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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Alice Neel década a década. Cronologias

 Alice Neel dizia que pintava o Zeigeist, o espírito do tempo. Argumentava que os seus retratos - as suas figuras - exibiam as marcas dos anos 50, 60, 70 e que elas eram também a sua verdade...




Todas as retrospectivas que conheço, a do Pompidou em 2022, "Alice Neel: Un regard engagé" - https://www.centrepompidou.fr/.../agenda/evenement/JonpUmK - , que vi; a de Filadélfia, Whitney, Massachussetts, Minneapolis e Denver, itinerante em 2000-2001, de que trouxe o catálogo em 2000, quando o MoMA fazia o seu balanço do século em que ela não entrava; a recente de Turim, Pinacoteca Agnelli, 2025 até abril 2026, "Alice Neel: I Am the Century" - https://www.davidzwirner.com/.../alice-neel-i-am-the-century - , a produção mais aproximada da que mostra em Serralves, foram montagens cronológicas, com uma ou outra liberdade temática.


A cronologia é aqui indispensável, e os retratos pintados mudam a partir dos anos 60 - importa ver como: o maior formato, quase o tamanho natural. os fundos "abstractos", de cor clara, a demorada intensidade pictórica dos rostos, e o frequente inacabado depois de definida a figura. (Mas é chocante ver como os visitantes, quase todos, não se detêm diante dos quadros, não observam ou contemplam ou escrutinam o que são superfícies pintadas - julgo que a habitual profusão dos gadjets e das obras que se vêem de longe, en passant, como a Holzer, marca a não-relação com as obras.)
Não importa arrumar a cronologia seguindo os seus mais duradouros companheiros e amantes (mas lá chegaremos como se fez com Picasso). A divisão por décadas não tem de ser rígida, mas importa distinguir o que pintou em Havana (uma modernidade procurada com aprendizagem escolar sólida) dos anos do regresso a Colwyn e Filadélfia, durante as suas graves crises emocionais. Depois, em 1932, Greenwich Village e logo os primeiros contratos dos programas de assistência (e emprego) aos artistas, a partir de 1934 com o New Deal de Roosevelt. Aí as vistas das cidades e cenas urbanas podiam aproximar-se do realismo social exigido e em voga, mas são outra coisa, Alice Neel parece evoluir numa aparente vontade de desaprendizagem que a aproxima de artes naives, primitivas ou outsiders, com uma pintura crua ("raw", que é o nome americano para a arte bruta). Ao longo do tempo voltará ocasionalmente a esse expressionismo duro, grotesco, quase infantil, caricatural por vezes.




A montagem de Serralves prescindiu da cronologia, e coloca na última sala o que deveria estar no princípio, numa amálgama de referências históricas. A prioridade dada à "Beleza imperfeita" e ao retrato de familiares oculta o continuado empenhamento político.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ALICE NEEL, um grande espólio no mercado e 3 grandes galerias

 Uma das pistas de abordagem das exposições internacionais de Alice Neel é a consideração da chegada da sua obra a três grandes galerias de topo, com base num grande espólio (o Estate) gerido pelos seus dois filhos, Richard e Hartley.



