O muro de Sagres
8 Set. Cartaz, p. 36-37.
É UMA história longa. Em 1936 foi aprovado para Sagres um projecto de monumento ao Infante D. Henrique apresentado pelos arquitectos Rebelos de Andrade com o escultor Ruy Gameiro: era uma cruz de Cristo erguida sobre imensa coluna piramidal que lhe prolongava as formas, a grande altura.
Anulado esse primeiro concurso, coube a vez, em 1938, de ser escolhido o projecto do arquitecto Carlos Ramos, com Leopoldo de Almeida e Almada Negreiros: seria então uma espécie de barco de pedra, com mastro-padrão, vela enfunada e o infante hirto à proa. Houve discussão em torno do concurso e «prevaleceram as dúvidas de muitos espíritos sobre o valor relativo das diversas concepções», na explicação oficial.
Novo concurso foi aberto em 1954, na preparação das «comemorações henriquinas», e o novo primeiro prémio, de 1956, foi atribuído a João Andresen, com Barata Feyo, Júlio Resende e os engenheiros Ferry Borges e Simões Coelho. Era então um conjunto ambicioso e notavelmente concebido, formado pelo monumento propriamente dito (de novo a referência à vela, mas como «gesto circular c ascensional», a forma «abstracta»), um museu subterrâneo e ainda urna escultura monumental do infante. Mas teve o mesmo destino, embora não estivesse em causa a qualidade do projecto - Salazar preferiu passar a pedra, em Belém, o Padrão de estafe de 1940 de Cottinelli Telmo e Leopoldo de Almeida, obra e artistas de mais «confiança». E na história de José-Augusto França d'A Arte em Portugal no Século XX, ainda se citam outros episódios anteriores, como o que sonhou Augusto Santo, com o rosto do infante talhado na rocha e expelindo luz de farol pelos olhos...
O episódio mais recente começou em 1985, em estudos e negociações com vista à valorização da Fortaleza de Sagres, e entrou em 88 em fase de concurso de ideias. Ganhou um projecto do arquitecto João Carreira, do Porto, que consta da recuperação funcional da actual zona edificada - esta é uma parte não polémica do plano - mais um «monumento» em forma de muro duplo de betão, com oito metros de intervalo e seis metros de altura por 230 de comprido, que será recheado de baixos-relevos alusivos à gesta dos navegadores. Agora, pela primeira vez nestas histórias de celebrações patrióticas e concursos abortados, já está em «Diário da República» o concurso para a passagem à construção. 1992 será a data da inauguração.
Foi por finais de Maio que João Carreira entregou o projecto de execução ao IPPC; em declarações à Imprensa, pressionava depois a adjudicação rápida da obra, mas as referências que fez então aos escultores previstos para decorarem o «paredão» desencadearam os primeiros incidentes: em cartas ao «Público», António Campos Rosado e Manuel Rosa insurgiam-se contra o uso dos seus nomes (Sérgio Taborda era um terceiro nome, até agora silencioso).
A 4 de Agosto, no «Expresso”, António Mega Ferreira veio dizer como cidadão que considerava o monumento «um monstro». Além de cidadão e de cronista, A.M.F é membro da Comissão dos Descobrimentos (parte interessada na operação Sagres, e mesmo parte cúmplice, numa sua composição anterior, do júri premiador). A dita Comissão, entretanto, já em Março enviara à SEC um parecer do seu grupo de trabalho de História de Arte (Vítor Serrão, José Sarmento de Matos e Rafael Moreira) onde se alertava que o projecto «viria corromper a natural condicionante mítica do local».
A Comissão não podia desdizer o seu voto anterior, mas o tal parecer dos historiadores veio a público. O corredor de «dimensão quase faraónica» (idem) levantado contra a paisagem de rochas e mar - que é o que mais importa na ponta de Sagres, e o que dá dignidade ao fantasma do infante - passou assim a ser objecto de polémica.
Da parte do lPPC, segundo a arquitecta Margarida Veiga, a posição é, entretanto, clara: lº. Realizou-se um concurso, cumpriram-se todas as regras e fizeram-se todas as consultas necessárias; houve um vencedor e é sempre de esperar que haja protestos. 2º. Importa estabelecer seriedade nestas coisas: os concursos são para cumprir. 3º. Trata-se de um óptimo projecto, de muito boa qualidade arquitectónica.
Mas há uma outra «razão» que pode pesar nesta determinação: é que o plano para Sagres constitui um programa cofinanciado pela CEE e há que não perder os Ecus combinados - a Via do Infante e a «Via dos Descobrimentos (é este o nome dado ao corredor de vento) têm urgências idênticas.
O que, por outro lado, parece certo é que ainda vai haver tempo bastante para discutir a obra de Sagres. A SEC, na realidade, apenas lançou o concurso para a construção de uma primeira fase, a da recuperação da muralha e de adaptação da antiga Pousada de Juventude a espaço de exposições. Antes de lançadas as outras fases (e serão mais duas, ou mais três, não se sabe), será apresentada uma exposição sobre o projecto, e só mais tarde o arquitecto João Carreira concretizará as suas ideias para o interior dos muros de betão, sujeitas, aliás, a contratos posteriores com os escultores escolhidos. E IPPC vai assegurando que examinará o projecto de decoração com a maior prudência.
O muro irá ver-se numa maqueta que está a ser actualmente produzida. Entretanto, alguns elementos de debate podem ser adiantados sobre o recheio que João Carreira idealizou para ele.
Em primeiro lugar, é estranho que se tenham anunciado nomes de escultores que não deram a sua concordância nem avançaram quaisquer estudos preparatórios; depois, é insólito que apareça definido o nome do «coordenador» de uma equipa inexistente. José Rodrigues, professor, escultor com alguma obra estimável e também animador cultural, é, por outro lado, um coordenadar polémico, como, por exemplo, se viu recentemente com a confusão gerada em tomo da (sua) última Bienal de Cerveira, uma iniciativa absolutamente descoordenada mas ambiciosíssima em termos financeiros - também aí os nomes de comissários e de artistas foram avançados sem acordo prévio dos interessados.
Mas o que mais profundamente está em causa é a possibilidade de, hoje, com alguma credibilidade artística, se propor a evocação monumental de episódios e figuras das Descobertas, em calcário branco, com «guião» assessorado por historiador e tudo. As marcas do «estilo Palácio da Justiça» ainda aí estão por todo o lado a testemunhar que o discurso apologético e celebratório pertence irremediavelmente ao passado. E se o corredor não tiver conteúdo certo possível, então é também a estrutura arquitectónica, o seu invólucro, que deve ser posta em causa.
(A propósito, valerá a pena ter presentes as intervenções efémeras e de sentido bem diverso realizadas por vários artistas - Fernanda Fragateiro, Rui Chafes, Joaquim Bravo, António Campos Rosado, Pedro Tudela, etc. - durante os festivais de Sagres em 1987 e 89. Essa poderia ser uma via positiva e respeitosa de relação com o local.)
Mesmo depois de ter sido aprovado e de as obras começarem, o «monumento» de Sagres deverá continuar a ser tema de debate público. Até mesmo depois de construído E talvez um dia, depois de pago pela CEE, venha a ser necessário pedir à UNESCO os meios financeiros para repor o património (ou seja, a paisagem) na sua «traça primitiva», como é costume dizer.


