Alice Neel dizia que pintava o Zeigeist, o espírito do tempo. Argumentava que os seus retratos - as suas figuras - exibiam as marcas dos anos 50, 60, 70 e que elas eram também a sua verdade...
Todas as retrospectivas que conheço, a do Pompidou em 2022, "Alice Neel: Un regard engagé" - https://www.centrepompidou.fr/.../agenda/evenement/JonpUmK - , que vi; a de Filadélfia, Whitney, Massachussetts, Minneapolis e Denver, itinerante em 2000-2001, de que trouxe o catálogo em 2000, quando o MoMA fazia o seu balanço do século em que ela não entrava; a recente de Turim, Pinacoteca Agnelli, 2025 até abril 2026, "Alice Neel: I Am the Century" - https://www.davidzwirner.com/.../alice-neel-i-am-the-century - , a produção mais aproximada da que mostra em Serralves, foram montagens cronológicas, com uma ou outra liberdade temática.
A cronologia é aqui indispensável, e os retratos pintados mudam a partir dos anos 60 - importa ver como: o maior formato, quase o tamanho natural. os fundos "abstractos", de cor clara, a demorada intensidade pictórica dos rostos, e o frequente inacabado depois de definida a figura. (Mas é chocante ver como os visitantes, quase todos, não se detêm diante dos quadros, não observam ou contemplam ou escrutinam o que são superfícies pintadas - julgo que a habitual profusão dos gadjets e das obras que se vêem de longe, en passant, como a Holzer, marca a não-relação com as obras.)
Não importa arrumar a cronologia seguindo os seus mais duradouros companheiros e amantes (mas lá chegaremos como se fez com Picasso). A divisão por décadas não tem de ser rígida, mas importa distinguir o que pintou em Havana (uma modernidade procurada com aprendizagem escolar sólida) dos anos do regresso a Colwyn e Filadélfia, durante as suas graves crises emocionais. Depois, em 1932, Greenwich Village e logo os primeiros contratos dos programas de assistência (e emprego) aos artistas, a partir de 1934 com o New Deal de Roosevelt. Aí as vistas das cidades e cenas urbanas podiam aproximar-se do realismo social exigido e em voga, mas são outra coisa, Alice Neel parece evoluir numa aparente vontade de desaprendizagem que a aproxima de artes naives, primitivas ou outsiders, com uma pintura crua ("raw", que é o nome americano para a arte bruta). Ao longo do tempo voltará ocasionalmente a esse expressionismo duro, grotesco, quase infantil, caricatural por vezes.
A montagem de Serralves prescindiu da cronologia, e coloca na última sala