JÚLIO POMAR. OBRA GRÁFICA.
Galeria RASTRO Figueira da Foz, 31 outubro
catálogo
Nas 35 estampas expostas (...ou ilustradas...), e mais algumas disponíveis, encontramos uma antologia breve da obra de Júlio Pomar editada em serigrafia ou litografia. Distribui-se numa cronologia sintética que vai dos anos 1960 aos 2000 e é uma aproximação eficaz a grandes temas da sua obra, representada através de diferentes linguagens ou de sucessivas fases. Para uma obra que se prolongou por sete décadas, de 1942 a 2018, tinha que ser um panorama diminuto, mas ele consegue ser representativo.
Até partir para Paris em 1963 a gravura foi uma das suas práticas mais destacadas, depois de ter também experimentado a escultura, a cerâmica e a grande decoração mural, no caso do Cinema Batalha do Porto. Aliás, Júlio Pomar foi um dos pioneiros da gravura moderna em Portugal e um dos fundadores da cooperativa Gravura, que assegurou até finais dos anos 1970 uma grande difusão das suas edições, criando um muito alargado leque de coleccionadores fieis.
Existiu depois um hiato de mais de meios tecnológicos. O quadro está presente, representado, na maioria das pinturas - em execução, transportado pelos fantasmas que se beijam, exposto no Museu, e há também meios técnicos que se associam à pintura (e ao cinema, a outra prática do artista): o projector , o portátil, a mesa de som, também o telemóvel. A pintura e a imagem, nas suas diversas modalidades, animada e sonora.
Mostram-se três provas de uma série encomendada pela sua galeria parisiense, a Bellechasse, e elas anunciam duplamente a entrada numa nova fase da sua obra: as colagens de cartolinas (ou telas) recortadas, previamente coloridas, e uma explícita expressão do erotismo num ciclo que será intitulado Teatro do Corpo / Espaço de Eros e se prolongará por quatro anos muito intensos, até iniciar o tempo dos Tigres.
Este foi um dos ciclos de trabalho mais conhecidos e apreciados, e está aqui representada por 4 / 5 edições. A elegância formal do tigre, que aparecera entre corpos recortados e ilustrou um conto de Jorge Luis Borges, vem de 1980, foi reinterpretada depois em serigrafia, e regressou de novo muito mais tarde.
Outro tempo da pintura de Pomar surgiu com as viagens ao Brasil, aqui presente com duas imagens vindas da Amazónia. Era a oportunidade de um regresso à observação do real, que preenchera as décadas iniciais do seu trabalho, agora em cenas vistas durante a rodagem de um filme de Ruy Guerra, que o convidou a acompanhar no Xingu. Pintura de corpos pintados, era uma inesperada abertura de horizontes culturais e um intervalo oportuno numa obra que então passara a dedicar-se à pintura de imaginação, abordando temas literários e mitológicos.
Desse interesse pelos mitos escolheram-se duas obras que tomaram por pretexto a história bíblica de Adão e Eva, acompanhados pela maçã e serpente, mas note-se que a ameaça do maligno ficou aprisionada num pote de vidro. Há sempre a presença do humor e uma irreverente relação com a representação da tradição - em outras versões da mesma série vemos Eva a nascer da costela de Adão e também a Expulsão do Paraíso. As figuras de outros mitos e heróis míticos, Hércules e Ulisses iriam tentar o pintor até ao fim, acompanhados por retratos de escritores e amigos.
Desse gosto de retratar vieram Luis de Camões e Fernando Pessoa, aqui presentes em versões sincopadas e emblemáticas. E de entre as séries literárias destaca-se a que dedicou a uma obra enigmática de Lewis Carroll, o autor de "Alice no País das Maravilhas". Comparecem dois dos personagens que intervêm na aventura de "A Caça ao Snark", o Bilharista e o Talhante que é também escrivão.
Duas / três Tauromaquias assinalam um tema a que o artista dedicou grande número de quadros nos anos 60, as várias sortes da Corrida e interpretando-as formalmente como choque de forças em tensão, estudos do movimento e da velocidade (que em Paris deram lugar às passagens do Metro e às corridas de cavalos): foi uma das experiências do que chamou figuração dinâmica que então respondia à vaga do abstraccionismo. Mas o tema foi aflorando em sucessivas décadas, como ilustra o Bandarilheiro, já tardio. Cavalos em corrida (ou noutros casos o Rocinante de Quixote) e touros "reais" ou míticos (o Minotauro), estiveram muito presentes ao longo da obra de Pomar, e tiveram a concorrência de macacos e porcos e burros, outros "animais sábios" e figuras de ficção que tiveram pequenas séries próprias.
