sábado, 18 de julho de 2026

A pintura das mulheres desde Paula Modersohn-Becker, desde Alice Neel... (1)

 A pintura de mulheres é realmente diferente: mais íntima, mais 'directa' e vivida, menos programada e ideológica.

Escrevi isto por cauda da Menez na antiga 111 (CAMB) e da expectativa da Alice Neel em Serralves.

Fui-me lembrando da Paula Modersohn-Becker - uma ‘pioneira’, 1876-1907, vista no MAM Paris em 2016 - , da Frida Kahlo, Suzanne Valadon,  Miriam Cahn, Chantal Joffe, Nathanaële Herbelin (vista no Museu d'Orsay em 2024), Paula Rego, Graça Morais, e a Marlene Dumas, que está agora por toda a parte.

E passaram por cá (EDP) a Miriam Cahn em 2025: "O que nos olha" - depois do Reina Sofia em 2019: "everything is equally important" - e a Maria Lassnig (Fundação Arpad e Vieira em 2018). Mas trazem-nos fósseis como a Maiolino (EDP) e a Holzer (Serralves), e não sei da Barba no CAM... Mas está a Menez no CAMB/Campo Grande e a Graça Morais em Algés, até 16 agosto.

Quem ficou incomodado com o q escrevi acima abriu os sites das pintoras que referenciei? Se é q não as viu “ao vivo”? Parece-me que não é tanto o preconceito como a recusa de ver pintura. Não se trata de pintura feminina ou feminista (mas pode ser), trata-se de pintura diferente e, hoje, melhor. Em alguns casos são obras que foram por vezes longamente ocultadas nas histórias do academismo moderno, em especial Alice Neel.

ASL: acho muito bem que defendas a arte, a pintura feita por mulheres . e é verdade mas não se aplica só ás mulheres mas todas as minorias. A pintura feita pelas minorais, mulheres, gays, outsiders, os ditos doentes mentais, africanos tem todas as qualidades que referes. a questão não se resume a um género mas uma sensibilidade criada a partir da exclusão

Tens razão. Não referi acima a qualidade da pintura enquanto pintura (no que tem de descritivo, ou de indizível, de construção formal, de processo), mas só algumas características ou qualidades que de facto se encontram também nos outsiders. Não tem a ver com minorias e com a exclusão, quando existe, que não é geral: os casos de reconhecimento e sucesso são muitos. Mas sim, a consciência da exclusão e da desigualdade pode ser estimulante. 

Trata-se de ganhar espaço para o questionamento e a representação da vida pessoal, em que o retrato e o auto-retrato têm papel decisivo, não como género ou disciplina tradicional (convencional) mas como comunicação e afirmação, subjectividade e intersubjectividade. A auto-representação íntima, a exposição pessoal, que vai muitas vezes até ao auto-retrato nu, não me parece ter paralelo na pintura de homens, pelo menos como prática insistente ou sistemática. A afirmação física do corpo e o erotismo explícito são marcas importantes. Desde a Paula Modersohn-Beker, a Frida Kahlo e por aí fora. Também o retrato se afirma como cumplicidade, intimidade, e identidade social - em Alice Neel. Não há relatos íntimos e familiares como os da Chantal Joffe e a Nathanaelle Herbelin. E Marlene Dumas é um caso mais vasto, como um/uma dos maiores pintores do presente.

 Tens nos autoretratos e cenas da vida intima dos outsiders e gays, o eakins, o bacon, o Cadmus, o munch, o Ensor, o schielle. Nunca mais acabam. Os do Hockney e do Freud.e tantos mais.

sim, mas nesses não são o foco principal da respectiva prática da pintura. Não têm o sentido da afirmação íntima e se quiseres identitaria. E refiro o presente, mesmo se com “pioneiras” ( a Paula M-B, a Frida, a Suzanne Valadon etc). Não digo que foram os/as melhores pintores da segunda metade do séc XX, mas hoje, no presente e em actividade, são os /as q mais me interesssam. Ao lado de um Robert Colescott, de um Kerry Marshall, dois afro-americanos.

A: Bacon e Freud relacionam-se com os confrontos entre realismos e abstraccionismos dos anos 50 em Inglaterra; Bacon trata da impossibilidade da figuração e da narração, Freud da possibilidade do realismo. 
  • 1: Existirá uma técnica ou estilo intrinsecamente "masculino" ou "feminino"? Mas há uma arte feminista que surgiu no século passado como movimento para reinvindicar o papel das mulheres no mercado da arte e combater o apagamento das artistas mulheres.

    A. Discordo: não é questão de técnica ou estilo (livrem-me dos estilos). São à margem dos estilos…. E das “vanguardas”. E não se trata de um “movimento para…” são casos sempre diferentes, com percursos diversos, mas pessoais, livres, íntimos, vividos e vívidos, irreverentes etc

    1: desculpa mas não percebo. Cada mulher é um caso diferente? E depois? Um não estilo mas sempre individual e irreverente? Enfim...o que tu quiseres.

