Esta é uma exposição feliz (outras podem ser depressivas, subversivas, indiferentes, etc). Tudo se passa a partir ou em torno do quotidiano (os objectos usuais, as práticas correntes), das amizades e cumplicidades (os amigos, os retratos), dos "lavores" (bordados, recortes). Como se a facilidade e a felicidade se encontrassem numa pequena prática artística, despreocupada(?), que defende tranquilamente o seu lugar no mundo e no mercado das artes tidas por maiores. Sem urgência, mas ocupando um lugar bem visível, e sem "mensagem" para lá dessa facilidade-felicidade que é uma arte de viver.
A exposição não marca rupturas ao longo de uma carreira extensa que foi pondo em prática, em cena, diferentes modos de fazer - e de fazer pouco, o bastante para ser mais uma arte de viver do que uma carreira. O inicial abstraccionismo dito lírico, a mancha e o gesto, em que outros se estabeleceram como estilo comum, e era tão "académico" como as receitas escolares que na Escola a excluíam. As caixas em que acumulava objectos e que pintou de prateado, também uma prática então colectiva ("nouveau realisme"), mas a existência de Louise Nevelson bloqueava um caminho que exigia escala e meios de produção. Depois os contornos recortados, sombras projectadas que ficaram como marca indelével e disponível para muitas variações, em pintura, em plexiglas, em lençóis bordados e depois em teatro ou performance, em desenhos e fototipias de flores. Primeiro em acordo com o gosto pop pelos múltiplos (e os gadjets de artista, anos 60), depois com vocação decorativa - a tapeçaria e o azulejo - sem nunca se banalizar como mercado invasor.
A retrospectiva de 1982 na Gulbenkian ("Além da sombra") não mostrou as iniciais abstracções, ou não figurações - entrava com os auto-retratos escolares (..."excluída"), era desde logo a representação questionada. A de 2010 em Serralves ("À luz da sombra"), partilhada com a produção pessoal discreta ou marginal de Manuel Zimbro, deixou de fora os múltiplos/gadgets e a produção decorativa - era mais etérea. Nos dois casos, a informação documental era escassa e ambas as mostras tinham uma visível intenção de auto-apresentação, assim propostas também como obra própria. Tudo é diferente nesta exposição póstuma de grande dimensão, que tem por base o espólio deixado por Lourdes Castro (ainda de incerto destino), por agora depositada no MUDAS, e é uma primeira aproximação a um inventário, mesmo que o levantamento documental esteja apenas em curso.
Magic Circus, 1971Sacos de compras


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