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sábado, 11 de janeiro de 2003

2003, O Século, Torre do Tombo, "Pelos Séculos d'«O Século»"

Histórias d'«O Século» 

Um imenso espólio numa exposição insuficiente


Pelos Séculos d'«O Século» 

Torre do Tombo, até 16 de Março


Expresso 11.01.2003


Encerrado «O Século» em 1979, o espólio documental foi destinado à Torre do Tombo (TT) e aí deu entrada entre 1990 e 94; ainda não está totalmente organizado, em parte devido à contínua redução de pessoal especializado. O arquivo fotográfico foi incluído na Fototeca do Palácio Foz, em 1988-89, e preservado, quase solitariamente, por Avelino Soares, que o ia disponibilizando para investigação e publicações. Em 1999, transitou também para a TT, integrado no Arquivo Fotográfico de Lisboa do Centro Português de Fotografia; um ministro de promessas fáceis anunciou para 2001 um novo edifício construído em terrenos anexos.


A mostra da TT não pode deixar de reflectir as insuficiências de organização e investigação destes espólios essenciais para o conhecimento da história do país e de uma das suas principais empresas de comunicação, em muitos casos pioneira. Podemos entendê-la como chamada de atenção para a importância do acervo e do seu estudo, mas é menos compreensível o amadorismo e a fuga para a frente do projecto, guiado pelo duplo sentido do «Século», de percorrer quer a história do jornal e da sua empresa quer a história nacional dos quase cem anos que aquele durou.


 A primeira vertente apaga-se enquanto consideração objectiva dos projectos jornalísticos, seus protagonistas e evolução dos recursos e produtos materiais (grafismo, fotografia, conteúdos redactoriais), ressalvando-se o interesse dos núcleos sobre as áreas sociais e promocionais da acção d'«O Século», dos banhos para as crianças pobres à Colónia de Férias, dos concursos à Feira Popular. A segunda, a da história nacional, raramente pontuada por páginas impressas, surge dominada por opções que não facultam qualquer acréscimo de informação e que, com a sua orientação populista, parecem desajustadas ao local e à instituição que promove a mostra.


É o caso óbvio dos núcleos «Os Rostos do Século» e «As Artes e as Letras do Século», os que mais espaço ocupam e que envolveram maior procura de peças não pertencentes à TT. A exposição de duas dezenas de «rostos», de Afonso Costa a Vieira da Silva, onde surge, cronologicamente deslocado, o retrato presidencial de Mário Soares, Nossa Senhora de Fátima («O rosto do Milagre») e uma vitrina com os «Ícones de Portugal» (Zé Povinho, A República, Galo de Barcelos e Cravo), não passa de um exercício magazinesco, tal como a síntese das artes e letras. O que resta é o esquecimento dos homens e mulheres que fizeram «O Século» e publicações afins, bem como a ausência da avaliação das suas intervenções ao longo do tempo. Por exemplo, «O Século Ilustrado» de Leitão de Barros (1938-39), as fotografias de Augusto Cabrita e Eduardo Gageiro (e também de Irving Penn) nos anos 60-70, a capa com Lourdes Castro em 1957 («Os jovens pintores sem bênção»), que hoje não seria possível.

 

É manifesto o equívoco metodológico quanto ao que é construir uma exposição, explicando o seu principal responsável que dentro de cada núcleo temático a escolha das peças «constituiu geralmente a operação final», depois de se ter procedido à legendagem, por recolha de excertos do jornal e publicações associadas. Se muitos dos objectos (fotografias, pinturas, documentos) são ilustrações gratuitas, o desacerto entre peças e legendas é sistemático e a informação insuficiente. Coladas nas paredes, as reproduções fotográficas são de uma pobreza chocante. 

No catálogo, onde as imagens-selos surgem em rodapé, grande parte dos textos são sínteses generalistas que nada avançam sobre a realidade histórica d'«O Século», e várias incorrecções retiram a credibilidade aos restantes. Dois exemplos: data-se o «Cinéfilo» de 1928-74, quando existiram 34 anos de interregno até reaparecer em 1973; refere-se a passagem do suplemento «Modas e Bordados» a publicação autónoma, «por volta de 1928», sob a direcção de Maria Lamas, «que se manteria no cargo (de modo mais ou menos efectivo) até ao final» (pág. 212), quando foi afastada em 1948, conhecendo depois a prisão e o exílio, para só regressar a título honorífico com o 25 de Abril.