quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 Alice Neel dizia que pintava o Zeigeist, o espírito do tempo. Argumentava que os seus retratos - as suas figuras - exibiam as marcas dos anos 50, 60, 70 e que elas eram também a sua verdade...

Todas as retrospectivas que conheço, a do Pompidou em 2022, "Alice Neel: Un regard engagé" - https://www.centrepompidou.fr/.../agenda/evenement/JonpUmK - , que vi; a de Filadélfia, Whitney, Massachussetts, Minneapolis e Denver, itinerante em 2000-2001, de que trouxe o catálogo em 2000, quando o MoMA fazia o seu balanço do século em que ela não entrava; a recente de Turim, Pinacoteca Agnelli, 2025 até abril 2026, "Alice Neel: I Am the Century" - https://www.davidzwirner.com/.../alice-neel-i-am-the-century - , a produção mais aproximada da que mostra em Serralves, foram montagens cronológicas, com uma ou outra liberdade temática.
A cronologia é aqui indispensável, e os retratos pintados mudam a partir dos anos 60 - importa ver como: o maior formato, quase o tamanho natural. os fundos "abstractos", de cor clara, a demorada intensidade pictórica dos rostos, e o frequente inacabado depois de definida a figura. (Mas é chocante ver como os visitantes, quase todos, não se detêm diante dos quadros, não observam ou contemplam ou escrutinam o que são superfícies pintadas - julgo que a habitual profusão dos gadjets e das obras que se vêem de longe, en passant, como a Holzer, marca a não-relação com as obras.)
Não importa arrumar a cronologia seguindo os seus mais duradouros companheiros e amantes (mas lá chegaremos como se fez com Picasso). A divisão por décadas não tem de ser rígida, mas importa distinguir o que pintou em Havana (uma modernidade procurada com aprendizagem escolar sólida) dos anos do regresso a Colwyn e Filadélfia, durante as suas graves crises emocionais. Depois, em 1932, Greenwich Village e logo os primeiros contratos dos programas de assistência (e emprego) aos artistas, a partir de 1934 com o New Deal de Roosevelt. Aí as vistas das cidades e cenas urbanas podiam aproximar-se do realismo social exigido e em voga, mas são outra coisa, Alice Neel parece evoluir numa aparente vontade de desaprendizagem que a aproxima de artes naives, primitivas ou outsiders, com uma pintura crua ("raw", que é o nome americano para a arte bruta). Ao longo do tempo voltará ocasionalmente a esse expressionismo duro, grotesco, quase infantil, caricatural por vezes.

A montagem de Serralves prescindiu da cronologia, e coloca na última sala

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 Não se trata de acrescentar um nome à lista dos famosos, ou ao que chamam o cânone. Essa é a pista preguiçosa e mesmo cúmplice de quem excluía Alice Neel.




