Como paga o Estado? A quem?
O que se passou com os 40 mil euros pagos por uma importante pintura da Maria José Aguiar, a melhor compra da chamada “colecção do estado” em 2025, deve ser esclarecido. Deve saber-se quem vendeu e de que modo se comprou, mesmo que eu não concorde com essa suposta “Colecção do Estado” , uma espécie de saco roto (das esmolas?), nem respeite a comissão de compras.
Festa das Cruzes, 1974, de Maria José Aguiar
Se foi a própria artista que vendeu o quadro, poderia ter sido um acto de justiça e um gesto de humor da própria MJA, mas uma colecção institucional (estado ou não) não compra assim, negoceia com o artista ou a sua galeria (neste caso não tem) ou com intermediários, ou colecionadores, e adquire um conjunto significativo de obras: por exemplo, compra alguma(s) e recebe outra(s) como oferta. Se quer obras de um determinado artista procura no mercado (há para isso dealers, galeristas ou não ), informa-se sobre preços correntes e de leilões. Por mais que eu considere excelente e representativo esse quadro, e a melhor compra realizada em 2025, os 40 mil euros pagos são excessivos, absurdos e duvidosos. Deixam em duvida qual a parte da intermediação e em especial a idoneidade e a competência da comissão de aquisições. Os preços registados na Artprice pela MJA vão dos 2000 aos 4500 euros, obras vendidasm, e mesmo que os leilões estejam desacreditados são uma referência a ter em conta.
Deixemos o varão e os varões (assinalados?) em paz e foquemo-nos numa obra relevante.
Maria José Aguiar, que foi também professora da escola do Porto, afastou-se da circulação galeristica, julgo que desagradada. Foi em anos recentes reconsiderada e redescoberta à volta das orientações Pop. Mas uma obra por um preço exorbitante não basta para a representar nos museus públicos. Não se compra assim e impõe-se o inquérito.
Espero que ela se divirta com este quiproquó e esta imprevista notoriedade mediática.
Quanto à Coleção do Estado, que começou por comprar para Serralves, quando o museu estava ainda em projecto, e depois se dispersou e interrompeu e acabou a actuar - à maneira dos processos expeditos e levianos do António Costa - como instrumento de apoio a artistas, a pedido dos próprios (de alguns próximos), e à revelia das entidades especializadas, ela é um erro muito caro e uma arbitrariedade. Veja-se também nos anos Costa o irresolúvel caso do Museu do Design (na CML) e a “biblioteca” Manguel.
Para apoios a artistas deve haver bolsas, de trabalho, de viagem, de atelier, e prémios e programas pagos de exposições.
Convém distinguir as intenções, as práticas e as obras.
Mas se esta cena estranha chamar a atenção para a pintura da Maria José Aguiar já valeu a pena o preço.
Em tempo: embora integrada na malha da Museus e Monumentos EP, a comissão de compras depende directamente da ministra da cultura.
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