Alice Neel pintou muito desde os anos 40 e vendeu sempre muito pouco durante 55 anos (desde os anos 1930 até à morte em 1985 com a idade do século). Os seus modelos da Village e de Spanish Harlem - amigos, vizinhos e familiares -, depois os intelectuais e artistas de Manhattan que ela convencia a posarem para os seus retratos, não tinham meios para comprar os quadros (alguns ficaram-se por retratos desenhados, aliás de grande qualidade). Também não os oferecia, depois das quatro ou cinco sessões de pose necessárias. O retrato é sempre o género de menos sucesso comercial, quando não se trata de encomendas e de figuras mundanas - antes das suas parcerias com Basquiat, Warhol tornara-se um retratista mundano, nos anos 70, usando a sua equipa da Factory, o polaroid e a serigrafia, mas essa carreira foi em geral (bem) esquecida.
Em 1982, três anos antes de morrer, já famosa mas ainda marginal (outsider), Alice Neel assinou um contrato com a importante Robert Miller Gallery de NY. (https://www.robertmillergallery.com/) e expôs nesse ano "Non figurative works"; em 1984 40 quadros desde os anos 30.
Deixava então a histórica e discreta Graham Gallery, que representou a sua obra desde 1962 até 82, com 8 exposições em 1963, 66, 68, 70, 73, 76, 78 (retrospectiva) e 80, com razoável e crescente sucesso de crítica e de estima. Nos anos 70 foi associada à vaga feminista, que em geral não praticava a pintura e optava por "acções" e novos media. Em 1984 teve uma primeira retrospectiva num museu, o Whitney, e um breve catálogo de 8 páginas! Note-se que o ritmo das individuais era muito diferente do actual.
Depois da retrospectiva de Filadelfia em 2000, que foi itinerante, regista-se "Alice Neel, Paintings and Drawings" March – April 2005, na Locks Gallery em Washington. A seguir a projecção da obra acelera-se. https://www.locksgallery.com/.../alice-neel-paintings-and...
Passam a ser três grandes galerias internacionais a representar a sua obra, David Zwirner, Victoria Miro e a Xavier Hufkens, as quais se associam à multiplicação das retrospectivas pelos grrandes museus, até chegar a Serralves, e aos recordes criteriosamente conseguidos em leilões. Atingindo os recentes 5 milhões!
David Zwirner: New York • Paris • Hong Kong: (https://www.davidzwirner.com/artists.)
Since 2008, The Estate of Alice Neel has been represented by David Zwirner, where her work was presented in 2009 in a critically acclaimed, two-venue solo exhibition, "Alice Neel: Selected Works" and "Alice Neel: Nudes of the 1930s".
Other solo exhibitions at the gallery in New York include "Alice Neel: Late Portraits & Still Lifes" (2012); and "Alice Neel: Drawings and Watercolors 1927–1978" (2015). The critically-acclaimed exhibition "Alice Neel, Uptown", curated by Hilton Als, took place at David Zwirner, New York, in 2017; followed by "Alice Neel: Freedom" (2019); and "Alice Neel: The Early Years" (2021). In 2022, "Alice Neel: Men from the Sixties", the artist’s first exhibition in Greater China, was on view at David Zwirner Hong Kong. At Home: "Alice Neel in the Queer World", curated by Hilton Als, was on view at David Zwirner Los Angeles in 2024.
Victoria Miro, Londres (https://www.victoria-miro.com/artists/ também representa agora Paula Rego):
"At Home: Alice Neel in the Queer World" 2025. (https://www.live.victoria-miro.com/.../at-home-alice.../) ; 2022 "Alice Neel: There's Still Another I See" (https://www.live.victoria-miro.com/.../alice-neel-theres.../); "Alice Neel: My Animals and Other Family" 2014 (Mayfer: https://www.meer.com/.../12124-alice-neel-my-animals-and.... "Alice Neel: The Cycle of Life", 2007.
E a 3ª galeria actual é a poderosa Xavier Hufkens com 3 locations on Brussels.(https://www.xavierhufkens.com/artists).
Exposições: "Still Lifes and Street Scenes" 2025 (https://www.xavierhufkens.com/.../still-lifes-and-street...); "Seeing who we are" 2022 (https://www.xavierhufkens.com/exhibitions/alice-neel); "Alice Neel On Paper" 2021; "Alice Neel in New Jersey and Vermont" 2018; "Alice Neel" 2015. https://www.xavierhufkens.com/artists/alice-neel.

Em 2014 a circulação de mostras pessoais e a entrada nas colecções de museus tinha esta lista:
Recent posthumous solo exhibitions have included "Alice Neel: Intimate Relations" at Nordiska Akvarellmuseet, Skarhamn (2013); "Alice Neel: Painted Truths", a retrospective that toured to the Museum of Fine Arts Houston (2010), the Whitechapel Art Gallery, London (2010) and the Moderna Museet, Malmö (2010-11); "Alice Neel: Collector of Souls" at the Moderna Museet, Stockholm (2008) and "Alice Neel", organised by the Philadelphia Museum of Art that travelled to the Whitney Museum of American Art (2000).
Her work is in the collections of major museums including the the Art Institute of Chicago; the Brooklyn Museum of Art, New York; the Denver Art Museum; the Milwaukee Art Museum; the Moderna Museet, Stockholm; the Museum of Contemporary Art, Los Angeles; the Museum of Fine Arts, Boston; the Museum of Fine Arts, Houston; the Museum of Modern Art, New York; the Philadelphia Museum of Art; Tate, London and the Whitney Museum of American Art, New York.)

