalidades artísticas são uma questão controversa face à dominação dos grandes centros e à circulação dos artistas, ou porque muitas presenças periféricas nunca acertam com o padrão dominante, não deixa de ser uma oportunidade de competição internacional arduamente disputada, e cada país dedica sempre o maior espaço informativo a defender os seus representantes.
Não é possível fugir à regra e não há que temer dúvidas de chauvinismo quanto à participação de Pedro Cabrita Reis como representante português, reforçada por um convite de Bonami para expor uma segunda obra nos Giardini. A apresentação dos projectos em Lisboa (ver «Actual» de 24 de Maio) assegurava que um forte impacto visual os distinguiria da cacofonia ambiente, mas essa é apenas uma questão de eficácia elementar. No terreno, a presença espectacular das duas obras, diversas entre si mas identificando nas suas estruturas formais uma mesma autoria, é também a afirmação da densidade poética de um artista que se serve da escala arquitectónica para equacionar simbolicamente questões vitais e que se arrisca a utilizar de novo a condenada palavra beleza.
A dupla presença de Pedro Cabrita Reis é uma das mais destacadas da 50ª Bienal
Bruno Gironcoli, um veterano escultor austríaco (n. 1933)
É o caso da França com Jean-Marc Bustamante (n. 1952), que juntou a fotografias «sem qualidade nem actualidade» (será um elogio do «Le Monde»?), ampliadas como grandes quadros, mais algumas pinturas banais transformadas em fotografias sobre plexiglas. E também o da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, ambos com representações decerto muito correctamente políticas, confiadas a artistas identificados como negros que «reflectem» sobre questões de identidade rácica.
Presença insólita num contexto filtrado pelo grande mercado institucional globalizado é a de Bruno Gironcoli, veterano escultor austríaco (n. 1933) pouco conhecido no exterior, de quem se apresentou uma antologia de obras singulares. Algo de Giacometti e Moore (nomes finais da tradição da escultura?) comparece nas suas obras monumentais, onde elementos biomórficos ou a figura humana se fundem em estruturas maquínicas de ficção científica ou em composições teatrais de formas simbólicas proliferantes, com elementos ornamentais de aparência oriental, sempre integrando a «assemblage» sob a cor uniforme (prateada, amarela, etc) do metal. <Foi apresentado por outro veterano: (Commissioner: Kasper König)>
Museu Gironcoli, VienaO júri preferiu a surpresa de premiar a representação do Luxemburgo confiada a uma jovem sino-britânica estudante em Paris, Su-Mei Tse (n. 1973), muito pouco visitada por se situar fora dos Giardini. Trata-se de uma instalação-vídeo em dois ecrãs, um ocupado por varredores parisienses (imigrantes, claro) a vassourarem um deserto africano e o outro pela própria artista tocando violoncelo diante de uma «paisagem das montanhas suiças, idílica ou mesmo kitsch-sublime», em estilo «Heidi», segundo o catálogo. Air Conditioned (jogando com o sentido de era, ária e área) era o título mais promissor sob o sol abrasador de Veneza.
domingo, 2 de fevereiro de 1997
Veneza 1997: Expresso: Sarmento / Alexandre Melo e Cabrita Reis
Acompanhamento da Bienal à distância
Teria curiosidade em conhecer melhor o norte-americano negro Robert Colescott, de 71 anos, perdido em terra inóspita...
I - Veneza marca Bienal
Expresso/Cartaz/Actual de 2-2-97
Sarmento no Pavilhão oficial da 46ª edição, comis. A. Melo
e Cabrita Reis na colectiva de Germano Celant, «Futuro, Presente, Passado»
Germano Celant é o director da próxima Bienal de Veneza, cuja 47ª edição terá lugar em Junho, apesar de se ter admitido o seu adiamento para não coincidir com a realização da Documenta de Cassel e para dar tempo à anunciada privatização e reoganização da estrutura responsável pela «Mostra». O crítico italiano, que foi o divulgador da «Arte Povera» nos anos 60-70 e é actualmente conservador de arte contemporânea no Museu Guggenheim de Nova Iorque, foi eleito em 29 de Novembro, no quinto escrutínio realizado e com o mínimo de votos necessários (9—5), contra Achille Bonito Oliva, comissário da «Bienale» de 1993 e, nos anos 80, paladino da chamada «transvanguarda».
Com seis meses para preparar a Bienal e um orçamento reduzido de pouco mais de 600 mil contos, Celant conta com um prazo muito curto para promover as habituais exposições paralelas às representações nacionais e terá de enfrentar as dificuldades que certamente também serão levantadas pelos países que dispõem de pavilhões próprios nos «Giardini» de Veneza.
Entretanto, Portugal, através do Ministério da Cultura, tinha já designado no início do ano anterior Alexandre Melo como responsável pela representação portuguesa, anunciando-se simultaneamente a escolha do pintor Julião Sarmento.
Uma
vez que o país não tem pavilhão permanente, terá de ser alugado um
espaço fora do recinto dos «Giardini», tal como sucedeu em 1995, quando
José Monterroso Teixeira foi designado comissário nacional e apresentou
os escultores José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes.
Recorde-se,
a propósito, que Portugal encetara nesse mesmo ano diligências para vir
a construir um pavilhão próprio em Veneza e Álvaro Siza Vieira fora
escolhido para o projectar. No entanto, ainda não foi decidida a
respectiva localização pelas autoridades italianas, mesmo depois do
actual Ministério da Cultura ter reiterado as anteriores propostas.
A França, por outro lado, já tornou pública a designação do artista Fabrice Hybert, de 36 anos, como seu representante.