A um antigo Chimpanzé juntam-se aqui, muito mais tarde, dois burros tocadores de guitarra - o burro tinha vindo com Sancho Pança e ficou associado às variações sobre o fado que no regresso a Lisboa nos anos 2000 produziu uma sequência de retratos de fadistas.
Juntando ainda obras de datas muito distantes, veja-se uma cena de Café com auto-retrato, de quando iniciou estudos de pintura no Porto, antes do neo-realismo, e mais dois "animais de estimação", a tartaruga e a lebre da fábula, que existem em esculturas em bronze e aqui se desenharam em grande formato.
Figuras vistas ou de ficção, a observação e imaginação, pontuações de um bestiário pessoal, a presença do erotismo e do humor. São linhas sempre presentes na obra de Pomar aqui representadas.
BIOGRAFIA REVISTA
Júlio Pomar nasceu em Lisboa, a 10 de Janeiro de 1926, e faleceu a 22 de Maio de 2018 na mesma cidade. Instalou-se em Paris em 1963 e a partir dos anos 80 teve um segundo atelier em Lisboa.
Frequentou a Escola António Arroio e as Belas-Artes de Lisboa (1942–44) e do Porto (1944–46), que abandonou no segundo ano do curso depois de uma suspensão disciplinar por actividades estudantis. Esteve preso quatro meses em 1947 por fazer parte da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática Juvenil. Em 1949, por ocasião da candidatura presidencial de Norton de Matos, de quem desenhara um retrato muito divulgado, foi afastado do lugar de professor de desenho no ensino técnico: foi o último emprego.
Expôs pela primeira vez em 1942, em Lisboa, numa mostra de grupo no atelier da rua das Flores e no VI salão do SPN, aí por iniciativa de Almada Negreiros; realizou a primeira exposição individual em 1947, no Porto, na Galeria Portugália, de desenhos, que foram editados num álbum prefaciado por Mário Dionísio.
Pomar foi o principal promotor do movimento neo-realista nas artes visuais, com larga intervenção crítica em jornais e revistas. Em 1945 coordenou a página semanal “Arte” do diário A Tarde no Porto. Participou nas Exposições Independentes desde 1944, e organizou a Exposição da Primavera, no Porto, 1946, que precedeu as Exposições Gerais de Artes Plásticas (SNBA, 1946–1956). Em 1956, foi um dos fundadores e primeiros directores da Cooperativa Gravura.
O seu período neo-realista marcou uma muito rápida afirmação no panorama nacional e perdurou de 1945 a cerca de 1955, com passagem progressiva ao que chamou ‘figuração dinâmica’, marcada pela gestualidade e a abstracção, continuando a pintar temas do trabalho. Ao ciclo das Tauromaquias seguiu-se, já em Paris, o das Corridas de cavalos. Sem voltar a associar-se a estilos colectivos, a sua obra evoluiu através de fases ou períodos de sucessivas pesquisas plásticas pessoais, organizando-se em ciclos temáticos
a que correspondiam novas linguagens formais: interessou-se pela Pop norte-americana (ciclo dos Banhos Turcos “d’après” Ingres e dos retratos, 68–76), que conduziu a um tempo marcado pelo erotismo explícito e a colagem de telas pintadas (o ‘Teatro do corpo’ / ‘Espaço de Eros’, 76–79), seguindo-se o regresso pleno à pintura com a série dos Tigres (80–82). Os temas literários, retratos de escritores, e depois os temas mitológicos e mais retratos, interrompidos por ciclos brasileiros (1987–90, Mascarados de Pirenópolis e Os Índios da Amazónia), marcam um ‘período tardio’, que regressava com uma renovada energia à espontaneidade gestual e à intensidade da cor dos anos 60.
Expôs preferentemente em Paris, nas galerias Lacloche, Bellechasse, Lavrov, Piltzer e Trigano, e em Lisboa na 111. Participou nas Bienais de São Paulo de 1975 e 85, em inúmeras representações da arte portuguesa e entre as mostras internacionais importantes destacam-se a Pittsburgh International Exhibition de 1964, ‘Le Bain Turc de Ingres’ no Louvre em 1971 e ‘Post-war: art between the Pacific and Europe: 1945–65’, de Orkui Enwezor, em Munique 2016. O Catálogo Raisonné da sua obra começou a ser publicado em 2001.
Dedicou-se desde cedo à ilustração de livros, fez escultura, decorações em azulejo para espaços públicos (e também vitrais), tapeçaria e cenografia. É igualmente poeta (‘Tratado do dito e feito’ e ‘Prima Contradição’; foi editado um disco com as suas letras para fados.
A Câmara de Lisboa dedicou um museu à sua obra, o Atelier-Museu Júlio Pomar, inaugurado em 2013, o qual tem apresentado exposições monográficas e reeditou a obra de crítica e teoria.


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