É uma reviravolta do mercado de arte, que tem por base um imenso legado, e também uma revisão radical da história do século XX. Vem à superfície o que as "histórias" e as representações norte-americanas ignoraram ou excluíram.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

2026. Alice Neel e Isabel Bishop.

 Isabel Bishop e Alice Neel.

Fazem-se grandes retrospectivas de obras individuais (e individualizadas), mas não se sabe nem se mostra nada do que faziam outros (outras) artistas na mesma época, com afinidades e distâncias. Cultiva-se uma historia de bolhas e de génios, de fenómenos e de excepções mediatizáveis (de "descobertas"), sem terem rectaguardas nem companhias, sem raizes ou confrontos com os movimentos activos no início ou no curso da respectiva carreira. Sem catálogos editados a tempo (é o caso de Serralves) a falta de informação de contexto é mais abissal.

A.N. data não indicada / abaixo 1974


terça-feira, 28 de julho de 2026

2026, Alice Neel, histórias e silêncios americanos

 Quem foi Alice Neel? Como se faz a história contemporânea? Como procede a crítica? Quem expôs, referiu ou analisou a Alice Neel nas últimas décadas? Como se ignorou ALICE NEEL até ao séc. XXI?



1. Robert Hughes, um dos grandes críticos norte-americanos, 1997, no índice passa de Nauman, Bruce para Neagle, John.
2. "Art since 1945", 2000, de Nauman, Bruce para Neo-expressionism.
3. "Walker Evans & Company", Peter Galassi, MoMA 2000, de Wright Morris para Nicholas Nixon (e a Grande Depressão e o Retrato são tópicos do volume)
4. "The American Century, art & culture 1950-2000", Lisa Phillips, Whitney Museum 1999.

"...raw depictions of human vulnerability and intensity" p. 46; "Pull My Daisy" p.68; "... they embraced subject matter and psychological content"... "Several older artists, among them Guston, Neel, Pearlstein, Twombly... Neel, who had been at work since the thirties, was valued for her frank and confrontational portraits of strong-willied characters depicted against blank groans. Both (Guston and Neel) used rough, somewhat crude and expressionist methods in their emotionally charged works -- the paint announced itself as material even in the service of subject matter. Both embraced the subjective and emotional and helped pave the way for the reintroduction of recognizable subject matter in painting." p. 260; rep. John Perrault 1972, Col. Whitney.
5. "Art in the Seventies", Edward Lucie-Smith, 1980.
"Erotic Feminist", rep. John Perrault 1972. "Political Art- feminist", rep. Andy Warhol" 1970, Col. Whitney. Refere retrospectiva em 1975 no Georgia Museum of Art, Athens, Georgia.
6. "Modern Art Despite Modernism", Robert Storr, MoMA 2000. ignorada no capítulo "Depression Era Realism & the American Scene". De Nadelman, Elie passa o índice para Noguchi, Isamu (e Jim Nutt, Guston "Postmodernism"...)
Storr virá a participar no filme de Andrew Neel e a publicar no catálogo "Alice Neel: The Cycle of Life", Victoria Miro 2017.

7. "Making Choices", Galassi, Storr, Anne Umland, MoMA 2000. De Munkacsi,Martin a Nelson, George... <vê-se que o MoMA foi o museu sempre + sectário: ver números 3, 6 e 7>

COMO SE RECONSTROI A HISTÓRIA e a arte viva?

&

À procura da Alice Neel nas estantes. E só está num dos quatro livros.
1. Não está no primeiro, de 1995, que foi uma grande montra de um século de "Figuras do corpo" na edição da Bienal de Veneza comissariada por Jean Clair, no respectivo centenário. (ver artigo no comentário). O turning-point do "regresso do corpo" era Baselitz e Guston, numa opção mais mediática)…




