Mostrar mensagens com a etiqueta Adami. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Adami. Mostrar todas as mensagens

sábado, 14 de janeiro de 2006

2006, Adami em Braga, desenhos, "A mão que pensa" (14 01)

Valerio Adami
Museu Nogueira da Silva, Braga 
 

«A mão que pensa» 
 

Os desenhos de Adami expostos em Braga 

Expresso 14-01-2006


Valerio Adami é habitualmente incluído nos panoramas alargados da arte pop, quando a designação anglo-saxónica, com distintas genealogias em Inglaterra e Estados Unidos, se estende à Europa continental e a vários realismos e novas figurações seus contemporâneos - foi assim a «travessia transatlântica» realizada na grande exposição que teve lugar em 1997 no CCB, onde esteve representado com dois quadros do princípio de carreira. Se existem em Adami pontos de contacto com a pop, o pintor italiano de Paris é um bom exemplo da extensão do termo e das contradições que envolve. De facto, é mais um artista erudito do que «popular», o seu universo é o da cultura, com destaque para as relações com a literatura e com mitos e valores clássicos, não o do consumo de massas, e o interesse pela disciplina do desenho liga-o a referências renascentistas e maneiristas. Em comum com a pop tem o uso preferencial de referentes fotográficos e de imagens «encontradas», além de o uso da cor, aplicada em planos lisos, ter muito a ver com a estética do cartaz.

Nascido em Bolonha em 1935, contou com sólida formação clássica em Itália, frequentou Nova Iorque e Paris desde 1957 (e aqui se fixou em 1970, sem deixar de ser um grande viajante, como os desenhos documentam), teve uma sala na III Documenta de Kassel, em 64, e participou na tumultuosa Bienal de Veneza de 68, reconhecido como um dos nomes salientes da chamada figuração narrativa. Fez uma primeira grande exposição no Museu de Arte Moderna de Paris, em 70, e teve uma retrospectiva no Centro Pompidou em 85, embora o seu reconhecimento tenha passado a mobilizar mais os escritores e filósofos que o meio da arte. Italo Calvino e Carlos Fuentes, Hubert Damisch, Jean-François Lyotard, Jacques Derrida e mais recentemente Pascal Guignard dedicaram-lhe livros ou foram cúmplices de edições ilustradas.

Agora, é em Braga, no Museu Nogueira da Silva. Galeria da Universidade, cujo programa tem vindo a ganhar maior projecção, sob a responsabilidade de Carolina Leite, que se apresenta uma significativa mostra centrada no desenho de Adami, inaugurada em Novembro com um dia de conferências («A Mão que Pensa, Desenho e Narrativa») em que participaram, além do próprio artista, Antonio Tabucchi, Carlos França, Carlos Cruz Corais, Carlos Couto Sequeira Costa, Vítor Moura e Vítor Silva. Um pequeno mas elegante catálogo-portfolio recolhe partes das intervenções.
Algumas dezenas de desenhos, no seu formato sistemático de 48x36 cm, ilustram a produção do artista desde os anos 80, muito bem expostos em duas salas pintadas de castanho escuro, acompanhados por uma antologia de livros e outras publicações, e mais três aguarelas que dão a conhecer o modo habitual ao artista de transitar dos desenhos até à pintura, através da sua ampliação rigorosamente exacta.

Adami pode ser visto no quadro do debate clássico sobre as relações entre o traço e a cor, o desenho e a pintura. Ao contrário de Cézanne, que condenava os contornos que delimitam a mancha de cor, o pintor italiano emprega um traço espesso e constante que constrói as figuras e as integra no espaço em volume e movimento, enquanto a cor lisa e também muito gráfica (nas aguarelas e nos quadros) se aplica em planos independentes do desenho. A linha é clara e nítida como em alguma banda desenhada, mas também como no vitral, embora o desenho revele sempre a presença do gesto e da pressão da mão e também da «arte da borracha», que Adami considera essencial. Com a tensão das linhas, as formas fechadas adquirem uma presença heráldica e às vezes hierática, mesmo se os seus contornos se multipliquem em variantes e em subtis metamorfoses que são também um exercício de desconstrução das aparências e de acumulação de referências cultas.

As obras reunidas na exposição tornam-se então, com leitura atenta, um complexo jogo de ironia e de memória, muito exigente pela complexidade dos sentidos envolvidos nos seus projectos de modernas alegorias. As cenas de viagem (a Turquia, a Finlândia, Goa, o Central Park) juntam-se a observações da política (Hiroshima, a Rússia de 1917-91, O Muro das Lamentações, Paz no Médio Oriente Americano), a retratos e outras homenagens culturais (Vivaldi, Leopardi, Poe), onde os títulos manuscritos e outras legendas, cuja caligrafia é também desenho, servem de primeiro guia para a viagem do olhar e do entendimento oferecida ao observador. A qual justifica a viagem até Braga.