A pintura de mulheres é realmente diferente: mais íntima, mais 'directa' e vivida, menos programada e ideológica.
Escrevi isto por cauda da Menez na antiga 111 (CAMB) e da expectativa da Alice Neel em Serralves.
Fui-me lembrando da Paula Modersohn-Becker - uma ‘pioneira’, 1876-1907, vista no MAM Paris em 2016 - , da Frida Kahlo, Suzanne Valadon, Miriam Cahn, Chantal Joffe, Nathanaële Herbelin (vista no Museu d'Orsay em 2024), Paula Rego, Graça Morais, e a Marlene Dumas, que está agora por toda a parte.
E passaram por cá (EDP) a Miriam Cahn em 2025: "O que nos olha" - depois do Reina Sofia em 2019: "everything is equally important" - e a Maria Lassnig (Fundação Arpad e Vieira em 2018). Mas trazem-nos fósseis como a Maiolino (EDP) e a Holzer (Serralves), e não sei da Barba no CAM... Mas está a Menez no CAMB/Campo Grande e a Graça Morais em Algés, até 16 agosto.
Quem ficou incomodado com o q escrevi acima abriu os sites das pintoras que referenciei? Se é q não as viu “ao vivo”? Parece-me que não é tanto o preconceito como a recusa de ver pintura. Não se trata de pintura feminina ou feminista (mas pode ser), trata-se de pintura diferente e, hoje, melhor. Em alguns casos são obras que foram por vezes longamente ocultadas nas histórias do academismo moderno, em especial Alice Neel.
1: Existirá uma técnica ou estilo intrinsecamente "masculino" ou "feminino"? Mas há uma arte feminista que surgiu no século passado como movimento para reinvindicar o papel das mulheres no mercado da arte e combater o apagamento das artistas mulheres.
A. Discordo: não é questão de técnica ou estilo (livrem-me dos estilos). São à margem dos estilos…. E das “vanguardas”. E não se trata de um “movimento para…” são casos sempre diferentes, com percursos diversos, mas pessoais, livres, íntimos, vividos e vívidos, irreverentes etc
1: desculpa mas não percebo. Cada mulher é um caso diferente? E depois? Um não estilo mas sempre individual e irreverente? Enfim...o que tu quiseres.
A: sim, cada grande mulher pintora é um caso diferente e individual. A história da arte moderna e contemporânea é cada vez mais uma história de individualidades (não de nomes mas de obras, de carreiras), irredutíveis a estilos colectivos. Os artistas podem ter lançado ou adoptado um estilo no início da carreira, depois (se têm carreira….) libertam-se, tornam-se singulares. Vê por cá a Paula, a Menez, a Graça. Vê o Vallotton e o Bonnard…. E o Picasso. A má crítica segue rótulos, estilos, movimentos, porque não saber ver nem escolher.
A história das individualidades, das obras singulares e independentes, é a grande questão do presente. Mas o mercado institucional foge disso, não tem meios e vive de fósseis, sobras, notas de roda-pé….
1: não me quero alongar nesta discussão, mas a historiografia moderna utiliza a tensão dialéctica entre o coletivo e o individual. O movimento/ estilo serve como o plano de fundo (o idioma da época), enquanto a individualidade representa a voz única que "deforma", expande ou subverte esse mesmo idioma. Ambas as dimensões completam-se sem se excluirem. Não digo mais nada.
A: não digas, mas repensa o que dizes. "historiografia moderna" o que é? Volto a dizer: a história das individualidades, das obras singulares e independentes, é a grande questão do presente. As "escolas", os estilos, as vanguardas passaram à história e esta está a refazer-se rápidamente, desocultando o que a "historiografia moderna" escondeu, menosprezou, ignorou. Estamos a assistir a uma grande reviravolta (não digo revolução, porque o termo faz mal). Por isso... o Vallotton, a Alice Neel... tantos que não cabiam num estilo ou no "idioma da época"
1: Sempre foi assim só que agora está tudo mais "acordado" para qualquer coisa de novo, mas que de facto é muito antigo, que é o regresso à vida dos artistas. Claro que falo em historiografia moderna e contemporânea. Gombrich falava em artistas "plural singular" ao mesmo tempo que desqualificava a ideia de arte. Mas lembro-te que Giorgio Vasari foi também o pioneiro absoluto dessa abordagem individual. Com a sua obra monumental "Le Vite de più eccellenti pittores, scultori, e architettori"(publicada pela primeira vez em 1550), ele fundou a própria disciplina da História da Arte através da biografia das individualidades artísticas.
A. Houve sempre regressos à vida (o Vermeer, o La Tour, por exemplo), mas o q está em causa agora é deslocar a atenção dos estilos colectivos, movimentos, correntes, rupturas e vanguardas para o que há de próprio, pessoal, livre e independente, autoral, em carreiras que se constroem em continuidades no tempo para além do “idioma da época”, como dizes. Já não há movimentos, depois dos pops, fluxus, arte povera, minimal-conceptualismo, etc. Já não há manifestos nem vanguardas, nem políticas nem artísticas. Há por vezes modas como noutros espaços do consumo e do gosto, porque o consumismo artístico é um grande mercado.
Trata-se de ver , de aprender a ver antes de falar, de saber ver em vez de aplicar etiquetas e rótulos, pratica q entre nós teve expressão maior com os irmãos Gonçalves. Trata-se de virar do avesso a “historiografia moderna” do bando da revista Octobe
2. Não generalizemos, não generalizemos… São sempre juízos algo redutores…
A. não generalizo, obviamente. Escrevi “de mulheres” porque são algumas. São juízos redutores quanto a Alice Neel, Chantal Joffe, Menez e por aí fora? Estás a ver bem?
2. sim, se é esse o ponto e esses exemplos.
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