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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O CASO DA COLECÇÃO ELLIPSE (2)

... E O ATAQUE AO ACERVO BERARDO DO/NO CCB. CARTA PESSOAL A UMA MINISTRA MAL INFORMADA

 


1. Como se pode considerar pela foto junta, ignoro se a Colecção Ellipse é mesmo importante dentro dos acervos de arte contemporânea existentes no CCB, de que é parte central e essencial a Colecção Berardo, que se encontra sob tutela judicial. Os compradores de João Rendeiro para o Fundo e depois Fundação Ellipse, Alexandre Melo (então assessor de Sócrates) e Pedro Lapa (então director do Museu do Chiado) - duas acumulações inaceitáveis, como se discutiu à época -, nunca me pareceram figuras de gosto seguro.

2. Se José Berardo ganhar os processos judiciais q se eternizam, levantados pelos bancos de que é devedor, é provável q lhe interesse manter a colecção no CCB e ressuscitar o (seu) respectivo nome original. A sua ambição foi dotar o país com um museu de arte contemporânea... e depois moderna por dedicação, amor à arte (e à camisola), responsabilidade social e altruísmo. Nunca quis vender as obras que adquiriu, e ouvi-lo a comentar as peças da colecção era uma experiência muito generosa.

3 Se o comendador José Berardo perder os processos, no todo ou em parte (falta reavaliar a colecção que entretanto, desde 2006, muito se valorizou), o Estado não vai comprar o acervo, pq não terá dinheiro para isso - já perdeu uma oportunidade favorável.
A ameaça de meter a Col Berardo sob a tutela do chamado CACE, Colecção do Estado, de que agora se fala sem haver nenhum bom senso - meter aí as obras e a correspondente responsabilidade curaturial... -, não tem sentido nem pernas para andar. O que se espera, na hipótese bastante improvável de o Berardo perder os processos, é q os vários bancos credores, cedendo às recomendações do Estado, venham a manter as suas partes de colecção no CCB, onde muito se valorizarão, considerando-as nas suas contas enquanto activos, como fazem com as outras propriedades.

4. Mas deve recordar-se que no CCB estão só as obras que foram objecto de depósito inicial por parte das Fundações de Berardo, no início desta história. As peças da colecção pessoal, aquisições posteriores, que prolongavam no tempo e diversificavam o acervo (julgo q o grande Matta, a América Latina, figurações recentes), foram legitimamente retiradas por ele no contexto do conflito judicial.
Outro acervo importante, resultante das aquisições orientadas por Jean-François Chougnet, 1º diretor do Museu (o melhor director q por cá trabalhou na área dos modernos), foi adquirido por Berardo a preço de custo, aliás custo muito bonificado por ser Chougnet e por ser para o Museu: nos anos iniciais (2 ou 3?) do Museu do CCB, Berardo e o Estado metiam 500 mil euros para compras, cada um, anualmente, e o contrato permitia em caso de resolução a entrega das obras a uma das partes, descontando o valor já entregue (no total 2 ou 3 mihões); são obras recentes e muitas de artistas portugueses, tipo Cabrita e Sarmento. O Estado não se chegou à frente.
Berardo tem exposto no Funchal e tem pronta a antiga garagem da Rodoviária em Azeitão (perto da Bacalhoa) que comprou para as acolher. Mas o CCB seria o seu lugar "natural". Em toda esta história, desde o 1º contrato Estado/Berardo ao tempo e por ordem de Sócrates, depois com a renovação cega do contrato por Castro Mendes, o Estado foi acumulando erros e desleixos.

5. Ao CCB, ao MAC/CCB, à data da sua criação por António Costa e Adão e Silva, foi atribuída a colecção Berardo, que lá se encontrava em exposição e nas reservas, bem como as colecções Ellipse e Teixeira de Freitas em depósito. O Estado (o MC, o MMP ou a ambiciosa funcionaria D. Sandra) nunca poderia transferir a col. Berardo para qualquer outro lado, porque não depende do Estado e sim dos tribunais, e o comendador é ainda o proprietário. Aliás, para q uma obra qualquer saia do CCB para ser cedida para uma exposição internacional ou local é necessário (ou era até há pouco) pedir a autorização escrita de Joe Berardo. (Julgo q continua a ser assim - ele continua a ser o legítimo detentor da propriedade mesmo q os bens estejam judicialmente arrolados.) Mudar a orientação quanto à Col. Ellipse porque mudou o governo e se decide fazer diferente é um erro.