1. Bienal de Veneza de 1995 exposição do Centenário comissariada por Jean Clair e um imenso catálogo:" Identidade e Alteridade - Figuras do corpo 1895-1995". 
O auto-retrato e o corpo nu (sexuado, doente, morto) são tópicos destacados, incluindo os capítulos "O regresso do corpo 1962-1985" e "O corpo real e virtual 1985-1995". O "turning Point", em 1962-1973, é marcado por Baselitz e Guston, a que se segue o capitulo "Human Clay, o barro humano: a exp organizada por Kitaj em 1976 incluiu Arikha, Freud, o próprio Kitaj, António Lopez, e aparece também Chuck Close (mas não há pops e hiper-realistas). Clemente está adiante, é o único dos "regressos à pintura" dos anos 80. O subcapítulo "Arts amandi" conta com Georgia O'Keeffe. O nigeriano Ousmane Sow é a única presença de um artista do Terceiro Mundo. A fotografia feita por mulheres aparece com bastante força: Diane Arbus, Nancy Burson, etc, num capítulo "real-virtual" confuso, com a sul-africana Jane Alexander, que dominava o topo do Palácio Grassi, e Mona Hatoum. 
Estão Marlene Dumas e Maria Lassnig de passagem, e antes os rostos de Helene Schjerfbeck (Finlândia, 1862-1946), mais Chantal Wiki (auto-retratos obsessivos - Zurique n.1963), mas não se marca qualquer entendimento de mudança com as obras de algumas mulheres que são decisivas, ignoradas ou não: é que Paula Modersohn-Becker, Frida Kahlo e Alice Neel não comparecem na exp. de Veneza. As mulheres presentes fazem só parte da cronologia, não sustentam um foco próprio; J.C. não quis compilar um hit-parade mas fazer a crítica do sistema das vanguardas e de algumas ideias feitas, segundo escreve. Depois de ter sido um crítico vanguardista (revista "Art d'Aujourd'hui"), foi autor de grandes exposições, incluindo Duchamp a abrir o Pompidou, tornou-se conservador e reaccionário, às vezes um idiossincrático insuportável.

A CONTINUAR



  • domingo, 19 de julho de 2026

    Marlene Dumas sobre Alice Neel, em 2010

     "Alice Doesn’t Live Here Anymore"

    Marlene Dumas on Alice Neel

    When Alice Neel started to become better known in America in the early 1970’s, I was an art student in South Africa. By that time, in my existential search for the human face and figure, I knew the work of Bacon and Hockney and looked at the photographs of Diana Arbus and the silk screens of Andy Warhol, but no-one showed me Alice Neel. However, when I did  finally stumble on a reproduction of her work somewhere, it immediately stuck. Strangely, when I got to Holland in the late 70’s, no one there knew about her either.

    I never met Alice Neel in person. It was not because she was a woman or had a difficult life that I fell for her. It was not because of her witty writings that I was attracted to her work. I only discovered that to my surprise, much later on.

     

    Andy Warhol 1970     / Marlene Dumas The Painter 1994: https://www.moma.org/collection/works/101473

    quarta-feira, 2 de novembro de 2022

    2022 Paris 2 a 7 nov.: um calendário excepcional

     

    Musée d’Art Moderne ville Paris ( https://www.mam.paris.fr/fr )
    1 Oskar Kokoschka (até 12 FEVRIER)
    [… Francisco Tropa] este não conta…

    Petit Palais ( https://www.petitpalais.paris.fr/expositions )
    2. Walter Sickert (29 jan)
    3. André Devambez – Vertiges de l’imagination, até 31 Dez.

    Orangerie  (https://www.musee-orangerie.fr/fr)
    4. Sam Szafran. Obsessions d'un peintre (Até 16 jan.)
    [ Mickalene Thomas: Avec Monet]
    [Les arts à Paris]

    Beaubourg – Pompidou ( https://www.centrepompidou.fr/fr/)
    5. Alice Neel (16 jan.)
    6. Gérard Garouste (2 jan)

    Orsay ( https://www.musee-orsay.fr/fr/visite )
    7. Edvard Munch
    8. Rosa Bonheur (1822-1899)
    [Kehinde Wiley… Gal. Templon]

    Musée Jacquemart-André (https://www.musee-jacquemart-andre.com/)
    9. Füssli, entre rêve et fantastique

    LOUVRE (https://www.louvre.fr/)
    10. Les Choses. Une histoire de la nature morte

    Palais de la porte Dorée, Musée de l’Immigration
    11. Paris et nulle part ailleurs: 24 artistes étrangers à Paris. 1945-1972
    https://www.histoire-immigration.fr/

    12. Bourse de Commerce – Collection Pinault
    Anri Sala
    [….œuvres in situ qui dialoguent avec l’architecture et le parcours de visite: …pelo templo do $]
    https://www.pinaultcollection.com/fr/boursedecommerce

    13. le Centquatre ( https://www.104.fr/)
    Foire Foraine d’Art Contemporain