Não era uma desconhecida, não foi uma figura marginal que vivesse escondida nalguma reclusão voluntária, ou não; pelo contrário. Teve várias ocasiões de reconhecimento, desde os anos 20 em Havana, expôs com a frequência que era habitual nas décadas de 30-50, foi tendo críticas favoráveis em especial nos anos 60 e 70. A partir de finais de 50, depois do filme underground de Robert Frank e Alfred Leslie, em que apareceu como uma vulgar avó norte-americana, explorou a rede de relações artísticas de Manhattan e batalhou com notório voluntariasmo pelo reconhecimento. Mas ficava de fora sempre que se tratava das representações panorâmicas da pintura norte-americana ou dos balanços do século XX. Não por ser mulher (mas a cumplicidade da segunda vaga feminista foi importante); mas por fazer uma pintura de figuras quando o "abstracionismo" da Escola de Nova Iorque e o formalismo das vanguardas seguintes eram a regra. Não era também um caso de isolada notoriedade como foram antes e depois os realistas Edward Hopper (1882 – 1967) ou Andrew Wyeth (1917 – 2009). Mas acabou por se "bater" com eles, e também com o mito Pollock.
Neel movia-se entre as vanguardas do seu tempo, o realismo social da WPA, as abstrações, a Pop e os novos realistas. Não participou de nenhum estilo colectivo, nem teve a tutela de qualquer crítico - duas razões fortes para a exclusão.
Só em 1972 foi incluída na exposição anual do Whitney Museum, onde sempre cabiam todos; dois anos depois o mesmo Whitney dedicou-lhe a primeira retrospectiva, com um catálogo de 8 páginas... Começou a entrar no grande mercado ainda em vida, aos 82 anos, quando assinou um contrato com a Robert Miller Gallery, e hoje são três as grandes galerias internacionais que trabalham o seu enorme espólio (Legado ou Estate) com que se montam as retrospectivas que percorrem museus (ver nota anterior).
Expor no Metropolitan em 2021, no Pompidou em 2022 (agora em Serralves) é um passo decisivo na revisão da história da arte do século XX. Ela entra nessa história, que quis ser canónica, e outros (famosos e mediáticos que enchem os museus de arte contemporânea) passam a ser notas de rodapé, que estabeleceram um dia um record e se ficaram por essa marca, fugaz. Nada volta a ficar como dantes, mesmo se alguma crítica se fique pelo elogio de mais um nome, mais uma "descoberta" acrescentada a um calendário rotineiro.
É preciso ver o acontecimento Alice Neel, a revelação de uma carreira longa e consistente, pessoal e independente, diferente e irreverente, como mais uma ruptura decisiva com o mainstream museológico, montado na sucessão de estilos e de figuras que se sucedem como marcas progressivas (?) e progressistas (!), apontados a uma aridez crescente e/ou à comercialização de gadjets mais ou menos insólitos ou engraçados.

É insólito ver Alice Neel em Serralves, que se estabeleceu com o calendário Circa 1968 e ainda não sabe repensar-se, tal como era surpreendente vê-la no Pompidou em 2023 (sem ter nenhuma obra em colecções públicas francesas), como foi estranho ver a seguir, 2025, Suzanne Valadon (1865 – 1938). Mostra-se agora o que não se quis ver ou que se visse.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ALICE NEEL, um grande espólio no mercado e 3 grandes galerias

 Uma das pistas de abordagem das exposições internacionais de Alice Neel é a consideração da chegada da sua obra a três grandes galerias de topo, com base num grande espólio (o Estate) gerido pelos seus dois filhos, Richard e Hartley.