6. Diz-se que a colecção do BPP, Banco Privado do Rendeiro, foi atribuída em comodato a Serralves, e aí se deverá manter, não no inacessível barracão da Rua das Fisgas de Alcoitão. Outra colecção, essa pessoal do João Rendeiro, foi adquirida (no todo, ou com falhas?) por Serralves ao tempo da direcção de João Fernandes, também a preço de custo apenas corrigindo a inflação. Contou-me o João que foi uma negociação muito renhida: Rendeiro tinha comprado a preços bem favoráveis por as obras se destinarem ao depósito e apresentação em Serralves, e esse foi um argumento decisivo para fazer os preços.

7. No domínio da relação entre a arte contemporânea (ou não) e banqueiros fraudulentos (Berardo não é tal) há ainda o caso Oliveira e Costa do BPN, com a colecção egípcia, a malfadada colecção Miró, que era um fundo de mercadso mas encheu o olho dos papalvos e o Estado comprou por junto em vez de escolher o melhor, e isso seria o bastante..., mais algumas obras contemporâneas ± avulsas. Aliás nunca se soube quanto teve o Estado de pagar à Christie's para suster o leilão Miró... Tudo isto é uma história menos interessante.

PS. O problemático personagem Paulo Mendes publicou um texto no Público invocando o nome de uma associação de artistas, AAPP, sem perguntar nada aos associados, que agora aparecem em grande número a assinar a CARTA à Ministra (aliás os associados da AAPP são poucos e restritos, e as eleições da direcção não são sérias, o site é escasso). Aí apoiava a conjura a favor de Alcoitão e da D. Sandra contra o CCB. Agora os abaixo assinados da Carta tiraram-lhe o tapete: interditem-no que o gajo não é sério.
 
 
A CARTA À MINISTRA: "No quadro das negociações em curso para o estabelecimento de um protocolo que definirá o destino e a tutela da Coleção Ellipse, os abaixo-assinados, cidadãos e profissionais do âmbito da arte contemporânea, nas suas variadas vertentes, defendem ser crucial que a referida Coleção fique em depósito permanente no MAC/CCB, em Lisboa, tal como foi anunciado aquando da inauguração desta instituição, em 2023.
O MAC/CCB foi constituído, enquanto Museu, no pressuposto de que, sob a sua alçada, e sob diversos regimes contratuais, ficariam a Coleção Berardo, a Coleção Ellipse e a Coleção Teixeira de Freitas. A complementaridade e a articulação destas três coleções são os fatores que permitem, de forma inédita em Portugal, o estabelecimento de um panorama contínuo, consistente e internacional da arte moderna e contemporânea, de 1909 à atualidade.
A oportunidade histórica construída através do depósito permanente destas três Coleções no MAC/CCB aparece agora ameaçada pela sua hipotética desarticulação, nomeadamente através da tutela da Coleção Ellipse pela CACE <Colecção do Estado>, numa decisão que duplicaria funções, equipas e orçamentos para prosseguir um objetivo para o qual o MAC/CCB já está vocacionado e apenas ele está preparado.
Em suma, defendemos que a Coleção Ellipse deve ser gerida no quadro institucional do MAC/CCB. A sua retirada para integrar um “centro de arte" <a situar num barracão na zona comercial de Alcoitão, que antes pertenceu a João Rendeiro e a ministra foi convencida ou forçada a comprar por 3,5 milhões a favor de falência do BPP, o Banco Privado de Rendeiro> constitui uma decisão cara e improdutiva, amputando o Museu, comprometendo o seu trabalho e as aspirações do público e artistas portugueses, e, em última análise, empobrecendo o país."
ASSINADA POR 140 ARTISTAS E PROFISSIONAIS.
Também assinei mas eu sou amador...
 
 
 
ver: 14 jan

O NOVO MUSEU RENDEIRO: A Colecção do Estado da D. Sandra