    A: sim, cada grande mulher pintora é um caso diferente e individual. A história da arte moderna e contemporânea é cada vez mais uma história de individualidades (não de nomes mas de obras, de carreiras), irredutíveis a estilos colectivos. Os artistas podem ter lançado ou adoptado um estilo no início da carreira, depois (se têm carreira….) libertam-se, tornam-se singulares. Vê por cá a Paula, a Menez, a Graça. Vê o Vallotton e o Bonnard…. E o Picasso. A má crítica segue rótulos, estilos, movimentos, porque não saber ver nem escolher.  

    A história das individualidades, das obras singulares e independentes, é a grande questão do presente. Mas o mercado institucional foge disso, não tem meios e vive de fósseis, sobras, notas de roda-pé…. 

    1: não me quero alongar nesta discussão, mas a historiografia moderna utiliza a tensão dialéctica entre o coletivo e o individual. O movimento/ estilo serve como o plano de fundo (o idioma da época), enquanto a individualidade representa a voz única que "deforma", expande ou subverte esse mesmo idioma. Ambas as dimensões completam-se sem se excluirem. Não digo mais nada.

    A: não digas, mas repensa o que dizes. "historiografia moderna" o que é? Volto a dizer: a história das individualidades, das obras singulares e independentes, é a grande questão do presente. As "escolas", os estilos, as vanguardas passaram à história e esta está a refazer-se rápidamente, desocultando o que a "historiografia moderna" escondeu, menosprezou, ignorou. Estamos a assistir a uma grande reviravolta (não digo revolução, porque o termo faz mal). Por isso... o Vallotton, a Alice Neel... tantos que não cabiam num estilo ou no "idioma da época"

    1: Sempre foi assim só que agora está tudo mais "acordado" para qualquer coisa de novo, mas que de facto é muito antigo, que é o regresso à vida dos artistas. Claro que falo em historiografia moderna e contemporânea. Gombrich falava em artistas "plural singular" ao mesmo tempo que desqualificava a ideia de arte. Mas lembro-te que Giorgio Vasari foi também o pioneiro absoluto dessa abordagem individual. Com a sua obra monumental "Le Vite de più eccellenti pittores, scultori, e architettori"(publicada pela primeira vez em 1550), ele fundou a própria disciplina da História da Arte através da biografia das individualidades artísticas.

    A. Houve sempre regressos à vida (o Vermeer, o La Tour, por exemplo), mas o q está em causa agora é deslocar a atenção dos estilos colectivos, movimentos, correntes, rupturas e vanguardas para o que há de próprio, pessoal, livre e independente, autoral, em carreiras que se constroem em continuidades no tempo para além do “idioma da época”, como dizes. Já não há movimentos, depois dos pops, fluxus, arte povera, minimal-conceptualismo, etc. Já não há manifestos nem vanguardas, nem políticas nem artísticas. Há por vezes modas como noutros espaços do consumo e do gosto, porque o consumismo artístico é um grande mercado. 

    Trata-se de ver , de aprender a ver antes de falar, de saber ver em vez de aplicar etiquetas e rótulos, pratica q entre nós teve expressão maior com os irmãos Gonçalves. Trata-se de virar do avesso a “historiografia moderna” do bando da revista Octobe


    2. Não generalizemos, não generalizemos… São sempre juízos algo redutores…

    A. não generalizo, obviamente. Escrevi “de mulheres” porque são algumas. São juízos redutores quanto a Alice Neel, Chantal Joffe, Menez e por aí fora? Estás a ver bem?

    2. sim, se é esse o ponto e esses exemplos.

    3. Tirando algumas religiosas pintoras destacou-se no panorama feminino português Josefa de Óbidos e Joana do Salitre até ao séc. XVIII. No séc.XIX começaram a surgir vários nomes. Mas alguma foi disruptiva? Alguma se afastou das correntes e foi vanguarda?
    A. A situação foi mudando no séc. XX, com o fim das "escolas" e das vanguardas. É uma situação nova que permite rever a história passada.

    A AI 'dixit':
    Pioneiras (Séculos XVII e XVIII)Josefa de Óbidos: 1630 – 1684
    Joana do Salitre: c. 1690 – 1761
    Transição e Pré-Vanguarda (Século XIX)
    Maria Augusta Bordalo Pinheiro: 1841 – 1915
    Fanny Munró: 1846 – 1926
    Aurélia de Sousa: 1866 – 1922 (A figura disruptiva de transição)
    Vanguardas e Modernismo (Século XX)
    Mily Possoz: 1888 – 1967
    Sarah Afonso: 1899 – 1983
    Maria Helena Vieira da Silva: 1908 – 1992

    Não se trata de fazer uma lista de mulheres pintoras, nem de tentar identificar um canon feminino. Nem as condições sociais e culturais de épocas anteriores estimulavam a permitiam a afirmação feminina, deliberadamente feminina (± feminista em alguns casos): Mily e Sarah. A Vieira acompanha e avança dentro de estilos do seu tempo. Já a Aurélia poderá ser uma 'pré-pioneira' em obras isoladas.


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