Alice Neel pintou muito desde os anos 40 e vendeu sempre muito pouco durante 55 anos (desde os anos 1930 até à morte em 1985 com a idade do século). Os seus modelos da Village e de Spanish Harlem - amigos, vizinhos e familiares -, depois os intelectuais e artistas de Manhattan que ela convencia a posarem para os seus retratos, não tinham meios para comprar os quadros (alguns ficaram-se por retratos desenhados, aliás de grande qualidade). Também não os oferecia, depois das quatro ou cinco sessões de pose necessárias. O retrato é sempre o género de menos sucesso comercial, quando não se trata de encomendas e de figuras mundanas - antes das suas parcerias com Basquiat, Warhol tornara-se um retratista mundano, nos anos 70, usando a sua equipa da Factory, o polaroid e a serigrafia, mas essa carreira foi em geral (bem) esquecida.
Em 1982, três anos antes de morrer, já famosa mas ainda marginal (outsider), Alice Neel assinou um contrato com a importante Robert Miller Gallery de NY. (https://www.robertmillergallery.com/) e expôs nesse ano "Non figurative works"; em 1984 40 quadros desde os anos 30.
Deixava então a histórica e discreta Graham Gallery, que representou a sua obra desde 1962 até 82, com 8 exposições em 1963, 66, 68, 70, 73, 76, 78 (retrospectiva) e 80, com razoável e crescente sucesso de crítica e de estima. Nos anos 70 foi associada à vaga feminista, que em geral não praticava a pintura e optava por "acções" e novos media. Em 1984 teve uma primeira retrospectiva num museu, o Whitney, e um breve catálogo de 8 páginas! Note-se que o ritmo das individuais era muito diferente do actual.
Depois da retrospectiva de Filadelfia em 2000, que foi itinerante, regista-se "Alice Neel, Paintings and Drawings" March – April 2005, na Locks Gallery em Washington. A seguir a projecção da obra acelera-se. https://www.locksgallery.com/.../alice-neel-paintings-and...
Passam a ser três grandes galerias internacionais a representar a sua obra, David Zwirner, Victoria Miro e a Xavier Hufkens, as quais se associam à multiplicação das retrospectivas pelos grrandes museus, até chegar a Serralves, e aos recordes criteriosamente conseguidos em leilões. Atingindo os recentes 5 milhões!
David Zwirner: New York • Paris • Hong Kong: (https://www.davidzwirner.com/artists.)
Since 2008, The Estate of Alice Neel has been represented by David Zwirner, where her work was presented in 2009 in a critically acclaimed, two-venue solo exhibition, "Alice Neel: Selected Works" and "Alice Neel: Nudes of the 1930s".
Other solo exhibitions at the gallery in New York include "Alice Neel: Late Portraits & Still Lifes" (2012); and "Alice Neel: Drawings and Watercolors 1927–1978" (2015). The critically-acclaimed exhibition "Alice Neel, Uptown", curated by Hilton Als, took place at David Zwirner, New York, in 2017; followed by "Alice Neel: Freedom" (2019); and "Alice Neel: The Early Years" (2021). In 2022, "Alice Neel: Men from the Sixties", the artist’s first exhibition in Greater China, was on view at David Zwirner Hong Kong. At Home: "Alice Neel in the Queer World", curated by Hilton Als, was on view at David Zwirner Los Angeles in 2024.
Victoria Miro, Londres (https://www.victoria-miro.com/artists/ também representa agora Paula Rego):
"At Home: Alice Neel in the Queer World" 2025. (https://www.live.victoria-miro.com/.../at-home-alice.../) ; 2022 "Alice Neel: There's Still Another I See" (https://www.live.victoria-miro.com/.../alice-neel-theres.../); "Alice Neel: My Animals and Other Family" 2014 (Mayfer: https://www.meer.com/.../12124-alice-neel-my-animals-and.... "Alice Neel: The Cycle of Life", 2007.
E a 3ª galeria actual é a poderosa Xavier Hufkens com 3 locations on Brussels.(https://www.xavierhufkens.com/artists).
Exposições: "Still Lifes and Street Scenes" 2025 (https://www.xavierhufkens.com/.../still-lifes-and-street...); "Seeing who we are" 2022 (https://www.xavierhufkens.com/exhibitions/alice-neel); "Alice Neel On Paper" 2021; "Alice Neel in New Jersey and Vermont" 2018; "Alice Neel" 2015. https://www.xavierhufkens.com/artists/alice-neel.

Em 2014 a circulação de mostras pessoais e a entrada nas colecções de museus tinha esta lista:
Recent posthumous solo exhibitions have included "Alice Neel: Intimate Relations" at Nordiska Akvarellmuseet, Skarhamn (2013); "Alice Neel: Painted Truths", a retrospective that toured to the Museum of Fine Arts Houston (2010), the Whitechapel Art Gallery, London (2010) and the Moderna Museet, Malmö (2010-11); "Alice Neel: Collector of Souls" at the Moderna Museet, Stockholm (2008) and "Alice Neel", organised by the Philadelphia Museum of Art that travelled to the Whitney Museum of American Art (2000).
Her work is in the collections of major museums including the the Art Institute of Chicago; the Brooklyn Museum of Art, New York; the Denver Art Museum; the Milwaukee Art Museum; the Moderna Museet, Stockholm; the Museum of Contemporary Art, Los Angeles; the Museum of Fine Arts, Boston; the Museum of Fine Arts, Houston; the Museum of Modern Art, New York; the Philadelphia Museum of Art; Tate, London and the Whitney Museum of American Art, New York.)

É uma reviravolta do mercado de arte, que tem por base um imenso legado, e também uma revisão radical da história do século XX. Vem à superfície o que as "histórias" e as representações norte-americanas ignoraram ou excluíram.