"Povo e Poder", o documentário de Ico Costa sobre as manifestações pós-eleitorais em Moçambique (30 0ut. na Culturgest)
´Se fosse um filme militante ou de campanha seria mais curto, 3 horas é muito, podia ser abreviado com vantagem. Mas é um documentário q diria à flor da pele, a quente, ou "a la minuta", disse-se, um "filme-fleuve", que percorre o país e a sua miséria, vai ouvindo a população ao longo das ruas, dos mercados informais, das estradas, que vai acompanhando a campanha eleitoral e o grande entusiasmo popular de um lado e o formalismo oficial do outro, que testemunha depois a votação, a seguir a manipulação das pautas, a fraude eleitoral e os protestos na rua, enquanto foi possível filmar. Junto dos assassinatos de Elvino Dias, advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane, e Paulo Guambe, mandatário do Podemos. Mortos que ilustram o país.
Não me incomoda no filme a sumária memória do regime inicial a preto e branco (é ainda a memória que vigora, a mais comum, entre quem tem leituras - e a maioria é demasiado jovem); não se colhe, felizmente, o saudosismo habitual das viúvas da revolução ou do Samora (mas há um casal branco mt lúcido e crítico a falar longamente); e há uma mt emotiva e eficaz proximidade com o povo que dança e se queixa da fome e se manifesta com energia e euforia na campanha da esperança, e depois denuncia com coragem o roubo das votações, disposto a morrer.
À época fui acompanhando a tv de Moçambique, onde faltavam as vistas do terreno mas havia comentários e debates, numa aparente liberdade de imprensa sem consequências.
Gostei de ter perto um provocador (ou doente) irritado com o que viu. De facto o filme é demolidor.
